23/12/10

GRUPO DE LANCHAS ANFÍBIAS LARC-5

(ACTUALIZADO)

LARC-5 em exercícios

            Em Fevereiro de 1983, o Corpo de Fuzileiros recebeu 15 viaturas anfíbias LARC-5 oriundas da Marinha Federal Alemã, como contrapartida da cedência da Base Aérea de Beja e autorização para a construção do Ponto de Apoio Naval de Tróia (PANTROIA) à Alemanha Ocidental.
            A título de curiosidade, é de salentar que aquando da resposta à oferta das LARC's, foi solicitado por parte do então Comandante da Força de Fuzileiros, mais viaturas do que as necessidades operacionais da época, com a finalidade de garantir a existência de sobresselentes, acontece que cada uma das 15 viaturas vinha apetrechada com um caixote de sobresselentes.


LARC-5 na Escola de Fuzileiros em 1983, ainda com as cores e meios de identificação da Marinha Federal Alemã

            Constituíram o Grupo de Lanchas Anfíbias, sendo atribuídas à UAMA - Unidade de Apoio de Meios Aquáticos (criada a 28 de Junho de 1979 pela Portaria nº 303/79), actualmente UMD - Unidade de Meios de Desembarque (Criada pelo Decreto Regulamentar N.º 29/94 de 01 Setembro), sediada na Escola de Fuzileiros.
            Cinco viaturas foram colocadas no activo e as restantes 10 posicionadas nas INT's - Instalações Navais de Troia, sendo submetidas a rotinas de manutenção periódicas por uma equipa de manutenção que se deslocava para o efeito.
            Não obstante, em virtude de sempre que se deslocavam para realizar a manutenção, não dispor de tempo suficiente para a efectuar conforme o previsto, em 91 / 92, o Oficial Fuzileiro Subalterno nomeado para comandar a UAMA, tendo conhecimento da situação propus ao Comandante do Corpo de Fuzileiros, a concentração de todas as viaturas na UAMA e a criação de uma oficina em Vale de Zebro para apoio específico à manutenção das LARC's.
            Deste modo, após concordância e por determinação do Comandante do Corpo de Fuzileiros, a manutenção passou a ser realizada de modo programado, resultando que o requisito operacional do Comando do Corpo de Fuzileiros fosse sempre mantido.




            O projecto da LARC-5 - Lancha Anfíbia de Reabastecimento e Carga (Light Amphibiuos Resupply and Cargo), foi desenvolvido na década de 50 pela empresa norte-americana Borg Warner Corporation e fabricada (cerca de 950 exemplares) nos EUA entre 1962 e 1968 por diversas empresas norte-americanas, nomeadamente pela US Springfield Armory.

Protótipo da LARC-5

            É inspirada nas viaturas anfíbias DUKM da 2.ª Guerra Mundial, mas dispondo de uma proa mais forte para aguentar as águas mais agitadas e para quebrar as ondas na zona de rebentação.


LARC-5 a navegar na zona de rebentação

            Não se trata de uma viatura anfíbia propriamente projectada para desempenhar a função de meio de desembarque, nomeadamente na 1.ª vaga de assalto, motivo pela qual até padece de armamento e blindagem.


            O objectivo do fabrico das LARC-5, a pedido do Exército dos EUA, foi dotar o ramo das FA’s com um meio anfíbio capaz de proceder ao transporte de tropas e material de navios até à costa, após uma «testa-de-ponte» ter sido assegurada por um desembarque de forças amigas.
            Posteriormente ao desembarque, caso necessário têm ainda capacidade de progredir por terra, nomeadamente para efectuar transporte logístico, conferindo maior flexibilidade ao desembarque de abastecimentos necessários à sustentação do combate ou proceder a evacuações sanitárias.
            Trata-se de uma viatura anfíbia construída com folhas de alumínio soldadas com espessura 3/16 polegadas, dispondo de um interior reforçado com alumínio emoldurado, o seu perfil tem o formato de embarcação, apetrechada com 4 rodas motrizes e tracção permanente às rodas traseiras.
            Depende dos seus 4 grandes pneus (18.00 x 25 cm de baixa pressão) para absorver o choque do terreno, em virtude de não disporem de sistema de suspensão, permitindo à LARC operar em terrenos macios, tais como areia de praia e lama com a mínima possibilidade de se atascar.


LARC-5 em Todo-o-Terreno

            É capaz de operar em TO com clima temperado, tropical e árctico, transpor dunas de areia, bancos de coral, obstáculos verticais até 0,5 metros e subir ou descer superfícies muito íngremes com inclinação ate 60º ou inclinações laterais de 25º, desde que se efectuem em superfícies rígidas.



Subida e descida de superfícies íngremes

            A cabine de comando (aberta atrás) situa-se à frente da viatura, o compartimento do motor na traseira e o porão de carga (aberta no topo) ao centro, possuindo sanefas laterais amovíveis fabricadas em lona apropriada e reforçada em cabos de aço, montadas antes de a lancha entrar na água, para resguardar a carga ou tropas transportadas.


LARC-5 a navegar (observar sanefas laterais)

            A sua guarnição é composta 01 patrão da LARC-5 [FZV] e 01 proeiro, sendo que a cabine de comando permite transportar ainda 02 militares, um de cada lado do condutor.
O Grupo de Lanchas Anfíbias é constituído por:
- 01 Oficial Subalterno;
- 01 Sargento;
- 10 Praças.
Acresce-se a este efectivo a secção de manutenção:
- 01 Sargento MQ;
- 03 Praças CM;
- 02 Praças FZ;
- 02 Praças E.

            No que concerne à capacidade de carga, o porão permite transportar até 20 militares totalmente equipados ou 4,5 toneladas de carga (4,88 x 2,97 x 0,74 metros).


LARC-5 carregada de botes pneumáticos ZEBRO III

            Em ambiente marítimo, quando a flutuar, desloca-se por acção de uma hélice de 3 pás e com as rodas desengrenadas, atingindo a velocidade máxima de 8,5 nós (13,9 km), em estrada utiliza tracção somente nas rodas dianteiras (4x2), atingindo a velocidade máxima de 48,2 km, em Todo-o-Terreno utiliza tracção às 4 rodas (4x4) e a velocidade máxima é de 16 km.
            Passados 27 anos da recepção destas viaturas anfíbias LARC-5, continuam a ter uma grande actividade operacional, actualmente o Grupo de Lanchas Anfíbias da UMD é constituído por 05 LARC’s, possuindo no total 08 LARC’s operacionais: 408, 414, 428, 435, 446, 457, 458 e 483.


Grupo de Lanchas Anfíbias

            Tradicionalmente, no Dia da Marinha são empregues para realizar o Baptismo de Mar de cidadãos ou “matar saudade” de diversas gerações de Fuzileiros, participando também no Desfile das forças motorizadas do Corpo de Fuzileiros.


Baptismo de Mar


Desfile de Forças motorizadas do Corpo de Fuzileiros

            Participam em diversos exercícios exclusivos do Corpo de Fuzileiros: FTX, TRÓIA, TREINO A, TREINO B, COSTA ABERTA, sectoriais da Armada: PHIBEX, SWORDFISH e INSTREX e apoia a DGAM e o Serviço Nacional de Protecção Civil.
            No Verão de 1988, durante uma missão logística do Navio de Apoio “S. Miguel” (já abatido) à Região Autónoma da Madeira, 2 viaturas anfíbias LARC-5 dos Fuzileiros foram utilizadas para desembarcar uma casa pré-fabricada na Ilha Deserta Grande, para utilização dos Guardas do Parque Reserva Natural.


Desembarque na Ilha Deserta Grande

            Em Outubro de 2002, uma secção do Grupo de Lanchas Anfíbias participou nos testes à capacidade anfíbia das viaturas em concurso para renovação da frota de blindados de rodas APC/IFV.


Desembarque da LDG "Bacamarte" durante os testes à viatura blindada PIRANHA III

            Em Fevereiro de 2006, uma LARC-5 foi utilizada para demonstração de capacidades de uma secção do DAE, durante a NAUTICAMPO 06.


Demonstração de capacidades do DAE na NAUTICAMPO 06

            Em 2009, participaram no exercício sectorial da Marinha “CONTEX/PHIBEX”, interagindo com o LPD “Foudre” da Marinha de Guerra Francesa.


Embarque na doca do LPD "Foudre" da Marinha de Guerra Francesa

            Nos dias 2 e 3 de Dezembro de 2009, uma LARC-5 acompanhou os testes à capacidade anfíbia do blindado PANDUR II em Portugal.


Apoio aos testes ao blindado PANDUR II

            Esta viatura anfíbia tornou-se internacionalmente conhecida no século XX, aquando do conflito das Malvinas / Falklands em 1982 entre Britânicos e Argentinos, tendo sido empregue por estes últimos no dia 02 de Abril de 1982 para desembarcar forças do 25.º Regimento de Infantaria, anteriormente também foi utilizada na década de 70 pelo Exército dos EUA na Guerra do Vietname.
            Também é utilizado pelos Fuzileiros Argentinos, Fuzileiros Filipinos, Exército dos EUA, tailandesa e de Singapura e pelo Exército Australiano.
            Na posse de empresas e entidades civis é utilizado para turismo, protecção da natureza, reabastecimento, apoio a Bases na Antárctida e na construção e manutenção de faróis.

PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS:
Dimensões: 10,67 x 3,05 x 3,25 metros (comprimento, largura, altura);
Deslocamento máximo: 14.140 Kg;
Motor: Cumming Engine Compang 8000cc V8 Diesel com 305 cv;
Autonomia máxima: 402 Km em terra / 40 milhas em água;
tanques de combustível: 2 (547,2 litros).

21/12/10

BOAS FESTAS



O Blog Barco à vista deseja a todos seus leitores um Santo e Feliz Natal e um Ano Novo muito próspero!

20/12/10

REVISTA N.º 18 DA AORN

Encontra-se disponível online a Revista n.º 18 da AORN (Associação de Oficiais da Reserva Naval):



Revista: http://blogue.reserva-naval.com/revistaorn18.pdf

Mais informações:
http://www.reserva-naval.com/

03/12/10

100.000 VISITAS AO BLOG BARCO À VISTA

          Foram registadas as 100.000 visitas desde 18/06/2009 no blog barco à vista, totalizando até ao momento 45 artigos publicados, 71 seguidores e 208 comentários aos artigos publicados.

          Atendendo que por diversas vezes já me questionaram de onde advém o meu interesse pela Marinha de Guerra Portuguesa, com o desiderato de satisfazer uma curiosidade perfeitamente natural por parte de várias pessoas, civis e militares com quem tenho estabelecido contacto (perfazendo já cerca de 200), nomeadamente para apoio na compilação de artigos para este blog, decidi abordar o assunto, contando a minha versão da matéria de facto.

          Parte destes apoios (sem qualquer ordem de preferência), são oriundos de Oficiais, Sargentos e Praças na situação de Activo, Reserva ou Reforma, alguns já com uma idade avançada, mas mantendo uma excelente prontidão para “acorrer” às minhas constantes solicitações de dados e/ou imagens.
          Outra parte do apoio é proveniente de concidadãos que cumpriram o SMO na Briosa (alguns como Oficiais da Reserva Naval), muitos com comissões de serviço no Ultramar em unidades navais, de Fuzileiros, de Mergulhadores ou em Comandos Navais; outros já findo o conflito, simplesmente optaram por servir a Nação neste ramo das FA’s.
          Mas o que qualifica todos que me auxiliam nesta jornada, é o especial carinho e saudade que ainda hoje nutrem pela Armada.

          Também não posso esquecer a ajuda de diversas unidades e entidades da Marinha; Organizações a ela ligadas; Associações, Delegações e Núcleos de Oficiais / Marinheiros / Fuzileiros, assim como vários sites, blogs e fóruns de temática militar.

          A consciência da vida militar sempre esteve latente desde criança na minha vida quotidiana, nomeadamente a instituição Exército, por ter ascendentes que foram militares deste ramo das FA’s e, pelas proximidades de Quartéis do domicílio familiar ou do estabelecimento de ensino.
          No entanto, consultando a família e pesquisando o respectivo baú de recordações fotográficas, conclui-se que o «bichinho» cedo mostrou tendência para as coisas do Mar, entre elas a título de exemplo:
-gosto pela prática de desportos náuticos;
- trabalho manual em serapilheira (caravela dos Descobrimentos), bordado a ponto cruz para a disciplina de Trabalhos Manuais;
- montagem de cerca de 70 kits de modelismo naval (navios de guerra modernos) na escala 1/700;
- quando oportuno, realizava visitas a Navios de Guerra nacionais destacados na Zona Marítima do Norte; assim como navios nacionais e estrangeiros atracados no Porto de Leixões, adstritos a esquadras da NATO (STANAVFORLANT);
- visita a grandes veleiros no Rio Douro em 1994 aquando da “Regata do Infante”;
- visita ao Museu da Marinha aquando de deslocações a Lisboa.


Julho de 1982: Potencial 1.º visita a um Navio de Guerra do autor, submarino da Marinha Real Britânica

          Mais recentemente fiz um breve passeio de cabotagem a bordo do Navio-Patrulha “Save” da classe “Cacine” na Região Autónoma da Madeira, a convite do Patrão-mor da Capitania do Funchal e por gentileza do Comandante do navio, durante as celebrações do Dia da Marinha, tendo sido a minha única condição colocada ao Comandante, durante o meu breve "destacamento", o favor de me aceitar às suas ordens na qualidade de Grumete mais “mareta”…


A TODOS BEM HAJAM!

22/11/10

NAVIO DE APOIO "SAM BRÁS"


Navio-tanque "Sam Brás" em 1942 (Foto cedida por Museu da Marinha)


Navio de Apoio logístico "Sam Brás" em 1970 (foto cedida por Museu da Marinha)

NAVIO-TANQUE:

          Foi construído como Navio-tanque pelos Estaleiros do Arsenal do Alfeite e lançado à água em 17 de Março de 1942, a cerimónia foi presidida pelo então Ministro da Marinha, acompanhado pelo Presidente da Junta Nacional da Marinha Mercante.
          Foi a 4.ª unidade naval construída por este estaleiro para a Marinha de Guerra Portuguesa e um dos seus maiores navios construídos, em termos de dimensão e deslocamento.
          Foi aumentado ao efectivo da Marinha de Guerra Portuguesa em 13 de Novembro de 1942, incluído na 2.ª fase do Programa de Reconstrução Naval, tendo a chancela de ser o 1.º Navio-tanque (vulgo “Petroleiro”) construído em Portugal.
          O propósito da sua construção adveio da necessidade da nação possuir um meio próprio para proceder ao fornecimento de combustíveis líquidos ao país, em virtude da Marinha Mercante Portuguesa não dispor deste tipo de navio, tendo sido inclusivo o único navio de pavilhão nacional a realizar tal missão durante a vigência da 2.ª Guerra Mundial.


Navio-tanque "Sam Brás" na bacia do Porto de Leixões – Matosinhos (Foto cedida por Rui Amaro)

          Como navio auxiliar da Marinha de Guerra Portuguesa, recebeu o n.º de amura A 523, por inerência no que concerne a armamento era somente dotado de espingardas de repetição MAUSER 98K de 7,92 mm.
          Antes da sua entrada ao serviço activo, foi da competência do Instituto Português de Combustíveis assegurar o abastecimento de combustíveis líquidos a Portugal.
          Para tal, esta entidade recorreu ao afretamento de navios-tanque estrangeiros, nomeadamente oriundos de países neutros, em razão de viver-se em tempos de guerra e o Estado optar pelo racionamento de bens essenciais, como por exemplo: a gasolina para viaturas automóveis, cujos proprietários só estavam autorizados a circular 2 dias por semana, com excepção dos que adoptaram o chamado “gasogénio”.
          Para realizar a sua missão suis generis de reabastecedor de combustível, navegava com frequência ao Mar das Caraíbas e quase em exclusividade às Ilhas de Aruba e Curaçao nas Antilhas Holandesas, que apesar de não disporem de petróleo, eram providas de importantes refinarias situadas junto de portos naturais ou canais profundos.

Navio-tanque "Sam Brás" a navegar (Fotos cedidas por General Pilav Ferreira Valente, ex-Oficial da Aviação Naval)

          A viagem de ida e volta de Lisboa às ilhas demorava em média 40 dias e 7 mil milhas, o estudo da viagem era efectuado pelo Oficial de Navegação, após o rumo ser indicado todas as manhãs de Lisboa, segundo informações facultadas pela Embaixada dos EUA, com o desiderato do “Sam Brás” não se cruzar com os comboios de navios aliados que navegavam rumo à Europa, o que por inerência obrigava a efectuar um percurso mais extenso.
          Tal precaução provinha do objectivo de evitar navegar próximo de tais comboios e ser hipoteticamente atacado por submarinos alemães, não obstante era frequente avistarem-se longos comboios de navios que navegavam no sentido contrário, sendo por vezes advertido por navios de escolta para mudar de rumo.



Mesa de navegação do Navio-tanque "Sam Brás" (Foto cedida por Almirante Adriano de carvalho)

          Em 22 de Janeiro de 1946, o “Sam Brás” foi condecorado com a Medalha de Mérito pela Cruz Vermelha Portuguesa em virtude de facultar um donativo recolhido a bordo para a instituição em apreço.
          A título de curiosidade, o Oficial Navegador (2.º Tenente) no exercício de funções só disponha de uma Agulha Magnética e um Sextante, pelo ano de 1948 passou a dispor de um Radiogoniómetro, Girobússolas e uma Sonda ultrasónica que permitiram agilizar e obter melhor qualidade nas funções que lhe competiam.



Oficial Navegdor com Sextante (Foto cedida por Almirante Adriano de carvalho)


Comandante do navio com Sextante (Foto cedida por General Pilav Ferreira Valente, ex-Oficial da Aviação Naval)

          Em Setembro de 1947, por iniciativa do Comandante do navio e com respectivo consentimento das companhias fornecedoras, passou abastecer combustível noutros países:
- No Bahrein (Golfo Pérsico), navegando pelo Mar Mediterrâneo, atravessando o Canal do Suez e contornando a Península Arábica;
- Nos EUA, na Costa Leste (Oceano Atlântico): em Port Arthur – Texas e na Costa Ocidental (Oceano Pacífico): em Long Beach – Califórnia, Saint-Peter - Los Angeles, atravessando o Canal do Panamá.


Navio-tanque "Sam Brás" a proceder a desgasificação (Foto cedida por General Pilav Ferreira Valente, ex-Oficial da Aviação Naval)

          Ainda nos EUA, desembarcaram a 22/07/1948 em Jaksonville - Florida, as primeiras guarnições dos 6 Navios-Patrulha da classe "Príncipe", cedidos pelos EUA ao abrigo "MDAP - Mutual Defence and Assistence Program", navios estes de 357 toneladas, construídos entre 1942 e 1944 nos EUA.
          A 29 de Novembro de 1959, acompanhou o Navio de Apoio "
Medusa" da Marinha Portuguesa, cedido pelos EUA, rumo a Lisboa, fazendo escala no Porto do Funchal entre 10 e 12 de Dezembro, chegando ao Porto de Lisboa em 15 de Dezembro de 1959.
          O “Sam Brás” culminou a sua carreira de 21 anos de serviço em Outubro de 1963, atracando no cais do Terreiro do Trigo, junto a S. Apolónia - Lisboa, após efectuar a sua última viagem como Petroleiro da nação, sendo substituído pelo Navio-Tanque “S. Gabriel”, também da Marinha Portuguesa, construído nos ENVC, que iniciou a sua missão em Maio de 1963, com a tradicional viagem de reabastecimento à ilha de Curaçao.

NAVIO DE APOIO LOGÍSTICO:

          Em 27 de Dezembro de 1965, cumprindo o disposto na Portaria 21 746 de 1965, passou a ser classificado de Navio de Apoio Logístico, em 19 de Outubro de 1966 foi deslocado para o Arsenal do Alfeite com o desiderato de ser modernizado e iniciar vastos fabricos para ser transformado em Navio de Apoio Logístico, cuja conclusão deu-se por terminada em 06 de Outubro de 1969 (data administrativa), sendo apetrechado com:
- Oficinas completas de Carpintaria, Serralharia e de Mecânica;
- Alojamento extra para transporte de tropas nos porões de proa;
- Convés de voo na popa para 1 helicóptero médio;
- Instalações médico-sanitárias;




Navio "Sam Brás" antes e depois da transformação em Navio de Apoio Logístico (Desenhos manuscritos por Luís Filipe Silva)

          No tocante a Artilharia Naval foi munido com: 1 Peça de 76,2 mm Mk5 montada sob um reduto à proa, 2 Peças BOFORS de 40mm/60 Mk3 à popa junto da chaminé e 2 Peças OERLIKON Mk3 de 20mm nas extremidades das asas da Ponte.
          Parte integrante do equipamento do navio eram 2 Jipes Land Rover 109, transportados numa garagem situada à vante da Ponte de Comando do lado Estibordo, sendo utilizados para deslocações da guarnição em terra, e duas motas de 50cc para o Serviço de Ordenança.
          No que respeita à capacidade de carga, o navio passou a ter capacidade para transportar:
- 3.000 toneladas de diesel;
- 100 toneladas de água potável;
- 50 toneladas de óleo lubrificante;
- 40 toneladas de combustível de helicópteros.
          No que concerne ao Serviço de Saúde do navio, equipado com instalações médico-sanitárias localizada à ré do lado Estibordo, era composto por: Bloco operatório, sala de tratamentos e consultório, laboratório, sala de Raio X, consultório de Dentista totalmente equipado (posteriormente desmontado e enviado para a Base Naval de Metangula), 6 camas de internamento e Enfermaria com 2 camas para doenças infecto-contagiosas.
          Este serviço era guarnecido por 2 Oficiais Médicos Navais (1 superior e 1 subalterno), 2 Sargentos Enfermeiros e 1 Praça Socorrista (“Moço da Botica”) adstritos à guarnição.
          Na 2.ª Guarnição (1972 – 1974) do navio um dos Enfermeiro foi destacado a título temporário para a Estação Radionaval da Beira, para efeitos de rendição dos Enfermeiros das Corvetas com Base o Porto da Beira, de modo a gozarem férias, ao mesmo tempo forneciam apoio a familiares dos militares na cidade da Beira.
          De realçar que os Enfermeiros antes de serem destacados para a guarnição do navio, realizavam o respectivo estágio nas várias especialidades no Hospital de S. José e no Hospital da Marinha.
          Estava também previsto o navio receber uma Secção de Fuzileiros com a missão de assegurar a segurança do navio quando atracado, proceder a vistorias em alto mar e servir de Força de Desembarque, o que não se materializou, no entanto teve entre a guarnição Praças com a especialidade Fuzileiro Especial [FZE], funções para as quais nunca foram mobilizados e entretanto desempenharam outras missões a bordo, como por exemplo Ordenança Externo.



Praça FZE / Ordenança Externo de quarto ao leme (Foto cedida por SMOR FZ Miguel Aleluia)

          De salientar que a cerimónia de reentrada ao serviço activo na Marinha Portuguesa, após transformação em Navio de Apoio Logístico foi publicitada na impressa nacional e presidida pelo então Ministro da Defesa.
          A 21 de Novembro de 1969, foram aumentadas 3 Praças com especialização em Mergulhador-Sapador à guarnição do navio, quando este ainda se encontrava na doca seca da Base Naval do Alfeite, formando a Equipa de Mergulho, chefiada pelo Oficial Chefe dos Serviços Gerais.
          Fruto das transformações em Navio de Apoio Logístico, para além das alterações visíveis em toda a superestrutura, tombadilho principal e Ponte de Comando, o navio foi equipado com uma grua à proa, um pau real para cargas de elevado peso (10 toneladas) e dois paus de carga (3 toneladas) a meia-nau para serviço de estiva, mantendo os projectores de sinais nas asas da Ponte, as tomadas de ar e as 4 baleeiras (2 à ré a motor e 2 à vante a remos).
          Foi equipado com botes pneumáticos e substituiu as 4 jangadas salva-vidas originais por 12 balsas salva-vidas em cada bordo, não obstante diminuiu de deslocamento, mas aumentou a guarnição de 49 militares em 1942 (7 Oficiais, 6 Sargentos e 36 Praças) para 100 militares em 1970 (10 Oficiais, 18 Sargentos e 72 Praças).



Navio de Apoio Logístico "Sam Brás" fundeado (Foto cedida por SMOR FZ Miguel Aleluia)

          O alojamento extra para transporte de tropas nos porões de proa resultou da transformação dos tanques em cobertas para dormida das referidas tropas (capacidade para cerca de 200 militares [12 Oficiais, 18 Sargentos e 170 Praças]), facto que conduziu por elevação do seu centro de gravidade (menos peso), a uma grande instabilidade do navio, traduzida na prática por balanço Bombordo/Estibordo que chegava a atingir mais de 40º de inclinação.
          Também os tanques principais a meia-nau (poço) foram transformados em porão de carga seca (normalmente quase vazio), um de cada bordo e um central com mais capacidade de carga, contribuindo ainda mais para a instabilidade do navio, não sendo necessário que houvesse sequer mau mar para que o navio entrasse em baloiço, em plena navegação a inclinação mínima registada era de 12º a um bordo.

Quanto ao alojamento da própria guarnição:
- O navio tinha duas Câmara de Oficiais, uma para os da guarnição e outra para os transportados; após o 25 Abril de 1974, com a devida autorização do Comandante do navio, a Câmara dos Oficiais transportados foi transformada em sala de estar para as Praças da guarnição, passando a existir uma única Câmara de Oficiais. Os camarotes dos Oficiais da guarnição eram individuais e o dos transportados eram duplos.
- O alojamento de Sargentos da guarnição situava-se por baixo da peça BOFORS de 40mm de Bombordo e do convés de voo, possuindo uma pequena sala de estar. A Câmara de Sargentos ficava na proa e servia refeições tanto aos da guarnição como aos transportados, estes últimos tinham alojamento em frente a câmara e a coberta era estilo.
- Tinha 3 cobertas a ré para as Praças da Guarnição, duas a Estibordo, coberta do pessoal da taifa e das máquinas, designado por “coberta do fogo” e uma a Bombordo, a “coberta grande” para as restantes especialidades, todas situavam-se por baixo da Enfermaria e do alojamento dos Sargentos da guarnição, a baixo destas cobertas das Praças ficava a casa das máquinas e a caldeira. O navio tinha dois refeitórios para Praças, um para as da guarnição e outro para as transportadas.

          Em 20 de Dezembro de 1969 navegou até ao Rio Tejo com o objectivo de proceder ao Plano de Treino Básico, calibrar as Agulhas e o Radiogoniómetro, terminada a sessão fundeou no Mar da Palha devido a uma avaria na máquina, após reparação rumou para a Baía de Sesimbra, onde no dia seguinte testou a vários regimes de rotações a máquina com o objectivo de efectuar a corrida da milha, atingindo a velocidade máxima de 10 nós com o casco limpo.
          Atendendo a pressões exercidas por altos comandos o aparelhamento do navio foi um tanto desordenado, ao ponto que durante o Plano de Treino Básico, iniciado em Dezembro de 1969, navegaram a bordo do navio, pessoal civil do Arsenal do Alfeite para tentar concluir a instalação de alguns equipamentos, o que nem assim foi conseguido.
          Com efeito, só a caminho do Arquipélago de Cabo Verde (quase 3 meses depois), a guarnição conseguiu que o Radar de navegação DECCA de maior alcance e o Radiogoniómetro ficassem finalmente operacional, o último devido à pouca qualidade do equipamento (baixa precisão na leitura de azimutes), motivou a sua pouca utilização.
          No dia 22 Dezembro de 1969 efectuo tiro com a peça de 76mm e com as de 40mm, para experimentar a Artilharia Naval instalada a bordo, finda esta navegou para a barra do Porto de Lisboa, fundeando no QNG.
          Pelo mesmo ano foi dotado de 2 LDP – Lanchas de Desembarque Pequenas: a LDP 103 e a LDP ???, anteriormente utilizadas para instrução na Escola de Fuzileiros, posteriormente foram ambas entregues ao Comando Naval de Moçambique, sendo que uma foi para Palma (Norte de Moçambique), sendo guarnecida por uma Secção de Fuzileiros que tinham a sua base num velho barco de madeira de nome “Maléma”, fundeado na Baía do Tungué.
          A 16 de Janeiro de 1970, zarpou do Arsenal do Alfeite, navegando para o Mar da Palha onde fundeou e procedeu a faina de munições.



Navio de Apoio Logístico "Sam Brás" a navegar no Oceano Índico

- Rumo a Moçambique

          Zarpou da Base Naval do Alfeite, iniciando a sua viagem inaugural no dia 07 de Fevereiro de 1970 (2.ª feira de Carnaval), com o rumo 208 em direcção ao Arquipélago de Cabo Verde, conforme o estudo da viagem que o Oficial de Navegação tinha efectuado.
          O destino final era Moçambique, a bordo transportava 74 militares do Exército com destino a Angola e grupos de Fuzileiros Especiais em comissão de serviço para Moçambique.
          Na manhã do dia seguinte ruma 028, correspondendo a uma inversão de 180 graus, regressando a Lisboa devido a uma avaria na máquina propulsora, fundeando no Rio Tejo frente ao Dafundo, após reparação parte novamente no dia 09 do mesmo mês, durante a viagem efectuou o exercício de “Postos de Abandono” com as tropas transportadas.
          No dia 11 (4.ª feira de Cinzas) pelas 09:30 horas ocorre uma explosão na casa de máquinas, danificando a caldeira, leme automático e ferindo uma Praça da guarnição do navio (Marinheiro fogueiro), isolada a caldeira, o governo do navio passou a ser realizado por recurso ao leme manual situado à Ré por cima da cana do leme, manobrado com esforço por 4 ou 6 Praças.
          Com o desiderato de proceder as necessárias reparações, navegou em direcção à Ilha da Madeira, chegando no dia 12 de Fevereiro ao Funchal, durante a estadia o Quartel-General das FA's no Arquipélago disponibilizou viaturas de passageiros às tropas transportadas e guarnição do navio para passeio pela ilha.
          Concluídas as reparações, o navio zarpou do Porto do Funchal no dia 20 de Fevereiro rumo ao Arquipélago de Cabo Verde, durante a viagem no dia 23 executa novamente o exercício de “Postos de Abandono” e o exercício de “Postos de Combate”, chegando no dia 24 do mesmo mês ao Porto de Mindelo na Ilha de São Vicente, atracando no cais n.º 3 do Porto Grande.
          A estadia na Ilha de São Vicente prolongou-se para além do que estava inicialmente previsto devido a pequenas avarias que convinha reparar com o navio atracado, parte de São Vicente no dia 27 de Fevereiro com destino a Luanda - Angola, chegando no dia 11 de Março de 1970, onde atraca de «braço dado» à Fragata “Pacheco Pereira” e desembarca os militares do Exército.
          No dia 14 do mesmo mês atracou no cais comercial, no dia seguinte rumou ao Porto do Lobito para reparar uma avaria, onde fundeou e posteriormente atracou no dia 17 de Março.
          Zarpa no dia 19 de Março de 1970 com destino final ao Porto de Lourenço Marques (actual Maputo) - Moçambique, onde chega no dia 30 do mesmo mês e atraca na Zona A, concluindo uma viagem de 40 dias.
          Durante a viagem cruza-se com diversos navios, inclusivo grandes petroleiros (realizavam uma circum-navegação do continente africano devido à interdição do Canal do Suez), tendo inclusiva necessidade de manobrar.
          Entre o dia 27 e o dia 29 de Maio, depois de contornar o Cabo das Agulhas entre East London e Lourenço Marques atravessou uma tempestade com ventos de força 7/9 na escala de Beaufort, vagas acima de 9 metros, aguaceiros e chuva.

- Missão desempenhada

          Entre 04 de Abril de 1970 e 19 de Maio de 1975, teve por missão realizar o transbordo entre aos Portos de Nacala, Porto Amélia, Beira e Lourenço Marques (actual Maputo) de material e embarque de pessoal militar da Força Aérea, Exército e Marinha.
          Navegou ainda até à Ilha de Moçambique, Pemba, Inhaca, Palma e Mocímboa da Praia, onde fundeia ao largo devido à inexistência de cais com calado suficiente para o navio.
          Durante os trajectos efectua com regularidade o exercício de “Postos de Abandono” com os militares transportados e os exercícios de “Postos de Emergência” e “Avaria no leme” com a guarnição.



Navio de Apoio Logístico "Sam Brás" a carregar material do Exército em Palma (Foto cedida por SMOR FZ Miguel Aleluia)

          Em 08 de Agosto de 1970, atracou junto ao muro do cais da zona A em Lourenço Marques, onde embarcou a bordo a LFP "Antares", ficando esta assente num berçário próprio, transportando-a para Porto Amélia, onde atracou no cais no dia 23 do mesmo mês, procedendo ao seu desembarque.
          No dia 27 de Agosto de 1970 foi ministrada instrução de comunicações a pessoal de Limitações de Avarias e realizou-se um exercício de “Avaria no leme” para o pessoal de quarto.
          Em 13 de Dezembro de 1970, efectuo tiro com as peças BOFORS de 40mm de ré, tendo o pessoal artilheiro ocupado os “Postos de Combate”.
          A 04 de Fevereiro de 1971 entra pela 1.ª vez na doca seca do Porto da Beira, de onde se retira em 17 de Fevereiro.



Navio de Apoio Logístico "Sam Brás" na doca seca do Porto da Beira (Foto Comissão Cultural da Marinha)

          Neste mês, por decisão superior do Estado-Maior da Armada, o navio foi atribuído a título permanente ao Comando Naval de Moçambique, onde manteve-se destacado em comissão de serviço até 24 de Junho de 1975, tendo por missão principal prestar apoio logístico a este Comando e unidades navais, assim como auxílio médico-sanitário a militares dos 3 ramos das FA's evacuados do Teatro de Operações.
          No dia 02 de Agosto de 1971, sai da barra do Porto de Lourenço Marques para realizar o Plano de Treino Básico da guarnição, exercícios de instrução de tiro, de “Postos de Abandono” e “Homem ao Mar”, no dia seguinte efectua um exercício de Limitação de Avarias e “Postos de Emergência”.
          Ainda em 1971, 2 Mergulhadores-Sapadores do navio procederam aos trabalhos de demolição (2 horas) das ruínas do Farol Vasconcellos e Sá, junto a Baía de Lourenço Marques (actual Maputo), por recurso a duas cargas dirigidas de 6 kg de dinamite.
          No dia 11 de Janeiro de 1972, após navegar entre a barra do Porto de Lourenço Marques e as bóias n.º 3 e n.º 4, ao aproximar-se do cais colidiu com o navio britânico “Miguel de Larrinaga” de Liverpool, causando danos em ambos os navios.
          Em 23 de Setembro de 1972, durante uma navegação no porto da Beira, verificou-se o início de um incêndio na baleeira de vante, ardendo somente parte da lona de resguardo.
          No dia 27 de Outubro de 1972, efectuou um exercício de Reabastecimento com a Corveta “Jacinto Cândido” da classe “João Coutinho”.
          Em 09 de Agosto de 1973, realiza exercícios de sinais luminosos com pistolas lançadoras de “very-lights” e fachos para o pessoal de quarto a Ponte.
          No dia 25 de Agosto de 1973, 2 Mergulhadores-Sapadores do “Sam Brás” participaram numa missão de recuperação do corpo de um Grumete FZ em serviço no Comando Naval, que se afogará numa lagoa próximo de Boane – Moçambique.
          No dia 22 de Dezembro de 1973 realizou-se uma festa de homenagem ao Comandante do navio e de Natal, noticiada na impressa do antigo território ultramarino e onde actuaram alguns artistas de variedades locais, tendo a merenda sido confeccionada por senhoras da Comissão de Simpatia às Forças Armadas.
          No dia 26 de Fevereiro de 1974, quando o navio estava fundeado a entrada do Porto de Quelimane, 2 Mergulhadores-Sapadores do navio procederam a colocação de um bojão na cavidade de saída do transdutor do Odómetro.
          Em 30 de Março de 1974, embarcou em Porto Amélia a LDP 103 e diverso material, desembarcando tudo no Porto de Chinde, a LDP navegou posteriormente pelo Rio Zambeze até Mutarara, onde passou a ser guarnecida por uma Secção de Fuzileiros da CF n.º 7.
          No dia 26 de Maio de 1974, quando rumava para o Porto da Beira, onde atracou no cais n.º 2, teve de proceder a sua identificação a uma Fragata da Marinha Real Britânica arrolada para o embargo naval ao porto marítimo da Beira, decretado pela ONU entre 1966-1979, para impedir o fornecimento de petróleo a Rodésia (Zimbabwé) na sequência da sua Declaração de Independência unilateral.

          Durante a comissão de serviço em Moçambique operou com 3 guarnições: 1970 - 1972 / 1972 – 1974 / 1974 – 1975, efectuou 27 cruzeiros ao longo da costa e 5 docagens no Porto da Beira.
          A secção de Mergulhadores-Sapadores adstrita à guarnição do “Sam Brás” ainda prestou apoio às docas secas da Capitania do Porto de Lourenço Marques e à respectiva frota de rebocadores e dragas do Serviço de Dragagem da Marinha.
          Procederam a missões de salvação marítima e vistoria às obras-vivas de navios mercantes, também efectuavam serviço de mergulho para os Caminhos de Ferro de Moçambique, entidade que administrava todos os Portos e Águas que abasteciam as populações do interior.

- Missão na Tanzânia

          Em 22 de Maio de 1975, pelas 03:00 horas quando navegava rumo a Lourenço Marques, recebeu uma mensagem do Comando Naval de Moçambique, ordenando ao Comandante do navio que alterasse o rumo com destino a Porto Amélia e ai procedesse à aguada.
          Chegou a Porto Amélia no dia 27 do mesmo mês pelas 20:00 horas, fundeando e aguardando ordem para atracar, pouco tempo depois o próprio Capitão do Porto (único militar da Marinha Portuguesa em Porto Amélia, em virtude do restante pessoal já ter saído das instalações no dia 26 de Março do mesmo ano, dia em que foi entregue o quartel dos Fuzileiros à FRELIMO) deslocou-se a bordo comunicando que a FRELIMO não autorizava que o navio atracasse porque o Presidente Samora Machel encontrava-se presente na cidade.
          Com o desiderato de proceder à aguada, após contactos realizados entre o Comando do navio e o Comando Naval de Moçambique, o Comandante do navio executou as ordens determinadas e rumou até ao Porto de Dar-es-Salam na Tanzânia, para onde também já se dirigiam a Fragata “Hermenegildo Capelo” da classe "
João Belo" e as Corvetas “General Pereira de Eça” e “Jacinto Cândido” da classe “João Coutinho".
          Chegou a Dar-es-Salam no dia 29 de Maio pelas 08:00 horas, fundeou à entrada do Porto e aguardou o embarque do Piloto, atracando a posteriori de «braço dado» à Corveta “General Pereira de Eça”, onde permaneceu até ao dia 31 de Maio.
          Em 31 de Maio de 1975 zarpou rumo ao Porto de Mtwara na Tanzânia, onde atracou no dia 01 de Junho pelas 10:00 horas, dando início de imediato a faina do carregamento de material e embarque de pessoal militar da FRELIMO, oriundos de uma grande base na Tanzânia junto ao Rio Rovuma (fronteira com Moçambique), incluindo:
- 9 Obuses de Artilharia;
- 2 Jipes Land Rover 109;
- Material encaixotado, incluindo um caixote em madeira de grandes dimensões;
- Sacos com farinha de milho para a alimentação dos militares da FRELIMO.



Jipes Land Rover 109 e Obuses de Artilharia da FRELIMO transportados à proa do Navio de Apoio Logístico "Sam Brás" (Foto cedida por SMOR FZ Miguel Aleluia)


Caixote de madeira de grandes dimensões da FRELIMO transportado a meia-nau do Navio de Apoio Logístico "Sam Brás" (Foto cedida por SMOR FZ Miguel Aleluia)

          A força militar da FRELIMO era composta por 2 destacamentos, um masculino (35 elementos) e outro feminino (105, sendo que 5 possuíam cursos superiores) totalizando 140 militares, durante o período em que o navio permaneceu atracado no Porto de Mtwara houve convívio entre a guarnição do navio e da FRELIMO, realizando-se inclusivo jogos de futebol.


Praça FZE da guarnição do Navio de Apoio Logístico "Sam Brás" e elementos FRELIMO (Foto cedida por SMOR FZ Miguel Aleluia)


Elementos da guarnição do Navio de Apoio Logístico "Sam Brás" e da FRELIMO na bancada durante o jogo de futebol (Foto cedida por SMOR FZ Miguel Aleluia)

          No dia 03 de Junho, concluída a faina do carregamento de material e embarque dos militares da FRELIMO, o navio zarpou com rumo a Lourenço Marques, tendo a viagem decorrido com tempo instável, originando muitas indisposições e enjoos entre as forças transportadas da FRELIMO.
          A 08 de Junho o navio atracou ao Cais Gorjão - Lourenço Marques, procedendo-se de imediato a faina de descarregar material e desembarque dos militares da FRELIMO, enquanto a guarnição realizou a necessária baldeação ao navio.



Elementos da FRELIMO a Bombordo (Foto cedida por SMOR FZ Miguel Aleluia)

-Regresso a Portugal

          Findo o conflito de Ultramar, o “Sam Brás” partiu de Moçambique de regresso a Portugal no 1.º minuto do dia 25 de Junho de 1975, fazendo escala no Porto de Luanda - Angola (fundeando na baía) em 03 de Julho e no Cais 59-64 do molhe Generalíssimo Franco, em Las Palmas – Canárias em 17 de Julho, chegando a Lisboa no dia 23 de Julho do mesmo ano.


Navio de Apoio Logístico "Sam Brás" a navegar no Rio Tejo, perto da Ponte 25 de Abril (Foto cedida por SMOR FZ Miguel Aleluia)

          De salientar que a Reserva Naval também contribuiu com Oficiais para a guarnição do navio, entre Julho de 1969 e Junho de 1975, destacando Oficiais Subalternos, respectivamente do 12.º, 13.º, 16.º e 23 CFORN (Curso de formação de Oficiais Reserva Naval).
          O navio foi escolhido pela publicação periódica de temática marítima: Revista de Marinha para ser a Separata da Revista de Marinha n.º 17 – ll série.



Separata da Revista de Marinha nº 17 – ll série (Foto cedida por Rui Amaro)

          No dia 13 de Agosto de 1975 passou ao estado de desarmamento e no dia 05 de Setembro do mesmo ano, após ter sido deslastrado, navegou até ao cais do G1EA em Vila Franca de Xira, onde serviu como ponto de alojamento, instrução de marinharia e desdobramento aos alunos da Escola de Máquinas.
          Permanecendo no cais do G1EA até ao dia 01 de Julho de 1977, de onde zarpou para a Base Naval do Alfeite, sendo de realçar que durante o período em que o "Sam Brás" esteve atracado no cais do G1EA, era alvo de rotinas diárias à instalação propulsora, prática esta que permitiu após quase 2 anos atracado, conseguisse regressar por si só à Base Naval de Alfeite para ser abatido, tendo dispensado de rebocadores nesse trânsito.



Navio de Apoio Logístico "Sam Brás" no cais do G1EA (Foto cedida por SMOR FZ Miguel Aleluia)


Instrução a bordo Navio de Apoio Logístico "Sam Brás" no G1EA (Foto Revista da Armada de Maio de 1976)

          Foi abatido ao efectivo dos navios da Armada no dia 18 de Fevereiro de 1980, registando 56.683 horas de navegação sendo a posteriori desmantelado.

DADOS TÉCNICOS DO NAVIO:

Deslocamento:
- 7.375 toneladas (1942);
- 6.374 toneladas (1970)
Dimensões:
- 109,2 x 15,5 x 5,4 metros
Propulsão:
- 1 motor Diesel BURMESTER & WAIN’S de 2.820 cv
- 1 caldeira auxiliar gás
- 1 veio
Energia:
- 3 geradores ROLLS ROYCE 300 KVA; 1 gerador de emergência ROLLS ROYCE 150 KVA
Velocidade máxima:
- 12 nós
Autonomia:
- 14.300 milhas a 10,5 nós
Guarnição:
- 49 (1942);
- 100 (1970)
Radar:
- Navegação DECCA 974
- DECCA 903
Equipamento:
- 1 Girobússola ARMA BROWN Mk1
- 1 Sondador de profundidade ELAC LAZ 6
- 1 Odómetro CHERNIKEEF

17/11/10

TESTEMUNHO HISTÓRICO DE UMA COMISSÃO EM MACAU

            Já algum tempo que pretendo introduzir neste blog artigos de outros assuntos, mas mantendo um vínculo ao assunto-base: Marinha Portuguesa.

            Deste modo, pela sua indubitável qualidade e interesse, convido os leitores a visualizar um grupo de vídeos do youtube, verdadeiro testemunho histórico de uma Comissão de Serviço em Macau, na década de 60, de um Oficial Superior da Armada.
            São da autoria do Sr. Contra-Almirante Reformado António José de Matos Nunes da Silva, nascido a 15/05/1925 (85 anos) e incorporado na Armada a 06/09/1943.

Site pessoal: http://sites.google.com/site/ajmnsilvawebsite/home

Breve apresentação do Sr. Contra-Almirante:
            "Coloquei em You Tube esta série de vídeos sobre a minha Comissão de Serviço em Macau, 1966-68, por julgar de interesse histórico o testemunho de quem viveu aquela época conturbada, mas junto dos centros de decisão, em plena Revolução Cultural na China. E que, como verão, deu contributo decisivo para a sua resolução. Pacífica. Bem diferente seria a situação actual de Macau se aquele diferendo tivesse originado acção de confronto militar, como chegou então a ser alternativa.
            Testemunho que se perderia comigo. E só o fiz recentemente porque o sigilo profissional assim me obrigava. Sigilo que nem para a família quebrei.
            Também me motivou o ler trabalhos de investigadores, bem meritórios no seu todo, mas com incorrecções históricas derivadas de depoimentos subjectivos de pessoas contemporâneas dos acontecimentos mas desconhecedoras de parte da realidade. Ou de deficiente avaliação dessas pessoas ou documentos. Fi-lo em DVD, mas as limitações de You Tube obrigaram-me a dividi-lo por vários vídeos.
            Continuo ao dispor de quem pretender algum esclarecimento sobre algo do meu depoimento.
            Ao autor deste blog, os meus agradecimentos pela amabilidade de disponibilizar mais esta via de disseminação.
"

António José de Matos Nunes da Silva
C/Alm. Ref.


            No youtube pode visualizar-se 2 DVD's, um cronológico de toda a comissão, outro dedicado só aos acontecimentos de 66/67.
LINKS:

- Introdução, comum aos 2 DVDs:
http://www.youtube.com/watch?v=tEMsxeKuWkk

13/11/10

REVISTA DA ARMADA



          Encontra-se disponíveis em formato digital, no site da
Marinha Portuguesa na Internet, a colecção completa de todas as edições da Revista da Armada, desde a revista n.º 1, publicada em Julho de 1971 até a mais recente.
          O software de suporte ao formato digital proporciona ao leitor o efeito de se poder “folhear” as suas páginas, com o um simples voltar de página, assim como permite ampliar as páginas através de uma função disponibilizada de «zoom», que torna as páginas nítidas e de fácil leitura.




          Outras características também disponibilizadas são que a Revista pode ser impressa e/ou gravada em formato PDF, mediante a função de «busca» e realizar «pesquisa de conteúdo» por palavras-chave, expressões ou frases, localizando a informação pretendida.

30/10/10

CÃES DE GUERRA NO CORPO DE FUZILEIROS

(ACTUALIZADO)


Desfile da Secção Cinotécnica do Corpo de Fuzileiros

          No Teatro de Operações de Moçambique, durante a Guerra Colonial, em virtude da profusão de minas A/C e A/P colocadas nas zonas de actividade da FRELIMO, foram utilizados Cães de Guerra pelos Fuzileiros, adquiridos à África do Sul e empregues essencialmente por pessoal especializado em "pisteiro de combate".
          O desiderato era recorrer às várias capacidades dos animais como o olfacto, o ouvido, a melhor visão à noite, maior mobilidade e velocidade, colaborando de modo profícuo na detecção de minas, armadilhas e emboscadas.
          A título de exemplo, durante a comissão de serviço em Moçambique da Companhia de Fuzileiros n.º 8, no período de 1965/1968, foram usados Cães de Guerra na patrulha da Estação Radionaval de Lourenço Marques (actual Maputo), no Aquartelamento dos Fuzileiros em Machava, nas patrulhas pela cidade da Polícia Naval e em Paradas Militares.


Cães de Guerra da Companhia de Fuzileiros n.º 8 (Foto cedida por Cte. Rosa Garoupa)

          Eram cerca de 8 a 10 Pastores Alemães cada um com o seu respectivo canil individual, sendo que as instalações eram dotadas de um óptimo campo de treino/obstáculos para ensino e manutenção.
          A título de curiosidade, o Estado na época garantia para alimentação dum cão uma quantia superior à da abonada a uma Praça!


Cães de Guerra em Campo de obstáculos

          Não obstante, também nos outros Teatros de Operações da Guerra Colonial existiu cães em unidades de Fuzileiros, mas funcionando mais como mascote da unidade, como sucedeu com o "Dembos" da Companhia de Fuzileiros n.º 10 em comissão de serviço em Angola entre 1966-1968.







Fuzileiro Mário Manso e o "Dembos" (fotos do blog Fuzileiros para sempre)

          Em 1974, por iniciativa de um grupo de Oficiais, Sargentos e Praças, foi criado um Centro de Treino e Criação de Cães de Guerra, integrada nos Serviços Gerais da Escola de Fuzileiros, mais recentemente designada por Secção de Cinotécnia, com o propósito de reforçar o serviço de vigilância e patrulha, materializando o conceito binómio homem/cão para defesa imediata.



Binómio Homem/Cão

          Esta unidade ao mesmo tempo pautou-se por colaborar na manutenção de raças autóctones que já se encontraram ameaçadas de extinção: Castro Laboreiro e Cães-de-água Portugueses.
          Estes animais têm número mecanográfico e prestam serviço (Ordens de Serviço) no perímetro da Escola de Fuzileiros e na Base de Fuzileiros.
          Actualmente esta unidade do Corpo de Fuzileiros é utilizada no combate ao narcotráfico e ao terrorismo, colaborando desde 1996 na Busca e Detecção de substâncias ilícitas e desde 2003 na de Engenhos Explosivos Improvisados.


Detecção de substância ilícita por cão da Secção Cinotécnica do Corpo de Fuzileiros

          A título de exemplo, logo no 1.º dia em que mancebos apresentam-se na Escola de fuzileiros para prestar o Serviço Militar em Regime de Voluntariado, por praxe são submetidos a uma detecção de substâncias ilícitas efectuada por cães especialmente treinados para o efeito.
          Esta unidade costuma marcar sempre presença em eventos e cerimónias do Corpo de Fuzileiros e da Marinha Portuguesa, realizando demonstrações de capacidades.


Secção Cinotécnica no Dia do Fuzileiro

          A própria Revista da Armada ao longo dos tempos sempre redigiu alguns artigos sobre esta Secção, dedicando inclusivo uma capa de revista à unidade (Abril de 1984 / n.º 151) apresentado um famoso cão de raça Serra da Estrela de nome "Xangai" que ganhou numerosos troféus em campeonatos de cães com aplicação militar e o respectivo tratador Cabo FZE Bastos, nomeadamente cerca de 20 taças, 30 medalhas, 21 diplomas de excelente e 35 certificados de aptidão.


Cão da Serra da Estrela "Xangai" e Tratador Cabo FZ Bastos