04/04/17

MERGULHADORES DA ARMADA NA DÉCADA DE 50 DO SÉCULO XX

           Pelo ano de 1953, dada a premência de apetrechar a Armada com meios e auxílio médico-terapêutico especializado no suporte a possíveis acidentes disbáricos e para salvamento marítimo, foi adquirida a primeira câmara de descompressão do país, desencadeando-se simultaneamente a medicina de mergulho e hiperbárica, aparelho que, perante os padrões actuais, encontra-se obsoleto e que foi transferido para o Museu da Marinha.

1.ª Câmara de descompressão (Foto cedida por Sarg. US Ferreira Marques)

          Pelo mesmo ano a Marinha de Guerra Portuguesa conta somente com um efectivo de 03 Mergulhadores...

- FORMAÇÃO EM IEE E MERGULHO NO REINO UNIDO:

           De 26 de Junho de 1954 a 15 de Abril de 1955, inserido na 2.ª parte do curso Long TAS "Torpedo Anti-Submarine Warfare", no âmbito da cooperação técnico-militar bilateral, Oficiais subalternos são certificados na Escola de Mergulhadores da Marinha Real Britânica: "HMS Defiance Diving School" em Plymouth com competências na guerra de minas e suas contramedidas, torpedos, demolições, incluindo mergulho (01 semana).

Curso Long TAS "Torpedo Anti-Submarine Warfare" de 1954 na Escola de Mergulhadores da Marinha Real Britânica: "HMS Defiance Diving School" em Plymouth (Foto cedida pelo Almirante Nunes da Silva)

           Esta parte do curso incluiu noções gerais sobre o equipamento usado em "deep diving" e "standard diving", experimentar escafandros clássicos semi-autónomos de circuito aberto em rio e equipamento de mergulho autónomo em piscina, a exibição dos filmes "Diving" (inglês) e "Deep sea diving" (norte-americano), a demonstração de equipamentos de salvação marítima "OXY-HYDRO" (aparelho subaquático de corte de chapa) e "UNDERWATER GUN" (aparelho subaquático de cravação de chapas no casco de navios), a câmara de compressão para Mergulhadores, regras para supervisão de Mergulhadores usadas na Royal Navy e equipamento utilizado pelos "Clearence Divers".
           De salientar que os Oficiais portugueses obtiveram respectivamente o 1.º e 5.º lugar, no curso frequentado por Oficiais de várias nações do ano 1954/1955, sendo que o mais antigo teve a exclusiva autoria e responsabilidade, conforme determinado verbalmente pelo então sub-CEMA, de compilar e enviar relatórios para o EMA, por intermédio do Adido Naval da Embaixada Portuguesa em Londres sobre a formação, contendo inclusivo propostas para se adquirir os filmes visualizados e diversos livros, tais como: "The Manual of Demolitions", "The Demolition Drill Book", "The Diving Manual".






































Certificado do curso "Long TAS" do então Cten. Nunes da Silva (Imagem cedida por Almirante Nunes da Silva)

           A partir de 1955 até Novembro de 1964, no âmbito da cooperação técnico-militar da NATO, são habilitados com cursos de inactivação de engenhos explosivos, os primeiros Mergulhadores Sapadores da era moderna: 15 militares entre Oficiais subalternos, Sargentos e Praças distribuídos por cinco cursos (1955; 1957; 1959; 2 x 1964), sendo a 1.º parte da cooperação "Clearance Diving" (16 semanas) ministrada em Escolas de Mergulhadores da Marinha Real Britânica: "HMS Defiance Diving School" em Plymouth ou "HMS Vernon Diving School" em Portsmouth, esta última instalada a bordo de um antigo Navio de Apoio alemão da 2.ª Guerra Mundial, rebaptizado de "HMS Deepwater".

Curso "Clearance Diving" de 1957 na Escolas de Mergulhadores da Marinha Real Britânica: "HMS Defiance Diving School" em Plymouth  (Foto cedida por Cte. Oliveira Simões)


























Curso "Clearance Diving" de 1959 na Escolas de Mergulhadores da Marinha Real Britânica: "HMS Defiance Diving School" em Plymouth. O 2.º militar à esquerda é o Cte. Alpoim Calvão  (Foto cedida por Sarg. US Ferreira Marques)
























Certificado do curso "Clearance Diving" do então Marinheiro Ferreira Marques (Imagem cedida por Sarg. Ferreira Marques)


Curso "Clearance Diving" de 1964 na Escolas de Mergulhadores da Marinha Real Britânica: "HMS Defiance Diving School" em Plymouth (Foto cedida por Cte. Canelas Cardoso)


























Certificado do curso "Clearance Diving" do então Tenente Canelas Cardoso (Imagem cedida por Cte. Canelas Cardoso)


"HMS Deepwater" da Marinha Real Britânica



























Mergulhadores portugueses e Instrutor inglês a bordo do "HMS Deepwater" em 1959 (Foto cedida por Sarg. US Ferreira Marques)

           Neste curso era instruído natação de superfície e submersa, manejo de equipamentos de oxigénio, mistura e de ar comprimido, recuperação de minas marítimas, fisiologia do mergulho, sabotagem submarina, procedimentos em campos de minas marítimas, técnicas de busca de querena de minas-lapa, identificação e inactivação de minas marítimas, demolições, manutenção de equipamentos de mergulho, limpeza de obstáculos em praias para desembarques e técnicas salvação marítima.
           A 2.ª parte da cooperação "Explosive Ordnance Disposal" (08 semanas) era ministrada em Escolas de Engenharia do Exército britânico "Royal Engineers Corps" em Horsham "Bomb Disposal School" e Rochester.






Curso "Explosive Ordnance Disposal" de 1957 na Escola de Engenharia do Exército britânico "Bomb Disposal School" em Horsham (Foto cedida por Cte. Oliveira Simões)























Certificado do curso "Explosive Ordnance Disposal" do então Tenente Canelas Cardoso (Imagem cedida por Cte. Canelas Cardoso)

         É de destacar que após a conclusão da parte teórica do curso "Clearance Diving", de modo a aplicar os conhecimentos adquiridos, os formandos eram integrados nas equipas de desactivação "Bomb and Mine Disposal Teams" britânicas, procedendo à inactivação de bombas e minas marítimas empregues na 2.ª Guerra Mundial, que frequentemente davam à costa, alertados pelas autoridades ou pela entidade civil "Mine Watching Organization".
























Equipa de desactivação "Bomb and Mine Disposal Teams" a proceder a inactivação de uma mina marítima anti-submarino de fundear VICKERS. Os 02 militares à esquerda são portugueses (Foto cedida por Cte. Canelas Cardoso)

           Paralelamente no mesmo período temporal, começa de modo gradual a cair em desuso a utilização dos escafandros clássicos, em prol de aparelhos de mergulho autónomo não-magnéticos:
- "CDBA" (Clearance Diving Breathing Apparatus) adquirido à Marinha Real Britânica e conhecido entre os Mergulhadores da Armada por «Corvo», com capacidade de circuito fechado com 100% de O² respirável (10 metros / sabotagem submarina) e capacidade de circuito fechado com mistura de 60% de O² e 40% de N² ou 40% de O² e 60% de N² (diversas profundidades / inactivação de minas);


Visita do então Presidente da República Almirante Américo Thomaz à Escola de Mergulhadores, podendo se observar elementos com o equipamento de mergulho CDBA "Corvo" (Foto cedida por Sarg. US Ferreira Marques)

































Mergulhador com o equipamento de mergulho CDBA "Corvo" (Foto cedida por Sarg. US Ferreira Marques)

- "OXYMAX" do tipo "CDBA" de circuito fechado com 100% de O² respirável (10 metros / sabotagem submarina), também adquirido à Marinha Real Britânica;


















Equipamento de mergulho "OXYMAX" (Foto Blogue Barco à vista)

- "Dräger FGT1/P" de fabrico alemão, com capacidade de circuito fechado com 100% de O² respirável e capacidade de circuito semi-fechado com mistura de 60% de O² e 40% de N², 40% de O² e 60% de N² ou 32,5% de O² e 67,5% de N² (54 metros / 03 horas de autonomia / inactivação de minas de influência magnética, acústica ou de pressão).





























Equipamento de mergulho "Dräger FGT1/P" (Foto Blogue Barco à vista)







































 



Equipamento de mergulho "Dräger FGT1/P" (Foto cedida por Cte. Magalhães Cruzeiro)

           Em 1956 entram ao serviço da Armada aparelhos de mergulho autónomo de circuito aberto, do tipo "COUSTEAU - GAGNAN" e de mergulho semi-autónomo de circuito aberto, do tipo "NARGUILLÉ".
           Observando o disposto no Decreto n.º 41 646 de 24 de Maio de 1958, é criado na dependência da Direcção e Serviço de Submersíveis um Serviço de Mergulhadores e de Salvação, destinado a preparação de Oficiais, Sargentos e Praças para o mergulho, à selecção de pessoal a instruir e à inspecção de todo o equipamento de mergulho da Armada.
           Pelo Decreto-lei n.º 42 045 de 23 de Dezembro de 1958 é criada a subclasse de Mergulhadores compreendida na classe de Serviços Gerais.
           Pela Portaria n.º 17 045 de 21 de Fevereiro de 1959 são afixados os quantitativos.
           Em Fevereiro de 1959 é implementado um novo Regulamento do Serviço de Mergulhadores [Portaria n.º 17 045 de 21 de Fevereiro de 1959], que cria as diferentes categorias de Mergulhadores:
- Mergulhadores-Sapadores (para salvação marítima, sabotagem e IEE - inactivação de engenhos explosivos);
- Mergulhadores-Normais (para integração dos oriundos do escafandro clássico);
- Mergulhadores-Vigias (para realizar a buscas de querena e trabalhos simples de manutenção em unidades navais).
           A Portaria n.º 17 170 de 5 de Maio de 1959 e Portaria n.º 17 725 de 12 de Maio de 1960, regulam as condições em que os actuais Mergulhadores da Armada podem ingressar na subclasse.

Artigos relacionados com a década de 50 e os Mergulhadores:

01/04/17

KITS NOGUEIRA PINTO ESTÃO DE VOLTA … E COM NOVIDADES!

           No âmbito da redacção de um livro sobre as viaturas anfíbias dos Fuzileiros (LVT-4 / Chaimite / LARC-V), “odisseia” já com alguns anos…, fui sendo presenteado com diversos assuntos que me despertaram interesse por estarem relacionados com as viaturas em apreço.
           Acrescido do propósito de que o livro sirva também de apoio a projectos de modelismo, principalmente aguçando a imaginação para a construção de dioramas, aconselhei-me com amigos modelistas.
           Foi assim que mediante o meu amigo modelista Eng. Álvaro de Melo (antigo Oficial Subalterno Fuzileiro Naval da Reserva Marítima de 1968) que tive conhecimento que no final da década de 90 existiu um kit na escala 1/35 de fabrico nacional e edição particular da Chaimite V-200 4x4 da BRAVIA pela NP MODELS.
           Tive o prazer de observar detalhadamente um Kit deste montado por este modelista, durante uma Exposição de Modelismo (I MODELFUZOS) que decorreu durante o "Dia do Fuzileiro 2015" na Escola de Fuzileiros. Exposição coordenada pelo CCF, Comando da EFZ’s e pela Associação de FZ’s, contando com um inestimável contributo e apoio organizacional da Associação de Modelismo de Almada.
           No caso tratava-se de uma versão apetrechada de um ligeiro “scratchbuilding”, representando a famosa Chaimite V-200 4x4 AP-19-34 “ARMADA 90” dos Fuzileiros, cuja principal alteração ao modelo original consistia na instalação dos tubos de LFG de 90mm na torre.

Chaimite V-200 AP-19-34 dos Fuzileiros (kit da NP Models montado por Eng. Álvaro de Melo). 

           Desde então, tenho mantido contacto com o autor deste kit de resina - o Major Nogueira Pinto, modelista e Oficial do Serviço de Material do Exército Português.
           O Major Nogueira Pinto, não foge à regra e, tal como muitos modelistas por todo o mundo começou a dedicar-se apaixonadamente ao modelismo na adolescência, no seu caso mais concretamente aos 13 anos de idade.
           Principiou-se com a construção de aeronaves de asa fixa na escala 1/72, nomeadamente das marcas Airfix e Matchbox, mais tarde debruçou-se sobre as viaturas da 2.ª Guerra Mundial da escala 1/76 da marca Hazegawa, por último, já nos inícios dos anos 80 começou a montar modelos à escala 1/35 da Tamiya, Italeri e outras marcas.
           Foi exactamente neste período que de forma germinada evolucionou para uma dedicação especial ao tema “Exército Português”, montando, na medida do possível, modelos existentes nas marcas de kits que permitissem replicar os meios utilizados neste ramo das FA’s Portuguesas.
           Posteriormente, já no final dos anos 90, optou por testar as suas habilidades modelísticas e construir por sua conta alguns kits de modelismo em resina, recorrendo a moldes de silicone, em virtude de não se encontrem disponíveis no mercado e por inerência adaptar para representar viaturas das FA’s Portuguesas.
           A título de exemplo é sobejamente conhecido entre os modelistas que não existe um kit da Chaimite V-200 4x4 de fabrico nacional da BRAVIA, obrigando a um verdadeiro e complexo trabalho de “scratchbuilding” para conceber uma destas viaturas utilizando por regra um kit de uma viatura V-100, V-150 ou M706. 
           É neste berço de empreendedorismo que nasce a NP MODELS, estreando-se com um kit na escala 1/35 da VBTP - Viatura Blindada de Transporte de Pessoal sobre rodas Chaimite V-200 4x4, fabricando cerca de 30 exemplares que rapidamente esgotou, sendo adquirida entre amigos modelistas para as suas colecções particulares.
           Mais recentemente, na mesma escala, produziu uma Viatura Blindada de Transporte de Pessoal sobre rodas de fabrico francês, tendo a particularidade de apenas ter sido adquirido por Portugal num total de 28 exemplares - a TP 14 Panhard ETT 8x8.
           Actualmente está a ultimar os trabalhos de montagem em kit relacionados com a Viatura Auto-Tanque de água de fabrico Norte-americano Kelly Springfield K-50 de 1915, adquirida pelo Exército Português em 1916 e, utilizado pelo CEP - Corpo Expedicionário Português a partir de 1917 na sua participação da 1.ª Grande Guerra (1914 - 1918).
           Os kits da Chaimite e da Panhard são dotados de um folheto de instrução de montagem e formados por uma peça base - o casco e várias peças acessórias, as respectivas torres tem a mais-valia de permitirem o modelista optar por manter a escotilha aberta ou fechada.
           Por sua vez, o kit da Kelly Springfield permite o modelista optar por recurso ao “scratchbuilding” a nível do chassis montar noutras versões (não incluídas):
- Transporte de carga com capota;
- Corpo de Marinheiros da Marinha Portuguesa apetrechado com uma metralhadora-ligeira do tipo Hotchkiss Modelo 1900;
- Auto-bomba tanque de água do Regimento de Sapadores Bombeiros de Lisboa.
           Estes 03 kits estarão brevemente disponíveis para venda, mediante encomenda directamente ao seu fabricante – ModelismoNP: modelismonp@gmail.com
           Na senda de continuar a pautar-se pela originalidade, futuramente outros modelos de kits de meios utilizados pelas FA’s Portuguesas serão publicitados, de momento encontram-se num estágio de experiência.

20/03/17

LEITURAS À VISTA N.º 11

          Para a 11.ª “LEITURA À VISTA”, recomendo o livro: "Fuzileiros em África - Comissão em Moçambique 1964-1966", redigido pelo Cte. Maxfredo Ventura Costa Campos, edição de autor.






































          Este livro para além de ser dedicado à Comissão de serviço que o autor efectuou no Comando do DFE - Destacamento de Fuzileiros Especias n.º 1, entre 1964 e 1966 em Moçambique, apresenta uma grande acervo de relatórios de operações desta Unidade de Fuzileiros, que ocupa metade do livro.
          Aborda ainda num contexto político-militar a Guerra Colonial; a Marinha Portuguesa em África; o Teatro de Operações em Moçambique; os erros praticados na guerra a nível de Comandos; a recriação dos Fuzileiros, o recrutamento de efectivos e constituição de Unidades de Fuzileiros, a especialidade de Fuzileiros Especiais e a criação da sua Escola de no qual o autor esteve directamente relacionado!

03/02/17

NAVIO DE APOIO LOGÍSTICO “SÃO MIGUEL” / 5.ª PARTE

AFUNDAMENTO DO NAVIO

          A 20 de Dezembro de 1993, já não dispondo de condições operacionais, desprovido de equipamento e determinado o seu desmantelamento, é abatido ao efectivo dos navios da Marinha de Guerra Portuguesa, observando o disposto numa Portaria do MDN de 12 de Janeiro de 1994, sendo substituído nas funções que desempenhava pelo actual Navio-Reabastecedor NRP “Bérrio”.
           O Oficial Superior que exerceu o 2.º Comando do navio, desempenhando à data funções no Grupo n.º 2 de Escolas da Armada no Alfeite (G2EA), tratou de apetrechar a Sala de Reuniões do Comando do G2EA com a estante da Camarinha do Comandante do "São Miguel", uma vigia dessa Camarinha, mesa e cadeiras da Câmara de Oficiais, Escudete do Navio e uma Placa com o nome dos 03 Comandantes que o navio.


Mobiliário do NRP "São Miguel" no G2EA (fotos cedidas por Cte. Brito Subtil)

           Entre 20 e 23 de Outubro de 1994, o navio foi carregado no Cais da NATO na Trafaria com cerca de 2.200 toneladas de munições de diversos calibres e explosivos obsoletos ou com a validade largamente ultrapassada, oriundos de paióis da INDEP e dos 03 ramos das FA’s (a maioria pertencia ao Exército Português), oriundos da apelidada “cintura explosiva de Lisboa”, rebocado para alto-mar pelo Rebocador "Alpena" da empresa Rebocalis e afundado a 23 de Outubro de 1994, por recursos à abertura das válvulas do fundo, a 215 milhas da costa continental portuguesa e cerca de 4.000 metros de profundidade no Oceano Atlântico.
           De salientar que a designada “cintura explosiva de Lisboa” apresentava um grave e sério perigo para as pessoas e seus bens, vizinhos das localidades onde se situavam os respectivos paióis, sendo à muito do interesse do Estado resolver o problema.
           Tratando-se de uma tarefa bastante difícil e complexa pelo elevado risco que apresentava, efectuou-se uma operação que exigiu amplos conhecimentos técnicos e um planeamento prudente (realçando-se que foi uma mais-valia o facto de ter sido elaborada com o apoio de um Oficial Superior que conhecia bem o navio, tendo sido o Imediato da 2.ª guarnição), sendo que a fase da estiva dos materiais a bordo, que competiu à Marinha em virtude das incompatibilidades entre os vários explosivos, decorreu com limitado espaço temporal de execução, tendo sido sujeita a alterações de planeamento de última hora, para embarque de carga do Exército Português não prevista inicialmente.
          Tal última carga (cerca de 150 paletes de cunhetes de munições) já não foi condicionada nos porões do navio, não só observando-se pela falta de espaço, mas também pela necessidade de serem cumpridas as regras de incompatibilidade dos explosivos, assim como a obrigatoriedade de flutuabilidade negativa, decidindo-se transportar no convés de carga do navio, dado entender-se não alterar a segurança das condições de estabilidade do navio.
           Na fase final de afundamento, já com o navio posicionado no local pré-seleccionado, este começou adornar para Bombordo pelas 09:55, sendo que a operação em si estava a ser monitorizada por um avião de patrulha marítima P3 ORION da FAP, que registou o evento no sistema MPA, existindo também gravações do sistema STIR compiladas pela Fragata F330 “Vasco da Gama”.






Sequência de fotos do momento de adorno a Bombordo do navio (Fotos reunidas por José Manuel Marques)

          Pelas 10:45, já com o navio completamente adornado, ocorreu uma enorme explosão, poucos segundos depois de ter sido sobrevoado novamente pelo avião de patrulha marítima P3 ORION da FAP, presume-se devido a uma reacção química entre os explosivos e a água salgada, sendo que tal situação era já equacionada, face aos possíveis comportamentos aleatórios que um navio assume ao afundar-se.

Sequência de fotos do momento da explosão do navio (Fotos reunidas por José Manuel Marques)

          Dias depois deram à costa 08 cunhetes de ALG's / Dilagramas do Exército Português que haviam sido embarcado no NRP "São Miguel", sendo de mencionar que o facto de parte dos cunhetes estarem cheios de serradura, ou invés de areia como determinado, ofereceu flutuabilidade aos engenhos.
          De salientar que assistiram ao afundamento diversas personalidades a bordo de navios da Marinha Portuguesa que se encontravam distanciados a 03 milhas (Fragata “Vasco da Gama”, Fragata “Sacadura Cabral” e Navio-Balizador “Schultz Xavier”): o então Almirante Comandante Naval, alguns dos antigos elementos das guarnições do “São Miguel” entre outras personalidades.

21/01/17

ARTE MILITAR NAVAL - 09

          Regressando de novo à resenha "Arte Militar Naval", onde apresento os desenhos manuscritos de Luís Filipe Silva, escolhi para este artigo as Fragatas da classe "Bartolomeu Dias", navios de construção holandesa e adquiridos pela Marinha Portuguesa em 2006, entrando posteriormente ao serviço da Briosa respectivamente em 2009 e 2010, sendo a par das Fragatas da Classe "Vasco da Gama", os nossos únicos navios de combate de superfície.


Configuração das Fragatas da classe "Bartolomeu Dias"

Artigo sobre as FRAGATAS DA CLASSE "BARTOLOMEU DIAS":
http://barcoavista.blogspot.pt/2011/01/fragatas-da-classe-bartolomeu-dias.html

11/01/17

NAVIO DE APOIO LOGÍSTICO “SÃO MIGUEL” / 4.ª PARTE

A 3.ª GUARNIÇÃO DO NAVIO

          A 24 de Maio de 1990, realiza-se a bordo a entrega de Comando do navio, presidida a bordo pelo então Vice-Almirante Comandante Naval do Continente.


















Entrega do Comando do navio (Foto cedida por Cte. Brito Subtil)

             Entre 21 de Junho e 10 de Julho de 1990, efectuou missões logísticas nos Arquipélagos da Madeira e Açores, escalando Praia da Vitória, Ponta Delgada e Funchal.
          A 14 de Setembro de 1990, é montado um novo radar JRC-JMA 3525 (com sistema RASTERSCAN de digitalização de imagem) pela empresa Ondex, substituindo o radar KH 18/12, abatido ao navio através da Guia de Remessa n.º 119/90 de 17 de Setembro de 1990, devido à sua idade avançada e já muitas limitações (detecção de ecos somente a 08 milhas, avaria na marca móvel, inexistência de sobressalentes, etc).

MISSÕES EM 1991:

MISSÃO NA GUERRA DO GOLFO PÉRSICO:

         Entre 31 de Outubro de 1990 e 13 de Abril de 1991, no âmbito da colaboração da UEO (União Europeia Ocidental) nas operações de embargo ao Iraque decretadas pelo Conselho de Segurança da ONU, foi o único navio da Armada Portuguesa a participar quer no embargo quer na Guerra do Golfo de 1991.
          O principal motivo que originou a participação supracitada do navio, advém do facto de ser o então único navio da Marinha de Guerra Portuguesa que desempenhava as funções de “Navio de Apoio Logístico” e, que por inerência preenchia o requisito que a 30 de Agosto de 1990 o Governo Português no âmbito da colaboração com as forças da UEO no embargo decretado ao Iraque, decidiu disponibilizar - um Navio de Apoio Logístico e de não participar ofensivamente com tropas destacadas no TO, conforme apelo de envio de reforços por parte do então Secretário de Estado Norte-americano James Baker aos Aliados da NATO.















"São Miguel" atracado na  Doca da Marinha (Foto cedida por Luís Miguel Correia)

          Efectuou duas viagens de ida e volta do Porto militar de Marchwood, em Southampton - Reino Unido, para o Porto de Al-Jubail - Arábia Saudita, transportando diverso material militar do Exército britânico e kuwaitiano, no mais curto prazo de tempo, para as suas tropas estacionadas na Arábia Saudita, missão designada por «Operação Granby» nome de código atribuído pelos britânicos à operação de transporte logístico para as suas forças no Golfo Pérsico destacadas na “Operação Tempestade no deserto”:
- Material electrónico;
- Equipamento de Engenharia Militar (24 secções de pontes);
- Peças do carro de combate britânico CHIEFTAIN Mk5 MBT;
- 700 paletes de lagartas de carros de combate;







































Faina de carregamento do porão com paletes de lagartas de carros de combate (Foto de Cte. Rodrigues da Conceição)

- 06 canos de peças de artilharia de 120mm da ROYAL ORDNANCE;
- 200 paletes de rações de combate;
- 187 paletes de pratos de comer;
- 163 paletes de Heliportos LONG MARSTON;
- 79 paletes de redes de camuflagem;
- 797 pneus GOODYEAR de camiões pesados;
- Vedações para campos de prisioneiros;
- Dezenas de paletes com munições de 120mm HESH / APDS da ROYAL ORDNANCE;
- 06 jipes LAND ROVER de ½ toneladas da engenharia britânica;
- 01 camião BEDFORD de 4 toneladas da engenharia britânica.
          O navio zarpou para a sua 1.ª viagem às 16:30 do dia 31 de Outubro de 1990 da Doca da Marinha, navegando 900 milhas até Marchwood, pouco antes da Fragata F483 NRP "Sacadura Cabral" destacada para a NAVOPFORMED no Mar Mediterrâneo, na presença em terra de entidades oficias políticas e militares, Banda da Armada, comunicação social, familiares, amigos e camaradas da guarnição.
          Já no Rio Tejo, foi saudado pela Nau "St.ª Maria" e dezenas de embarcações que apitaram e lançavam jactos de água, demonstrando a solidariedade e camaradagem dos Homens do Mar!
          Na primeira viagem, a missão foi cumprida em 60 dias (31 de Outubro a 29 de Dezembro de 1990), sendo a missão noticiada de certa forma negativa pela comunicação social nacional, não obstante as declarações abonatórias verbalizadas pelo então próprio CEMA e diversas autoridades militares britânicas que, satisfeitos com o desempenho do navio, solicitaram novamente a sua colaboração para outra viagem igual.












Fundeado em Cascais, já carregado, a caminho da 1.ª viagem ao Golfo Pérsico (Foto cedida por Cte. Paulo Breia)

          Por questões de precaução e segurança a bordo, durante as viagens a guarnição foi reforçada (09 Oficiais, 10 Sargentos e 49 Praças), sendo todos apetrechados com fatos e equipamento de protecção individual para guerra NBQ de fabrico inglês, guarnição que sempre se pautou por estar mentalizada, preparada e moralizada para o cumprimento da missão.






















Elementos da guarnição com fato de protecção individual para guerra NBQ (foto cedida por Emanuel Almeida)

          Conjuntamente o nível de segurança foi aumentada, por iniciativa do Aspirante da Reserva Naval na qualidade de Chefe do Serviço de Artilharia, assim quando a navegar eram colocadas 04 espingardas HK G3 e respectivas munições na Ponte de Comando, quando atracado as armas eram distribuídas pelo Grupo de Serviço, bem como 02 pistolas P38 WALTHER ao Oficial e Sargento de dia, como medida dissuasora e por forma a reforçar o controlo da entrada e saída a bordo de pessoas e bens estranhos à guarnição (estivadores, carregadores, militares, fornecedores, agentes, amarradores, etc).
          Foi igualmente elaborado e aprovado pelo Comando do navio em Setembro de 1990 (para em caso de necessidade), um Plano de Destruição do Navio por recurso a explosivos (cargas de demolição e explosivo plástico PE4A montados no costado dos três porões e casa das máquinas), com a colaboração do Centro de Instrução de Minas e Contra-Medidas.
          Durante a faina de descarga no Porto de Al-Jubail - Arábia Saudita a guarnição chegou a envergou os fatos e equipamento de protecção individual para guerra NBQ (nuclear, biológico e química) mais de 02 horas, devido a um alarme de ataque iraquiano ao local (onde se encontravam concentravas várias forças da coligação), motivado pelo lançamento de 03 mísseis balísticos terra-terra SCUD-B de fabrico russo pelo Iraque, mas desconhecendo-se o tipo de ogiva.
          De realçar que os fatos e equipamento de protecção individual para guerra NBQ eram de fabrico inglês e distintos dos habitualmente utilizados na Marinha Portuguesa, o que obrigou a algum treino da guarnição a empregar os mesmos no mais curto espaço de tempo em caso de necessidade.

























O Oficial Imediato apetrechado com fato e equipamento de protecção individual para guerra NBQ (foto cedida por Cte. Rodrigues Pereira)

          É ainda de referir que o navio encontrava-se na situação de «prontidão de 48 horas» desde 12 de Setembro, as autoridades inglesas enviaram um Oficial da RFA - Royal Fleet Auxiliary para visitar detalhadamente o navio e as suas características e antes de zarpar procederam-se a algumas melhorias em determinados equipamentos do navio:
- Navegação, Comunicações e Limitação de Avarias;
- Montagem de chuveiros contra ataque NBQ;
- Estanquidade das áreas habitacionais;
- Pintura das superestruturas.
Deste modo, na fase de aprontamento para a Missão ao Golfo Pérsico, as ajudas electrónicas à navegação foram aumentadas pela montagem em Lisboa de alguns equipamentos a título de empréstimo:
- Receptor Satélite Raytheon GPS Navigator Raystar 920;
- Receptor Sait Navtex 2 - XH5123;
- Receptor Facsimile Furuno DFAX;
- Girobússola SPERRY Mk27.
          Foi ainda instalado o radiogoniómetro Ondex Tayo TP - C338HS e um novo VHF SAIT RT 2048.
          A 09 de Abril de 1991, antes de zarpar de regresso definitivo a Portugal ocorre a despedida formal a bordo por parte das autoridades britânicas, representadas na pessoa do Brigadeiro Director-Geral dos transportes militares do MDN britânico, que deslocou-se de propósito de Londres para agradecer a colaboração do navio na "Operação Granby", honrando a mais velha aliança militar do mundo!




















Despedida das autoridades britânicas da guarnição do "São Miguel" (Foto de Cte. Rodrigues da Conceição)

          Na manhã do 13 de Abril de 1991, chega a Portugal atracando pelas 11:00 no cais n.º 08 da BNL, após 06 meses de missão, sendo recebido pela Banda da Armada, familiares, camaradas, amigos, um representante do MDN, Oficiais de serviço ao CNC e EMA.





















Oficiais do navio dotados de turbantes coloridos (Foto cedida or Cte. Rodrigues Pereira)

          De salientar a presença de poucos órgãos de comunicação social e o facto de ter sido determinado superiormente atrasar-se a sua chegada, fora da barra, com o intuito de não ocorresse em simultâneo com a cerimónia presidida pelo então Primeiro-Ministro e presença do então Ministro da Nacional da entrega do Estandarte à Fragata F330 NRP "Vasco da Gama".
          Durante esta missão navegou cerca de 2.700 horas (correspondente a cerca de 100 dias), percorreu cerca de 28.000 milhas (1,5 o diâmetro do planeta no Equador), transportou 3.200 toneladas ao todo e escalou os Portos de Lisboa, Southampton, Marchwood, Potsmouth, Gibraltar, Marselha, Palma de Maiorca, Pireu (Atenas), Alexandria, Port Said, Port Suez, Al Jubayl, Damman e Fujhairah.























Rota efectuada pelo "São Miguel" (Imagem cedida por Cte. Rodrigues da Conceição)






















Atracado em Port Said, em frente da sede da Companhia do Canal do Suez (Foto cedida por Cte. Rodrigues Pereira)





















O "São Miguel" no Canal do Suez (Foto cedida por Rogério Marques)

          A 15 de Abril de 1991, findo as missões na guerra do Golfo Pérsico o Comandante do navio concede um louvor colectivo à guarnição do "São Miguel" ao abrigo do art.º 21 do RDM (posteriormente publicada na OA/1), tecendo elogios a dedicação, eficiência e esforço tendo em linha de conta as carências e limitações do navio, assim como o cumprimento das missões com uma elevada taxa de operacionalidade e navegação sem período de descanso no teatro de guerra.























Guarnição do navio (Foto cedida por Cte. Rodrigues Pereira)

          Diversas entidades militares e civis estrangeiras assinaram o Livro de Honra do navio e, a guarnição do navio deste período (3.ª guarnição) criou um autocolante alusivo à missão ”Golfo Pérsico / 90 – 91 / Estivemos lá”, baseado num concurso de ideias efectuado a bordo, igualmente durante vários anos reunia-se anualmente no dia 13 de Abril para um almoço de confraternização.

























Autocolante  alusivo à missão (Imagem cedida por Cte. Rodrigues Pereira)

          Ainda em 1991, o Comando do Navio solicitou a atribuição da Medalha Comemorativa das Campanhas e Comissões Especiais das FA's Portuguesas relativamente ao destacamento do “São Miguel” na Guerra do Golfo, mas não obteve Despacho, somente a partir de 2015 começou a ser atribuída por requerimento pessoal dos elementos da guarnição interessados.
          A título de curiosidade, a tripulação do avião Hércules C-130 da FAP também destacado para o TO foi agraciada individualmente com a Medalha de ouro de Serviços Distintos do MDN, pouco depois do seu regresso a Portugal e, o governo britânico atribuiu a todos os elementos militares e civis participantes na “Operação Granby” (estrangeiros inclusivo), uma medalha comemorativa.