26/11/20

ARTIGO PUBLICADO NA REVISTA DESEMBARQUE

          Foi publicado na Revista: "O Desembarque" da Associação Nacional de Fuzileiros um artigo sobre as RAMONAS: "Viaturas celulares da Polícia Naval".

O meu muito obrigado, mais uma vez, a todos que contribuíram para a sua compilação.

- http://www.associacaofuzileiros.pt/pdf/Desembarque_37.pdf



04/11/20

PROMOÇÃO DE LIVRO: "O MISTÉRIO DO ANGOCHE"


 
         Quem se recordará ainda? Perfazem-se 50 anos em 23 de Abril de 2021. Que ”segredo de estado” informal será esse que lançou um véu de ocultação e desinformação sobre os factos ocorridos com o “navio-fantasma” português, toda a tripulação desaparecida até hoje, sem mortos ou despojos registados?
O livro vem levantar essa capa.

“O Mistério do Angoche”
          A crónica de uma investigação. Quem em Portugal planeou, executou, e ocultou a autoria do ataque terrorista ao navio Angoche nas costas de Moçambique em 1971?
O presente livro propõe-se desvendar o enigma.

Outros mistérios correm neste Portugal contemporâneo a par do “caso Angoche”:
- AGINTER-PRESS - a “outra PIDE” - agência de espionagem e de mercenários vertente portuguesa da Operação Gládio “filha” da NATO e da CIA.
- O enigmático Mr. HERBERT LESTER - agente secreto e conselheiro de Salazar.
- A rede de JORGE JARDIM - o “Lawrence d’ África”.
- “Conde de Pavullo” - o patriarca ZOIO - e uma teia lusa de “mercadores da morte”.

Moçambique, 23 de Abril de 1971, sexta-feira à noite.
          O navio português Angoche é atacado, incendiado. Por quem? Os ocupantes, 23 elementos da tripulação e um passageiro, desapareceram todos.
O Angoche está deserto.
          Dois dias depois, ao entardecer de domingo, 25 de Abril de 1971, uma mulher portuguesa de um bar de alterne é “suicidada”, atirada do 5º andar de um prédio da cidade da Beira, o “Miramortos”. Um mistério ligará os dois casos?
Nunca apareceu nenhum dos homens do Angoche, vivos, mortos, ou quaisquer despojos.

Um x-files, autênticos “ficheiros secretos” à portuguesa. Sabemos agora quem são os responsáveis e vamos apontá-los!

Pré-lançamento / venda com envio pelos CTT ou em mão e, em breve, nas livrarias:
Pelos CTT: Transferência de 25,00€ euros para o NIB: 0018 0003 3249 2209 0204 5 e mandar comprovativo para o mail: paulo@pauloliveira.com
Envie nome, endereço e indique o NIF caso pretenda factura.
Nota: apenas enviamos pelos CTT para território nacional.

O Autor:
          Nascido em Lisboa em Setembro de 1959, fui com a família para Moçambique em Agosto de 1960, residi em Lourenço Marques (Maputo) até Setembro de 1979.
          Praticante e instrutor de paraquedismo com licença de queda-livre no Aeroclube de Moçambique em 1978/1979, cursei Engenharia Electrotécnica na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo. Regressei a Lisboa em Setembro de 1979.
          Vivi na África do Sul em 1983 e 1984 sendo ao tempo correspondente de vários jornais portugueses.
Jornalismo e Publicidade foram áreas em que me envolvi também em Lisboa de 1982 a 1987. Realizei diversos trabalhos na área de informática desde 1991 até ao presente.
          Desenvolvendo o que começou por ser um hobby, formei a “Portugal Wild Trail” - entidade de animação turística / Turismo de Natureza - com organização de eventos em Sintra, Cascais, Oeiras, Mafra, Lisboa e Alenquer - passeios, caminhadas, foto-safaris e provas de degustação de vinhos e produtos locais.
          Colaboração com projectos Google: Guia Local / Google Local Guide - Level 10 (nível de topo), e Google Street View Pro Trusted - Certificado de Fotógrafo Fidedigno.

A Obra
Publicou: 
Dossier Makwákwa - Renamo: uma descida ao coração das trevas
Mak - Operação D7 (em preparação / já publicado em formato electrónico)
O Mistério do Angoche
Após o “Coração das Trevas”: 1991 / 1997 Deambulações e apontamentos de viagem (em preparação).

07/06/20

AS BERLIET-TRAMAGAL DOS FUZILEIROS

          Este artigo foi inicialmente redigido em 2017, poucos meses depois das Comemorações do "Dia da Marinha", a convite pelo então Director da Direcção de Transportes da Marinha, tendo sido publicado parcialmente (por limite de páginas e ilustrações) na Revista da Armada n.º 544 de Setembro de 2019.
         Posteriormente foi publicado na íntegra na Revista Desembarque n.º 35 de Março de 2020 da Associação da Fuzileiros.
        Optei por publicar também neste blogue o artigo (com algumas actualizações) por forma a ilustrar todas as fotos reunidas das viaturas em apreço, dado que várias não foram publicadas em ambas as revistas citadas devido ao limite de ilustrações. Outro motivo advém do facto de servir mais uma vez de agradecimento e reconhecimento pelo pronto contributo com fotos, dados e testemunhos de vários civis e militares.

A Berliet-Tramagal foi montada entre 1964 e 1974 em Portugal sob licença pela fábrica MDF (Metalúrgica Duarte Ferreira, SARL) com instalações situadas no Tramagal.
É uma viatura pesada baseada no modelo comercial francês de 1956 “Gazelle” da Berliet, tendo sido especificamente modificado e reforçado, originando os modelos da série “GBC KT” para utilização no conflito da Argélia pelo Exército francês.


Berliet Gazelle (Foto da Internet)

            Na sua linha de montagem a MDF construiu ao todo 3.549 viaturas:
- 1.670 exemplares desde 1964 do modelo “GBC 8 KT 4x4”;
- 972 exemplares desde 1966 do modelo “GBC 8 KT 6x6”;
- 907 exemplares desde 1968 do modelo “GBA MT 6x6”.
Foi adoptada como viatura táctica de transporte de carga e pessoal na Guerra do Ultramar, atendendo às necessidades das FA’s (Forças Armadas) Portuguesas, nomeadamente do Exército Português e, por forma a substituir meios motorizados obsoletos nas Unidades em comissão de serviço, como por exemplo as viaturas pesadas Norte-americanas “GMC” da General Motor do período da 2.ª Guerra Mundial e, viaturas pesadas civis de mercadorias militarizadas com simples tracção traseira (Mercedes, Scania e Volvo).
Tem como principais características: ser uma viatura simples e desprovida de comodidades; de baixo custo de produção e manutenção fácil de 1.º escalão; possui capacidade Todo-o-Terreno e tracção integral; dispõe de ângulos de ataque e saída muito elevados atendendo a sua dimensão.
      O modelo Berliet-Tramagal “GBC 8 KT” com tracção 4x4 pesava 5.980 kg e possuía capacidade para 4 toneladas de carga ou transportar 20 militares totalmente equipados (mais 01 condutor), dispõe de um motor Berliet M520 de 5 cilindros e 7.900 cc com 125 cv a 2.100 rpm, velocidade máxima de 82 km/h e autonomia máxima de 800 km.


Berliet-Tramagal GBC 8 KT 4x4 (Foto da Internet)

Em 1966 a MDF apresentou às FA’s Armadas Portuguesas o modelo “GBC 8 KT” com tracção 6x6 de rodado simples, que já incorporava 50% de componentes de fabrico nacional, tendo sido bem aceite pelo Exército Português observando a mais-valia do desempenho Todo-o-Terreno em relação ao modelo anterior de tracção 4x4.
Pesava 8.370 kg e possuía capacidade para 5 toneladas de carga ou transportar 20 militares totalmente equipados (mais 01 condutor), disponha de um motor Berliet M520 B de 5 cilindros e 7.900 cc com 125 cv a 2.100 rpm, velocidade máxima de 85 km/h e autonomia máxima de 800 km.


Berliet-Tramagal GBC 8 KT 6x6 (Foto da Internet)

         Os modelos da série “GBC KT” tinha a famosa particularidade do motor ser policarburante, isso é, mediante um manípulo selector de combustível, trabalhava com gasóleo, gasolina ou outros carburantes como: petróleo refinado, querosene, óleo de motor, água rás, álcool, óleo de fígado de bacalhau, diluente, brilhantina, parafina e óleos vegetais.
          Em 1968, com o intuito de simplificar, aumentar e baratear o processo de produção, o fabricante nacional concebeu o modelo “GBA MT” com tracção 6x6, com menos peso e dimensão e ligeiras diferenças exteriores em relação ao modelo “GBC”, fruto da experiência do comportamento da viatura nos TO’s (Teatro de Operações) africano.
Pesava 7.150 kg, tinha capacidade para 4,5 toneladas de carga ou transportar 18 militares totalmente equipados (mais 01 condutor), dispõe de um motor Berliet M420/30XP a diesel de 4 cilindros com 135 cv a 2.600 rpm, velocidade máxima de 85 km/h e autonomia máxima de 800 km.


Berliet-Tramagal GBA MT 6x6 dos Fuzileiros (Foto cedida pelo CCF)

As diferenças mais notórias são: tampa do motor (capó) mais curta e simplificada com ângulos mais direitos; reposição dos faróis dianteiros; introdução de pequenas modificações no depósito de combustível e instalação de aberturas laterais do compartimento do motor por forma a facilitar a ventilação e evitar o sobreaquecimento, atendendo ao clima dos TO’s africanos.
Ambos os modelos “GBC” e “GBA” eram muito apreciados pelas tropas portuguesas nas antigas colónias em África pela sua robustez, força do motor, capacidade de passagem a vau de cursos de água até 1,2 m (GBC) / 1,5 m (GBA) de profundidade graças à estanquicidade do motor e depósito de combustível, o guincho mecânico que permitia ter saída para a frente e traseira da viatura, facilitando a resolução de problemas no terreno.



Berliet-Tramagal GBC em 1.º plano e GBA em 2.º plano (Foto de Pedro Monteiro)

A robustez da carroçaria da viatura em aço oferecia uma certa resistência à deflagração de engenhos explosivos (minas Anti-Pessoal / Anti-Carro / fornilhos), que se reflectia na mais-valia de contribuir para a redução de baixas e respectiva confiança, força anímica e moral das Forças em campanha.
Fruto de apresentar o eixo dianteiro adiantado em relação à posição do condutor, muitas Berliet-Tramagal foram empregues na função de “rebenta-minas”, seguindo à frente das colunas motorizadas, sendo apetrechadas com diversos sacos de areia de modo aumentar o peso da viatura e absorver o impacto da explosão, tendo por regra como único ocupante o próprio condutor.



Berliet-Tramagal "Rebenta-minas" (Foto da Internet)

No início de 1974, após uma visita do então CEMGFA General Costa Gomes aos TO’s de Angola e Moçambique, foi convocada para 22 de Fevereiro de 1974 a Comissão Conjunta dos Chefes de Estados-Maiores para debater os planos de aquisição e orçamentos para 1974 e uma previsão para 1975.
Dessa Comissão foi elaborado um Apontamento onde ficou previsto que a renovação das viaturas das Unidades de Fuzileiros deveria processar-se automaticamente e abranger anualmente ¼ da dotação total.
Ficou ainda acordado nesse Apontamento a possibilidade de substituir as Mercedes por outra mais adequada para as missões, podendo a solução recair na Berliet-Tramagal, permitindo obter mais-valias no tocante a logística e manutenção ao se uniformizar com o Exército Português.
A 16 de Maio de 1973 é efectuada uma proposta de aquisição da viatura táctica pesada “Berliet-Tramagal GBC 8 KT 6x6” à Marinha Portuguesa pelo seu fabricante nacional - a MDF.
Este modelo de viaturas tácticas foram adquiridas a 13 de Julho de 1973 e entraram ao serviço da Marinha Portuguesa em pequeno número (presume-se terem sido somente 5 exemplares) em 28 de Agosto de 1973, não obstante é de realçar que do que foi possível aturar por recurso a testemunho de Fuzileiros Veteranos da Guerra do Ultramar, que foram enviadas para o Comando Naval de Angola e destacadas para Vila Nova da Armada 02 Berliet-Tramagal “GBC’s”, que findo o conflito regressaram a Portugal.


Berliet-Tramagal GBC 8 KT 6x6 dos Fuzileiros em Vila Nova da Armada - Angola (Foto cedida por SAJ FZE Valter Raposeiro)

Uma dessas “GBC” manteve a função de transporte de pessoal e chegou a estar destacada na UAMA / UMD, o outro camião (AP-18-14) foi enviada para a própria fábrica MDF (tal como sucedeu a algumas viaturas do mesmo modelo do Exército Português) para ser modificada para a função de “Pronto-Socorro”, sendo dotada de grua mecânica "MDF" com capacidade para rebocar uma viatura sobre-elevada até o máximo de 3500kg e um pirilampo para sinalizar a marcha-lenta.
É de referir, igualmente, que existiam alguns destes camiões no Comando Naval de Moçambique, cedidas a título de empréstimo pelo Exército Português (dispunha mais de 610 exemplares em África), mas que nunca receberam matrícula da Armada e eram utilizadas para missões logísticas e administrativas, por vezes apoiavam a movimentação de Unidades de Fuzileiros, tal ocorreu por exemplo com o DFE - Destacamento de Fuzileiros Especiais n.º 1 (1967 - 1969) em Cabo Delgado no Norte de Moçambique.










Berliet-Tramagal do Exército Português emprestadas aos Fuzileiros em Moçambique (Foto cedida por FZE António Manuel Carvalho)

        No que concerne ao modelo “GBA”, segundo os registos da DT - Direcção de Transportes, a dotação da Marinha / Fuzileiros era de 12 exemplares e eram consideradas: «viaturas especiais» para efeitos de Cadastro de Viaturas e, designadas oficialmente em termos de tipo de material pelas Instruções Técnicas dos Fuzileiros por: «Viatura Táctica Pesada 6x6 Berliet GBA», entraram ao serviço da Marinha Portuguesa entre Novembro de 1974 e Junho de 1975, tendo sido adquiridas com verbas do OFNEU74 / OFNEU75 e destacadas à carga do Batalhão de Fuzileiros n.º 3 (Unidade de manobra), mais concretamente do «GTTT - Grupo de Transportes Tácticos Terrestres», configurando uma Unidade de Apoio de Combate.



Viaturas do GTTT do BF n.º 3 (Foto cedida por Cabo FZE Liberto Cartó)

De salientar que em 1975 estas viaturas tácticas pesadas ofereceram aos Fuzileiros flexibilidade e mobilidade operacional num momento em que transitavam por um processo de adaptação de guerra de guerrilha para conflitos de cariz mais convencional e, permitiram aumentar a capacidade de manobra táctica, permitindo o emprego desta força de elite em situações de maior exigência operacional num largo espectro de exercícios, operações e actividades militares.
No passado recente da história portuguesa, no período político-militar denominado por "Verão Quente" de 1975 e anos que se seguiram, os Fuzileiros participam activamente com as suas 12 Berliet-Tramagal GBA em várias missões de Manutenção da Ordem Pública e, esporadicamente em Campanhas de Dinamização Cultural e Acção Cívica do MFA (Movimento das Forças Armadas) de apoio às populações.



Coluna de Berliet-Tramagal dos Fuzileiros em 1975 (Foto cedida por Cabo-Mor FZ Jorge Almeida)

Como viatura de transporte táctico, transportavam Unidades de Fuzileiros (uma viatura por Pelotão) que se encontravam em estado de prontidão imediata e atribuídas ao COPCON (Comando Operacional do Continente), desempenhando um papel determinante como demonstração de força, por vezes quando era necessário incrementar o grau de resposta, essas missões eram reforçadas pelas viaturas blindadas Chaimites dos Fuzileiros.
Tais missões tinham por áreas de responsabilidade e intervenção o Distrito de Setúbal e Concelho de Almada, manter a Ordem Pública na zona de Almada (incluindo no Arsenal de Alfeite e na Lisnave) e Trafaria, assim como os designados "Pontos Sensíveis": instalações da NATO, abastecimento de água, postos de transformação da EDP, fábrica de munições, fábrica da pólvora, instalações de entidades públicas, etc.


Berliet-Tramagal dos Fuzileiros em missões e exercícios em 1975 (Foto cedida por Cabo-Mor FZ Jorge Almeida)

Neste período político-militar para além das próprias Berliet-Tramagal os Fuzileiros utilizaram este modelo de camiões cedidos pelo Exército Português, tal sucedeu a título de exemplo com a Companhia de Fuzileiros n.º 7, conhecida pela alcunha de "Ralis das Lezírias" destacada no G1EA - Grupo n.º 1 das Escolas da Armada em Vila Franca de Xira, quando prestou serviço sob Comando do COPCON, dispondo de duas Berliet GBC cedidas pelo Exército, assim como uma Unimog dotado de canhão sem recuo de 106mm entre os dias 24 e 26 de Novembro.
Estas viaturas também eram presença assídua em desfiles militares, exercícios exclusivos dos Fuzileiros, sectoriais da Marinha (PHIBEX) e conjuntos ou combinados com os restantes Ramos das FA's Portuguesas ou estrangeiras (ALBATROZ / MARTE / GALERA).

Berliet-Tramagal e exercícios de desembarque de LDG's

Nos Fuzileiros durante grande parte do ano operacional as viaturas circulavam desprovidas do toldo de lona da cabine e da traseira, respectiva armação e laterais do compartimento de carga junto ao chassis, igualmente os estrados dos bancos eram colocados de forma as tropas transportadas permanecessem de costas contra costas, por forma a permitir rapidamente abandonar a viatura em caso de necessidade, configuração que já era empregue na Guerra do Ultramar para reacção a emboscadas.


Exercício de reacção a emboscada (Foto cedida por FZ José Aleixo)

Em 1977, quando as viaturas ainda se encontravam sob tutela do BF n.º 3, foram implementados projectos nas oficinas da SAO - Serviço de Assistência Oficinal da FFC - Força de Fuzileiros do Continente, por iniciativa do então Comandante do Batalhão - Cte. Alves da Rocha, que visavam utilizar o seu potencial de “massa”, “velocidade” e de “apoio de combate”, mediante a instalação de armas de apoio de fogos na sua estrutura, mais concretamente a montagem de um reparo na cabine para suportar metralhadoras-ligeiras HK MG-42 / MG-3, assim como um artefacto na traseira para acoplar os pratos-base de morteiros de 81 mm, transformando a viatura num “vector de multiplicação de forças”.
Este mesmo Oficial foi encarregado anteriormente pela construção da pista de treino táctico de Fuzileiros condutores (FZV) de viaturas de tracção total existentes na FFC, treino que incluía a responsabilização de cuidar pelo grau operacional da viatura atribuída e respectiva manutenção de 1.º escalão, gerando o binómio condutor/viatura táctica.
Esta pista situava-se no interior da FFC, no perímetro interior da Unidade, com início ao fundo da parada junto da Enfermaria, sendo constituída por vários obstáculos consecutivamente, colocando à prova a coragem, determinação e destreza dos FZV e testando os limites técnicos das viaturas.
O treino táctico dos FZV também era realizado nas praias do litoral próximo, envolvendo estudos de percursos viável entre marés, nas praias da Costa da Caparia até ao Cabo Espichel.



Berliet-Tramagal numa BTE em Olhão em 1977 (Foto cedida por SMOR FZE Miguel Aleluia)

Em 1978, a Berliet-Tramagal AP-19-31 sofreu um aparatoso acidente no Portinho da Arrábida, tendo inclusivo rolado várias vezes, do qual resultou alguns feridos ligeiros entre Fuzileiros que transportava na traseira, tendo sido posteriormente recuperada e voltado ao serviço.
Em Junho de 1979, dada a premência de obter uma melhor racionalização dos meios de apoio atribuídos às Unidades dos Fuzileiros, são edificados na dependência do CCF, diversas Unidades, entre elas a UATT - “Unidade de Apoio de Transportes Tácticos”, para onde, já em Junho de 1978, transitaram as Berliet-Tramagal e as restantes viaturas tácticas ligeiras e pesadas de todas as Unidades do Corpo de Fuzileiros, mantendo estas somente as viaturas ligeiras administrativas da sua dotação.
Uma das Berliet-Tramagal dos Fuzileiros esteve destacada diversos anos na Escola de FZ’s para efeitos de instrução de condução (formação operacional), outra desempenhou a mesma função no G1EA - Grupo n.º 1 das Escolas da Armada em Vila Franca de Xira.
Em 1994, a Berliet-Tramagal GBC AP-18-14 Pronto-Socorro com grua mecânica "MDF" procedeu ao reboque de 03 viaturas blindadas anfíbias Chaimite dos Fuzileiros até a Secção de Inúteis da Direcção de Abastecimento da Marinha.


Berliet-Tramagal dos Fuzileiros em diversos desfiles motorizados

Todas as viaturas em apreço (GBC e GBA) foram abatidas ao efectivo entre 1996 e 1999, demarcando-se com Honra na História dos Fuzileiros, durante pouco mais de duas décadas de serviço e, certamente na memória de várias gerações dos “Filhos da Escola”!
Importa realçar que a MDF também montava a Berliet-Tramagal para forças militares na versão de camião-oficina e camião cisterna de 5.000 lt para hidrocarbonetos e, que os 03 ramos das FA’s Portuguesas as adaptaram para diversas funções, suportar certas cargas, sistemas de armas ou equipamento específico.


Berliet-Tramagal GBC com sistema de armas anti-aérea quádruplo dotado de canhões Oerlikon de 20mm a desfilar em Luanda - Angola (Foto de Luís Ferreira)

Várias GBC e GBA transitaram posteriormente das FA’s para diversas corporações de Bombeiros que as adaptaram ao combate a incêndios e, de empresas e particulares que as modificaram para as mais variadas utilidades, actualmente algumas encontram-se na posse de associações e coleccionadores de antigas viaturas militares, sendo que algumas são presença assídua em encontros e concentrações de viaturas militares clássicas.


Berliet-Tramagal GBA de Bombeiros (Foto de Raul Nunes)

O Exemplar GBA 6MT de matrícula “AP-19-32”, a penúltima do seu modelo a entrar ao serviço nos Fuzileiros a 18/06/1975 e abatida a 07/07/1999, começou a ser recuperada pela DT em 2014 da Secção de Inúteis da Direcção de Abastecimento da Marinha, para integrar o “Núcleo Museológico de Viaturas Antigas da Marinha”, sendo de louvar esta iniciativa tendo em linha de conta que se trata de uma viatura emblemática das FA’s Portuguesas. De destacar que o Regimento de Manutenção (Entroncamento) do Exército Português colaborou cedendo algumas peças e o toldo de lona traseiro.




Berliet-Tramagal GBA na Secção de Inúteis da Direcção de Abastecimento da Marinha

Foi apresentada publicamente, pela primeira vez, nas comemorações do “Dia da Marinha de 2017” na Póvoa do Varzim / Vila do Conde, fazendo por certo recordar tempos passados de diversos cidadãos que cumpriram o SMO - Serviço Militar Obrigatório, as delícias dos entusiastas de viaturas militares clássicas e de modelistas.


Berliet-Tramagal GBA em fase de recuperação

Tendo sido convidado para estar presente na tribuna durante estas comemorações pelo então Almirante CEMA - Almirante António Silva Ribeiro, foi com grande surpresa que contemplei a presença desta viatura exposta, sendo que por obra do acaso o meu lugar na tribuna ombreava com o do então Director da Direcção de Transportes - CMG EMQ Carmo Limpinho que conheci durante o evento e em tom de conversa foi notório o orgulho pelo trabalho e façanhas realizado pelo seu pessoal na recuperação desta viatura e outras do “Núcleo Museológico de Viaturas Antigas da Marinha”.
Tomado pela curiosidade e em consequência da conversa supramencionada, já quando fui observar com mais detalhe a viatura em exposição estática, fiquei admirado com o estado geral impecável em que se encontra, acaso para se dizer “como novo”! fruto da sua recuperação.

Berliet-Tramagal GBA em exposição no Dia da Marinha 2017

No entanto, mais interessante foi verificar a reacção perante a viatura de alguns cidadãos que pela sua conversa com familiares ou amigos apercebi-me tratarem-se de antigos combatentes da Guerra do Ultramar; em tom de confidência, posso afirmar que fiquei particularmente sensibilizado ao verificar a reacção emotiva de um desses cidadãos que finda a verbalização de uma história de uma ocorrência em Moçambique a familiares, lavado em lágrimas literalmente abraçou a frente da viatura por uns momentos, como se fosse um antigo camarada que não via a décadas e que segundo a história a quem deve a sua vida!...
A DT futuramente pretende recuperar o camião-cisterna de Limitações de Avarias da Marinha de matrícula “AP-26-25” Tramagal TT13/160 6x6 Turbo de 13 toneladas, também fabricado pela MDF e que esteve destacada na Escola de Fuzileiros (possuía a matrícula DT-20).


Camião-cisterna de Limitações de Avarias da Marinha Tramagal TT13/160 6x6 Turbo

No que concerne ao modelismo, existe um kit de fabrico nacional e edição particular da autoria do Major Nogueira Pinto, modelista e Oficial na situação de Reforma do Serviço de Material do Exército Português, que permite montar na escala 1/35 a Berliet-Tramagal GBC 8 KT 6x6.



Kit de modelismo 1/35 de uma Berliet-Tramagal GBC 8 KT 6x6 “Pronto-Socorro”com grua mecânica "MDF"

Em Abril de 2018 foi lançado em Lisboa e no Porto o livro "Berliet, Chaimite e UMM: Os Grandes Veículos Militares Nacionais" do meu amigo Pedro Monteiro, que me concedeu a honra de fazer a apresentação do livro e autor na Livraria "Ascari" - Porto.


Capa do livro "Berliet, Chaimite e UMM: Os Grandes Veículos Militares Nacionais" de Pedro Monteiro

Cumpre-me agradecer a pronta ajuda de vários civis e militares na compilação de dados, documentos, fotos e testemunhos sobre as Berliet-Tramagal e o seu uso na Briosa pelos seus Fuzileiros. A todos Bem Hajam!

16/10/19

LANÇAMENTO DE LIVRO: "NRP SÃO MIGUEL - CORAGEM E DETERMINAÇÃO"


          Visa-se com este livro prestar homenagem a todos os militares que serviram naquele navio e enriquecer a história da Marinha.         
          Trata-se de um livro que relata a vida do N.R.P. “São Miguel” ao serviço da Marinha, das Forças Armadas e de Portugal, onde são mencionados os factos mais relevantes das várias missões e viagens realizadas, assim como muitas histórias que deram corpo às memórias escritas dos três Comandantes do navio, além de diversas considerações respeitantes à operação de afundamento do navio em 25 de Outubro de 1994.
          Este livro resultou da conjugação de vontades de alguns Oficiais com ligação afectiva ao "São Miguel" e reúne as memórias escritas Cte. Oliveira Costa (primeiro Comandante), do Cte. Brito Subtil e do Cte. Rodrigues da Conceição, assim como as considerações do Cte. Ferreira da Silva, ex-Imediato do navio que coordenou a operação do seu afundamento há 25 anos carregado com 2.200 ton de munições sentenciadas.
          São incluídas algumas transcrições do blogue "Barco à Vista", comportando cerca de 50 fotografias, e ainda recortes da imprensa da época.

RECORDANDO O NRP "SÃO MIGUEL":
https://barcoavista.blogspot.com/2018/01/recordando-o-nrp-sao-miguel.html

20/05/19

UMA IMAGEM MIL PALAVRAS! - DIA DA MARINHA EM COIMBRA 2019


FORMAÇÃO DE VETERANOS FUZILEIROS E ANTIGOS MARINHEIROS À CABEÇA DA FORMAÇÃO DAS FORÇAS EM DESFILE NO DIA DA MARINHA - COIMBRA 2019!

09/05/19

"OS SUBMARINOS NA MARINHA PORTUGUESA - 4.ª EDIÇÃO"

As “Edições Revista de Marinha” vão apresentar na próximo dia 17 de maio, às 18h00, no auditório da Douro Azul, na rua de Miragaia, o livro em apreço.
No fim da apresentação será servido um vin d’honneur, cortesia da firma Douro Azul, S.A..

Para controlo, agradece quem estiver interessado, que informe que pretende estar presente: 919 964 738.

Com cordiais cumprimentos,

Alexandre da Fonseca

11/04/19

PROMOÇÃO DE LIVRO: HOMENS DO MAR



          Depois da publicação de Grandes Batalhas Navais Portuguesas (2009 e 2013) e Grandes Naufrágios Portugueses ((2013), Homens do Mar, é o novo livro de José António Rodrigues Pereira para a Esfera dos Livros.
          Tem 51 biografias de homens ligados ao mar, desde chefes militares, navegadores e descobridores a cartógrafos, estrategistas, oficiais da marinha mercante e salvadores de náufragos.
          A obra será lançada no próximo dia 8 de Maio às 18h30, no Clube Militar Naval, em Lisboa. O clube fica situado na Avenida Defensores de Chaves nº 26, 1000-117 Lisboa.
         Será apresentada pelo Contra-almirante Palma de Mendonça. Os acessos podem ser feitos através da Estação de Metro do Saldanha; quem utiliza carro, pode estacionar no parque do Arco do Cego, que fica nas proximidades.
          Não estando ainda confirmada, é possível que venha também a ser apresentado no Museu Marítimo de Ílhavo a 2 de Junho pelas 17h00.

02/02/19

REFLEXÕES DE UM VELHO MARINHEIRO


ESCOLA NAVAL

Porque tem de ser uma escola exigente?

Reflexões dum velho marinheiro
(1259/22)

          Que diferenças existem entre as exigências de uma universidade e as de uma escola superior militar, mais exactamente a Escola Naval?
          Enquanto a Universidade prepara profissionalmente os seus alunos até concluírem os seus cursos, a Armada, através da Escola Naval, tem de assegurar que os seus cadetes, num limitado número de anos, sejam, para além dos seus cursos, ao longo das suas vidas, enquanto militares e marinheiros, líderes profissionalmente competentes em diversos domínios técnicos, tecnológicos e de gestão da própria Armada, independentemente dos cursos que venham a frequentar para atingirem, devidamente avaliados, as responsabilidades inerentes ao topo das suas carreiras.

          De facto, quando um jovem decide que curso universitário pretende fazer, pondera, além das suas próprias inclinações, a sua capacidade de almejar a admissão numa dessas Faculdades, a de concluir o curso com folgado êxito e, lançado num mercado competitivo, a de vir a alcançar uma posição profissional que sempre se deseja destacada. Claro que muitos aspectos de ordem prática, terá de enfrentar; em que universidade, em que cidade e tudo o mais que isso implica; as propinas, o alojamento, a alimentação, os transportes, os livros, além de outros, e finalmente a disponibilidade da família para suportar os custos decorrentes de tal pretensão.
          Claro que um jovem que se decida por uma carreira militar encontrará, quando admitido, após a prestação de provas literárias, médicas, físicas e psicotécnicas, muitos desses problemas resolvidos uma vez que, no final dos anos cinquenta do século passado, o Estado Novo, prevendo o que se poderia vir a passar no Ultramar, ter atempadamente reconhecido a necessidade de alargar os quadros de oficiais dos três ramos das Forças Armadas, especialmente do Exército, e ter abolido todos aqueles custos, passando a fornecer um conjunto completo de equipamentos (sobretudo os dispendiosos uniformes, etc.) e a contribuir ainda com uma pequena mesada, investindo assim nos rapazes que tendo concluído o ensino liceal, o actual 12º ano, mas que não tendo grandes oportunidades de frequentar qualquer uma das únicas universidades (as de Coimbra, Lisboa ou do Porto) pudessem sentir-se aliciados por um profissão militar, então muito prestigiada, mas sabidamente mal paga, a “miséria dourada” como então se dizia.
          Em 1958, a Escola Naval seguiu os passos da Escola do Exército que englobava as actuais Academias Militar e da Força Aérea, incluindo os Estudos Gerais Preparatórios, feitos ali ou nas universidades, no primeiro ano da sua Nova Reforma, com curricula adequados ao tempo. Desta forma se alargou o recrutamento de alunos, da escassa vintena/ano, para cerca de sessenta vagas, atingindo, logo naquele ano, o seu Corpo de Alunos a centena de cadetes.
Este figurino, reajustado às novas realidades, prevalece.
          Esta aliciante face da moeda tem, no entanto, o seu reverso. Enquanto o jovem universitário tem, num percurso isolado, de buscar o maior êxito pessoal face aos seus colegas e alcançar, por si, resultados que o tornem elegível na vida profissional, os alunos militares, em regime de internato, estão, ainda que o esqueçam, sujeitos a um escrutínio diário dos seus camaradas (aqui começam as grandes diferenças) e, mais atentos, ao exame dos seus superiores militares e ao dos seus professores, em termos da sua integração, aptidão e desenvoltura intelectual que garantam a sua capacidade de vencer, ao longo da sua carreira, os vários degraus a transpor.
          E porque o que nos ocupa é a Escola Naval, acentuamos; integração no convívio em espaços tão confinados quanto humanamente heterogéneos e sujeitos a adversidades diversas, naturais e outras, como ocorre num navio de guerra no alto mar, a requerer uma perfeita e universal adaptação, no tempo e no espaço.
          Claro que com a integração numa grande equipa hierarquizada, militar e funcionalmente, a guarnição de um navio de guerra, importa que a sua aptidão seja também marinheira, numa resultante específica da secular, mas dinâmica, cultura militar-naval.
          Finalmente, importa que incorporem um conjunto de diferentes requisitos, de suporte à rápida evolução das tecnologias, e que, face a uma variedade de inesperadas e simultâneas ocorrências que a bordo surgem, em tempo de paz e sobretudo em combate, simulado ou real, lhes assegurem a tomada de decisões rápidas e oportunas, dir-se-á, simplificando, de “bom senso”.
          E, sempre presente, o Direito Internacional Marítimo e a legislação em vigor no mar, da nacional à da U.E..
          Isto é assim, porque o será ao longo de uma carreira naval, enfrentando cada vez mais e mais complexas e exigentes responsabilidades, sempre sob olhares cruzados.
          Neste quadro, incluem-se os olhares dos seus novos pares, os oficiais, mas também os dos sargentos e das praças, homens e mulheres, com uma experiência prática em situações que serão, para si, novas, mas às quais não lhes podendo fugir, serão chamados a assumir decisões que irão, fatalmente, passar pelo exigente crivo de quem espera uma orientação acertada.
          Note-se que mesmo que recorram, se puderem fazê-lo em tempo oportuno, à experiência dos seus chefes directos (o que é estimulado), não deixarão de estar a revelar a sua insegurança, apesar da sua inexperiência ser de todos, superiores e inferiores, conhecida e já experimentada.
          Muito mais que mandar, esta arte de Comandar – COmandar - ir-se-á aperfeiçoando neste contacto diário com os subordinados e os problemas que se apresentarem, na conquista da sua Lealdade em retorno da Lealdade para com eles e da sua competência profissional e frontal humildade.
          Assim se irá, pela mútua COnfiança, alicerçando a COesão entre os que COmandam e os seus COmandados.
Mas vamos por partes.
          A Armada tem, antes de mais, presente que irá entregar a cada jovem oficial, a bordo de um navio, a responsabilidade por vidas humanas que além do seu valor intrínseco requereram ainda um investimento considerável na sua profissionalização e a que estão agregadas famílias que, confiadamente, esperam os seus regressos, sãos e salvos.
          Se este aspecto é capital, mais mediático é o facto de um navio de guerra ser uma arma extremamente cara que, poderemos comparar a um “enlatado”, densamente habitado, do  mais compacto e complexo concentrado de tecnologias de que o País dispõe, para a ser operado nas mais adversas circunstâncias, tanto em tempo de paz , como nas missões extremas de guerra, o objectivo central de toda a formação militar-naval.
          Por isso o treino no mar é uma constante da carreira, pois, em cada patamar, os exercícios assegurarão a maior probabilidade de êxito nos combates contra o “inimigo”, bem como na contenção dos “danos” sofridos, de modo a assegurar o sucesso operacional do navio, sem esquecer que em manobras internacionais as guarnições dos navios da nossa Marinha de Guerra, serão avaliadas, sobretudo, pelos nossos parceiros, como uma equipa de equipas que aos oficiais compete construir.
Isto no mar.
          Mas atracados, também. Aí, têm de saber participar nas reuniões de trabalho (os “Briefings”, etc.), bem como estar nos convívios sociais que ocorrerem, a bordo de outros navios de guerra ou em terra, e, identicamente, receber socialmente, no seu navio, camaradas estrangeiros ou entidades oficiais.
          Note-se que a imagem de cada elemento da guarnição, em uniforme ou em  traje civil (saber apresentar-se…), mulher ou homem, contribuirá para a apreciação global do Navio, da Força Naval, da Marinha de Guerra, da Armada e, claro, de Portugal. Uma só imagem negativa perante militares ou civis, arruinará o esforço de todos e cada um.
Essa, uma outra responsabilidade.
          Muitas vezes em portos a visitar, em simples trânsito ou por expresso interesse do Estado em marcar uma presença, dissuasora ou de outra ordem, a missão será tudo, menos bélica.
          Nestes casos, os oficiais, o alvo predilecto das elites locais, nacionais ou do país a visitar, têm, tal como toda a guarnição, de saber cativar, cultivando um certo tacto diplomático de modo a integrarem-se no estilo local, tantas vezes marcado por costumes diferentes, civilizacionais ou, por vezes, até no âmbito de culturas próximas da nossa que nos permita conhecer melhor o que ali se pensa ou faz e que nos possa ser útil
E…  perante nacionais?

          Há, normalmente, Portugueses nos portos estrangeiros que visitamos mas onde houver Comunidades Portuguesas são, as guarnições, habitualmente recebidas de modo amistoso e festivo e a quem terão, necessariamente, de retribuir.
          Cada oficial, como qualquer elemento da guarnição, tem de saber receber todos os compatriotas que se apresentarem a bordo, dos mais humildes aos melhor instalados na vida, quer em termos individuais, quer representando grupos, e de corresponder às suas expectativas, fazendo-os sentir-se em sua casa, mais coesos entre si e, assim, promovendo a sua própria imagem no país de acolhimento.
Essas missões são sempre, afectivamente, das mais compensadoras.
Mas sobressaltos podem ocorrer.
          Em portos estrangeiros, com ou sem qualquer afinidade connosco, poderá o navio ter de efectuar reparações ou aquisições que acentuam a responsabilidade de terem de participar em negociações e de decidir contratos em que terão de equacionar vários aspectos, defendendo os interesses nacionais sem descurar o interesse do seu navio ou da sua guarnição.
          Quantas vezes, felizmente esporádicas, não terão de instalar a bordo equipas nacionais ou estrangeiras, enviadas pela Armada, e de com elas navegar durante as eventuais reparações, sempre de modo a garantir a completa operacionalidade combatente do navio. Tudo isto requer um diálogo in loco e com a retaguarda, os Serviços, em terra, da Armada e, directa ou indirectamente, com as entidades civis ou militares, nacionais e/ou locais.
Mas a carreira dos Oficiais da Armada não decorre só no mar.
          Ao saírem da Escola Naval os futuros oficiais terão de estar preparados para enfrentar não só as missões para que forem nomeados, mas também os diversos cursos, sempre de duração prefixada, a que serão submetidos ao longo da carreira, de especialização técnico-naval ou para atingirem patamares em que serão chamados a cargos de maior responsabilidade, em áreas muito diversificadas, umas mais teóricas que outras, mas todas de aplicação prática de ordem operacional, administrativa ou pedagógica, no mar, em terra e até no ar:
- No âmbito operacional, embarcados em navios combatentes ou não, nos Estados-Maiores, a bordo ou em terra, sem esquecer os Fuzileiros, aonde poderão ser chamados a desempenhar as inerentes funções, em terra ou embarcados;
- Em termos administrativos acrescem as funções de apoio ao planeamento e à corrente logística de toda a máquina que requer infra-estruturas de variada ordem, impondo uma harmoniosa gestão de recursos, humanos e materiais, da mais diversa complexidade, a corresponder aos meios, cada vez mais sofisticados, de que teremos de dispor dado estarmos num mundo em contínua evolução.
- Para que a Armada funcione serão às diversas escolas chamados para aí concluírem a formação adequada ao desempenho de funções especializadas e poderem vir a integrar os seus corpos docentes, em funções pedagógicas adequadas ao nível dos vários cursos, dos mais elementares aos mais avançados.
          A par, sempre, os aspectos históricos e do Património material e até imaterial que importará conservar ou mesmo cultivar e dar a conhecer dentro e fora da Armada.
Falámos de desenvoltura intelectual?
          Esta poderá ter de ser posta à prova em escolas a frequentar no estrangeiro ou perante estrangeiros, convidados no âmbito dum profícuo intercâmbio internacional em que mandamos e recebemos os melhores.
Mas não se esgotam aqui os desafios da carreira militar-naval.
          Poderão prestar serviço em Estados-Maiores que antecipam as necessidades, propõem as medidas e acompanham a execução dos planeamentos.
          Importa saber que as missões, quer no mar quer em terra, a que a seu tempo poderão aceder os jovens formados na Escola Naval, se não esgotam na área militar-naval que é o cerne da sua formação.
          O Serviço Público do Estado, no mar, atribui à Armada, desde longa data, missões de fiscalização de ordem vária que, de entre outras (tráficos de pessoas, armas, drogas…), a da pesca protagoniza, e que exige, além de uma aturada presença, um perfeito conhecimento da legislação específica, nacional e Internacional, bem como o conhecimento dos pesqueiros e das gentes do mar e, sobretudo, das práticas ilícitas a mitigar.
          Concomitantemente, a par das acções de fiscalização em colaboração com outras autoridades, são lhe atribuídas missões de busca e salvamento no mar (SAR) que, pelo seu carácter de socorro, se tornam empolgantes vivências que, infelizmente, nem sempre ocorrem com o habitual sucesso.


          No mar decorrem ainda, a bordo de navios especializados, as tarefas de Hidrografia e de Oceanografia que, como a assistência aos Faróis, se desenvolvem em terra, na aturada preparação ou actualização de cartas, etc. ou na preservação da farolagem que internacionalmente assumimos ser da nossa responsabilidade.
          Ainda na área da Autoridade Marítima Nacional, no Continente e nas Regiões Autónomas, está implantada uma organização costeira hierarquizada em que as Capitanias dos Portos exercem num aturado exercício de prevenção, visando o cumprimento da legislação bem como de assistência às gentes do mar e aos que o usufruem, a que está associado o Instituto de Socorros a Náufragos.
          A poluição marítima que assola as costas, é outra actividade que, como todas as outras, competirá aos jovens oriundos da Escola Naval, um dia, combater. Estas e muitas outras em domínios mais especializados que não citámos (v.g. em situações de catástrofe humana ou natural) permitem aceder aos mais destacados postos ou cargos da carreira naval.
          Claro que daqueles jovens se irá requerer, ao longo da vida, uma grande disponibilidade para se acorrer às diferentes necessidades da Armada em todos aqueles teatros de acção, implicando vastíssimas áreas, que em extremo, não nos iludamos, poderão ser de guerra.
          As carreiras só terão de comum os postos da hierarquia militar pois o seu percurso, para além das experiências de mar, pode ser, em terra, muito variado, mais ou menos padronizado, mas raramente iguais o que, em si, é um aliciante.
           No nosso território, numa sociedade em que mais que o “ser”, prevalece o “ter” e, mais ainda, o “parecer”, importa sobretudo, diferentemente dos civis que apenas se representam a si mesmos, que os oficiais dêem de si uma imagem consentânea com o estatuto a que têm direito, pelo seu comportamento social onde quer que estejam, ombreando pelo seu estilo pessoal com as classes profissionais que melhor cuidam da sua imagem e sabendo desembaraçadamente conviver, desde a Escola Naval, com os seus pares universitários, donde sairão as elites, em todas as oportunidades em que concorram, marcando, desde cadetes, a sua posição no contexto do ramo das Forças Armadas que representam.

Ainda lhe parece que a Escola Naval possa não ser uma escola exigente?