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28/11/16

LEITURAS À VISTA - 10

          Dando seguimento à resenha “LEITURA À VISTA”, para a 10.ª edição, recomendo o livro: "Kinda e outras histórias de uma guerra esquecida", da Editora Caminhos Romanos.

          Livro "A presença Portuguesa na Guiné, História Politica e Militar (1878 - 1926)" foi distinguido com o PRÉMIO FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN - História da Presença de Portugal no Mundo.

Sinopse:
A Presença Portuguesa na Guiné – História Política e Militar (1878-1926).
Prof. Doutor Armando Tavares da Silva

          Livro dedicado à presença portuguesa nas terras da Guiné. São ainda desconhecidos no nosso País muitos aspectos do que foi tal presença. A falta de estudos sobre essa presença é particularmente notória no período que decorre entre 1879 – ano em que a Guiné ficou administrativamente separada de Cabo Verde, constituindo uma província ultramarina autónoma – e o fim das campanhas ou operações militares ditas de “pacificação” do território.

          Depois dos estudos de Senna Barcellos datados de 1899 a 1913 e da publicação em 1938 da História da Guiné (1418-1918) de João Barreto, nenhum outro trabalho, de autor nacional, surgiu, da índole destes dois, procurando dar uma ideia precisa e de âmbito vasto, não só temporal mas também substantivo, dos factos que, no seu conjunto, poderiam contribuir para o conhecimento do que foi a história da Guiné.
          Entre esses factos encontram-se as operações militares que durante várias dezenas de anos se sucederam no território. Neste trabalho relata-se com bastante pormenor estas operações, dando realce às motivações que levaram as autoridades a empreendê-las, as dificuldades na sua execução, os seus resultados e consequências. 
          Pretende-se, deste modo, contribuir para melhor conhecimento dos factos e situações que moldaram a vida do território durante um período de quase 50 anos: desde as vésperas da constituição da Guiné como província independente de Cabo Verde até ao ano de 1926, Ao longo dos 32 capítulos do livro vai surgindo, com maior ou menor intensidade, um número sem fim de personagens activas na vida do território, governadores, militares, ministros, régulos, administradores, comerciantes, entre outros.

          O livro contem um glossário, uma bibliografia seleccionada, um apêndice com cerca de 30 fotografias dos navios da Armada que durante o período em análise permaneceram na Guiné, além de um conjunto da mais de 20 cartas relativas às operações militares empreendidas, com a indicação dos itinerários seguidos pelas colunas militares, a maior parte reprodução de originais.
          Assina o Prefácio o Senhor Almirante Nuno Vieira Matias, Presidente da Academia de Marinha.

Título: A presença portuguesa na Guiné. História política e militar (1878-1926)
Autor: Armando Tavares da Silva (Prof. Doutor)
Prefácio: Nuno Vieira Matias (Almirante)
Impressão: Norprint – Santo tirso.
ISBN: 978-989-8379-44-3
Depósito legal: 410 453/16
972 páginas
83 Fotografias
26 mapas
Editor: Caminhos Romanos
PVP: 56€
Porto, Junho 2016

Encomendas:
www.caminhosromanos.com
editora@caminhosromanos.com 
vendas@caminhosromanos.com

25/04/15

LEITURAS À VISTA - 06

          Para esta 6.ª “LEITURA À VISTA”, recomendo o livro: "Memórias de um guerreiro colonial", redigido pelo SMOR FZE José Gomes Talhadas.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
          «A GUERRA COLONIAL ainda hoje é contada, publicamente, sobre a perspectiva dos seus Oficiais e chefes militares, mesmo quando transcrita em livros de ficção. Pouco tem sido relatado ou reportado por aqueles que, embora sendo o essencial da sua componente humana, constituíram o chamado "pessoal" normal, vulgar.
          Daí, na maior parte das vezes, menosprezado. Iremos dar uma volta ao tema. O objectivo desta colecção é, precisamente, dar voz aos que, tendo algo para contar, se refugiaram sempre na dificuldade de expor, de escrever, ou de serem pessoas "sem importância" no que se passou. As suas histórias e estórias deles são essenciais, no entanto, para se formar a História da Guerra Colonial.
          Queremos que sejam eles a dar a sua versão, a sua visão, que tantas vezes se tornam uma preciosidade de memória de grande relevância, mas que, ao longo destes mais de 35 anos, têm ficado retidas apenas nos pensamentos íntimos de cada um.
          Vamos fazer um esforço para que os relatos ou as memórias da Guerra Colonial se tornem mais democráticas e sirvam para dar a conhecer, na sua singeleza, às gerações vindouras uma saga que mobilizou, directamente, mais de um milhão de portugueses e atingiu os restantes nove milhões. Um convite está lançado aos que guardam recordações ou memórias na consciência ou baús: transformem-nas em escrita».

01/05/13

“HISTÓRIAS À VISTA” - 29

          29.ª “HISTÓRIA À VISTA”, da autoria do CMG REF Lopes Mendonça, à época dos factos 2.º Tenente, Comandante da Secção de Mergulhadores-Sapadores n.º 1. Este artigo foi redigido originalmente para o site do Curso da Escola Naval de 1961  "Nuno Tristão" (http://www.cursont.pt/cnt/index.html), a quem agradeço a cedência deste artigo, nomeadamente ao Cte. Alves Jesus.

GUINÉ - 1968 "E LÁ, PUS A PATA NA POÇA..."

          Vários camaradas têm vindo a sugerir que relate a minha "epopeia" por terras da Guiné-Bissau. Tem sido difícil arrancar a passagem à escrita, do que me vai na memória, do ocorrido em tempos idos - quarenta e três anos passados.
          Sem que nada o fizesse prever, em Maio de 1968, era eu um jovem Segundo-Tenente, fui nomeado, para substituir, na Guiné, o Comandante da Secção Número 1 de Mergulhadores Sapadores (SECSAPAMARUM).
          A trouxa foi arranjada, as vacinas postas em dia e numa bela noite de Maio, três Oficiais da Marinha ocupam os seus lugares no avião que os levaria ao aeroporto de Bissalanca. Curiosamente os três eram futuros Comandantes de Unidades navais.
Os primeiros contactos com a Guiné não agradam, antevêem um clima inóspito, quente e húmido.
          Em Bissau, a chegada de avião vindo de Lisboa era a quebra de rotina... o dia de São Avião. Os militares vinham até ao aeroporto recolher notícias da "metrópole", receber encomendas que um portador trazia. Era também motivo de convívio.
          Feitas as apresentações, que as praxes militares e os seus protocolos obrigam, cada um dos Oficiais seguiu para as suas Unidades.
A partir desse dia seguiu-se o render de comando da Unidade de Mergulhadores.
          O Comando foi-me entregue com enorme cuidado e todo o pormenor pelo Marques Pinto que, zeloso, demorou cerca de um mês a elucidar-me de todos os pormenores militares e civis.
          Ainda planeámos, em conjunto, a mudança de hélices de uma lancha da classe "Argos", feito considerado, na altura, de muito importante. Provou-se que os Mergulhadores tinham capacidade técnica para, debaixo de água, mudar um hélice de 420 quilos. Infelizmente o Manel não pôde assistir à execução, pois já tinha regressado a Lisboa.
          A vida decorria normalmente, os trabalhos de rotina passavam-se entre a Secção de Mergulhadores e o Serviço de Armamento, de que tinha herdado a sua chefia.
          A SECSAPAMARUM acorria a apanhar armamento caído ao mar, ajudava a desobstruir rios, fazia os seus treinos especiais na ilha de Bolama. Fez parte da equipa que foi socorrer a LDM (Lancha de Desembarque Média) 302, que tinha sido mais uma vez bombardeada e totalmente danificada, lá para as bandas do Cacheu, muito próximo da futura base de Ganturé. Tive aqui a primeira noção dos horrores da guerra e da sua brutalidade. Lembro-me perfeitamente do estado psicológico e físico em que encontrámos o Patrão e o Artilheiro da LDM, bem como dos danos sofridos na lancha.
          No Serviço de Armamento procurava-se manter em estado operacional todo o equipamento, munições e explosivos atribuídos ao Comando da Defesa Marítima da Guiné. Muita burocracia, muito papel se despendia para se dar um tiro; afinal estávamos em guerra...
          A família tinha chegado a Bissau em finais de Julho. Mulher e filha iniciaram-se na partilha da vida nestas terras africanas. A filhota teve grandes problemas de adaptação ao calor húmido.
          Entretanto tinha-me recusado, por escrito, a "comandar" os comboios a Bedanda não pelos perigos que estes comboios sofriam, com ataques em locais estreitos, já conhecidos, mas sim por uma questão de princípio. Se tinha sido nomeado Comandante de uma pequena Unidade naval, exigi que me desnomeassem dessa Unidade e me nomeassem para a outra. Isto causou certo burburinho, pois era mais complicado fazer do que ordenar. Mas ganhei esta batalha e o respeito dos superiores.
          Em finais de Agosto de 1968, tive conhecimento que um Destacamento de Fuzileiros tinha deparado numa clareira junto à foz do rio Cujanene (pequeno afluente do rio Cacheu) com um conjunto de minas, cerca de 10, que ainda se conseguiam detectar. Após uma pequena reunião com os restantes 5 elementos que constituíam a Unidade de Mergulhadores, fui ao Comando da Defesa Marítima informar que a Secção Número 1 de Mergulhadores Sapadores estava pronta para destruir o campo minado ou proceder à inactivação do armamento, caso fosse necessário. Ao contrário do que esperava, começaram a ser levantados vários problemas:
- ”Então o senhor ainda há pouco tempo recusou-se a ir no comboio de Bedanda e agora vem com esta?"; "O Mendonça sabe que por cada mina levantada recebe-se 100 escudos?"; "O Destacamento de Fuzileiros é que as descobriu e agora os Mergulhadores é que ficam com o dinheiro!".
          Estas e outras questões levantadas levaram a que só 15 dias depois a Unidade recebesse ordem para a destruição do campo de minas.
          É interessante sublinhar, que o que acelerou a ordem foi a declaração assinada individualmente por cada Mergulhador, informando que se escusavam a receber qualquer dinheiro ou benesse, motivada pela destruição do campo de minas e propunham a entrega do dinheiro na sua totalidade à Cruz Vermelha.
          16 de Setembro, ao alvorecer, a LFG (Lancha de Fiscalização Grande) "Orion" deu fundo ao ferro próximo da foz do rio Cujanene, perto do local onde tempos antes a LDM 302 tinha sido bombardeada.
          Preparado o material e equipamento, seguimos para o local do campo de minas em botes de borracha, devidamente escoltados por elementos do Destacamento de Fuzileiros.
          Após um breve reconhecimento da zona, constatou-se que as minas já estavam submersas no lodo e nem um rasto se avistava que desse indício da sua localização.
          Avancei, de acordo com o que tínhamos planeado, com mais duas Praças para o local onde se presumia estarem colocadas as minas. Utilizamos a técnica da deslocação de joelhos, com uma sonda metálica para picar o terreno. Os métodos mais modernos, como detector de metais ou de variação de campo magnético, ainda não existiam na Marinha.
          A primeira mina foi detectada. Com a calma possível estudámos a morfologia do terreno que a circundava e como o solo era apresentado. Este estudo foi de importância fundamental, pois ajudou-nos a detectar as 14 minas existentes no local. Cada mina detectada era sinalizada com uma pequena bandeira.
          Para a área da clareira, a densidade de minas colocadas era enorme. O número de minas detectadas condizia com o anteriormente mencionado pelos Fuzileiros. Considerámo-nos com imensa sorte, pois num tempo relativamente curto e sem grandes problemas, estávamos a cumprir a nossa missão.
          Restava só montar e colocar as cargas explosivas necessárias para proceder à sua explosão e destruir o campo minado. Esta tarefa esteve a cargo do Sargento e das outras Praças.
          Observava a forma como estavam a ser colocadas as cargas e a sua ligação, na zona que tinha sido "batida" por nós e onde nada indiciava que se ocultasse mais alguma mina.
          Em determinada altura, ao apoiar-me com mais força sobre o pé direito, lembro-me de ter ouvido um clique metálico e.... depois foi tudo muito rápido, sentindo-me como que a cair num colchão de penas, com muitas penas à minha volta. Só me lembro de me encontrar deitado num bote de borracha com o Marinheiro (hoje Oficial Superior, o CFR Malagueta Pais Mamede), a fazer um garrote na minha perna direita (de tal forma apertou a perna que ainda hoje me dói). O Sargento Rodrigues Neves é que teve a coragem de me erguer do campo minado, em cima do qual tinha caído, e colocado no bote.
          Devido à forma como o Pais Mamede me tratou não entrei em estado de choque. Sei que berrava, não de dor mas de raiva, e ele deu-me um berro para me calar. Calei-me e consegui manter a calma que nestas alturas é tão necessária.
Seguiu-se a evacuação, primeiro para a LFG.
          O transbordo do bote para a LFG foi dramático. Lembro-me de ouvir o Pais Mamede gritar:
-"Ajudem-me, já estou sem forças e daqui a nada o homem cai à água".
          O pessoal que estava no convés da LFG ao ver-me deve ter ficado horrorizado e a sua primeira reacção foi de fuga. Quem da lancha deu a primeira mão foi o então Governador-Geral António de Spínola que, com o seu exemplo, evitou que desse um mergulho forçado.
          Com os cuidados possíveis, fui parar ao refeitório das Praças, improvisado em sala de primeiros socorros. Aí fui assistido por dois Médicos e vários Enfermeiros (na altura estava a decorrer uma operação com Fuzileiros e por isso estava a bordo uma equipa de pessoal de saúde). Enquanto estava a ser assistido, ouço a voz do Sargento Neves:
-"O campo acaba de ser destruído. Cumprimos a missão!".
          Estabilizado, fui embarcado numa Lancha de Desembarque, passado para terra no cais de Ganturé, e dali para um helicóptero.
          Ao embarcar no helicóptero, mais um percalço, a Enfermeira Paraquedista só me embarcava com uma transfusão de sangue. Os Médicos bem diziam que não era preciso, mas ela recusava-se a fazê-lo. Os Médicos acabaram por ceder e lá vim com o saco do sangue pendurado (ainda hoje me pergunto se não foi esta transfusão a responsável por uma mononucleose infecciosa que contraí mais tarde no nosso Hospital da Marinha). No trajecto até Bissau, por estar consciente, tive a oportunidade de ver um tornado em formação; que espectáculo maravilhoso!
Depois, seguiram-se várias peripécias e, para não enfastiar muito o leitor, irei referenciar apenas algumas.
Já na sala de operações, o Soldado maqueiro pede-me autorização para cortar as minhas cuecas...
          Ainda no Hospital 243 (o Hospital Militar de Bissau), quando me faziam a higiene diária, a Enfermeira informa-me que o ditador Salazar tinha caído de uma cadeira e o seu estado tinha prognóstico reservado. À minha afirmação de que esse "sacana" devia ter morrido, tive como resposta uma forte dor no escroto. Ela tinha-me retirado um enorme estilhaço de madeira sem aviso prévio. Mais tarde vim a saber que era casada com um PIDE.
          A minha chegada ao Hospital da Marinha também a retenho, pois além da família que me foi esperar, tive uma sensação extraordinária ao ver e sentir os lençóis da cama que me albergou durante quase 3 longos meses. Os lençóis eram muito brancos e aveludados, há já muito que não sabia o que era esta palamenta.
          No Hospital da Marinha a vida passou a ser rotineira, extraordinariamente bem tratado. Partilhada com muitos camaradas que se "aboletavam" no quarto para verem os Jogos Olímpicos, que pela primeira vez apareciam naquela maravilhosa pantalha. Retenho dessa época o parceiro de infortúnio, Segundo-tenente Sarmento Coelho, Fuzileiro da Reserva Naval, evacuado de Angola com 18 tiros no corpo, tendo por isso ficado a ostentar o título de "Coelho à caçador".
          Foi ainda no Hospital da Marinha, que ao ler a Ordem, tive conhecimento de que o meu acidente tinha sido considerado em "Serviço". Fiquei extremamente combalido e indignado. Valeu-me o meu Pai, que também indignado com o desfecho do despacho, falou com o seu amigo, o então Ministro da Marinha Manuel Pereira Crespo, que de imediato alterou o despacho para "Campanha". Na altura, para ser considerado em combate, pressupunha-se haver troteio.
          Depois do Natal, passado em família, vieram os preparativos para receber uma prótese. A Marinha, como sempre, procurou o melhor local e decidiu-se por me enviar para a Alemanha, Hamburgo, talvez explorando os acordos da Base de Beja. Seguiu-se um período de triagem, que obrigatoriamente tinha de ser feito no Hospital Militar Principal, num anexo sito na Av. Artilharia Um em Lisboa.
          Ainda guardo a sensação de ter passado a fazer parte das personagens da "Divina Comédia" (Inferno) de Dante, quando, pela primeira vez, fui à consulta. Essa sensação de difícil descrição é única e só aqueles que por lá passaram poderão partilhá-la. Homens sem mãos, sem pernas, cegos, surdos, tetraplégicos, de tudo um pouco circulava, sem direito a se exporem fora das 4 paredes. Era assim que o fascismo escondia dos olhares do povo os mártires / estropiados da Guerra Colonial.
          De Hamburgo, as poucas recordações que tenho são boas e dignas de registo. Foi lá que coloquei a minha primeira prótese e comecei a andar, só por si é mesmo um facto extraordinário. A equipa médica e de enfermagem tinham uma dedicação ímpar (todos eles, em momentos diferentes, foram homenageados pela ADFA - Associação dos Deficientes das Forças Armadas). Guardo também dois tipos de solidariedade e entre ajuda; a dos pacientes que partilhavam a mesma enfermaria (Oficiais, Sargentos e Praças) e a dos portugueses emigrantes que nos visitavam e connosco conviviam.
Após três meses de estadia em Hamburgo regresso a Portugal.
          Estamos em 1969. Esse ano passei-o quase todo de licença da Junta. Foram muitos os camaradas do NT que me visitaram e deram solidariedade. O papel que eles desempenharam na minha reabilitação foi muito importante. Na altura ainda não haviam psicólogos e técnicos avançados na terapia de grupo. Foram eles e nós deficientes que desempenharam esse papel. Peço que me desculpem não mencionar os seus nomes mas, com receio de me esquecer de algum, prefiro deixar assim.
          A meu pedido, regressei às fileiras voltando para a Escola de Mergulhadores. Queria provar a mim próprio que era capaz de voltar a mergulhar. E consegui-o!.
          Mais poderia contar... Tal como o papel dos Oficiais, Sargentos e Praças na minha inclusão na "família dos Mergulhadores", pois a eles devo muito o ultrapassar dos medos e receios de voltar a mergulhar sem um pé.... até me adaptaram um fato e manufacturaram umas canadianas, numa liga mais própria para andarem dentro de água.
          Em 1976, essencialmente por força do Decreto-Lei 43/76 de 20 de Janeiro, tomo a difícil resolução de passar à reforma. Este diploma, embora reparasse muitas injustiças e clarificasse situações, não permitia a quem optasse pelo serviço activo, prosseguir a sua carreira até ao mais alto posto da hierarquia.
          Passei a dedicar-me à luta desenvolvida pelo Movimento dos Deficientes Portugueses e suas famílias pela melhoria da qualidade de vida desta camada social e pela sua inclusão na sociedade. Até aos dias de hoje é nesse Pelotão que marcho...

10/02/13

LEITURAS À VISTA - 03

          Para a 3.ª “LEITURA À VISTA”, recomendo o livro: "Bissau em chamas", da Editora Casa das letras, redigido pelos Almirantes Alexandre Reis Rodrigues e Américo Silva Santos.
 


































 
 
 
          «Em Junho de 1998 aconteceu na República da Guiné-Bissau um golpe de estado militar seguido, sem solução de continuidade, por uma guerra civil sem quartel.
          Não se tratava, obviamente, do primeiro golpe militar africano. Mas, para Portugal, era uma ocasião especial por razões de natureza política e estratégica e por motivações afectivas muito próprias.
          Duas vias se apresentaram que pareciam fornecer a Portugal a oportunidade e os instrumentos necessários para recolher os cidadãos nacionais em situação precária e ajudar o povo e o Estado da Guiné-Bissau a retomar o caminho da sua normal evolução democrática: em primeiro lugar, a catalisação de uma aliança com nações amigas para uma intervenção humanitária militar preparada para impor e manter a paz entre as partes em conflito; e em segundo lugar, a acção nacional isolada, com o acordo das autoridades guineenses, correndo o risco de enfrentar hostilidades de potências já envolvidas no conflito.
          Os esforços desenvolvidos para a primeira solução lamentavelmente falharam. E Portugal ousou! Rápida e decididamente, de forma que se revelou oportuna, competente e eficaz, assumiu a segunda via. Vencendo cepticismos internos e externos, a diplomacia e as Forças Armadas Portuguesas, sob uma direcção política com vontade de fazer, viram recompensada a sua ousadia...».

27/06/12

"HISTÓRIAS À VISTA" - 11

          11.ª “HISTÓRIA À VISTA”, da autoria do CMG REF Juzarte Rôlo, com especialização em Mergulhador-Sapador.

AS BOLACHAS DO TT:

          «Durante a minha Comissão na Guiné, (Março 1972 a Fevereiro 1974 comandei a Secção n.º 2, depois Destacamento n.º 1 de Mergulhadores Sapadores. Entre as diversas missões que nos foram cometidas havia uma, quase rotineira e de que tínhamos larga prática, a inspecção das obras vivas (parte imersa do casco) dos navios utilizados no Transporte de Tropas (TT).
          Numa rotineira viagem de transporte de militares, procedente de Lisboa, chegou a Bissau um Transporte de Tropas (não me recordo com precisão da data nem do nome do navio, acredito ter sido o “Niassa”), que como era normal atracou na ponte cais de Bissau, conhecida por Pigiguiti, local do Rio Geba, de águas muito turvas e onde, não se vê um palmo, digo um dedo, à frente do nariz.
          De imediato e após vistoria à estacaria da ponte cais, a Companhia de Fuzileiros sediada em Bissau, montou um dispositivo de segurança em torno do navio que incluía patrulhas de botes nas águas do Rio Geba, por forma a prevenir qualquer actividade do inimigo que pudesse pôr em causa a integridade do navio.
          Logo que o navio atracou, começou o desembarque de homens e material que transportara desde Lisboa e iniciou os preparativos para embarcar de regresso a Lisboa, militares cuja Comissão terminara e alguma carga.
          Aos Mergulhadores competia fazer uma inspecção das obras mortas à chegada e uma segunda antes da partida. Para estas inspecções puderem ser feitas, era necessário aproveitar o estofo da maré, intervalo de tempo em que as águas, entre as duas marés, estavam paradas ou corriam pouco, deixando mergulhar e fazer a inspecção.
          O objectivo da inspecção ao casco do navio era verificar da existência, ou não, de objectos que, agarrados ao casco, pudessem vir de alguma forma danificar o navio. Com o auxílio de guias, feitas com cabos de nylon, o navio era literalmente apalpado de fio a pavio, estando empenhadas neste serviço duas equipas de Mergulhadores apoiadas por botes. Eu e um dos Sargentos da Unidade, creio que era o Sargento Oliveira, estávamos nos botes.

          Havia pouco tempo que começara a revista ao casco, quando um Mergulhador emerge e se dirige ao bote relatando que havia encontrado perto do bico da proa uma “bolacha” bem agarrada ao casco. Tinha entre palmo e meio e dois diâmetro e perto de uma polegada de altura. Estava firmemente presa ao casco.
          Conhecia muito bem os Mergulhadores da minha unidade. Sabia-os calmos, seguros e precisos, a descrição correspondia a algo ameaçador e perigoso. Poderia ser uma mina-lapa!
          Mandei sair o pessoal da água e mergulhei de imediato, era de dia, não se via nada, mesmo nada, debaixo de água. Sem dificuldade, seguindo a guia encontrei o objecto. A descrição estava correcta. Cuidadosamente percorri com a minha mão todo o objecto. Tinha a dimensão descrita, era liso, não tinha relevos nem depressões e estava firmemente agarrado ao casco. Com a faca de mergulho procurei encontrar um espaço entre a bolacha e o casco, não havia.
          Saí da água, disse ao Oliveira e ao Mamede, Sargentos da unidade, o que pensava e fui a bordo avisar o Capitão de bandeira. Mal o encontrei comecei a relatar o sucedido.
          Fazia-me espécie, disse-lhe, que os meus camaradas em Lisboa, que haviam revistado o navio, não tivessem dado por nada e, também me parecia pouco provável que o PAIGC tivesse conseguido, nas condições de vigilância existentes e connosco na água no estofo de maré, tivesse conseguido colocar uma mina, agora, que o objecto era estranho era. A dúvida estava instalada e a preocupação presente.

          Naturalmente inquieto, o Capitão de bandeira, antes de tomar qualquer decisão quis falar com o Capitão do navio, que mandou chamar, ao mesmo tempo que me foi pedindo mais detalhes e informações sobre os possíveis procedimentos a tomar…
          Nisto chega o Capitão do navio, vê o Capitão de bandeira com um ar preocupado e a mim todo molhado em fato de mergulho e sem mais palavras, dispara:
- "Que se passa?"
Relatei as causas da preocupação.
- "Sabe", disse ele, "o navio docou em Lisboa, vai para semanas, e… para isolar umas condutas de admissão foram soldadas à proa umas “bolachas!!!"
          Encontrámos a segunda “bolacha”, acabámos a busca, seguros de que a fazíamos bem e, sem minas à proa, jantámos sossegados!!!»

13/03/11

FUZILEIROS NA GUERRA COLONIAL

(ACTUALIZADO)
          No ano em que se comemora os 50 anos da criação da Escola de Fuzileiros, eis uma resenha redigida com o objectivo de recordar a Guerra Colonial, tendo em linha de conta que como acontecimento histórico do passado recente da Nação, traduziu-se na prática no 1.º "teste de fogo" aos ensinamentos ministrados na Escola de Fuzileiros e ao seu produto, as gerações de militares que desde 1961 ostentam a Boina dos Fuzileiros.

GUERRA COLONIAL


Guiões das unidades de Fuzileiros

DÉCADA DE 60
          Os Fuzileiros participaram activamente com 12.255 militares durante toda a Guerra Colonial (1961 a 1974), nos três TO - Teatros de Operações onde se desenrolou o conflito bélico:

• Angola: - Rio Zaire, Dembos, Rio Lungué-Bungo, Rio Zambeze, Rio Cubango; - 17 DFE's e 22 CF's destacados;
• Guiné-Bissau: - Bissau, Rio Cacheu, Cacine, Cumbijã; - 27 DFE's e 12 CF's destacados;
• Moçambique: - Cabo Delgado, Niassa, Tete, Lourenço Marques; - 19 DFE's e 12 CF's destacados.

          Foram das principais forças militares portuguesas mobilizadas para o combate de contra-guerrilha, criando-se para o efeito 3 tipo de unidades de combate:
DFE - Destacamentos de Fuzileiros Especiais: 13 unidades metropolitanas e 3 africanas, cada uma inicialmente com 75 e a partir de 1967 com 80 efectivos (4 Oficiais, 6 Sargentos, 14 Cabos, 32 Marinheiros e 24 Grumetes), divididos em três grupos de assalto vocacionados para missões de combate ofensivo de limitada duração e penetração na orla costeira (golpes de mão) e realização de operações conjuntas com os outros ramos das FA's;
CF - Companhias de Fuzileiros Navais: 12 unidades, cada uma com 140 efectivos (7 Oficiais, 8 Sargentos, 13 Cabos, 36 Marinheiros e 76 Grumetes), divididos por três pelotões de atiradores e uma formação de comando, composta pela secção de comando e uma secção de quartéis.           Dispunham ainda de uma secção de abastecimento, secção de secretaria, secção de comunicações e secção de saúde, competia-lhes a missão de patrulhamento, escolta de comboios fluviais de embarcações mercantes, desempenhar o serviço de Polícia Naval e montar segurança a navios, aquartelamentos e Comandos Navais;
Pelotões Independentes: 4 unidades, cada uma com 43 efectivos (2 Oficiais, 2 Sargentos, 4 Cabos, 13 Marinheiros e 22 Grumetes), tratou-se de unidades destacadas para o Ultramar e integradas no dispositivo local da Marinha, nomeadamente no Arquipélago de Cabo Verde.

          De salientar que por regra cada Fuzileiro cumpria duas comissões de serviço no Ultramar, integrado num DFE ou CF, existindo inclusivo diversos militares, nomeadamente entre as classes de Sargentos e Praças, que cumpriram até 4 comissões, cada uma de 2 anos de serviço.
          Tal particularidade justifica-se em virtude de todas as unidades de Fuzileiros, nesta época serem formadas por militares do Quadro Permanente e Voluntários, o que traduzia-se num determinado número de militares com experiência de combate, que por inerência contribuia para o aumento do desempenho operacional da respectiva unidade.
          Finda a comissão de serviço no Ultramar, a unidade de Fuzileiros regressava a Portugal, sendo os seus efectivos rendidos na totalidade, no entanto mantinha o mesmo n.º de designação como unidade militar, que após nova constituição orgânica, destacava novamente para África em comissão de serviço, somente a Marinha de Guerra Portuguesa dos 3 ramos das FA's adoptou este sistema de rendição de unidades militares.



Guarnição do DFE n.º 2 destacado em comissão de serviço em Angola entre 1965-1967 (Foto cedida por SAJ Afonso Brandão / FZE e Mergulhador-Sapador)

          Em 10 de Novembro de 1961, após concluir a instrução e formação em Portugal, parte para Angola num DC6 da FAP a primeira unidade de Fuzileiros, o DFE n.º 1 [Portaria n.º 18 774 de 13 de Outubro de 1961], composta por 2 Oficiais, 4 Sargentos, 9 Marinheiros e 60 Grumetes, iniciando a sua comissão no âmbito das operações de reocupação militar do Norte de Angola.
          Em Junho de 1962, desembarca na Guiné-Bissau o DFE n.º 2, com o escopo de reforçar o dispositivo militar, participa juntamente com o DFE n.º 7 e DFE n.º 8 na «Operação Tridente» na ilha do Como, e nas buscas para localizar o Sargento Lobato, Piloto de um avião T6 da FAP que caiu após embate com o respectivo "asa", sobrevivendo à queda do aparelho e seria feito prisioneiro pelo PAIGC.
          Em Outubro de 1962, desembarca a Moçambique a CF n.º 2, tendo por missão garantir a defesa e segurança do Comando Naval de Moçambique em Lourenço Marques (actual Maputo), tendo um dos seus pelotões destacado para Metangula, no Lago Niassa.

- OS MEIOS UTILIZADOS
          No que concerne à dotação orgânica de material, a Marinha de Guerra Portuguesa atendendo à guerra de guerrilha que ocorria nos TO's, apetrechou as unidades de Fuzileiros com meios ligeiros de baixo custo, fácil operação e manutenção.
          Ao longo do conflito, os meios adoptados pouco evoluiram e as unidades de Fuzileiros adequavam casuisticamente os meios empregues conforme a missão a executar.
          Tendo por exemplo a guarnição de um DFE, esta era equipada com os seguintes meios:

• ARMAMENTO:
- Armas individuais:
- Lapiseira-pistola .22¹ (3);
- Pistolas WALTHER P-38 de 9mm (13);
- Espingardas .22 (2); caçadeiras de 12mm (2);
- Espingardas HK G3A2 m/963 de 7,62mm com bipé (8);
- Espingardas HK G3A2 m/963 de 7,62mm (63 + 9 de reserva).

- Armas de apoio:
- Lança-chamas MARAÑOZA² (1);
- Metralhadoras-ligeiras MG-42 mod.59 de 7,62mm (2);
- Lança-Rockets ARMADA 69 ou OGMA de 37mm (2 + 12 granadas SNEB);
- LGF INSTALAZA 58-B "BAZOOKA" ou LGF FIRESTONE H/29 A1 B1 de 88,9mm (2 + 12 granadas);
- Morteiros pesados TAMPELLA 120mm³ (2 + 36 granadas);
- Morteiros médios ECIA 81mm (2 + 36 granadas);
- Morteiros ligeiros M2M/52 de 60mm (2 + 36 granadas);
- Morteirete 60 mm (2 + 36 granadas);
- Peça OERLIKON Mk2 de 20mm³;
- Peça BOFORS de 40mm.




















Peça Bofors de 40mm na Pedra do Feitiço - Angola

- Armamento explosivo:
- Granadas de mão ofensivas SPEL m/962;
- Granadas de mão defensivas SPEL m/963;
- Granadas de mão BIVALENTE PRB 423;
- Granadas de mão de fumo SPEL;
- Granadas incendiárias;
- Granadas armadilhas;
- Cordão detonante²;
- Dilagramas M26A1 "ALG" ou ARMADA 64 (24).

¹ Defesa pessoal de Oficiais;
² Parte da dotação mas pouco utilizado;
³ Utilizado na defesa de instalações
(TAMPELLA na Vila Cacheu - Guiné-Bissau / OERLIKON na Tabanca Grande - Guiné-Bissau).


• COMUNICAÇÕES:
- Apitos (5);
- Transreceptor AN/PRC-6 ou AN/PRC-10 (2);
- Transreceptor HF 156 (2);
- Transreceptor AN/PRC-116 (20);



Marinheiro C "radiotelegrafista" do DFE n.º 9 no Mágué velho

(A partir dos finais da década de 60)
- Transreceptor AN/PRC-216 ou AN/PRC-236 B (2);
- Emissor / receptor RACAL TR-28 B2 HF (2).

• MEIOS TERRESTRES:
- Jipes 4x4 LAND ROVER (3);
- Mercedes UNIMOG 401 / 404;
- Berliet TRAMAGAL;
- Camião de carga SCANIA VABIS ou BEDFORD (1).

• MEIOS ANFÍBIOS:
- Botes pneumáticos ZODIAC ou ZEBRO III (12);
- Motores MERCURY de 50cv (12);
- Botes de fibra de vidro (sintex) "MARUJO".


Bote de fibra de vidro (sintex) "MARUJO"

• FARDAMENTO:
- Fato de combate camuflado padrão "LAGARTO" de 2 peças, acolchoado nos joelhos, cotovelos e ombros, dispondo de 16 bolsos e fechos Zippo; fato de macaco de 1 só peça;
- Botas de combate em cabedal "Botas de Fuzileiro" (estanques e resistentes) ou de lona;
- Meias de enchimento;
- Poncho camuflado com capuz; - Rede mosquiteira de pescoço;
- Cinturão.

• EQUIPAMENTO DIVERSO:
- Máquina fotográfica de 16mm (2);
- Máquina de escrever (1);
- Binóculos (4);
- Bússolas SILVA (10);
- Relógios à prova de água AQUASTAR (10);
- Lanternas estanques (10);
- Filtros para água CATADIN (12),
- Algemas (3);
- Lápis dermográfico;
- Lapiseira de sinais;
- Kit sanitário;
- Faca de combate;
- Cantil de 1 litro
- Very-lights.

• CÃES DE GUERRA: (ler artigo)

- OFICIAIS FUZILEIROS DA RESERVA NAVAL
          Paralelamente no mesmo período temporal e com o início do conflito colonial a carência de Oficiais aumentará substancialmente, deste modo a partir do 4º CEORN - Curso Especial de Oficiais da Reserva Naval (6 de Outubro de 1961) em diante, a Reserva Naval também contribuiu com Oficiais Subalternos para as unidades de Fuzileiros [Portaria 18 393 de 12 de Abril de 1961].
          Os Cadetes que frequentavam o Curso de Oficial da Reserva Naval na Escola Naval eram oriundos de mancebos com frequência universitária ou já detentor de Curso Superior Universitário que se voluntariavam ou eram convocados a cumprir o SMO, observando o disposto na Portaria n.º 18 393 de 18 de Abril de 1961:
- Escola Superior de Belas-Artes;
- Faculdade de Ciências;
- Faculdade de Direito;
- Faculdade de Economia;
- Faculdade de Letras;
- Instituto Nacional de Educação Física;
- Instituto Superior de Agronomia;
- Instituto Superior de Estudos Ultramarinos;
- Instituto Superior Técnico.

          A Reserva Naval registou inclusivo maiores taxas de integração de Oficiais Subalternos nas unidades de Fuzileiros, por regra integrando como Imediato, 3.º e 4.º Oficial, que os Oficiais Subalternos oriundos do Quadro Permanente: - 82 Oficiais da RN em 139 Oficiais integrados nos DFE, correspondendo a 56%; - 217 Oficiais da RN em 328 Oficiais integrados nas CF, correspondendo a 66%;
          De destacar que diversos Oficiais oriundos da RN, após ingresso nos QP's da Armada, comandaram DFE's e CF's.
          A título de exemplo o 4º CFORN forneceu 9 Oficiais que integraram as CF n.º 1 e n.º 2, destacadas respectivamente para Angola e Moçambique.

DÉCADA DE 70
          É de realçar que a durante o conflito colonial, a Guiné-Bissau e Moçambique foram os TO's onde as unidades de Fuzileiros foram colocadas mais à prova, no que concerne à capacidade operacional e resistência física e psicológica, devido às particularidades sui generis do terreno, clima, organização e capacidade de combate da guerrilha do PAIGC (poder de fogo e "fornilhos") e FRELIMO (implantação de minas A/P e A/C).
          No caso da Guiné-Bissau, no início da guerra os Fuzileiros estavam aquartelados na cidade de Bissau e subordinados ao Comando de Defesa Marítima da Guiné (criado pelo Decreto-lei 41 990 de 3 de Dezembro de 1958 e activado em Maio de 1959), actuando na razão de um DFE por bacia hidrográfica (Cacheu, Geba / Corubal e Buba / Cacine).


Fuzileiros em operações em zona de tarrafo da Guiné-Bissau

          No entanto, com o evoluir da guerra, meios de combate e efectivos nas unidades PAIGC, que se materializou numa quase transformação de guerra de guerrilha para convencional, foi necessário ajustar o dispositivo e os Fuzileiros também foram destacados para junto das fronteiras Norte e Sul, sendo atribuídos a um COP - Comando Operacional ou CAOP - Comando de Agrupamento Operacional, nomeadamente para reforço das acções de contra-penetração de guerrilheiros do PAIGC vindo do Senegal ou da Guiné Conakry.
          Em Moçambique, os Fuzileiros operaram nos distritos de Cabo Delgado, Tete e Niassa, sendo este último juntamente com o seu Lago Niassa o cenário por excelência, com bases em Metangula e Coubé, cada uma com um DFE destacado, este distrito era também denominado de "Estado de Minas Gerais" pelas forças portuguesas, em virtude da profusão de minas A/C e A/P colocadas pela FRELIMO.

- OS DESTACAMENTOS DE FUZILEIROS ESPECIAIS AFRICANOS
          Atendendo ao esforço em termos de recursos humanos que Guerra de Ultramar necessitava e dentro da política de africanização do conflito, são constituídos somente na Guiné-Bissau a partir de Abril de 1970, no Centro de Instrução e Preparação de Fuzileiros Especiais Africanos em Bolama, os únicos DFE africanos: DFE 21 [21 de Abril de 1970], DFE 22 [16 de Novembro de 1971] e DFE 23 [1 de Julho de 1974].
          No entanto o DFE 23 nunca chegou a ser formalmente activado, sendo os 3 DFE's africanos desactivados em 25 de Agosto de 1974.
          Tratou-se de unidades guarnecidos por Oficiais, Sargentos e algumas Praças metropolitanos (Comandante, Imediato, quartel-mestre, radiotelegrafista [telefuzo], enfermeiro, etc), sendo as restantes Praças recrutados entre voluntários da população nativa da província, regra geral dando-se preferência aos assalariados do Comando de Defesa Marítima, de Serviços da Marinha, guias de unidades de Fuzileiros, estivadores e pessoal oriundo de companhias de milícias ou caçadores nativos.


Guiões dos DFE's Africanos 21, 22 e 23

          A 22 de Novembro de 1970, o DFE n.º 21 (Africano) participou na «Operação Mar Verde», na Guiné-Conakry, competindo-lhe a missão de atacar a prisão “La Montaigne”.

- BAIXAS ENTRE OS FUZILEIROS
          Segundo a Comissão COLOREDO, durante todo o conflito, os Fuzileiros tiveram 185 baixas mortais, sendo que entre os feridos, 50% dos mesmos foram vítimas do efeito de minas A/P, A/C ou "fornilhos":
Angola: [57 mortos] 13 em combate; 34 por acidente e 10 por doença;
Guiné-Bissau: [99 mortos] 55 em combate; 35 por acidente e 9 por doença;
Moçambique: [29 mortos] 13 em combate; 10 por acidente e 6 por doença.
          O único Oficial que faleceu em combate foi um 2TEN FZ da Reserva Naval da CF n.º 1, oriundo do 18.º CFORN, em Junho de 1973, no Chilombo - Leste de Angola.
          Findo o conflito do Ultramar e extinção dos Comandos Navais e de Defesa Marítima das ex-colónias em 1975, com a finalidade de uniformizar de modo mais profícuo procedimentos operacionais e administrativos, tornou-se necessário estruturar em Batalhões as Companhias de Fuzileiros existentes, criando-se os Batalhões de Fuzileiros n.º 1, 2, 3 e 4 [Portaria n.º 258/75 de 16 de Abril].

15/11/09

CORVETAS DA CLASSE "JOÃO COUTINHO"

(ACTUALIZADO)

Corveta "JOÃO COUTINHO"

TIPO DE NAVIO:
Corveta da patrulha oceânica

 
PERFIL:


DESLOCAMENTO:
1.336 toneladas

DIMENSÕES:
84,6 x 10,3 x 3,3 metros
Mastro 20,3 metros

PROPULSÃO:
2 motores a diesel OEW Pielstick 12 PC 2V 5280 a 425RPM
12.000cv
12 cilindros
2 hélices

ENERGIA:
3 geradores diesel-eléctricos MAN de 320kVA
1 gerador de emergência MAN de 160kVA

COMBUSTÍVEL:
150 toneladas

VELOCIDADE MÁXIMA:
22 nós (41 km)

AUTONOMIA:
5.900 milhas a 18 nós
7.500 milhas a 15 nós
8.880 milhas a 14 nós

GUARNIÇÃO:
Oficiais: 07 (Sob o comando de um oficial superior)
Sargentos: 13
Praças: 50
Total: 70

HELICÓPTEROS:
Convés na popa para 1 helicóptero ligeiro (12 x 8 metros)



Helicóptero ALOUETTE III da FAP aterrando na Corveta "António Enes" em Novembro de 1972, ao largo da Baía de Luanda - Angola

RADAR:
Procura superfície - RACAL-DECCA RM 1226C, banda I (27 Km de alcance)
Navegação - KELVIN HUGHES 1007, banda I/F (37 Km de alcance)

COMUNICAÇÕES:
- 2 Radiogoniómetros HF, VHF, UHF;
- 1 ETO (Emissor Transmissor de Ordens;
- SICC (Sistema Integrado de Controlo de Comunicações);
- DSC Sailor VHF (Global Maritime Distress Safety System);
- Comunicações por satélite INMARSAT B;
- 2 Projectores de sinais

EQUIPAMENTO:
- Ómega diferencial SERCEL M5;
- Terminal SIFICAP;
- Sistema GPS MX200;
- 6 Balsas salva-vidas;
- Sistema de Carta Electrónica ECDIS;
- 1 Bote pneumático ZEBRO III;
- 1 Embarcação Mk9;
- 1 Lancha semi-rígida;
- Equipamentos portáteis de visão nocturna;
- Chuveiros SPRINKLERS para alagamento dos paióis de munições;
- Chuveiro para descontaminação nuclear;
- Instalação de desmagnetização;
- Ar condicionado;
- 1 Gerador de água doce por osmose inversa;
- Sonda ultrasónica KH MS32;
- Receptor DGPS;
- Odómetro electromagnético CHERNIKEEF;
- Girobússola SPERRY Mk14 Mod2A;
- Anemómetro;
- Agulha magnética;
- Agulha giroscópica;
- Barógrafo;
- Barómetro;
- Sistema de recepção de Avisos à Navegação NAVTEX;
- 1 Grua hidráulica telescópica HIAB 60 SEACRANE de 3,5 toneladas;
- Multisensor electro-óptico SAGEM, para detecção, gravação e registo de imagens;
- Receptor meteorológico FAC-SIMILE – NAGRAFAX

CONTROLO DE TIRO:
- Mk51 Mod2 Gun Fire Control Systems (Peça de 40mm)

SISTEMAS DE ARMAS:
1 Peça dupla US NAVY L/50 Mk33 Mod4 de 76,2mm/50 (12,8 Km de alcance)
1 Peça dupla BOFORS de 40mm/60 Mk9 Mod58 (12 Km de alcance)
2 Calhas lança-minas

DESIGNAÇÃO NATO:
FS

INDICATIVO DE CHAMADA INTERNACIONAL:
CORENES
CORTINHO
CORCINTO
CORDECA

ENDEREÇO RADIOTELEGRÁFICO:
CTFV
CTFA
CTFB
CTFC

NÚMERO DE AMURA:
F471
F475
F476
F477

BASE DE APOIO:
Base Naval do Alfeite

NOME:
N.R.P. António Enes
N.R.P. João Coutinho
N.R.P. Jacinto Cândido
N.R.P. General Pereira d'Eça

ANO DE CONSTRUÇÃO:
1971
1970
1970
1970

EMPREGO OPERACIONAL:
- SAR;
- Presença Naval;
- Serviço público;
- Patrulha oceânica da ZEE;
- Controlo da poluição no mar;
- Combate ao narcotráfico;
- Controlo da imigração ilegal;
- Fiscalização da pesca;
- Apoio a operações anfíbias;
- Fiscalização dos esquemas de separação de tráfego marítimo;
- Segurança de navios estrangeiros de visita a portos nacionais;
- Escolta a navios combatentes em águas restritas;
- Exercícios com unidades navais e aéreas;
- Viagens de instrução dos cadetes da Escola Naval.

NOTAS:
• Os três primeiros navios foram construídos nos Estaleiros "Blohm & Voss", em Hamburgo - Alemanha, e os restantes três nos Estaleiros Navais de "Bazán" (actual Navantia), em Cartagena - Espanha.
• A sua construção foi realizada sob um projecto de concepção nacional de 1965, da autoria do Contra-Almirante Engenheiro Construtor Naval Rogério d'Oliveira (Direcção das Construções Navais), com colaboração dos estaleiros alemães "Blohm & Voss" no que concerne a estudos de pormenor e estabilidade, foram a 1.ª série de um programa de 16 corvetas, cuja 3.ª série não se chegou construir.
• O casco é inteiramente soldado e de estrutura longitudinal, a superestrutura é de alumínio e de estrutura transversal.
• O projecto foi utilizado posteriormente como base para as corvetas das classes "Descubierta" da Marinha de Guerra Espanhola, Egípcia e Marroquina, "Meko 140" da Marinha de Guerra Argentina e inspirou os avisos da classe "A69" da Marinha de Guerra Francesa, Argentina e Turca.


Corveta da classe "DESCUBIERTA" da Marinha de Guerra Espanhola


Corveta da classe "MEKO 140" da Marinha de Guerra Argentina


Corveta da classe "A69" da Marinha de Guerra Francesa

• Foram os primeiros navios de guerra construídos nos Estaleiros "Blohm & Voss" para uma Marinha de Guerra estrangeira, após a 2ª Guerra Mundial.
• Nos primórdios da sua entrada ao serviço activo, toda a classe substituiu diversos contratorpedeiros, fragatas, corvetas e avisos, nomeadamente em comissões de serviço nas antigas colónias africanas, durante a Guerra Colonial patrulhando a costa e servindo de canhoneiras até 1975.


Perfil da Corveta "João Coutinho" na época da Guerra Colonial

• Dispõem de um convés na popa para 1 helicóptero ligeiro, mas na realidade estão somente habilitadas para a realização de reabastecimento vertical (VERTREP), além de que não são dotadas de hangar nem estação de reabastecimento de helicópteros.
• Têm acomodações adicionais para albergar 32 pessoas ou uma Força de Fuzileiros (04 Oficiais, 03 Sargentos e 25 Praças), valência operacional que a par do seu reduzido calado, permitia-lhes penetrar nos rios de maior caudal e braços de mar de Angola, Guiné-Bissau e Moçambique, podendo servir como navio de apoio a operações anfíbias.
• Até 1976, com o desiderato de adequar a classe às funções de patrulha, foi-lhes retirado de todo equipamento ASW (Sonar QCU 2; calhas lança-bombas de profundidade Mk9; projector de foguetes anti-submarino Mk10 HEDGEHOG), mais o controlador de tiro da Peça de 76.2mm Western Electric AN/SPG-34, banda I e o radar de aviso aéreo MLA-1B, originando uma significativa redução da guarnição (-30%).


Equipamentos retirados assinalados

• A partir do final da década 1980 foram modernizadas recebendo novos radares, terminal SIFICAP e sistema de comunicações MOST-4.
• A "Jacinto Cândido", foi condecorada em Maio de 1981 com a Medalha de Ouro de Serviços Distintos, pelo apoio prestado às populações sinistradas dos Açores no Sismo de 01 de Janeiro de 1980.
• Em 1986, a peça de artilharia de 76,2mm à proa da "António Enes" ficou danificada devido ao mau estado do mar.


















Danos na peça de artilharia

• A 10 de Março de 1987, pelas 17:30 à entrada do Porto de Horta na Ilha do Faial - Açores, deu-se uma violenta explosão na casa da máquina do leme da "António Enes", provocando baixas entre a guarnição: faleceu 01 Oficial Subalterno e 03 Marinheiros, desapareceram 02 Marinheiros e outros 11 ficaram feridos, danificou o pavimento da tolda, o painel da popa, a casa do leme e compartimentos adjacentes.


Foto Agência Lusa / Blog NRP Álvares Cabral F336

• Em Fevereiro de 1988, a "João Coutinho" transportou com destino a S. Diego - EUA, a nova estátua do navegador português João Rodrigues Cabrilho (1542), encomendada pelo Serviço Nacional de Parques do EUA, com o objectivo de substituir a antiga em mau estado.
• Em Janeiro de 1991, a "Augusto de Castilho" (já desactivada) procedeu ao transporte para a Alemanha da futura 1.ª guarnição da Fragata "Vasco da Gama".
• Em 1999, a "Honório Barreto" (já desactivada) participou no exercício "CONTEX/PHIBEX" projectando para terra o PELREC como força avançada, que posteriormente simulou a compilação de informações sobre o dispositivo das forças inimigas.
• Em 2000, a "General Pereira d'Eça" participou no filme "Capitães de Abril", simulando a Fragata "Gago Coutinho" da classe "Pereira da Silva".
• Em 2002, a "António Enes" participou no exercício "INSTREX", integrada na força opositora e rebocando o alvo para tiro de superfície.
• Em 2002, a "Augusto de Castilho" (já desactivada) participou no exercício "NEOTAPON", servindo de navio de apoio aos Mergulhadores Sapadores na detecção de simulacros que simulavam minas.
• Em Junho de 2005, a "Jacinto Cândido" transportou um contingente de escuteiros marítimos de Ponta Delgada numa expedição às Ilhas Formigas.
• Em Abril de 2006, a "General Pereira d'Eça" serviu de transporte para a Ilha da Madeira, aos jovens participantes no VI Curso de Defesa para Jovens, organizado pelo Instituto de Defesa Nacional.
• Em Maio de 2006, a "General Pereira d'Eça" participou no exercício "ANATOLIAN SUN", com uma equipa do PELBOARD e equipas do DMS n.º 1 e n.º 2.
• Em Novembro de 2007, ao largo do Cabo Espichel a corveta "General Pereira d'Eça" participou no exercício de combate a imigração clandestina "ABLE PROTECTOR 2007", simulando um navio mercante com emigrantes clandestinos a bordo, que posteriormente foi assaltado por uma secção do PELBORD, no exercício também participaram a fragata "Vasco da Gama", elementos da Polícia Marítima, um helicóptero Lynx e um avião de patrulha marítima P3 Orion e helicóptero EH-101 Merlim da FAP.


Corveta "General Pereira d'Eça" na simulação do assalto por uma secção do PELBORD

• Em Julho de 2008, a "General Pereira d'Eça" participou em conjunto com o Zoomarine de Albufeira na devolução ao mar de 5 tartarugas-comuns.
• Em Novembro de 2008, a "António Enes" participou no exercício de combate à poluição do mar "AUSTRAL", embarcando as autoridades e os convidados, ao largo do Algarve.

• Em Novembro 2008, a “João Coutinho” colaborou no projecto de colaboração técnico-científica Luso-Espanhola de Extensão da Plataforma Continental Portuguesa, apoiando técnicos do IGIDL no lançamento ao fundo do mar (5500 metros) 9 OBS - “Ocean Bottom Seismographs", ao longo da linha sísmica numa extensão de aproximadamente 100 milhas náuticas.
• Em Março de 2009, a a "João Coutinho" participou no exercício conjunto "AÇOR 08", servindo de plataforma de exercícios VERTREP para os helicópteros PUMA e MERLIN da FAP.
• Em Abril de 2009, a "António Enes" participou no exercício de treino operacional da Zona Militar dos Açores "FOCA 092", apoiando elementos do Regimento de Guarnição n.º 2 do Exército, ao largo da Ilha de S. Miguel nos Açores.
• Em Julho de 2009, durante a estadia do Porta-aviões nuclear Norte-americano "Eisenhower", a "João Coutinho" foi destacada para exercer a protecção ao navio.
• A título de curiosidade, duas das três corvetas de construção em estaleiros espanhoís "Augusto Castilho" e "Honório Barreto", foram desarmadas e servem de canibalização, as razões prendem-se com a idade, estado geral dos navios, elevados custos de reparação, falta de orçamento e falta de pessoal para as guarnecer.


Foto de Luís Miguel Correia

• Participam também nos exercícios nacionais: AÇOR, CONTEX e ZARCO.

PARTICIPAÇÃO EM MISSÕES IMPORTANTES:
• Em Junho de 1976, a Força Naval UO.21.2.1 constituída pela "Afonso de Cerqueira" e "Honório Barreto", comandado por um CMG e com Aspirantes do 2.º Ano da Escola Naval, Cadetes do CFOSE e alunos do Colégio Militar embarcados, acompanharam o Navio-Escola "Sagres" e a "Vega" numa viagem aos EUA para representar a Armada Portuguesa nas comemorações do seu Bicentenário, participando na "Internacional Naval Review" e na Parada Naval no Rio Hudson.


Foto cedida por Almirante Nunes da Silva

• Em 14 de Dezembro de 1982, a "Honório Barreto" (já desactivada) disparou 3 salvas de artilharia com a peça dupla de 76,2mm contra a proa do Navio-Butaneiro "Bandim", por encontra-se à deriva e semi-afundado com a proa elevada 15 metros acima da superfície, naufragado a 120 milhas a SW do Cabo Espichel, acabando por ser afundado por um torpedo lançado pelo "Barracuda".
• Em Junho de 1998, a "Honório Barreto" (já desactivada) transportando o Grupo de Comando, um Pelotão de Atiradores da CF22, uma Secção Anti-carro e uma Secção de Botes (12 Zebro III) e a "João Coutinho" transportando o PELREC e uma Secção de Botes (12 Zebro III) participaram na «Operação Crocodilo», com o objectivo de evacuar de civis e militares nacionais do conflito da Guiné-Bissau.
• Em 2001, a "Augusto de Castilho" (já desactivada) e a "João Coutinho" participaram na recuperação de corpos do acidente da ponte Hintze Ribeiro em Entre-os-Rios.
• Em 2002, a "Honório Barreto" (já desactivada), estive envolvido na operação de remoção do navio mercante chinês "Coral Bulker", que encalhou no molhe exterior do porto de Viana do Castelo.
• Em 2002, a "João Coutinho" esteve envolvida nas operações de combate à poluição no mar, resultantes do afundamento do petroleiro "Prestige", efectuando acompanhamento da situação e recolha de amostras.
• Em Janeiro de 2003, a "João Coutinho" participou na «Operação Ulysses», com objectivo de combater à imigração ilegal por via marítima, numa operação conjunta com a Marinha de Guerra Espanhola junto às Ilhas Baleares. A bordo da corveta estiveram 3 inspectores-adjuntos do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras.
• Em Junho de 2003, a "João Coutinho" esteve envolvida nas operações de combate à poluição no mar, resultantes do afundamento do navio porta-contentores "Nautila".
• Em Agosto de 2004, a "General Pereira d'Eça" participou na operação de negação às águas territoriais portuguesas, ao navio "Borndiep" (Barco do Aborto) da organização "Women on Waves".
• Em Janeiro de 2005, a "António Enes" participou na «Operação Guanarteme», com objectivo de combater à imigração ilegal por via marítima, numa operação conjunta com a Marinha de Guerra Espanhola junto às Ilhas Canárias. A bordo da corveta estiveram 2 agentes da Polícia Marítima, 3 inspectores do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, e um PELBOARD (1 Sargento e 8 Praças).
• Em Julho de 2005, a "João Coutinho" e a "Jacinto Cândido" desempenharam medidas de protecção a visita particular dos Reis de Espanha aos Açores.
• Em Julho de 2005, a "João Coutinho" colocou 10 Fuzileiros nas Ilhas Selvagens com o objectivo de proteger os Vigilantes do Parque Natural da Madeira em serviço nas Selvagens.
• Em Fevereiro de 2006, a 100 milhas da Ilha da Madeira, a corveta "António Enes" participou na «Operação AGRAFE» de combate ao narcotráfico, em cooperação com a Polícia Judiciária, transportando 8 efectivos do DAE, que abordaram um veleiro suspeito mediante lanchas pneumáticas, culminando na apreensão de 1,5 toneladas de cocaína, na operação participou também um avião P3 Orion da FAP.
• Em Maio de 2006, a "Jacinto Cândido" durante a sua patrulha na zona da Convenção para a Cooperação Multilateral de Pescas no Atlântico Nordeste, efectuou 215 observações, duas fiscalizações e prestou apoio logístico a algumas embarcações de pesca, no mar da Islândia.
• Em Agosto de 2007, a "Jacinto Cândido" durante a sua integração na operação europeia de controlo da imigração ilegal «HERA», nas águas territoriais e ZEE do Senegal e da Mauritânia, detectou e interceptou três embarcações "CAYUCOS" e um total de 463 emigrantes ilegais, que presumivelmente se dirigia para o arquipélago das Canárias.
• Em Novembro de 2007, a "António Enes" integrada na «EUROMARFOR» participou no exercício "MULTICOOPERATIVE EXERCISE" ao largo da costa da Argélia, com o objectivo de promover o intercâmbio de actividades com as Armadas dos países do sul do Mar Mediterrâneo, de salientar a participação da fragata argelina "Rais Corso" da classe "Koni", de fabrico russo.

• Em Junho de 2008, a "António Enes" durante a operação conjunta com a Polícia Judiciária e a FAP «RELÂMPAGO», procedeu à abordagem e apreensão de uma embarcação de pesca com 6 toneladas de haxixe.

13/10/09

LANCHAS DE DESEMBARQUE MÉDIAS

(ACTUALIZADO)

Fuzileiros a desembarcar numa praia da LDM 425

TIPO DE NAVIO:
Lancha de Desembarque

(dados da classe LDM 400)

DESLOCAMENTO:
59,5 toneladas

DIMENSÕES:
17,8 x 5 x 1 metros

PROPULSÃO:
2 motores a diesel FODEN FD6 MK - 374hp
2 hélices

ENERGIA:
2 geradores C.A.V. accionados pelos motores principais de 24kVA

VELOCIDADE MÁXIMA:
9,2 nós (16 km)

AUTONOMIA:
220 milhas a 8,2 nós

GUARNIÇÃO:
Cabo: 1 (Patrão da lancha)
Marinheiros: 3
Total: 4

COMUNICAÇÕES:
- 1 Transreceptor NIMBUS 340 H;
- 1 Receptor CURLEW351 H;
- 1 Projectores de sinais DE 250W

EQUIPAMENTO:
- 1 Bote pneumático ZEBRO II;
- Casa do Leme com blindagem de 6mm

CAPACIDADE DE CARGA:
80 militares / 35 toneladas de carga / 1 viatura blindada até 32 toneladas / 1 camião de 6 toneladas / 2 viaturas ligeiras


Jipe WILLY's do Exército utilizado na "Operação Tridente" a ser reembarcado numa LDM

SISTEMAS DE ARMAS:
1 Peça OERLIKON Mk2 de 20mm/65 (2 Km de alcance)
2 Metralhadoras MG-42 de 7,62mm

DESIGNAÇÃO NATO:
LCM

NÚMERO DE AMURA:
UAM 122
LDM 426

BASE DE APOIO:
Base Naval de Lisboa

ANO DE CONSTRUÇÃO:
1967
1968

EMPREGO OPERACIONAL:
- Transporte e apoio logístico (mantimentos, munições, etc);
- Embarque e desembarque de tropas;
- Serviço público.

NOTAS:
• Por inerência à criação e mobilização das primeiras unidades de Fuzileiros (CF - Companhias de Fuzileiros Navais e DFE - Destacamentos de Fuzileiros Especiais) para as ex-colónias africanas, na sequência do eclodir da Guerra do Ultramar em Março de 1961, surgiu a necessidade de apetrechar a Armada com meios navais de fundo chato para a realização de desembarques.
• Dos três tipos de embarcações construídas (LDP, LDM e LDG), foram às de média dimensão, LDM - Lanchas de Desembarque Médias, as fabricadas em maior número (65) e mais utilizadas nos três teatros de operações (Angola, Guiné-Bissau e Moçambique), vocacionadas para navegar em águas ribeirinhas e interiores dos territórios.
• Apesar dos EUA advogarem a descolonização e demonstrarem relutância em autorizar as suas empresas em vender material de guerra a Portugal, foram adquiridas algumas embarcações do modelo USN LCM-6 da 2.ª Guerra Mundial em 2.ª mão, por intermédio de um processo indirecto com o desiderato de contornar parcialmente o diferendo político, criando-se a empresa privada Progresso Lda, que negociou directamente com o empresa Norte-americana "Fairbanks Morse" a aquisição de velhos excedentes da 2.ª Guerra Mundial,
dando origem à classe "LDM 100" em Janeiro de 1964, posteriormente obteve-se os respectivos planos de construção e desenvolveu-se os projectos de execução em estaleiros nacionais (Estaleiros Navais do Mondego).

• Existiram quatro classes de LDM's de concepção e construção nacional (Estaleiros Navais do Mondego e Arsenal do Alfeite) e uma classe (LDM 300) construídas nos EUA com ligeiras diferenças entre si:
- LDM 100: 21 unidades (construídas entre Janeiro de 1964 e Julho de 1975);


- LDM 200: 5 unidades (construídas entre Janeiro de 1964 e Janeiro de 1965);

Ldm 203 da classe LDM 200

Artigo do Blog da Reserva Naval sobre as LDM's da classe 200


- LDM 300: 13 unidades (construídas entre Janeiro de 1964 e Novembro de 1964);


LDM 304 da classe LDM 300

Artigo do Blog da Reserva Naval sobre as LDM's da classe 300


- LDM 400: 26 unidades (construídas entre Agosto de 1964 e Outubro de 1977);


LDM 421 da classe LDM 400

Artigo do Blog da Reserva Naval sobre as LDM's da classe 400


- LDM 500: 6 unidades (construídas entre Outubro de 1964 e Novembro de 1964).


LDM 503 da classe LDM 500

Artigo do Blog da Reserva Naval sobre as LDM's da classe 500

• A sua distribuição pelos TO obedeceu a seguinte ordem:
- Angola:
Classe LDM 100: 108
Classe LDM 400: 401, 402, 403, 409
Total: 5

- Guiné-Bissau:
Classe LDM 100: 101, 102, 103, 104, 105, 106, 107, 108, 109, 110, 111, 112, 113, 114, 115, 116, 117, 118
Classe LDM 200: 201, 202, 203, 204, 205
Classe LDM 300: 301, 302, 302, 304, 305, 306, 307, 308, 309, 309, 310, 311, 312, 313
Classe LDM 400: 410 a 417
Total: 51

- Moçambique (Lago Niassa):
Classe LDM 400: 404, 405, 407, 408
Total: 4

- Portugal (para treino dos Fuzileiros):
Classe LDM 100: 119, 120, 121
Classe LDM 400: 406, 414, 418, 419, 420, 421, 422, 423, 424, 425, 426
Total: 14

• Em 15 de Outubro de 1965, as LDM's da classe 500 de fabrico nacional foram remuneradas e integradas na classe LDM 300 de origem Norte-americana e utilizadas na Guerra da Coreia (ex LDM 501 - LDM 308; ex LDM 502 - LDM 309; ex LDM 503 - LDM 310; ex LDM 504 - LDM 311; ex LDM 505 - LDM 312; ex LDM 506 - LDM 313).


LDM 504, posteriormente LDM 311 (Foto cedida por Eng. Lema Santos)

• Em 16 de Outubro de 1965, as seguintes LDM's da classe 100 foram remuneradas e integradas na classe LDM 200 (ex LDM 101 - LDM 204; ex LDM 102 - LDM 205.
• Eram o principal meio de desembarque da Marinha no que respeita ao emprego de Fuzileiros, aquando da execução de operações militares com a totalidade dos efectivos de uma CF (140 militares) ou de um DFE (80 militares), originando o binómio LDM-Fuzileiros.


Fuzileiros a desembarcar de uma LDM


Fuzileiros a reembarcar numa LDM

• Trata-se de um tipo de embarcação concebido para utilização temporária (máximo 48 horas), dado não dispor de meios de subsistência, não obstante a título de exemplo na Guiné-Bissau foram usadas em patrulhas de rios que chegavam em média às duas semanas, sendo de referir que tal situação ocorria em detrimento das condições de vida a bordo e sacrifício das suas guarnições.
• Em 1968, atendendo a necessidade de melhorar as condições de vida a bordo, aperfeiçoou-se a calafetagem da cobertura do poço das lanchas, foram instaladas arcas frigorificas de 50 kg e um sistema de ventilação, melhorando substancialmente a dieta alimentar e a moral das guarnições.
• Durante o conflito do Ultramar, devido à escassa rede rodoviária e em proveito das vias fluviais, parte dos transportes operacionais e reabastecimentos logísticos às guarnições militares e autoridades administrativas era efectuados por LDM's e LDG´s da Marinha Portuguesa, assim como eram utilizadas no escoamento dos produtos económicos.
• O emprego de LDM's e LDG's nas situações citadas no parágrafo anterior, no caso da Guiné-Bissau (multiplicidade de braços de mar e rios, grandes amplitudes de maré e rios muito sinuosos) atingia mais de 80%, percentagem esta que aumentou a partir de 25 de Março de 1973 com a diminuição de voos de carácter logístico da FAP, devido ao fogo anti-aéreo com recurso a mísseis terra-ar de fabrico soviético "SA-7 Grail Strella " por parte do PAIGC.
• Realizavam missões de fiscalização e patrulha de rios (por vezes reforçadas com grupos de combate de Fuzileiros), transporte de civis e Companhias do Exército e participavam na escolta de comboios de embarcações civis (batelões rebocados ou com motores de veio regulável Schottel da Marinha Mercantes [Casa Gouveia do Grupo CUF]).
• Pelo facto de serem dotadas de pouca velocidade, muitas foram alvo de ataques desencadeados a partir das margens pelo PAIGC na Guiné-Bissau, sendo o caso mais conhecido o da LDM 302, atacada e afundada três vezes; outras foram visadas pelo rebentamento de engenhos explosivos improvisados, submersos e de fabrico artesanal do PAIGC, em rios estreitos e pouco fundos, denominados por "minas aquáticas", em ambas as situações as respectivas guarnições tiveram algumas baixas (feridos e mortos), mas nunca deixaram de ripostar, honrando assim as dignas tradições da Marinha Portuguesa.
• Destaque para a verdadeira epopeia da deslocação de 4 LDM's da costa de Moçambique para o Lago Niassa em três operações: a LDM 404 em Dezembro de 1965 "Operação Atum", a LDM 405 e LDM 408 em Abril de 1966 e a LDM 407 em Agosto de 1967 "Operação Roaz", sendo transportadas primeiro por comboio ao longo de 500 km e posteriormente efectuando 250 km por camiões, numa zona de grande actividade da FRELIMO.
• Fruto das relações político-militares entre Portugal e o Malawi, a LDM 404 atribuída ao Comando de Esquadrilhas de Lanchas do Lago Niassa, alcunhada de "Chipa", após ter sido desarmada foi facultada à companhia petrolífera SONAP (estabelecida no Malawi) com o desiderato de transportar combustível, permitindo abastecer navios e geradores da Base Naval de Metangula.
• Por vezes, após a passagem ao estado de desarmamento e abate ao efectivo das LDM's, a peça OERLIKON de 20mm era montada em estruturas de modo a reforçar a segurança de instalações navais.


Peça OERLIKON de 20mm em Moçambique


Peça OERLIKON de 20mm na Guiné-Bissau

• Finda a Guerra do Ultramar foram desprovidas de armamento, algumas LDM's mantiveram-se no serviço activo na Escola de Fuzileiros, outras reclassificadas de UAM - Unidade Auxiliar da Marinha, serviram de transporte e para faina geral na Base Naval do Alfeite (destaque para a LDM 421, utilizada como meio de recurso no Combate à Poluição Marítima).
• Em Dezembro de 1977, a LDM 426 destacada em AMSJ - Área Militar de S. Jacinto, sofreu um acidente que a deixou submersa, sendo recuperada como apoio do Navio-Balizador "Schultz Xavier".




LDM 426 após ter sido recuperada pelo Navio-Balizador "Scultz Xavier"
(Fotos do TCor Páraquedista Miguel Silva Machado)

• Na noite de 03 para 04 de Março de 1978, devido a uma avaria nos motores a LDM 419 atribuída ao Comando Naval dos Açores afundou-se 
a cerca de 10 milhas a NE do farol da Ponta Ribeirinha na Ilha do Faial, durante um temporal com ondulação forte quando transitava da Ilha de S. Jorge para a Ilha do Faial, sem baixas entre a guarnição que foi salva no último momento pela embarcação "Espalamaca" que efectuava ligações diárias entre o Faial e o Pico.
• A 16 Novembro de 1993, no âmbito da cooperação técnico-militar com Guiné-Bissau, a par da formação de Fuzileiros, a LDM 421 foi transferida para a Marinha Nacional da Guiné-Bissau, recebendo o n.º de amura LDM 100, tendo interagido com navios da Marinha Portuguesa no conflito civil de Junho de 1998.


LDM da Marinha Nacional da Guiné-Bissau junto da fragata "Corte Real"

• Em 30 de Outubro de 1997, três LDM's foram reclassificadas de UAM, passando a exibir os seguintes números de amura: UAM 119, UAM 120 e UAM 121, a qual se juntou em 25 de Novembro do mesmo ano a UAM 122.
• Em Abril de 1998 foi oferecida outra LDM à Guiné-Bissau, com a entrega formal realizada no cais do Pidjiguiti pelo Director-Geral de Política de Defesa Nacional, acompanhado do Cte. da Escola de Fuzileiros.
• Em Novembro 2001, a LDM 425 foi adquirida pela Câmara Municipal de Tavira à Marinha Portuguesa, recebendo o nome de "Medo das Cascas", a autarquia utiliza a embarcação para desempenhar serviços de desembarque e transporte no arquipélago ao largo de Tavira.


Foto: blog Barcos+Navios

• A 16 de Setembro 2005, a LDM 119 foi colocada nas imediações da entrada da Porta d' Armas da Base de Fuzileiros, em exposição estática e homenagem as guarnições destas embarcações.


LDM 119 em exposição estática

• Em Julho de 2006, a LDM 120 participou no programa "TV Turbo" da SIC Radical transportando veículos todo-terreno para o local de reportagem.
• Actualmente, somente restam duas unidades destes pequenos grandes navios no serviço activo:
- A UAM 122 na Escola dos Fuzileiros, utilizada para instrução.


UAM 122 a navegar (Foto cedida por Corpo de Fuzileiros)

- A LDM 426, atribuída a título permanente à AMSJ, guarnecida desde 1977 por diversas gerações de Pára-quedistas, servindo de transporte diário de militares e funcionários civis da unidade entre a AMSJ e o Forte da Barra do Porto de Aveiro.


LDM 426 (Foto de Serrano Rosa)

• Futuramente a Marinha Portuguesa será equipada com 4 lanchas de desembarque do tipo LCVP, como meios orgânicos do LPD / NPL (25 metros de comprimento, capacidade para 8 toneladas de carga [36 homens ou viaturas ligeiras]), propulsionadas por dois sistemas de jactos de água à popa e um à proa para manobra.

NOTAS:
Desenhos manuscritos da autoria de Luís Filipe Silva
Artigos do Blog da Reserva Naval sobre as LDM's: