12/12/12

LEITURAS À VISTA - 01

      Iniciando uma nova rubrica, passo a apresentar-vos as “LEITURAS À VISTA”, consistindo na recomendação da leitura de livros sobre temas relacionados com a Marinha Portuguesa e as suas unidades.
 
          Nesta 1.ª “LEITURA À VISTA”, recomendo o livro: "Fuzileiros - Força de Elite", da Clássica Editora, redigido por Ilídio Neves Luís, José Manuel Parreira e Mário Henriques Manso.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
          «A presente obra representa um contributo sério e profundamente sentido para trazer à luz do dia a notável acção dos Fuzileiros durante a Guerra Colonial em que Portugal esteve envolvido.
          São relatos de quem viveu intensamente a guerra integrando uma força especial de elite, trilhando os caminhos mais inóspitos em circunstâncias tão penosas quanto adversas.
          Os autores vivenciaram episódios fantásticos nas antecâmaras da morte, sentindo as indescritíveis sensações da dor física e psicológica, cheiraram o bafiento odor da mata e da bolanha, viram camaradas seus despedaçados e o sangue fumegante a jorrar do seu próprio corpo.
          Jovens oriundos de aldeias de um país obscuro e subdesenvolvido são atirados para a frente de combate numa guerra cruel e fratricida cujas razões e motivos muitos ignoravam.
          Neste livro encontramos bem patentes o heroísmo e a enorme capacidade de dádiva da juventude, imbuída num espírito de corpo, de que os Fuzileiros são um dos máximos expoentes, referencial por excelência de todos os jovens que um dia sonharam servir a Pátria neste corpo de elite da Marinha e das Forças Armadas Portuguesas».

08/12/12

“HISTÓRIAS À VISTA” - 24

          24.ª “HISTÓRIA À VISTA”, da autoria do 2.º Comandante do Navio de Apoio “NRP São Miguel” - CMG REF Brito Subtil (1988-1990), recordando a mascote do navio.
 
O NRP ”SÃO MIGUEL” E O TRIDENTE
 
          O TRIDENTE era o nosso cão - a Mascote do navio. Foi por mim levado para bordo com menos de 4 meses, logo no início do meu Comando, mas muito rapidamente se adaptou ao navio e foi adoptado por toda a guarnição.
            Embora sem raça definida assemelhava-se bastante aos “Setter”, com pêlo castanho avermelhado.
          Tendo crescido a bordo, e conhecendo as suas patas apenas o piso metálico do navio e o chão empedrado do cais, foi extremamente curioso apreciar a sua primeira experiência no areal da praia de Porto Santo – louco de alegria, fazendo covas, saltando, ladrando e correndo desenfreadamente naquela sua nova experiência.
          Funcionava como elo de ligação entre os elementos da guarnição, pois todos eram seus donos, embora manifestasse preferência por um ou outro Marinheiro, dormindo à porta do seu camarote. A todos fazia companhia e de todos era objecto de brincadeira.
          Circulava por todo o navio, especialmente a Ponte onde fazia companhia ao pessoal de quarto ou o Refeitório das Praças, mais condicente com o seu posto de “Grumete honorário”. Quanto à Câmara de Oficiais era tabu – nunca passava da porta.
          Com o navio atracado, saía a prancha e ia ao cais aliviar as suas necessidades, regressando logo de seguida.
          Quando a navegar ficava impaciente, e só fazia as necessidades num determinado local do convés superior menos frequentado, sob os turcos da embarcação do navio.
          A navegar com algum balanço ele sofria com o enjôo, mantendo-se deitado com as patas para o ar de encontro à antepara para se manter estável. Situação bem caricata e curiosa.
            Ao aproximar-nos de terra, que ele detectava certamente pelo cheiro, ficava de novo cheio de vida e já ladrava.
          Nadando no mar também se sentia muito à vontade, e era com alegria e sem hesitações que se atirava da escada de portaló para a água ao encontro dos seus Marinheiros amigos.
          A todos se afeiçoou e a todos cumprimentava, sabendo distinguir bem quem pertencia ou não ao seu navio. Fazendo companhia ao Cabo de quarto junto à prancha dava imediato alerta quando alguém se aproximava do navio, constituindo assim um bom auxiliar da guarda.
          Mal atracávamos, e passada a prancha, o Tridente era sempre o primeiro a pôr o pé em terra e logo de seguida tratava de se aliviar fazendo as suas necessidades no cais.
          O pior aconteceu quando um dia, no Funchal, em vez de atracarmos ao cais atracámos por fora ao Petroleiro “S.GABRIEL”.
            Passada que foi a prancha, como de costume o Tridente de imediato a passou e com enorme à vontade apressou-se a fazer as suas necessidades no convés do “S. GABRIEL” perante a guarnição formada e ainda em faina. E dessa vez lá tivemos que ouvir resignadamente os protestos do Imediato desse navio (Comte. Eloi Lopes Pereira, dilecto amigo, infelizmente já falecido), invectivando o nosso cão pelo seu incorrecto comportamento. O Tridente é que teve dificuldade em compreender a sua falta.
          Quando nos portos estrangeiros é que a situação se complicava, pois havia necessidade de o esconder no porão, para que a sua presença não fosse detectada e se corresse o risco de ter que o deixar em terra de quarentena, o que seria inaceitável pelo pessoal da guarnição. E por isso se verificaram várias situações dignas de aqui ser contadas.
          De manhã, quando eu chegava a bordo com o navio atracado na Doca da Marinha, nosso cais habitual, recebia à prancha os devidos cumprimentos do Imediato, Oficial de dia e restante pessoal de serviço com apito “a sentido”. Depois era a vez do Tridente que respeitosamente subia as escadas comigo acompanhando-me até à porta da Camarinha, ao mesmo tempo que me ia lambendo as mãos.
          Apesar de ter tantos donos a bordo o Tridente nunca se esqueceu do seu primeiro dono - o Comandante - que o levou para bordo e o deixou dormir as duas primeiras noites na casa de banho do seu camarote.
          Muito mais tarde, talvez um ano depois de eu ter saído do navio, quando o “SÃO MIGUEL”, atracado na Doca da Marinha, estava entre duas missões ao Médio Oriente, envolvido na Guerra do Golfo como única participação militar portuguesa, sob o comando do Comte. Rodrigues da Conceição, aproximei-me da prancha do navio para perguntar ao pessoal de serviço se estava algum Oficial a bordo. A guarnição tinha entretanto mudado. Ninguém me conhecia. Eu era apenas um vulgar cidadão à paisana.
          Mas inesperadamente, e com grande surpresa minha, o Tridente desceu em correria a longa escada de portaló e aos saltos e uivos veio cumprimentar-me ao cais.
            Não pude deixar de me sentir emocionado com aquela manifestação de amizade e saudade. Ninguém me reconheceu… mas o Tridente não me esqueceu!
          Vim a saber mais tarde que, quando o navio foi abatido ao efectivo, havia vários pretendentes para levar o TRIDENTE consigo.

05/12/12

“HISTÓRIAS À VISTA” - 23

          23.ª “HISTÓRIA À VISTA”, da autoria do VALM REF Adriano de Carvalho, versando sobre a sua 1.ª comissão de serviço numa unidade naval - o Navio-Petroleiro "Sam Brás".
 
Tempos idos…
Um ano no “Sam Brás”
 
          A minha primeira comissão como 2.º Ten. foi no Navio-Petroleiro “Sam Brás”, onde servi cerca de um ano e onde bati o meu recorde anual de horas de navegação. Este pequeno petroleiro de cerca de 5.000 ton. foi o único que o país dispôs durante o tempo da guerra.
          Foi ele portanto que transportou a pouca gasolina existente na era do racionamento. Os carros particulares só podiam andar 2 dias por semana a não ser que fossem a gasogénio. Os comboios andavam a lenha. Além disso o “Sam Brás” também trazia de contrabando as primeiras meias em nylon para as senhoras freguesas da Casa das Meias, mas isso é outra historia que culminou com o suicídio do anterior Comandante (Sanches de Miranda).
          O certo é que o navio estava constantemente em viagens e as demoras em Lisboa eram de escassos dias. Estávamos em 48. A guerra tinha terminado pouco tempo antes e quando me apresentei a bordo, estava já marcada a primeira viagem para o Golfo Pérsico (Bahrein). Foi-me destinado o cargo de Navegador. O Comandante era o Cten. Borges de Carvalho, excelente marinheiro mas que de cavalheiro pouco tinha, embora não fosse má pessoa.
          O Estácio dos Reis do meu curso também ingressou na guarnição em que tambem figuravam o Belo de Carvalho e como Imediato o 1.º Ten. Ornelas de Vasconcelos (mais tarde CEMA) que no aspecto de aprumo era a antítese do Comandante, mas que mesmo assim se davam muito bem.
          No respeitante às ajudas à navegação apenas se dispunha de uma agulha magnética, dois sextantes e umas cartas muito velhas (séc. IXX, únicas que consegui arranjar no Instituto Hidrográfico e na Casa Garraio). Só mais tarde se passou a dispor de sonda e radiogoniómetro (DAK3).
          Lá largamos um dia (depois do almoço) e lembro-me que o Comandante ficou satisfeito com a minha saída da barra e a partir daí, confiou em mim completamente (muito mais que eu próprio, pois era a minha estreia).
          Tracei o rumo para o Cabo São Vicente e prosseguimos embora eu andasse inquieto devido à responsabilidade que me tinha caído em cima. Iamos em regime de três quartos em que me cabiam os das 8 às 12 e o das 20 às 24. O Imediato fazia o quarto da alva (04 às 08) e os restantem eram feitos pelo B. Carvalho e pelo Estácio. Nos primeiros tempos em que ainda não tinha muita confiança na aplicação prática dos conhecimentos de navegação e calculo náuticos que me tinham sido “impingidos” na EN, levantava-me muitas vezes de noite para ir à Ponte espreitar como iam as coisas.
          Logo na manhã seguinte depois de dobrar-nos o Cabo São Vicente, o Comandante estragou-me o rumo que já tinha traçado para Gibraltar, pois como ele tinha andado muito tempo na fiscalização da pesca no Algarve (na canhoneira “Raul de Cascais”), mandou-me meter rumo para um banco de pesca onde Ele previa encontrar pescadores velhos amigos, o que de facto sucedeu e lhe ofereceram sardinhas para uma patuscada a bordo.
          Contou ele que nos seus tempos do Algarve tinha apresado tantos espanhóis que às tantas passou a ser ameaçado de morte caso fosse a Espanha. Num dia tinha apanhado o mesmo espanhol duas vezes seguidas, pois já sabia que depois do julgamento e da multa, o nuestro hermano ressabiado, se iria vingar pescando outra vez nas nossas águas. Só que não contou que a “Raul de Cascais” saísse à sucapa atrás dele. De resto este navio durou mais uns anos que o devido, pois o Comandante antes das vistorias, oferecia sempre uma almoçarada bem regada aos Engs Construtores Navais.
          Certa noite um pesqueiro espanhol abalroou-o para o afundar. Simplesmente a “Raul Cascais” devido a fabricos, tinha sido substituída temporariamente pelo “Lidador” que era forte e feio, e assim quem se afundou foi o espanhol!
          Contou ainda que outra vez em que o seu recente Imediato, o G.M. Ferrer (meu futuro “Chefe” na Guiné), ficou estupefacto quando a canhoneira encalhou já depois de ter entrado a barra de Faro e ele apenas ordenou que largasse ferro e viesse almoçar. De facto durante o almoço a maré tinha subido e o navio estava safo para seguir para Faro.
          Posto este parêntesis, lá seguimos para o Mediterrâneo com destino a Port Said. Existiam ainda muitos campos de minas por levantar e os avisos à navegação sobre minas à deriva, eram constantes. Na altura havia jà muitos petroleiros com a mesma rota e tinham o hábito de meter conversa por morse luminoso com as perguntas sacramentais “What ship e Where are you bound”, provavelmente para ajudar a passar o tempo. Como só tinhamos um sinaleiro a bordo e para o homem poder dormir tivemos nós (Oficiais de quarto) de aprender a fazer o seu serviço.
           No entanto os verdadeiros problemas de navegação começaram depois do Mar Vermelho. Com o calor a agulha passou a ter desvios erráticos, descobri que o sextante mais mosderno “um Platt” estava empenado e tive que utilizar o velhinho que havia a bordo. Por outro lado por essa altura já eu era um perito a fazer pontos por estrelas que foi o que me valeu. Como a costa da Arábia nesse tempo, não tinha faróis, tentei fazer a navegação ao largo (10 milhas), no que fui contrariado pelo Comandante que me disse que se o navio fosse mercante, levaria o armador à falencia com estas precauções. Entrámos finalmente no Golfo Pérsico, praticamente numa coluna de petroleiros mercantes.
          Às tantas havia que largar a fila e meter para Bahrein já que o grosso da coluna seguia para Abadan ao Norte. O Comandante entendeu no entanto que dadas as nossas difilcudades de navegação, devíamos seguir mais tempo em coluna, pois era mais seguro. Discordei apresentando os meus argumentos que não foram atendidos. Apresentei então a minha demissão do cargo. Sorriu e disse para o Imediato:
- “Está a ver o tipo? Já o garnisé tem crista…”.
          O certo é que larguei a casa das cartas e só ao pôr-do-sol fiz às escondidas um ponto por estrelas. Horas depois, fui chamado ao Comandante que já estava a ver que eu tinha razão e me disse:
- “Então você acha que devíamos guinar para Barhein?”.
          Respondi que já tínhamos perdido várias horas. Bom disse ele, então onde é que estamos agora? Lá lhe puz na carta o ponto que tinha entretanto feito. A situação voltou a normalizar-se com a nossa chegada a Bahrein na manhã seguinte, onde fizemos o nosso carregamento de crude, mas não fomos autorizados a ir a terra.
          O regresso não teve grande história. Lembro-me no entanto de em certa noite estrelada termos passado no Estreito de Ormuz por um enorme círculo fosforescente e giratório, com uns de 200m de diâmetro, fenómeno que certamente se devia a algum cardume mas cuja aproximação nos meteu algum “cagaço”.
          No Mediterrâneo apanhámos mau tempo, mas chegámos finalmente a Lisboa sem novidade. Fomos descarregar à Banatica onde sucedeu um caso cómico ao atracar. O Cten B. Carvalho que era um bom manobreiro, apenas requisitava duas lanchas para passar cabos, prescindindo de rebocadores. No entanto no momento crucial de largar o ferro para aguentar o navio na viragem para atracação, o Imediato não cumpriu a respectiva ordem.
            O Comandante repetiu já chateado “Oh Imediato largue lá essa m…,” mas nada. Fui então encarregado de ir ao castelo para ver o que se passava. Aconteceu que o gato de bordo se metera no escovem donde soprava sem que ninguém o conseguisse tirar. Se se largasse o ferro seria despedaçado pela amarra. Saiu finalmente com um jacto de água, mas a manobra ficou comprometida e teve que ser repetida. De resto este gato era um perito a caçar peixes voadores à noite atraídos pelas luzes de bordo.
          Uma vez tive a sensação que numa das suas caçadas uma vaga o tinha levado, mas veio a verificar-se que estava completamente enxuto a comer o seu peixe voador na coberta do castelo. Este gato tinha a sua telha. Normalmente um dia antes da chegada a um Porto aparecia-me na casa das cartas e atirava com tudo ao chão. Ao atracarmos era sempre o primeiro a saltar para o cais regressando de seguida. Quando a marujada lhe fazia festas nas “partes “, dava duas voltas ao navio em correria desenfreada. Soube que morreu estupidamente mais tarde, quando o navio estava em reparações na doca de Alcantara por ter caído numa zona de água poluida de oleo, embora ainda tivesse sido pescado com vida.
          A segunda viagem foi a Curaçau nas Antilhas. Tinha havido no entanto mudanças na guarnição. O Imediato passou a ser o 1.º Ten. Correia Leal - (ex-aviador), o Engenheiro passou a ser o 2.º Ten. Couceiro, o Administrativo foi rendido pelo Leão da Cunha que de que se dizia ser o 1.º Ten. mais antigo do mundo e que era um pouco boçal.
          Foi também rendido o Médico (Oliveira Alves) pelo Dr. Mano. Este homem nunca devia ter embarcado pois já sofria de uma doença incuravel do foro psíquico, ainda que ninguém a bordo soubesse do facto. Era no entanto bom Médico. O caso é que já em Curaçau com o calor e o cheiro do combustível, ele entrou em fase de delírio, pelo que após consulta com Lisboa fomos autorizados a seguir para a Venezuela (La Guaira) onde se levou o Médico até Caracas, para ser examinado por um especialista de renome. Foi então que soubemos a natureza da doença. Recebemos o conselho de trazermos o Médico para Lisboa sob o cuidado do Enfermeiro, pois ele teria ainda vários períodos de lucidez e melhor seria estar acompanhado quando tal acontecesse. De facto assim sucedeu, mas mais tarde vim a saber que ele se suicidou num desses periodos de lucidez, por ser sabedor da doença de que padecia.
          Foi portanto devido a esta circunstância infeliz que pus os pés em Caracas que já nessa altura era uma cidade gira e com muitos portugueses. Como a viagem durou mais que o previsto às tantas deixou de haver frescos a bordo e passámos a comer apenas grão e arroz. Ainda experimentamos os peixes voadores mas eram muito secos.
          Chegámos finalmente ao Funchal onde a primeira coisa que fiz, foi ir com o Estácio ao Restaurante alemão comer um bom bife que soube tão bem que ainda hoje recordo. Houve mais uma viagem para carregamento de gasolina de aviação em Aruba, sem incidentes de maior a não ser na descarga já em Lisboa (Banatica), pois a chaminé da cozinha incendiou-se.
          Foi um momento de pânico, pois o convés estava todo borrifado de gasolina, o cheiro era imenso (o que nos obrigava a beber leite frequentemente para desintoxicar), felizmente as faúlhas caíram todas ao rio pois a chaminé era à popa e o vento ajudava. No entanto se o vento não estivesse de proa e esta não estivesse virada para a barra, por certo que não estaria aqui para contar esta história.
          Fizemos de seguida uma viagem até Port Arthur no Golfo do México, Sul do Texas. Esta viagem acabou por ser aproveitada para levar parte das guarnições dos seis Patrulhas adquiridos para o Serviço de Busca e Salvamento e que se encontravam em Jaksonville na Florida. Lembro-me que entre outros iam a bordo os 1.º Tens. Malheiro do Vale e o Soares Branco, como futuros Comandantes. À noite na camara havia sempre sessão de má-língua a que praticamente não escapava ninguém na Marinha.
          Quem ia muito preocupado a contar de manhã e à noite os dólares que levava no cofre era, o Leão da Cunha. Uma vez fizemos uma aposta com ele em que eramos capazes de lhe abrir o cofre. Ganhámos porque pressentimos que o segredo só podia ser LENA, nome da sua amásia de Lisboa. O homem ficou para morrer pois não sabia mudar o segredo e a preocupação com os dólares redobrou.
            Em Port Arthur, (pequena cidade tipicamente americana, com casas de madeira e ruas perpendiculares numeradas), andava eu com o Estácio a ver as lojas da terra, quando ao passar por um “drugstore”, ouvimos fortes risadas vindas do interior. Fomos ver o que se passava e então o nosso homem ladrava e coçava-se dando “show” para as empregadas que o rodeavam em risota. Era segundo ele a forma de tentar expressar o que desejava comprar, (já que não sabia inglês), nem mais nem menos que pós para as pulgas dos cães, que qualquer camarada em Lisboa lhe tinha encomendado.
          A última viagem que fiz no navio foi a Long Beach (Sul da Califórnia). Ainda hoje não percebo porquê ir carregar combustível tão longe! Tivemos portanto que atravessar o Canal do Panamá à ida e à volta. Lembrei-me então de escrever a um tio meu (que vivia em Antioch perto de São Francisco), noticiando a nossa ida a Long Beach. O resultado foi que veio buscar-me e lá arranjei autorização para aceitar o seu convite para passar com ele, juntamente com o Estácio e o Gabriel (2.º de máquinas), um fim-de-semana, proporcionando uma visita a São Francisco.
            Foi assim que tive oportunidade de reconhecer este tio que tinha emigrado para a América quando eu era muito pequeno, bem como a sua mulher e dois primos e familiares, entre os quais algumas filhas na altura ainda garotas, mas que já se interessavam por rapazes.
          Tivemos ainda a oportunidade de visitar Los Angeles incluindo o estúdio da Paramount em Hollywood e a casa luxuosa com piscina de uma estrela, cujo nome não me recordo. Na última manhã em Long Beach ainda tive tempo de ir a terra comprar um pequeno rádio barato (no que fui depois muito imitado) e que ainda hoje funciona.   
 
Mar picado, tirando alturas…
          No regresso, já depois do C. do Panamá ao passarmos pelas Antilhas, tivemos um momento de “suspence” quando a sonda começou a indicar fundo numa posição em que tal não devia suceder. O pior é que o fundo segunda a sonda estava a diminuir lentamente de 100 para 10 metros, pelo que chamei o Comandante que logo mandou parar as máquinas. Imediatamente deixou de haver indicação de fundo na sonda. O fenómeno deu azo à discussão na camara de várias interpretações, sem que se chegasse a uma decisão. Para mim seria talvez uma camada de água de temperatura ou salinidade diferentes.
          A minha comissão no “Sam Brás” veio a acabar com uma cena chata. Foi o caso do Imediato ter comunicado na camara estar incompatibilizado com o Comandante por lhe ter aparecido no Conselho Administrativo uma factura duma fictícia lavagem de tanques do navio no Panamá. (destinada à Cantina de bordo, que distribuía a toda a guarnição sapatos de ténis e fatos de trabalho), coisa que ele se recusou a aceitar. Havia portanto que tomar posição e todos os Oficiais, com excepção do Belo de Carvalho que era parente do Comandante, apoiaram o Imediato.
          A mim custou-me particularmente tomar esta decisão, pois o Comandante gostava de mim e eu apreciava as suas qualidades de Marinheiro. Simplesmente o assunto mexia com o prestígio da Instituição e ainda hoje julgo que a minha decisão foi a correcta. O resultado foi que depois em Lisboa veio uma inspecção a bordo que detectou varias irregularidades, mas por uma questão de “ prestígio do Comando” os Oficiais foram substituídos e o Comandante ainda fez mais uma viagem.
          Eu por exemplo fui parar ao Corpo de Marinheiros onde passei uns 3 meses antes de seguir para Vila Franca tirar o curso de especialização em Comunicações.
 
Artigo sobre o NAVIO DE APOIO "SAM BRÁS": http://barcoavista.blogspot.pt/2010/11/navio-de-apoio-sam-bras.html

21/11/12

“HISTÓRIAS À VISTA” - 22

          22.ª “HISTÓRIA À VISTA”, na forma de mais uma memória do 1.º Comandante do Navio de Apoio “NRP São Miguel” - CMG REF Oliveira e Costa (1985-1988), versando sobre os preparativos da viagem do navio a Moçambique.
 
MEMÓRIA N.º 7: … coisas sem importância do “nosso” navio!
 
          Ter servido no NRP “São Miguel” foi uma experiência de vida inolvidável. Tenho a certeza que o mesmo reconhecimento perdura nos que ali prestaram serviço. Todos comungavam do mesmo espírito de missão! O navio chegara à Marinha, é certo, como um facto consumado… situação causadora de algum melindre para alguns, mas os que nele dedicadamente trabalhavam não eram, por isso, responsáveis!
          Continuo a não aceitar o fim a que o sujeitaram depois de tantos serviços concretizados demonstrando, de forma positiva, a sua valência como Navio de Apoio Logístico. Das diferentes missões atribuídas destaco, entre outras, o transporte de material, da Marinha e do Exército, tão diverso como equipamentos de comunicações, viaturas militares, material de guerra, Contentor Itinerante de divulgação da Marinha, material do Instituto de Socorros a Náufragos, da Cruz Vermelha Portuguesa, da UCCLA, produtos alimentares, carga congelada, material diverso de apoio às populações e até um cavalo transportámos, de Lisboa para o Funchal, além da participação activa em exercícios quer na vertente militar quer civil.
          Não posso deixar de ressaltar os dois lançamentos ao mar de munições sentenciadas com uma ida à Madeira pelo meio! O primeiro, em JUN86, de mais de 900 toneladas de munições da Marinha, Exército, PSP, GNR, GF e INDEP e, o segundo, em JUL86, de cerca de 700 toneladas, tudo executado sem alarido e com modéstia, como é apanágio da Marinha, mas onde hoje, reconheço, não ter sido a melhor atitude para divulgação das nossas possibilidades e capacidades.
          As peripécias do embarque e lançamento ao mar deste material ficarão para uma próxima memória… pois ilustra bem o cuidado e atenção que nos dedicavam. “… em perigos esforçados… dizia o poeta e nós… também!”. Na primeira viagem embarcaram 12 soldados para “ajudar”. Durante o embarque do material diversas situações, por nós consideradas de muito perigosas, foram pontualmente comunicadas por telefone ao CNC, aliás como toda a actividade durante a faina de carregamento. “Ficavam cientes” apesar da gravidade da maioria dos relatos… sem comentários!
          Durante o primeiro carregamento recebemos várias visitas do Cte. Leitão Rodrigues e do Eng.º Valente. Durante o segundo carregamento recebemos, e por uma só vez, a visita do Cte. Burguette! O “São Miguel” foi afundado 32 anos depois da data do seu lançamento dos quais os últimos 8 anos foram ao serviço da Marinha Portuguesa. Com uma guarnição de 30 homens, era um navio económico e resistente que, na altura, poderia desempenhar as funções de um Meio Naval de Apoio Logístico. Mas aquela pecha na sua aquisição fez com que, desde o inicio, fosse considerado como restrito e inadequado para o desempenho das funções que a Marinha lhe decidiu atribuir “à posteriori”!
          Apesar das sempre diferidas beneficiações relacionadas com o bem-estar da guarnição nunca isso foi justificação para esmorecer o seu empenho no cumprimento das missões atribuídas. Tínhamos sido os “escolhidos”, os “eleitos”, para proteger e introduzir o “São Miguel” na sua nova família e com que alegria e entusiasmo o fazíamos! A actividade de bordo era genericamente diferente da verificada a bordo das unidades militares. Não tínhamos formação ou treino de carga, estiva e transporte, valência específica do navio, assunto que nos merecera desde logo a nossa atenção, muito em especial do Imediato e do Mestre.
          Todos tínhamos de ser generalistas. Aprendíamos depressa! Cedo ganhámos a certeza de poder ocupar e desempenhar as funções que nos seriam cometidas no cumprimento das Missões e Tarefas da Marinha! Conhecer o navio “com luz e às escuras era mandatório” assim como todo o material relacionado com Segurança e Meios de Salvação. Ignorância ou menos cuidado nestas matérias era inaceitável. Assim todos conheciam da existência, localização, sua identificação e utilização bem como dos cuidados durante e após a utilização desse material.
          Um Circuito de Alarme constituído por 12 campainhas, comandadas da Ponte, cobria as áreas habitáveis. Na Segurança sobressaia o material para detecção e combate a incêndio, além das mangueiras e extintores de pó químico e de CO2, duas Máscaras de ar comprimido localizadas uma na casa de navegação, na Ponte, e a outra na casa da máquina, junto à porta de saída a BB, para o corredor dos camarotes.
          Duas Lâmpadas DAVY, para detecção de gases inflamáveis, guardadas na casa do material LA, junto à entrada do refeitório. Três Fatos de Amianto, um na casa de navegação, na Ponte, e os outros dois na casa do material LA. O Avisador de Incêndio constituído por um sistema de detecção de fumo compreendia uma instalação de tubos que ligavam os porões a um detector de fumo situado na Ponte.
          Este sistema de detecção estava conjugado com o Sistema de Extinção de Incêndio, por gás carbónico. Nos meios de salvação existiam quatro Speed-Lines localizadas, na Ponte, duas a cada bordo. Um Aparelho de Vai-e-Vem de Salvação com Bóia Calção localizado na Ponte alta (Parque de Antenas). Coletes Salva-vidas de dois tipos, os de enchimento automático e os constituídos com material flutuante.
          A cada elemento da guarnição foi distribuído um colete de enchimento automático. Oito Bóias Circulares de Salvação, duas nas asas da Ponte e duas junto às baleeiras, tendo amarrado um aparelho de luz e de fumo. Duas no pavimento das baleeiras, junto das escadas que dão para ré, com aparelho de luz e, a ré, as outras duas, uma a cada bordo defronte das portas de acesso aos alojamentos da guarnição.
          Em cada suporte, das bóias circulares de salvação, estava amarrada uma retenida. Duas Jangadas Pneumáticas, para 20 homens cada, colocadas nas asas da Ponte e duas Embarcações Salva-vidas, uma a cada bordo, em fibra de vidro com a lotação de 50 pessoas cada. A de BB era motorizada e a de EB à vela.
          Um Aparelho Radiotelegráfico Portátil e uma Baliza Radiotelegráfica, colocados na Ponte, junto ao leme e prontos para serem transportados para qualquer embarcação Salva-vidas, em caso de emergência. As embarcações suspensas em Turcos de Gravidade, exigiam somente um homem para a sua manobra e, a cada bordo, para as servir, dispunham de uma Escada de quebra-costas.
          Existiam igualmente Fachos Holmes e Fachos de Fumo de cor alaranjada, estes presos às bóias circulares. Os fachos que não estavam a uso encontravam-se guardados na Ponte, em armário próprio. Sinais de Socorro Luminosos Vermelhos com pára-quedas estavam guardados na Ponte e nas embarcações Salva-vidas.
Simplicíssimo… coisas sem importância do “nosso” navio!
 
          Tínhamos tirado, é certo, o “Cabo Verde” da Marinha Mercante… mas ninguém conseguira que o “São Miguel” deixasse de ser um Navio Mercante!
 
Um saudoso abraço ao Oficial Imediato e ao Sr. Mestre.

20/11/12

OPERAÇÃO "MAR VERDE" EM BANDA DESENHADA

OPERAÇÃO "MAR VERDE" EM BANDA DESENHADA
da autoria de António Vassalo Miranda
e edição da Caminhos Romanos
Preço: € 3,00
 
                                           

27/10/12

“HISTÓRIAS À VISTA” - 21

          21.ª “HISTÓRIA À VISTA”, memória do 1.º Comandante do Navio de Apoio “NRP São Miguel” - CMG REF Oliveira e Costa (1985-1988), versando sobre os preparativos da viagem do navio a Moçambique.
 
MEMÓRIA N.º 6: Conseguimos…
 
          Afinal o rumor ganhara consistência! Estávamos em finais de Abril de 87 e tudo indicava que iríamos a Moçambique. Portugal, respondeu afirmativamente ao apelo internacional do governo moçambicano. A Marinha escolheu o “nosso” navio para levar o auxílio de emergência. Já tínhamos dado provas de que podíamos navegar contra mares ventos e… alguns Almirantes, como dizíamos com graça e alguma “respeitadora” malícia!
          A nossa vivência a bordo era um “calmo e encadeado sobressalto!”, fazendo lembrar os Açores onde, com frequência, temos as quatro estações do ano no mesmo dia! Assim corriam os nossos dias no seio da Marinha. Ora éramos acolhidos com respeito, amizade e desejados ora olhados de soslaio, sem carinho e alguma desconfiança. Afinal éramos iguais a todos os outros! Na realidade o “São Miguel” também mercê da sua guarnição, diga-se, já conquistara o seu espaço e por ninguém já era ignorado!
          Para o CEMA o NRP “São Miguel” merecia-lhe consideração, respeito e, quando se falava nele, o seu rosto revelava a alegria que lhe dava apreciar o crescer do navio, no seio da Marinha, qual filho amado. Já que, para aqueles que continuavam insatisfeitos pela maneira como entrara, sem os doutos e mandatórios estudos, mantinham-no à cabeça de qualquer lista de proscritos… continuavam a considerá-lo como “Persona non grata”.
          O navio viera para a Marinha pela mão do CEMA e que disso dera informação ao seu Estado-Maior numa simples reunião antes do almoço! No dia 8NOV85 pelas 1430 efectuava-se na SSFA a escritura de compra e venda do NM “Cabo Verde” para a Armada. É fácil, agora, de entender porque não havia Oficiais disponíveis/interessados para ali prestarem serviço. Eu terminara a meu pedido uma comissão na Capitania do Porto do Douro, como Oficial Adjunto, e seria “salutar” manterem-me ocupado, e afastado, pelo que fui mandado apresentar-me no “Cabo Verde”.
          A maneira como forcei a minha saída do Douro não foi bem aceite ficando, por isso, igualmente “inscrito” nos dispensáveis. Conseguimos ultrapassar e bem todas as contrariedades! Já o “São Miguel” não teve a mesma sorte pois, finalmente, em 1994, oito anos depois de aumentado ao efectivo, foi decidido afundá-lo, no mar alto, carregado com munições sentenciadas da Marinha, Exército e Força Aérea.
          Mesmo assim, depois de “consumidas” todas as suas resistências, sozinho, triste e abandonado a uma luta sem glória, não prescindiu de manifestar orgulhosamente a sua indignação “libertando-se” com uma estrondosa explosão, sentida a milhares de quilómetros de distância, conforme registos em diversos detectores sísmicos, qual resposta, vibrante e sentida, a um moderno, incoerente e falso Adamastor! Aos que assistiram ninguém ficou indiferente… Acompanhando-o também morrera uma parte de nós. Fica a memória de momentos tão saudosos e inolvidáveis… restava-nos o Encantamento da Saudade.
          O “São Miguel” já tinha realizado, em 1986, dois lançamentos ao mar de munições sentenciadas e, com a experiência adquirida, poderia continuar a fazê-lo. A bordo a vida continuava. Contactos, desenhos, beneficiações, pequenos fabricos enfim tudo aquilo que pudéssemos “conquistar” merecia a nossa atenção e cuidado. A actividade a bordo continuava intensa. Em JUN87 saía de fabricos da Setenave, em Setúbal.
          Reuniões sobre a missão do navio a Moçambique começadas em Maio, desse ano, continuavam no Estado-Maior, onde o MNE e a Ordem Soberana de Malta eram representados por dois elementos, o Embaixador Lopes da Costa e o Dr. Marcus Noronha que, muito rapidamente, passaram a ser considerados como elementos honorários, da nossa guarnição, face ao seu entusiasmo pelo navio e pela missão em causa. O “São Miguel” ganhara no MNE e na Ordem Soberana de Malta dois defensores poderosos!
          Uma velada tentativa de substituição do comando mereceu, por parte daqueles elementos, uma posição séria de repúdio que fez esmorecer essa ou quaisquer outras tentativas destabilizadoras da Missão. A partir daí passámos a estar na ribalta. No EM e no CNC sucediam-se as reuniões para os necessários acertos sobre a viagem a Moçambique. Na última semana de Julho os dois elementos do MNE acompanhados do Cte do “São Miguel” deslocaram-se a Maputo para, com o Governo de Moçambique, se combinarem os detalhes e pormenores da Missão.
          É aí que o Governo de Maputo pede para serem incluídos, no pacote da oferta, produtos não contemplados inicialmente, conservas de peixe, vinho e chouriço, dentre outros. Ficou também acordado que o plano de descarga do navio seria definido quando da chegada a Maputo, e na presença da oferta, decidindo-se então para além dos portos principais de Maputo, Beira e Nacala, quais os novos centros populacionais, ao longo da costa, a contemplar.
          Em MAI87 apresentava-se o Médico e, no mês seguinte, o oficial AN. A alegria motivada pela viagem, de cerca de 4 meses, onde escalaríamos Açores, América, Brasil, África do Sul, Moçambique, S. Tomé e Príncipe e Cabo Verde era indescritível e palpitante em todos os elementos da guarnição. A bordo “vivia” uma família feliz e, unida.
          Por oposição fez-me, agora, lembrar uma recente observação do meu neto mais novo, de dois anos, certa manhã de sol de Inverno, na Costa de Caparica, quando me puxou para dizer, numa entoação triste, “que o mar estava sozinho…” Quando quis saber da razão respondeu-me “porque não tinha barcos! ”. Quantas vezes ao longo da minha vida vivi, no mar, sozinho e voluptuosamente essa imensidão vazia e sublime…
          A boa disposição imperava. Todos os dias eram apresentadas a bordo novas informações dos locais a escalar… O estudo da viagem ia sendo feito por todos! O Clínico ia preparando a guarnição para os cuidados primários de saúde e também dos secundários!
          O HIV era tema de todas as conversas e o comando conhecedor dos seus homens e da maneira de ser do povo português, em particular do Marinheiro que, caprichando por amizade e amor ao próximo, cumpriria, certamente o já conhecido aforismo “uma mulher em cada porto e um porto em cada mulher”, e ciente da preocupação de quem deveria zelar pela saúde dos mesmos, elaborou através do CA e na sequência da intensa mentalização, fruto da evidente preocupação do Facultativo, uma Requisição de Preservativos que acrescentou ao “Quadro do planeamento logístico e financeiro da viagem” dirigido ao EMA.
          Juntamente com a Requisição seguia a justificação julgada pertinente bem como do critério utilizado na quantificação apresentada, baseado em meio preservativo homem/dia. O número de dias considerados para o cálculo foram os previstos pela III DIV e indicados no planeamento da viagem por ela elaborado. A resposta foi negativa esclarecendo ser inaceitável a satisfação de tal pedido!
          A 16AGO87 iniciámos a carga do navio. Uma dor de cabeça para o Imediato. Sabíamos o que íamos carregar mas desconhecíamos os locais onde a mesma iria ser descarregada! Era uma actividade nova. Carregar um navio mercante. Lembrava-me o que se tinha passado com o NRP “Afonso de Albuquerque” quando em 1942 fora a Timor, quando da invasão japonesa… O pessoal do Exército, que foi inexcedível no cumprimento da sua missão, procedia ao transporte do material para a Doca da Marinha procedendo, de seguida, à sua estiva a bordo.
          O pessoal do navio orientava a estiva e trabalhava com os paus de carga. A guarnição do navio desempenhou as funções normais do pessoal da Marinha mercante só que a nossa formação não contemplava tais actividades mas, nem por isso, foi notada qualquer anomalia no carregamento! Embarcámos ainda, no convés, 4 viaturas LARC dos FZ’s, anfíbias e com a capacidade de transportarem 5 toneladas cada respondendo assim à solicitação do Governo Moçambicano de desembarcar parte da oferta ao longo da costa aberta daquele país.
 
Tínhamos conseguido merecer e ser merecedores da confiança de todos.
Ao CMG AN Júlio Soares Lopes, então Chefe do Conselho Administrativo do NRP “São Miguel”, um muito grato e saudoso abraço.

24/10/12

JORNAL DE DEFESA E RELAÇÕES INTERNACIONAIS


          O JDRI - "JORNAL DE DEFESA E RELAÇÕES INTERNACIONAIS", fundado pelo Vice-Almirante Reis Rodrigues, dispõe de um novo site, trata-se de um espaço on-line para debate de questões sobre segurança, defesa e relações internacionais contemporâneas:

23/10/12

“HISTÓRIAS À VISTA” - 20

          20.ª “HISTÓRIA À VISTA”, da autoria do CALM REF Nunes da Silva, versando sobre a sua participação no NBGE-MTWP da NATO, como representante de Portugal.
 
PARTICIPAÇÃO DE PORTUGAL NO NBGE-MTWP:
 
          Em 1970, sendo eu Director de Instrução do CITAN, fiz uma proposta de alteração ao ATP 1, manual NATO das operações aero-navais.
          Por esse motivo, fui nomeado para representar Portugal na reunião do NBGE (Naval Board Group of Experts) a realizar em Oslo, numa quinzena de Novembro.
          Como participante, recebi todas as propostas e comentários a essas propostas dos restantes países e comandos NATO, de alterações ao ATP 1 e aos outros manuais.
          Estudei-as cuidadosamente, uma a uma, para poder emitir opinião, fundamentada, de aprovação, rejeição ou de aprovação se alterada.
          Entretanto, passei do CITAN à Capitania do Porto de Lisboa, o que não me impediu de ir recebendo propostas novas, as estudar e depois participar na reunião de Oslo.
          O grupo de Oficiais especialistas era grande e foram criados vários painéis para deliberarem sobre as propostas das várias publicações. Eu fiz base na do ATP 1 mas, porque era representante único dum país, fui de vez em quando aos outros painéis, dar opinião.
          As minhas opiniões tiveram excelente aceitação, melhores do que as de Oficiais de países como os EUA e bateram o recorde de aceitações.
          Chegado a Portugal fiz relatório, terá sido entendido como “gabarolice” e ficou na gaveta da secretária dum Chefe de Divisão do EMA.
          No ano seguinte Portugal não se fez representar e o NBGE, mantendo missão, passou a designar-se MTWP (Maritime Tactical Working Party).
          Em 1972, vem o MAS Naval Board a Portugal e o seu Presidente faz, no EMA, uma declaração onde consta:
 
          Foi uma “bomba”, “aparece” o meu relatório, dizem-me que serei condecorado, que a medalha Vasco da Gama era pouco. Não fui condecorado nem sequer louvado, mas passei a ir a todas as posteriores reuniões anuais do MTWP e outras e a acumular o trabalho na Capitania com este do EMA.
          Dada a multiplicidade de painéis, propus e foi aceite como meu adjunto o então Com.te Aguiar de Jesus e, nalgumas das outras reuniões, Malheiro Garcia, Joel Pascoal, Hasse de Oliveira, Conde Martins, Chaves.
          De todos recebi excelente cooperação, Portugal passou a apresentar mais propostas e comentários a propostas, batendo recorde de aceitações em todos os anos.
          O meu método manteve-se: reunia os meus Oficiais, analisávamos todas as propostas e seus comentários, uma a uma, e decidia qual a posição a tomar por Portugal, fundamentando-a.
          Nas reuniões, quando aparecia indecisão nalguma proposta, o Oficial vinha-me consultar. E, todos os dias, após cada reunião, reunia-os no quarto de hotel para fazermos o ponto e estudarmos propostas de decisão adiadas.
          Num plenário na Holanda, as minhas intervenções foram tantas e tão certeiras que a plateia, com cerca de 80 Oficiais de todos os países, rompeu com uma salva de palmas. Resultados de 1976:
 


























































































          O crédito que Portugal obteve, veio a servir-me para conseguir comparticipação NATO na aquisição de unidades navais, operacionalmente credíveis, concretizada anos depois nas MEKO. E no CITAN.
          Deixei de participar no MTWP após promoção a Oficial General em 1976, passando o testemunho a Joel Pascoal.

VÍDEO INSTITUCIONAL DA MARINHA PORTUGUESA


18/10/12

VÍDEO-SILDES DO 2.º ENCONTRO DE MERGULHADORES DA ARMADA



          Eís o vídeo de slides de fotografias compilado pelo anfitrião do “2.º ENCONTRO DE MERGULHADORES DA ARMADA” - SAJ FZE  / US REF Afonso Brandão, evento realizado no dia 15 de Setembro do corrente ano, na forma de almoço-convívio no Restaurante Dona Isilda (Palmela).
          Estiveram presentes cerca de 40 Mergulhadores-Sapadores da Armada Portuguesa, alguma acompanhados da respectiva família, desde Oficiais, Sargentos e Praças, a maioria na situação de REF.
          Cumpre-me agradecer ao anfitrião e esposa o agradável dia e participação no almoço-convívio, assim como a possibilidade de cumprimentar camaradas seus já meus conhecidos e, a oportunidade proporcionada de conhecer pessoalmente outros camaradas, inclusivamente alguns com quem há já alguns anos também mantenho contacto, sobre assuntos relacionados com os Mergulhadores.

 

15/10/12

“HISTÓRIAS À VISTA” - 19

          19.ª “HISTÓRIA À VISTA”, na senda das memórias do 1.º Comandante do Navio de Apoio “NRP São Miguel” - CMG REF Oliveira e Costa (1985-1988).
 
MEMÓRIA N.º 5: TANJOEL…???
 
          Tínhamos regressado da nossa 13.ª saída em que lançámos ao mar munições sentenciadas do Exército e da Marinha. Agora, oito dias depois o NRP “São Miguel” saía de novo para participar no exercício “ALBATROZ – 86” como Navio de Apoio Logístico, integrado na Task Force (TF) sob o comando do CMG Luís Joel Azevedo Pascoal embarcado no “NRP S. Gabriel”, que comandava.
          O Comandante Joel era um marinheiro à antiga, sempre impecavelmente fardado, sóbrio, com aquela postura fidalga, observador atento, deixando raramente escapar um modesto e complacente sorriso. No convívio restrito era uma boa companhia, por vezes mordaz e jocosa. Exigente, disciplinado e disciplinador, todos os que com ele privavam lhe guardavam respeito e obediência. Estava bem presente o lema “Conhaque é conhaque; serviço é serviço! ”.
          O Exercício decorreria de 21 a 28JUL86. Nos dois primeiros dias fizeram-se reuniões no Comando Naval do Continente e, a saída dos navios, concretizou-se na manhã do terceiro dia. Levávamos os Fuzileiros que iriam fazer um desembarque na Praia do Pinheiro da Cruz. Próximo do objectivo, passariam do navio para botes Zebro, iniciando-se logo de seguida a operação planeada.
          Além das unidades navais e de Fuzileiros participava, ainda, um helicóptero da Força Aérea. Na véspera da saída, o Mestre, durante uma inspecção ao navio, caiu num porão e traumatizou os dois pulsos. Tratado no Hospital da Marinha foi dispensado de todo o serviço tendo, por isso, ficado em terra.
          Problemas estavam sempre presentes! Os Fuzileiros embarcaram cedo e o navio largou logo de seguida. As “redes de desembarque” não foram embarcadas, como inicialmente previsto, tendo sido informado que as mesmas seriam “entregues” pelo helicóptero, durante o exercício, que as recolheria da “Fracapelo”.
          O número de FZ’s a embarcar só nos foi dado a conhecer na véspera da saída! Às 1030 tivemos de fundear, em S. José de Ribamar, devido ao rebentamento de um encanamento de água salgada. Na altura foi ainda combatido um princípio de incêndio na comutatriz do Radar! Substituído o encanamento levantámos ferro e seguimos ao encontro da TF.
          Ainda não tínhamos saído a Barra quando recebemos da “Fracapelo” o primeiro sinal táctico. Começara o nosso fado pois não nos tinham sido ainda (!) distribuídas quaisquer publicações “sobrevivendo”, o “São Miguel”, da experiência dos Oficiais que, mercê dos muitos exercícios em que participaram, e em especial do Oficial Imediato, iam decifrando com algum à-vontade, a maioria dos sinais tácticos.
          Durante a tarde desse primeiro dia, constatado que só um FZ estava francamente enjoado, situação que não se alterou ao longo de todo o exercício! A Força embarcada trazia um socorrista mas não trazia medicamentos! Para as comunicações visuais dispúnhamos de uma única lanterna ALDIS! Ao final daquela tarde alcançámos a TF.
          O “São Miguel” era um navio lento, com um comportamento suave, doce de leme mas muito sensível ao vento. Com 108 metros de comprimento e 16 de boca, convés subido a ré e fundo chato, com um motor MAN a 2 tempos, directamente reversível, com a potência de 4000 BHP, a 150 RPM, que accionava um hélice, de passo direito, com 5 pás e um diâmetro de 5,6 metros e desenvolvia uma velocidade máxima de 14 nós.
          Na situação de vazio o “Namiguel”, era o nosso indicativo radiotelefónico, calava a ré 5,8 metros e, a vante, 0,56 metros. Para contrariar este “medonho” caímento a ré, decidi que os tanques de combustível estariam sempre cheios ou de combustível ou lastrados com água salgada, decisão que foi uma verdadeira violência para o Engenheiro.
          À velocidade de cruzeiro de 12.5 nós tínhamos uma autonomia de 21 dias. Às 2015 ocupámos, com entusiasmo e alguma vaidade, a posição ZZ. Este primeiro dia de navegação fôra trabalhoso e enervante onde a falta de Publicações nos trazia num stress constante! Eu e o Imediato, alternadamente, ao longo de todo o exercício, permanecemos na ponte. Havia que cuidar do bom nome do navio e da sua guarnição! Sentíamo-nos todos dependentes uns dos outros.
          A actividade operacional (táctica) era intensa e as mensagens, que na sua maioria não interessavam ao navio, não pararam ao longo de todo o dia, sobrecarregando o pessoal, valeu-nos ter ficado, a recepção da Radiodifusão, a cargo da “Fracapelo”. Se o futuro da nossa actividade contemplasse situações semelhantes, às vividas neste dia, então seria da maior oportunidade mandarem, o Comandante e o Imediato, frequentar no CITAN, os cursos a eles destinados!
          Participar num exercício onde as alterações de velocidade se verificavam com alguma frequência era uma “tragédia”, para as executar em tempo, já que não dispúnhamos das características inerentes aos navios de guerra, tornando as manobras pesadas e demoradas. No final deste primeiro dia, de navegação, os FZ’s tinham mantido um comportamento calmo e somente o “enjoado” se mantinha INOP.
          Já ao fim do dia “embarcou” um pombo-correio tendo-lhe sido facultado, perto do local da “aterragem”, um tabuleiro com água doce, uma “atenção” do serviço de manobra! A falta do Mestre, que ficara em terra, foi notória nesse dia e nos restantes. O prometido contentor sanitário não embarcou criando situações desagradáveis entre o pessoal transportado bem como à guarnição!
          Começámos o segundo dia de navegação com bom tempo, poucas nuvens, com vento fraco e mar chão. Mas ninguém parecia interessado naquela paz. Tudo indicava que iria ser, e foi, um dia mais trabalhoso que o anterior! Um desassossego! O nosso passageiro “alado” talvez não entendendo a razão pela incerteza do rumo pretendido, pois que o alterávamos com frequência, perto do meio-dia, recuperadas as forças depois de uma noite “Chez-Nous”, resolveu “desembarcar” seguindo o seu caminho não sem antes ter dado uma volta ao navio em jeito de despedida!
          Foi um dia dedicado a evoluções, formaturas, reabastecimento, alterações de posição, num constante movimento. Era “Corpen” à direita, “Corpen” à esquerda, “Través” 1500 jardas, etc., etc., eu sei lá… e por aí fora sem descanso. Durante um exercício de reabastecimento o Cte. da “Fracapelo”, Cte. Beça Gil, enviou na bóia calção, uma oferta para o Cte. do “Namiguel”, uma caneca para cerveja com o nome da fragata. Caneca que ainda hoje guardo, com alegria e saudade, na minha “Sala de Recordações”.
          Foi um momento de “descompressão”, não só pela amizade manifestada, como pela atenção dada ao navio que parecia continuar a sofrer o ostracismo da Marinha onde tentava, com todas as forças, saber e entusiasmo, mostrar e dizer que também ele e a sua guarnição estavam ali devotadamente, disponíveis para servir com honra, coragem, sacrifício e muita dedicação, no cumprimento das missões e tarefas cometidas à Marinha, numa valência tão necessária: A de um Navio de Apoio Logístico.
          O terceiro dia estava lindo. Mar calmo e vento fraco, embora com tendência para aumentar. O “Tambriel”, indicativo radiotelefónico do NRP “S. Gabriel”, fiscalizava o exercício com “mão de ferro” chamando a atenção sempre que qualquer procedimento não era correctamente executado. As chamadas de atenção ao “São Miguel” também se verificaram.
          Assim eram as chamadas de atenção para a demora em certas manobras (o navio era “lento”!), ou no caminho seguido para a nova posição ou ainda na demora da resposta aos sinais tácticos (eram descodificados “a pedido”!), enfim, reparos que me deixavam com os nervos em franja perante a minha impotência para concretizar, com eficiência, o solicitado.
          Era difícil de aceitar a incompreensão de “Tambriel”. Tínhamos consciência das nossas limitações. Contudo nada podíamos fazer para melhorar a nossa situação na TF. A máquina “entendeu”, face às frequentes alterações, nas rotações, que não estava a ser considerada com a dignidade devida e resolveu “ir abaixo” mais de uma vez! Para “ajudar à missa”, a “táctica”, mantinha-se num nível de execução alto! Não tínhamos ETO nem megafone e, se não houvesse cuidado, o mais natural seria começarem todos aos gritos!
          No início dessa manhã, estávamos a 80 milhas a W de Sines, o Marinheiro Parreira apanhou outro pombo mas este resolveu “sair” pouco depois! Perto da hora do almoço o Helicóptero foi à vertical, da popa do navio, para depositar as redes de desembarque, que fora buscar à Fragata. Não fez o serviço devido aos paus de carga do navio.
          Diziam eles que tínhamos “muito lixo”! Eles é que tinham muito lixo, e era na cabeça! Em 1974, na Guiné, os nossos helicópteros, se fosse preciso, aterravam nos cornos de uma cabra! Agora na popa do “São Miguel” não podiam arriar um molho de redes de desembarque porque tínhamos “muito lixo”! As redes foram então levadas e deixadas na “Corenes” que as enviou, ainda nesse dia, em botes Zebro.
          Depois da faina das redes a máquina tornou a não arrancar devido a problemas na Placa Ejectora que já tinha sido substituída, quando da ida a Portimão, na nossa 1ª saída para o mar, em 13MAR86. Para desanuviar, da parte da tarde deste terceiro dia, foi ensaiada e cheia, pela primeira vez, a piscina engendrada com uma capa de lona que fixaram por ante-a-ré da tampa do porão nº 2.
          As manobras decorriam normalmente e encadeadas umas nas outras. Não havia tréguas! A nova manobra implicava, naturalmente, alteração de posição e de velocidade, novas mensagens, sinais por bandeiras e todo um rosário de ordens e procedimentos, exigindo-nos redobrada atenção no movimento do nosso navio e dos outros que se encontravam mais próximos.
          Era um “bailado” digno de se ver com o helicóptero, evoluindo sobre a força, levando material diverso entre os navios. Era bonito de se ver as outras unidades a evoluírem graciosa e harmoniosamente. O “São Miguel”, qual patinho feio, seguia “em esforço e em stress” para a sua nova posição, reportando de imediato e com entusiasmo quando a alcançava. Não raramente seguida duma chamada de atenção, na fonia, pelo Comandante da TF, a que se respondia com um seco, cansado e sem jeito “Roger Out”.
          Neste frenesim, e na sequência de mais uma chamada de atenção, o Imediato com graça e na sua habitual boa disposição, que tão bem o caracterizam, disse:
- “Este Tanjoel não nos larga…”.
          Embalado, pelo inédito e inopinado dito, logo respondi com um sorriso:
- “TANJOEL, TANJOEL AQUI NAMIGUEL, ROGER OUT”.
          Claro que, na sequência, foi recebida uma lacónica mensagem convidando-me para um “drink” na camarinha do Cte. do NRP “S. Gabriel” logo após o “debriefing” a realizar no Posto de Comando dos FZ’s, na Praia do Pinheiro da Cruz… Na madrugada do terceiro dia já o vento tinha refrescado bastante e na madrugada do quarto dia já estava de moderado a fresco dificultando o posicionamento do navio para o desembarque dos FZ’s.
          Fundeámos às 0735 com 4 qq. na posição determinada (140/.65 Farol da Ponta do Cais). Colocámos as redes de desembarque em posição e verificámos que não tinham altura suficiente pelo que foram casadas, e mesmo assim não chegavam ao lume de água, pelo que o pessoal tinha de se deixar cair, para os botes, originando situações de insegurança agravadas pela mareta e pelo rabear do navio devido ao intenso vento que se fazia sentir! Havia ainda muito que aprender!
          O quinto e sexto dia foram passados naquele fundeadouro, desabrigado, com previsão de saída para o oitavo dia (28JUL86). Devido ao vento que se fazia sentir, e ao rabear do navio, passámos a 6 qq. no escovém. No dia 27JUL às 1200, a convite dos FZ’s, assistimos ao “debriefing” no Posto de Comando na Praia do Pinheiro da Cruz para, logo a seguir, ir ao “S. Gabriel”, acompanhando o seu Comandante, tomar um “drink” conforme “convite nominal” anteriormente feito!
          Na requintada camarinha do “S. Gabriel”, depois de um resumido esclarecimento, sobre a nossa situação e das limitações no armamento do navio, reduzindo de forma dástrica a nossa capacidade para participar em exercícios daquele tipo, tudo ficou esclarecido não sem algum esforço… de ambas as partes!
          À tarde, eu e o Imediato, fomos jantar a bordo da “Fracapelo” a convite do seu Comandante. Durante a noite o vento caiu de forma sensível e às 0530 chegava a 1ª de várias levas de FZ’s que rapidamente, e sem novidade, reembarcaram.
          Às 0630 constatou-se que acabara tudo o que havia à mostra nas Copas! Passada a azáfama e o burburinho, próprios de um reembarque, o pessoal dispersou e “encostou para ferrar uma merecida baderna”. Terminado o reembarque levantámos ferro e seguimos para Lisboa atracando à Doca da Marinha em 281730JUL86. O “ALBATROZ – 86” terminara…
 
Um respeitoso e amigo abraço Sr. Almirante.

10/10/12

“HISTÓRIAS À VISTA” - 18

          18.ª “HISTÓRIA À VISTA”, no formato de Resenha Histórica do percurso profissional do CMG REF Metelo de Nápoles. 

          A saída da Escola Naval, como Guarda-Marinha, exercia as funções de Imediato e Chefe dos Serviços do Patrulha de Fiscalização de pesca N.R.P. (Navio da República Portuguesa) “DOURADA”.
          Ainda como Guarda-Marinha desempenhei as funções de Imediato e Chefe de todos os serviços de bordo, dos Draga-Minas “Santa Cruz” e “Lagoa”.
          E posteriormente como 2.º Tenente, Imediato do agrupamento de Draga-Minas “Lagoa” e “Rosário”. Ainda como 2.º Tenente embarquei no N.R.P. “Bartolomeu Dias” (navio de 1.ª classe), como Chefe de Serviço de Navegação, na Índia Portuguesa. Ainda na Índia comandei a Lancha de Fiscalização “Vega”.
          Ao regressar ao continente fui novamente Chefe do Serviço de Navegação do navio “Bartolomeu Dias”. O N.R.P. “Bartolomeu Dias” liderou no terminus da viagem de regresso a Lisboa uma frota de cerca de 60 navios, de várias nacionalidades, nas comemorações Henriquinas, no continente.

          Como 1.º Tenente fui Imediato do Destroyer “Lima”. Ainda como 1.º Tenente, fui nomeado para tirar os cursos de Comunicações e posteriormente o de Fuzileiro Especial.
          Concluí este 2.º curso com a prova de 50 km, com 10 km de corta-mato, o que concluí em 7 horas, tendo sido até àquela data o único Oficial que concluiu esta prova dentro do controlo estabelecido. Fui Instrutor-chefe de um curso de Fuzileiros Especiais.
          Com a antecedência de uma semana, já casado, e com um filho de 1 ano, fui nomeado para comandar o Destacamento de Fuzileiros Especiais n.º 9.
          Embarcamos em Fevereiro de 1964, em Lisboa, a bordo da N.R.P. “São Gabriel” e regressámos em Fevereiro de 1966, a bordo de uma Fragata.
          Nos postos de 1.º Tenente e Capitão-Tenente tirei a licenciatura em “Ciências Políticas e Socias” com 14 valores, o que contribuiu para que em Capitão-de-Mar-e-Guerra, tivesse desempenhado as funções de Professor de Psicologia do Instituto Superior Naval de Guerra, durante alguns anos.

Comissão de 2 anos na Guiné: 
          O meu Destacamento de Fuzileiros Especiais n.º 9, desenvolveu na Guiné uma espinhosas missões, que mereceram generosos louvores dos saudosos Comandantes da Defesa Marítima da Guiné, do Comandante em Chefe das Forças Armadas da Guiné e do Chefe de Estado-Maior da Armada. A nossa aturada operacionalidade conduziu aos seguintes resultados:

Tipos de Operações:
- 09 Golpes de Mão
- 17 Ataques em força
- 04 Reconhecimentos
- 07 Batidas
- 05 Emboscadas
- 01 Rusgas
- 01 Apoios
Total 44

          Do Destacamento fizeram parte 03 Oficiais, 08 Sargentos, 09 Cabos, 10 Marinheiros e 59 Grumetes. A dotação do Destacamento era apenas de 03 Oficiais, 06 Sargentos e 66 Praças, num total de 75 homens, mas as baixas devidas a falecimentos ou evacuações para Lisboa obrigaram a substituições.

Resultados:
- 43 Inimigos abatidos armados confirmados
- 09 Inimigos feridos confirmados
- 04 Prisioneiros IN
- 191 Casas de acampamentos IN destruídos

Armamento destruído:
- 198 Embarcações destruídas ou apreendidas
- 01 Paiol de munições e armamento diverso
- Centenas de Munições

Armamento apreendido:
- 01 Metralhadoras-pesadas anti-aérea
- 01 Metralhadoras-ligeiras
- 07 Espingardas
- 01 Espingarda metralhadora
- 07 Pistolas
- 49 Granadas de mão
- 06 Sabres
- 01 Cunhete de fitas de 50 munições M.P. 12,7mm

Outro material de especial significado:
- Carregadores diversos, Cunhetes metálicos de munições, Minas anti-pessoal, Binóculos de tiro, Carga de demolição, Fardas, Cartucheiras, Ferramentas e sobressalentes de armas.

Fiscalização:
- 2.236 horas de Patrulha nas L.D.’s (Lanchas de desembarque)
- 883 horas de Patrulha em botes
- 254 horas de emboscadas
- 59 de acções de fogo

Dados Gerais:
- 69 Média de homens/dias prontos
- 15 Homens evacuados para Lisboa
- 03 Mortos em combate
- 01 Morto por acidente
- 09 Feridos por acidente
- 22 Feridos em combate

Recompensas:
- 01 Medalha de Valor Militar (prata)
- 01 Medalha de Valor Militar (cobre)
- 09 Medalhas Cruzes de Guerra
- 01 Medalha Serviços Distintos com Palma
- 02 Medalhas Mérito Militar
- 03 Louvores colectivos
- 40 Louvores individuais
- 01 Pensão por serviços excepcionais e relevantes, prestados ao País

          Eu tinha 30 anos, e era o mais velho, quando a idade dos Grumetes se situava entre os 17 e os 22 anos. Era uma equipa jovem, coesa, moralizada, bem treinada e com elevado poder de combate.
          Na zona Sul, especialmente na mata de Cantanhês, onde um Batalhão do Exército não conseguiu entrar, em determinado momento, efectuámos 09 operações de combate.
          Na zona do Cantanhês, o inimigo revelava-se forte, bem armado e determinado e com centenas de guerrilheiros. Algumas vezes actuávamos com dificuldade, devido à sua resistência, salvo as raras ocasiões em que o chefe Nino estava ausente, em que tal oposição enfraquecia. No entanto, entrámos várias vezes na mata, tendo-o atravessando uma vez do Rio Cumbidjâ para o Rio Cacine.
          Numa operação em Cafine, local tradicionalmente difícil, abatemos 12 guerrilheiros. Mas aí perdemos 1 homem, atingido por uma granada de bazuca, por sinal especialmente querido do Destacamento, o que afectou a moral de muitos homens.
          Na zona de Quitafine a Leste do Rio Cacine, os guerrilheiros estavam também agressivos, bem armados, certamente porque estavam próximos da fronteira com a Guiné-Conacry, que apoiava a guerrilha, como intermediário do apoio de armas vindas da União Soviética.
          As missões de fiscalização dos rios Mansoa, Geba, Corubal, Cumbidjâ e Cacine, ofereciam perigosidade diferente, destacando-se nesse sentido o Cumbidjâ a Sul, onde surgiam emboscadas nas margens.
          No período da nossa comissão, de Fevereiro de 1964 a Fevereiro de 1966, a aviação ainda se movimentava com relativa facilidade, embora vários aviões de reconhecimento tivessem sido atingidos por tiros de espingarda ou metralhadora. Que o confirme o Almirante Castanho Pães, nessa altura 2.º Tenente, que voava ao meu lado, em reconhecimento aéreo e que foi atingido com uma bala numa perna.
          A situação de guerra a Norte do Rio Geba reduzia-se a fracos e esporádicos contactos de fogo, com pequenos grupos inimigos.
          Sobre os homens que comandei, creio que já exprimi o meu sentimento anteriormente, mas não é demais dizer que pelas suas generosas qualidades, de valentia e de disciplina, facilitaram a minha actuação e foi o Comando que mais me marcou e honrou na minha carreira na Marinha.
          Comandar tais homens, em frequentes situações de combate, é algo que me transcende e que me deixou ligado aos Fuzileiros como um “cordão umbilical”!

          E no entanto, poderei dizer que a Marinha me chamou em quase toda a minha carreira, para funções de Comando, como foi o caso de:
- Chefe do Serviço de Navegação do N.R.P. “Bartolomeu Dias” em comissão na India 1958/59.
- Comandante da Lancha de Fiscalização “Veja”, em Goa, em 1960.
- Comandante da Escola de Fuzileiros.
- Comandante da Fragata “Pereira da Silva”.
- Director da Escola de Comunicações.
- Vogal da Comissão de Investigação no Comportamento Político de alguns Oficiais, Comandantes de algumas unidades navais, nos acontecimentos do 25 de Novembro de 1975.
- Subchefe do Estado-Maior e Chefe da Divisão de Operações em Cabo Verde.
- Comandante do Destacamento de Fuzileiros Especiais n.º 9 na Guiné.
- Comandante do N.R.P. “Santa Maria”.
- Comandante do N.R.P. “Faial”.
- Comandante da Unidade de Apoio aos Organismos da Administração Central da Marinha.
- Comandante da Zona Marítima do Sul, Capitão do Porto de Faro e Chefe de Departamento da Zona Marítima do Algarve. E, por inerência, vogal da Junta Autónoma dos Portos e da Junta de Turismo do Algarve, entre Junho de 1983 e Junho de 1985, altura em que foi necessário revitalizar a autoridade Marítima, no mar e em terra.
- Comandante da Flotilha de Patrulhas.
- E por fim, Comandante do Grupo Operacional, no exercício “CONTEX-PHIBEX”, constituído por 01 Fragata, 01 Corveta e 01 Batalhão de Fuzileiros equipado com Lanchas de Desembarque e botes de borracha.

          No mar, foram apresados diversos arrastões de pesca espanhóis, que pescavam nas nossas águas. E quando terminei a comissão em Faro, ainda lá ficaram 05 arrastões espanhóis apresados, pelos nossos Navios-Patrulhas, fruto de trabalho aturado no mar, pela dedicação, pela competência das suas guarnições e de briosos Comandantes.
          E em terra, mandei destruir cerca de 300 construções clandestinas, em grande parte nas ilhas barreiras da Ria Formosa, na zona do Domínio Público Marítimo.
          E por tal facto, houve uma manifestação em Faro, com cerca de 5.000 pessoas e com o Presidente da Câmara à cabeça, Professor Negrão Belo, percorrendo as ruas da baixa da cidade, até junto da C.M. Faro, onde discursaram contra a Autoridade Marítima e em particular contra o Capitão do Porto de Faro.
          Nessa manifestação junto da Câmara Municipal de Faro, eu estive presente, embora disfarçado, para ouvir os discursos! E outra manifestação em Olhão com aproximadamente o mesmo número de pessoas e os mesmos temas, igualmente contra a Autoridade Marítima e em especial contra o Capitão do Porto de Faro, com discursos vários, incluindo o do Presidente da Câmara de Olhão, Senhor Bonança.
          Em simultâneo, imensas paredes em Faro, apareceram com insultos à minha pessoa, para defesa das suas casas clandestinas, nas praias de todos nós.
          Em todo o caso, tive o prazer de ouvir, na presença de ilustres pessoas, quando da inauguração da reitoria da Universidade do Algarve, palavras elogiosas do Senhor General Eanes, então Presidente da República, que considerou a minha acção importante, não só para a revitalização da Autoridade Marítima no Algarve, mas também a nível nacional, para cumprimento da lei.

          A Marinha que também amo, deu-me por exemplo a enorme satisfação de comandar uma Fragata integrada durante cerca de 04 meses na esquadra da NATO (STANAVFORLANT), do que guardo boas recordações e em especial do intenso treino de mar, parecido com o que será em tempo de guerra, sobre o comportamento do navio e da sua guarnição, em 24 horas, sobre 24 horas, em vários dias no mar.
          E impõe-se uma palavra de louvor à briosa, disciplinada e competente guarnição, da qual fez parte a 1.º Tenente Melo Gomes, distinto Chefe do Serviço de Operações, actual Almirante, ex. Chefe do Estado-Maior da Armada, a quem por minha proposta lhe foi atribuída uma Medalha de Mérito Militar, pela sua elevada competência, brio e dedicação, que muito contribuiu para que o Comandante da Esquadra, Comodoro Gordon Edwards, tivesse reconhecido em louvor escrito, o reconhecimento pelo brilhante desempenho das missões operacionais da Fragata portuguesa.

          Destaco na minha memória um homem que bem merecia que o seu nome figurasse numa lápide na Escola de Fuzileiros: Eduardo Henriques Pereira, um rapaz bem desenvolto e de cabeça erguida, que nada temia, mesmo em combate.
          E porque era meu “ordenança” algumas vezes me zanguei, porque ao soarem os tiros do inimigo, o Ericeira esquecia tudo e corria disparando a espingarda e por vezes a metralhadora na direcção dos guerrilheiros. O Ericeira era uma força da Natureza!
          Mas sobre o “Ericeira” já escrevi um artigo, nos Anais do Clube Militar Naval, correspondente a Janeiro a Março de 1971 o que felizmente contribuiu para que a rua principal da Ericeira, homenageie o Eduardo Henriques Pereira, com o seu nome! Era valente!
          E aproveito para tornar público que em Angola entrou numa palhota em chamas, donde retirou uma criança com vida. E igualmente lembro que num Rio do Leste de Angola, num bote de borracha em patrulha, foi baleado, tendo morrido alguns Fuzileiros e escapou com vida, mas com várias balas, o Tenente Sarmento, da Reserva Naval, porque o Ericeira pegou numa G3 com uma mão e com a outra manobrou o motor do bote, que lançou para a margem do rio, donde vinham os tiros e fazendo fogo, conseguiu afugentar os guerrilheiros! Como diria Camões: “Bem dita Pátria que tais filhos tem!

          Fui nomeado para tirar o curso de Fuzileiro Especial. E posteriormente para comandar o D.F.E. 9 (Destacamento de Fuzileiros Especiais n.º 9), porque 3 Oficiais, antes da minha nomeação, escusaram-se, alegando problemas de saúde!
          Fui nomeado 8 dias antes de embarcar em Lisboa no N.R.P. “São Gabriel”. E tudo encarei com normalidade, por dever de ofício! Afinal, esses Oficiais nem sabem a honra que perderam!
          Os Fuzileiros são um braço importante da Marinha, para o desempenho das suas missões. Os Fuzileiros são o único órgão da Marinha que nunca se esquece de me convidar para as cerimónias comemorativas, o que aceito com prazer. Pela minha parte creio, que já exprimi bem o enorme orgulho que sinto em ter servido a Marinha como Fuzileiro.

Associação de Fuzileiros:
          Em 26 de Fevereiro de 2000, a lista de que fazia parte, foi eleita com cerca de 70% dos votos, em relação à outra lista, na qual se situavam pessoas notáveis, pelo que me senti orgulhoso e por outro lado com a obrigação de me dedicar às minhas tarefas. Por isso acompanhei quase todas as reuniões da Comissão Executiva e normalmente intervim, juntando a minha opinião.
          A minha intervenção foi maior no 2.º mandato, para o qual foi eleita a minha lista, com elevada votação, embora como lista única. E digo que actuei mais nas reuniões do 2.º mandato, porque tivemos vários desgostos.
- Assim, o Presidente da Comissão Executiva teve um acidente vascular, do que resultou uma grande incapacidade.
- Perdemos por falecimento um vogal que era um grande valor da Comissão Executiva.
- A um outro vogal da C.E. foi amputado um pé, por motivos de saúde.

          No 1.º e 2.º mandatos efectuámos várias Assembleias-Gerais, muito participadas, para discutirmos e aprovarmos os seguintes importantíssimos documentos, para darmos vida jurídica à Associação:
- Estatutos da Associação de Fuzileiros.
- Regulamento Eleitoral da Associação de Fuzileiros.
- Regulamento Interno da Associação de Fuzileiros.
- Escolha do Logótipo e do estandarte da Associação.

          Estas assembleias foram demoradas e muito participadas, o que valorizou aqueles documentos. Recusei candidatar-me a 3.º mandato, embora tenha sido convidado para tal missão.
          Vem a propósito dizer que tive o imenso prazer em subscrever, juntamente com o Comdt. Salgado Soares e o Senhor Secretário da Defesa e dos Antigos Combatentes, Dr. Henrique Rocha de Freitas, com a presença do Almirante CEMA e com uma certa pompa, o protocolo que cedeu à Associação de Fuzileiros uma grande parte da Delegação Marítima do Barreiro.

Rotários: Durante 23 anos fui rotário, com diversas funções, até a de Presidente.

Empresa:
           Em 1987 passei à Reserva da Armada, a meu pedido. Passei a exercer a gerência de um armazém de Distribuição por Grosso, de medicamentos, especialmente virado para a exportação, mas também com atividade a nível nacional.
          Em Maio do ano passado, mudei as instalações de um armazém antigo na Brandoa, para um pavilhão moderno no Cacém com cerca de 500 m2 de área coberta, que adquiri em novo, com 2 Robot´s com cerca de 8,5 m de altura, comandados informaticamente.

          Por proposta do Supremo Tribunal Militar e despacho conjunto dos Ministros das Finanças e do 1.º Ministro, foi-me atribuída a pensão por serviços excepcionais e relevantes prestados ao País.
          E dado que me alonguei em considerações, informo também as condecorações que me foram atribuídas:
- Insígnias de Torre e Espada colectiva.
- Pensão por serviço relevante prestado ao País.
- Cruz de Guerra de 1.ª Classe.
- Medalha de Serviços distintos, Prata, com palma.
- Medalha de Serviços distintos, Prata.
- Medalha de Mérito Militar de 1.ª classe.
- Medalha de Mérito Militar de 2.ª classe.
- Medalha de comportamento exemplar, Prata.
- Medalha das Campanhas, com as legendas 1958/60 Índia; Guiné 1964-66.
- Medalha das expedições com a legenda: Cabo Verde 1972/74.
- 1 Medalha do Infante D. Henrique.
- 14 Louvores individuais e diversos colectivos.

Eu amo a Marinha e adoro os Fuzileiros.

Horácio G. Metelo de Nápoles
Capitão de Mar-e-Guerra (Ref.)