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12/06/23

ACTUALIZAÇÃO DO ARTIGO SOBRE A LDM 404 "CHIPA" (13 ANOS DEPOIS)!

         A grande maioria dos artigos publicados neste blogue ou revistas com quem colaboro, são idealizados por iniciativa minha, outros têm origem no incentivo de pessoal da Marinha.
     Existe, porém, também o caso de serem artigos proveniente de assuntos que me despertaram interesse no contacto com pessoal militar, foi assim que 2010 foi publicado um artigo relativo à História da LDM 404 "CHIPA". Anteriormente, 2009 o Almirante Botelho Leal felicitou-me por email a publicação de um artigo sobre as LDM, na qual e cito:
- "…O que dedica às Lanchas de Desembarque tocou-me particularmente pois fez-me recordar travessias do Lago Niassa a caminho da Chipoka (Malawi). Viviam-se nessas viagens momentos únicos, quer por algum pitoresco de que se revestiam, quer pela importância indiscutível que elas tinham para o abastecimento das restantes unidades navais…".
        Resposta esta que logo me despertou curiosidade e pedi mais informações sobre o assunto ao estimado Almirante em apreço, sendo-me assim dado a conhecer a “CHIPA”!
        Como já na época possuía contacto com um vasto n.º de pessoal da Marinha, inclusive pessoal que cumpriu Comissões de Serviço na Base Naval de Metangula, junto ao Lago Niassa em Moçambique durante a Guerra do Ultramar, de imediato encetei mais pedidos de informações a todo o pessoal que tinha conhecimento que esteve por lá destacado.
        Além disto, o próprio Almirante teve a iniciativa de me colocar em contacto com outros camaradas que navegaram na “CHIPA”, assim como recorri ao Eng. Lema Santos, antigo Oficial da Reserva Naval, possuidor de um enorme acervo documental e grande conhecedor de tudo que diz respeito aos Oficiais da Reserva Naval e História da Marinha em geral.
        Deste modo, foram reunidos diversos testemunhos e alguns documentos para redação do artigo sobre a “CHIPA”, igualmente obteve-se algumas fotos, não obstante nenhuma era verdadeiramente ilustrativa ou permitia apresentar a embarcação de forma mais panorâmica na sua totalidade.
        Situação esta que apesar de não ter condicionado a publicação do artigo, mantive sempre a esperança de algum dia conseguir obter uma foto que exiba a LDM em apreço com melhor ângulo, ou a todo o comprimento e respectivas características peculiares.
        Em Março deste ano, após uma troca de email’s com 02 Oficiais do Curso de Escola Naval de 1959: Cte. Oliveira e Costa e Cte. José Pereira da Silva, este último colocou-me em contacto com seu amigo e antigo camarada - Eng. José V. Machado, antigo Oficial da Reserva Naval que exerceu o comando da LDM 404 “CHIPA” nas missões ao Malawi entre 1969 e 1971.
        Assim, para além de ter obtido mais um testemunho e informações, 13 anos volvidos da publicação do artigo sobre a “CHIPA”, para grande surpresa e alegria minha, este antigo Oficial da Marinha cedeu-me gentilmente uma foto que tem de recordação da sua passagem pela Briosa no âmbito do SMO, ao comando da sua “CHIPA”, com a mais-valia de ter sido registada a cores!
        Mais recentemente, o antigo Marinheiro CM Carlos Mota, conhecido por possuir um mini Museu da Marinha com quase 700 peças no seu próprio domicílio, colocou-me em contacto com o seu “filho da escola”: Luís Peguicha - Marinheiro CM 1256/65, que fez parte da guarnição da “CHIPA" e que por via do seu filho gentilmente cedeu-me um documento testemunhal e fotos interessantes.
        Foi também introduzido no artigo 02 fotos do SCH C US Lopes Ribeiro, na época Praça Telegrafista que também efectuou algumas viagens ao Malawi.
       Agradeço estas novas colaborações e igualmente a todo o pessoal que anteriormente apoiaram na compilação de dados e fotos para este artigo sobre a "história" deste pequeno grande navio de guerra!

Artigo actualizado sobre a LDM 404 "CHIPA":

08/03/12

"HISTÓRIAS À VISTA" - 02

          Esta 2.ª “HISTÓRIA À VISTA”, também cedida pelo Oficial de Marinha CMG Ribeiro Zilhão (REF), versa sobre a 2.ª viagem da LDM 404 “Chipa” à localidade de Chipoka no Malawi, junto ao Lago Niassa:

          «Cerca de mês e meio depois da primeira ida, aí em fins de Maio de 66, efectuei a segunda ida a Chipoka, também acompanhado pelo 1.º Ten EMN Rabaça Pires. Por essa data já a LDM 404 tinha sido pintada de verde, o que disfarçava um pouco o seu aspecto de Unidade Naval.
          Por outro lado, também já tinham sido forjadas Cédulas de inscrição Marítima dos Serviços de Marinha de Moçambique que davam uma identificação falsa. Eram passadas pela Capitania dos Portos do Lago Niassa (a minha Cédula que dizia que eu estava habilitado com o 2.º ano da Escola Técnica, tinha a categoria de Electricista de 1.ª Classe e tinha cumprido o serviço militar na Armada, na incorporação de 53, tendo entrado como Grumete Electricista e saído como Cabo Electricista).
          A Cédula poderia servir para uma desenrascada inicial, mas era por demais evidente a sua falsidade se me visse metido numa alhada mais profunda - até porque o meu nome era bem conhecido na região. Por outro lado, desta vez neguei-me decididamente a levar armas.
          O programa foi levado com mais cuidado, e começou com uma paragem em Meponda, como se estivéssemos preparando a estação de transbordo. Daqui seguimos sem dificuldades para Chipoka, onde nos esperavam os homens do Jorge Jardim: o Pombeiro e o Moreira Rato.
          Já não me lembro porquê, mas foi impossível iniciar o reabastecimento no dia da chegada, pelo que, pela tarde, resolvemos os quatro (eu, Rabaça, Pombeiro e Moreira Rato) ir dormir a Palm Beach. Como aqueles tinham vindo numa carrinha tipo Land Rover (um modelo especial que possuía todo o conforto e do género caravana) resolvemos ir de viatura em vez de comboio. As picadas não ficavam nada a dever às do Niassa, apenas com a diferença de que o terreno não era montanhoso (enquanto que no lado moçambicano as montanhas entravam abruptamente pelo lago - fundo de peirau - no lado do Malawi tudo era planície e o fundo esparcelado).

          Em determinada altura, demos com um rio largo que era preciso atravessar para chegar a Palm Beach e que possuía uma única ponte que servia para apenas para o comboio. Ainda tentámos meter o Land Rover por entre os carris, mas não surtiu efeito.
          Quando estávamos a pensar em deixar a viatura e atravessar a ponte a pé, apareceram meia dúzia de negros perguntando-nos quem éramos e o que estávamos ali a fazer. Em poucos minutos a viatura ficou cercada de negros um dos quais, com uma farda tipo Régulo, exigiu revistar o carro. Estabeleceu-se um certo pânico nos dois representantes do Jardim, pois traziam armas na viatura. Mas tudo correu bem.
          Tivemos um longo diálogo em Inglês macarrónico para explicar que pretendíamos apenas atravessar a ponte para ir passar a noite em Palm Beach e como não podíamos passar com o carro íamos deixá-lo ali e voltaríamos no dia seguinte a buscá-lo. Desta longa explicação ficou por longo tempo uma piada entre mim e o Rabaça, resultante do número de vezes que tivemos que repetir a frase:
- "...now we cross the river; tomorrow morning we cross the river again...".

          O Régulo prontificou-se então a tomar conta do carro até ao dia seguinte, ideia que não nos agradava, mas que aceitámos, pois não tínhamos outra opção. Aliás acabou por ser positiva, pois quando regressámos no dia seguinte tudo estava na mesma e sabe-se lá o que teria acontecido se o carro tivesse ficado abandonado.
          Neste dia, o reabastecimento terminou muito tarde pelo que decidi sair só na manhã seguinte (o Pombeiro e o Moreira Rato já tinham seguido viagem para a capital). Como trazíamos connosco um bote de borracha com um motor de 40 cavalos eu e o Rabaça resolvemos Ir de novo dormir a Palm Beach, mas desta feita viajando no bote. Já tínhamos ido de comboio, de carro, porque não de bote? - era a nossa conclusão. Todo o mundo já nos conhecia na região e, por incrível que pareça, as relações eram das mais amistosas possíveis. É óbvio que era arriscado, pois se o motor avariasse não sei bem como sairíamos da situação. Mas fomos.
          Quando ao fim do dia chegámos à praia de Palm Beach, puxámos o bote para seco e lá ficámos no rondável habitual, tendo comido um bom jantar no restaurante do hotel com o já nosso amigo Gerente.

          No dia seguinte de manhã deparámos com o bote quase vazio e um tremendo temporal com enormes vagas caindo sobre a praia. Era possível que o bote tivesse uma pequena fuga de ar, como dizia o Rabaça; mas eu estava em crer que era mais devido à diferença de temperatura, pois durante a noite fizera bastante frio. De qualquer modo, deu-nos um trabalhão e uma canseira enorme encher o raio do bote com a bomba de pedal.
          Mas o pior foi metê-lo dentro de água por entre as vagas, pois empinou-se todo e só por milagre não se virou ao contrário. Por fim, extenuados, lá viemos para sul demandando Chipoka a toda velocidade. Ainda no caminho, fiz uma partida ao Rabaça imitando com a boca uma fuga de ar, enquanto ele espiolhava o bote à procura do furo... Nós dávamo-nos muito bem e tudo aproveitávamos para nos rirmos.
          Com os atrasos todos no reabastecimento (suposto ser feito só num dia), tínhamos saído dois dias depois. Como nos era interdito comunicar por rádio, em Metangula começaram a ficar nervosos e resolveram mandar a LFP "Marte" (comandada pelo 2.° Ten RN Abecassis) à nossa procura. Encontrou-nos a meio do caminho, quando já podíamos comunicar. Parámos mais uma noite em Meponda para confraternizarmos, rindo-nos a bom rir com as histórias vividas.»

13/07/10

LDM 404 "CHIPA"

 (ACTUALIZADO)

A "CHIPA" abicada no Lago Niassa (Foto cedida por Eng. José V. Machado, antigo Oficial da Marinha [Reserva Naval])

           A LDM 404 da classe “LDM 400” (26 unidades no total construídas entre Agosto de 1964 e Outubro de 1977) foi aumentada ao efectivo dos navios da Armada a 10 de Setembro de 1964. Juntamente com a sua 1.ª guarnição foram transportados no Navio-Mercante de carga mista “Beira” da CNN, chegando ao seu destino Lourenço Marques - Moçambique ao fim de 28 dias de navegação.
        Entre 13 de Setembro e 19 de Dezembro de 1965 decorreu a "Operação Atum" com o escopo de deslocar entre outras lanchas, a LDM 404 da costa de Moçambique para o Lago Niassa (de água doce com 30.862 Km² e profundidade máxima de 700 metros), sendo transportada primeiro por comboio ao longo de 500 km e posteriormente efectuando 250 km por camião.
      A operação, verdadeiramente épica, decorreu numa zona de grande actividade dos guerrilheiros da FRELIMO, demorou 23 dias e foi realizada sobre a supervisão de um Oficial do Comando Naval de Moçambique, chegando ao destino a lancha foi atribuída ao "Comando de Esquadrilhas de Lanchas do Lago Niassa", sediado na Base Naval de Metangula, que assumia uma grande importância estratégico-militar num enquadramento geopolítico.


Transporte da LDM 404 por camião (foto cedida por António Moleiro)

          Em Maio de 1966, atendendo à estratégia fruto das relações político-militares entre Portugal e o Malawi (antiga colónia britânica do Niassalândia), na figura do Eng. Jorge Jardim (cônsul honorário do Malawi) e do então Presidente do Malawi Hastings Banda, (nacionalismo conservador pró-ocidental), a LDM 404 sofreu diversas modificações no SAO (Serviço de Assistência Oficinal) do Comando de Defesa Marítima dos Portos do Lago Niassa, com o intuito de a descaracterizar e dar um aspecto de barcaça civil:
- Foi desmilitarizada (desprovida de armamento: 01 Peça OERLIKON Mk2 de 20mm/65 e 02 Metralhadoras MG-42 de 7,62mm);
-  No local onde se encontrava o reduto da peça OERLIKON foi fixada uma mesa ao convés e a peça foi transferida para uma estrutura em terra para reforçar a segurança das instalações navais de Metangula;
- O poço foi coberto com chapas de alumínio soltas cobertas por um oleado, após ter sido transformado em alojamento;
- Foi matriculada no Comando de Defesa Marítima dos Portos do Lago Niassa com o n.º de amura MT 105;
- Foi pintada de verde-escuro;
Desenho manuscrito da autoria de Luís Filipe Silva

- Foi apetrechada com uma bandeirola da companhia petrolífera SONAREP, do grupo português SONAP (também estabelecida no Malawi, sob o nome OILCOM);
- Os tanques de lastro passaram a ter capacidade de receber 36 toneladas de combustível;
- Recebeu a alcunha de "CHIPA", sendo inclusivo escrito no bordo do bote pneumático com um motor de 40 CV existe a bordo.

Bote pneumático a bordo da CHIPA, notando-se a palavra "Chipa" no bordo (foto cedida por Luís Peguicha)

          O desiderato desta transformação na embarcação, visou adequá-la para o transporte combustível (gasóleo), oficialmente destinado para fins civis (alfaias e tractores agrícolas) na Vila de Augusto Cardoso, mediante os tanques de lastro da LDM ao invés de estarem cheios de água.
          Deste modo, face à grande distância a percorrer, a sensibilidade do material volátil e frequente necessidade do mesmo, evitava-se ter de atravessar estradas de terra batida com comboios logísticos de camiões-cisternas, necessitando do emprego de forças militares destacadas para escoltarem as viaturas, e o grande problema das minas e emboscadas. O Distrito do Niassa era designado na época na gíria militar pelas tropas portuguesas por "Estado de Minas Gerais" em virtude da profusão de minas A/C e A/P colocadas nas zonas de actividade da FRELIMO.
          O combustível em apreço era oriundo do Porto da cidade da Beira (Moçambique), que atravessava a fronteira com o Malawi, transportado em carruagens-cisterna dos Caminhos de Ferro, procedendo-se posteriormente à transfega para tanques de combustível da OILCOM, existentes no Terminal de combustíveis da povoação ribeirinha de Chipoka no Malawi.

Elemento da tripulação da "CHIPA" junto do guarda do parque de combustíveis da OILCOM (Foto cedida por SCH C US Lopes Ribeiro)

          O combustível, quando necessário (mais ou menos quinzenalmente), era obtido pela "CHIPA" no cais de atracção de Chipoka, por recurso a uma conduta de gasóleo com 02 bocas de um "pipe-line" instalado no cais e originário dos tanques da OILCOM, posteriormente o combustível era transferido no cais da Vila de Augusto Cardoso (Base Naval de Metangula) para depósitos enterrados nas imediações, permitindo deste modo abastecer as viaturas, os geradores e os navios da Armada (5 LFP's, 4 LDM's e 3 LDP's) atribuídos à Base Naval.
           A 1.ª viagem da "CHIPA" ao Malawi foi realizada às 22:00 do dia 19 de Maio de 1966, chegando ao destino no Malawi às 13:00, encontrando-se à sua espera elementos de ligação (02 homens do Eng. Jorge Jardim), diversa população local que visitou a lancha a pedido das autoridades locais que decidiram revistar a embarcação por não terem conhecimento ou quaisquer instruções da sua vinda.
          Nesta 1.ª viagem, apesar de já se encontrar desmilitarizada, ainda não tinha sido pintada de verde-escuro (apenas se tinha tapado no costado o n.º de amura, distinguindo-se na mesma), mantendo a típica cor cinzenta que denunciava o seu aspecto de embarcação militar, igualmente nem a lancha nem a tripulação possuíam um único documento de identificação e ainda não tinham sido emitidas as respectivas Cédulas Marítimas, o único apetrecho de cariz civil a bordo era uma bandeirola hasteada da companhia petrolífera SONAREP. 

A "CHIPA" no cais de atracção de Chipoka junto do Terminal ferroviário, com bandeira nacional portuguesa e do Malawi hasteada (foto cedida por Luís Peguicha)

           Em 1968, foram transportados 02 depósitos de combustível a bordo da "CHIPA" (um de cada vez) de Chipoka - Malawi para Metangula onde foram posteriormente enterrados nas imediações do cais da Base Naval de Metangula, no mesmo local já existia outros 02 depósitos enterrados mais antigos, de quando o gasóleo era transportado por via terrestre pela estrada de Vila Cabral - Metangula.
        Do período de 27 de Dezembro de 1968 a 31 de Outubro de 1969 a "CHIPA" efectuou 32 missões ao Malawi de transporte de gasóleo, sendo que em duas também foi transportado 05 tanques de plástico para gasóleo provenientes de Lourenço Marques (actual Maputo), via Chipoka com destino à Base Naval de Metangula.
         De realçar que a missão da "CHIPA" não se limitou somente ao transporte de combustível, a título de exemplo, entre Janeiro de 1970 e Outubro de 1971, transportou a bordo um total de 2.740 m3 de gasóleo e 2,300 sacos de cimento.
       Também ao longo da sua vida activa por diversas vezes trazia no regresso do Malawi para Metangula: discos de vinil de 33 RPM ou de 45RPM; galinhas, cabritos e esporadicamente vacas, para reforço e melhoria da alimentação ("rancho") na Base Naval.
         Em finais de Julho / princípios de Agosto de 1970, a "CHIPA" juntamente com outra LDM da Marinha Portuguesa participaram numa operação de transporte de um jipe e população do Malawi da ilha de Chisimulo para a ilha de Licoma, durante uma visita do então Presidente do Malawi Hastings Banda, ilhas estas situadas no Lago Niassa em águas territoriais de Moçambique e a cerca de 01 milha da vila de Cobué, mas cuja soberania é do Malawi.


















A "CHIPA" abicada numa praia da ilha de Chisimulo carregando população do Malawi (Foto cedida pelo SCH C US Lopes Ribeiro)

          A tripulação da "CHIPA" actuava como funcionários da SONAREP, para o qual eram dotados de fatos de macaco cor de laranja da empresa e possuíam Cédulas Marítimas certificadas pelo Comando de Defesa Marítima dos Portos do Lago Niassa, documento que era apresentado à chegada a Chipoka ao "Port Master" como sendo Marinheiros da Marinha Mercante, quando na verdade eram a respectiva guarnição militar da LDM, que na maioria das vezes trajavam à civil durante a missão de reabastecimento (02 dias de viagem / percursos de 12 horas / 180 milhas no total).
           A título de exemplo, a Cédula do 1.º Oficial destacado para a "CHIPA" como Mestre da lancha (Cte. Sérgio Zilhão) referia que estava habilitado com o 2.º ano da Escola Técnica, com a categoria de Electricista de 1.ª Classe e tinha cumprido o SMO na Armada Portuguesa na incorporação de 1953 como Grumete Electricista e saído como Cabo Electricista.


Oficial Subalterno da tripulação da "Chipa" trajado a civil (foto cedida por Cte. Correia do Amaral)

           Durante a missão de reabastecimento ao Malawi não levavam qualquer documento, equipamento ou armamento que denunciasse a condição militar da embarcação ou da respectiva tripulação, à qual se juntava um Oficial Subalterno oriundo da Escola Naval ou Reserva Naval nomeado como responsável militar pela operação.
          Os Oficiais destacados para prestar serviço na "CHIPA" realizavam as missões designados de: "Oficial da LDM 404 / CHIPA MT 105", não obstante para além desta função, também tinham cumulativamente outro cargo na Base Naval de Metangula, podendo ser também a título de exemplo: Comandante do Comando de Defesa Marítima dos Portos do Lago Niassa; Capitão do Porto da Capitania dos Portos do Lago Niassa; Imediato de Companhia de Fuzileiros;  Chefe do Serviço de Comunicações; Chefe do Serviço de Armamento, etc.
             Igualmente era interdito comunicar por rádio com Metangula e optava-se por não levar o cozinheiro por ser um civil moçambicano contratado, por forma a não se correr o risco de conversar em dialectos africanos e eventualmente transmitir alguma informação confidencial. 
          Tal medida de segurança era devido aos contactos que se estabeleciam regularmente com as autoridades malawianas (Capitão do Porto, Chefe da Alfândega e Chefe da Polícia), entidades civis (Encarregado e o Guarda do parque de combustíveis da OILCOM, comandantes de Navios-Mercantes malawianos e Dono da cantina [Paquistanês]), população malawiana e populares naturais de Augusto Cardoso que iam de férias ou comprar bicicletas em Chipoka, em virtude de potencialmente existir elementos simpatizantes da FRELIMO e que por inerência comprometer a missão de reabastecimento.

Logtipo da SONAP e SONAREP

           Apesar de a missão de abastecimento de combustível ser classificada de "confidencial", as diversas tripulações que prestaram serviço na "CHIPA" desenvolveram laços amistosos com as autoridades, entidades e população malawiana, o que muito contribuiu para tal, a confraternização e as ofertas periódicas de Vinho e Bagaço.
          Não obstante, a realização das missões foram um desafio para as suas consecutivas tripulações, a LDM foi concebida para utilização temporária (máximo 48 horas), não disponha de meios de subsistência e as condições de alojamento eram precárias, pelo que por forma a melhor as condições de alojamento a bordo, os beliches triplos de chapa foram substituídos por 03 conjuntos de beliches duplos em molas e a lancha foi apetrechada com 02 cadeiras de campismo (já possuía 06 bancos).
          A falta de equipamento de navegação adequado, inexistência de faróis ao longo da costa do lago, quer no Malawi, quer em Moçambique, aliado a vagas de proa até 05 metros que alagavam o poço, devido às chuvas e ventos fortes de Inverno que chegavam a atingir 90 km, provocando a grande ondulação em temporais de determinados períodos do ano, colocava à prova os conhecimentos náuticos e de marinharia da tripulação, originando a título de exemplo a navegação nocturna orientada por estrelas baixas no horizonte ou aproveitando a luz do luar, em substituição de radar e do mau funcionamento da bússola magnética que ficava bastante afectada em certos pontos do lago devido aos fortes campos magnéticos.
        Para minimizar estes problemas as missões eram realizadas em horários específicos, tendo em linha de conta a época do ano, por forma a evitar os ventos fortes de Sul que se acentuavam pelo final da manhã, o que além de permitir uma navegação mais suave, permitia inclusivo confeccionar refeições a bordo.
- De Novembro a Março: as águas do lago estão mais calmas, é a época de muito calor e grandes chuvadas, em que a temperatura nos alojamentos em conjunto com os gases do gasóleo tornavam a bordo o ar irrespirável;
- De Abril a Julho: predominam os ventos fortes de Sul, prejudicando a viagem de ida para o Malawi, por causa da lancha ir muito vazia e apanhar as vagas de proa;
- De Agosto a Novembro: Sopravam ventos fortes predominantemente do Norte e de Leste, fazendo sentir-se mais no regresso do Malawi.
       Assim sendo, foi requisitado à SAO a montagem de uma cobertura à quase totalidade do comprimento do poço, construída em chapas de alumínio suportadas por traves de madeira e a lancha passou a dispor de chapas de ferro leves amovíveis para se colocar nas 03 janelas da porta d' abater, por forma ajudar a reduzir ao máximo a entrada de água das vagas, quando o Mar estivesse calmo (Mar chão) eram retirada para não afectar a visibilidade em navegação.
          A tripulação era constituída por:
- 1 Oficial [Mestre da lancha];
- 1 Cabo de Manobra [Patrão da lancha];
- 1 Marinheiro [Telegrafista];
- 1 Marinheiro Artilheiro [Marinheiro de convés];
- 1 Marinheiro Fogueiro [Condutor de máquinas].

Tripulação da "CHIPA" entre populares no cais de Chipoka - Malawi