13/07/10

LDM 404 "CHIPA"


A tripulação da LDM "Chipa" no cais de Chipoka, no Malawi

          Em Dezembro de 1965, ocorreu a "Operação Atum" com o escopo de deslocar a LDM 404 da classe “LDM 400” da costa de Moçambique para o Lago Niassa (30 mil Km² e profundidade máxima de 400 metros), sendo transportada primeiro por comboio ao longo de 500 km e posteriormente efectuando 250 km por camião.
          A operação decorreu numa zona de grande actividade da FRELIMO, demorou 23 dias e foi realizada sobre a supervisão de 1 Oficial do Comando Naval de Moçambique, chegando ao destino, foi atribuída ao Comando de Esquadrilhas de Lanchas do Lago Niassa.


Transporte da LDM 404 por camião (foto cedida por António Moleiro)

          Em Maio de 1966, atendendo à estratégia fruto das relações político-militares entre Portugal e o Malawi, na figura do Eng. Jorge Jardim (cônsul honorário do Malawi) e do Presidente do Malawi Hastings Banda, a LDM 404 sofreu diversas modificações no Serviço de Assistência Oficinal dos Portos do Lago Niassa:
- Foi desmilitarizada (desprovida de armamento);
- Foi pintada de verde-escuro;
- O poço foi coberto, após ter sido transformado em alojamento;
- Foi matriculada no Comando de Defesa Marítima dos Portos do Lago Niassa com o n.º de amura MT 105;
- Foi apetrechada com uma bandeirola da companhia petrolífera SONAREP, do grupo português SONAP (também estabelecida no Malawi, sob o nome OILCOM);
- Recebeu a alcunha de "Chipa".


Desenho manuscrito da autoria de Luís Filipe Silva

          O desiderato desta transformação na embarcação, visou adequá-la para o transporte combustível (gasóleo), oficialmente destinado para fins civis (alfaias e tractores agrícolas) na Vila de Augusto Cardoso, mediante os tanques de lastro da LDM em vez de água.
          Deste modo, face a sensibilidade do material volátil e frequente necessidade do mesmo, evitava-se ter de atravessar com comboios logísticos de camiões-cisternas, susceptíveis a minas e emboscadas, o Distrito do Niassa, designado na época por "Estado de Minas Gerais" em virtude da profusão de minas A/C e A/P colocadas nas zonas de actividade da FRELIMO, assim como o emprego de forças militares destacadas para escoltarem as viaturas, para além da grande distância a percorrer.
          O combustível em apreço era oriundo da cidade da Beira (Moçambique), que atravessava a fronteira com o Malawi, transportado em carruagens-cisterna dos Caminhos de Ferro, procedendo-se posteriormente à trasfega para tanques de combustível da OILCOM, na povoação ribeirinha de Chipoka no Malawi.
          O combustível, quando necessário (mais ou menos quinzenalmente), era obtido pela "Chipa" no cais de atracção de Chipoka, por recurso a uma conduta de um "pipe-line" instalado no cais e originário dos tanques da OILCOM, posteriormente o combustível era transferido no cais da Vila de Augusto Cardoso (Base Naval de Metangula), permitindo deste modo abastecer as viaturas, os geradores e os navios da Armada (5 LFP's, 4 LDM's e 3 LDP's) atribuídos à Base Naval.


Oficial Subalterno da tripulação da "Chipa" no cais de Chipoka no Malawi (foto cedida por Cte. Correia do Amaral)

          A tripulação da "Chipa" que actuava como funcionários da SONAREP, para o qual eram dotados de fatos de macaco cor de laranja da empresa e possuíam cédula marítima certificada pelo Comando de Defesa Marítima dos Portos do Lago Niassa, documento que era apresentado à chegada a Chipoka ao "Port Master", eram na verdade a respectiva guarnição militar da LDM, que na maioria das vezes trajavam à civil durante a missão de reabastecimento (2 dias de viagem / percursos de 12 horas / 180 milhas no total).


Oficial Subalterno da tripulação da "Chipa" trajado a civil (foto cedida por Cte. Correia do Amaral)

          Durante a missão de reabastecimento não levavam qualquer documento, equipamento ou armamento que denunciasse a condição militar da embarcação ou da respectiva tripulação, à qual se juntava um Oficial Subalterno como responsável militar pela operação.
          Tal medida de segurança era devido aos contactos que se estabeleciam com as autoridades malawianas (Capitão do Porto, Chefe da Alfândega e Chefe da Polícia), entidades civis (encarregado e o guarda do parque de combustíveis da OILCOM, comandantes de navios-mercantes malawianos) e população malawiana, em virtude de potencialmente existir elementos simpatizantes da FRELIMO que por inerência podia comprometer a missão de reabastecimento.

Logtipo da SONAP e SONAREP

          Apesar de a missão de abastecimento de combustível ser classificada de "confidencial", as diversas tripulações que prestaram serviço na "Chipa" desenvolveram laços amistosos com as autoridades, entidades e população malawiana, o que muito contribuiu para tal, a confratenização e as ofertas periódicas de Vinho e Bagaço.
          Não obstante, a falta de equipamento de navegação adequado, inexistência de faróis ao longo da costa do lago, quer no Malawi, quer em Moçambique, aliado a vagas de proa até 5 metros em temporais de determinados períodos do ano, colocava à prova os conhecimentos náuticos e de marinharia da tripulação, originando a título de exemplo a navegação nocturna orientada por estrelas baixas no horizonte ou aproveitando a luz do luar, em substituição de radar e do mau funcionamento da agulha magnética devido aos fortes campos magnéticos do fundo do lago.
          A tripulação era constituída por:
- 1 Oficial [Mestre da lancha];
- 1 Cabo de Manobra [Patrão da lancha];
- 1 Marinheiro [Telegrafista];
- 1 Marinheiro Artilheiro [Marinheiro de convés];
- 1 Marinheiro Fogueiro [Condutor de máquinas].

12 comentários:

  1. Mais um artigo magnifico sobre a história da nossa Marinha e dos seus bravos marinheiros!

    Parabéns ao autor por conciliar neste excelente blogue assuntos da Marinha na actualidade sem esquecer o passado recente.

    Cumprimentos
    Salvador Oliveira

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  2. Caro amigo, parabéns por este artigo muito interessante sobre as "missões secretas" e imaginativo desenrasça da Marinha na Guerra Colonial, desconhecia está história da CHIPA.

    Confesso que achei ilariante a referência as ofertas de vinho e bagaço e ao "desenrasça" do costume ao navegar com a orientação de estrelas e luz do luar.

    1 Abraço
    Magalhães Cerqueira

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  3. Excelente artigo.
    Estive uns meses(1970) em Meponda, lago Niassa, c.caç.2450, desconheciamos completamente a existência desse barco «civil».
    Parabéns
    Joaquim Silvério

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  4. Sabia por "remores" do objectivo dessa lancha civil. Nunca ninguém o confirmou como este artigo. Parabéns pelo mesmo. VÍtor

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  5. Estive no Norte Moçambique,Niassa,Cantina Dias e fizemos operações em que eramos lançados por lancha.Quando eramos lançados procuravam o melhor sitio, quando eramos recolhidos havia café e pão, dado peloshomens de Metangula.Bem hajam os homens da marinha e que sempre se distinguiram de outras tropas especiais. Eu era do exercito.
    Não sei quem eram aqueles homens(1970-1972) mas para eles e em espirito um abração

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  6. Quero felicitar-te por mais este artigo, mesmo conhecendo o rigor e o amor à camisola, com que fazes as tuas pesquisas, de facto surpreendes-me a cada passo, com os teus escritos. Não te ficava nada mal o título de membro honorário da Academia de Marinha.
    Grande abraço.
    Mário Manso

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  7. Esta e outras estórias só farão parte da História da Marinha de Guerra se forem sendo descritas com a simplicidade a que o autor nos habituou. Bem haja pelo seu empenho e arte.
    Francisco Preto

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  8. Você devia era ser convidado para lançar o que escreve na Revista de Marinha e na Revista da Armada!

    Alberto Costa, ex-Cabo M das LDM em Angola

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  9. ... gostei de ler, obrigado por este apontamento cheio de detalhes.

    RR

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  10. Muito se tem falado sobre as mais diversas missões dos militares portugueses dos três ramos das Forças Armadas que operaram no ex-Ultramar, mas as lanchas (LDMS) e as suas guarnições pode dizer-se que foram quase esquecidas. Este testemunho sobre a LDM "CHIPA" retrata bem as peripécias que por vezes era necessário inventar para levar a bom termo as missões que lhe eram confiadas. Aqui também é de assinalar a capacidade das suas guarnições para dar volta ás situações, muitas vezes bastante adversas à vivência humana.Eu fui FZE fiz a minha comissão na Guiné, acompanhei de perto a vida e o movimento destas Lanchas. Como todos sabemos a Guiné é muito pantanosa tem muitos rios e riachos, era portanto preponderante o seu trabalho e das suas guarnições para apoiar logíticamente os aquartelamentos do exército que só tinham acesso por via fluvial. Navegavam em rios altamente perigosos, sempre com o in à espreita. Sofreram muitos ataques dos quais resultaram algumas lanchas incendiadas e afundadas,mortos e feridos, etc.etc.Muito haveria que falar sobre as ditas LDMS. Hoje à distancia de 40 anos ainda sinto orgulho de ter pertencido a este ramo das Forças Armadas, por várias razões e uma delas prende-se hoje com o meu dia a dia e vou falando com amigos que pertenceram a outros ramos das F.A. são unãnimes em afirmar; o pessoal da Marinha era espectacular, não havia vaidade, amigos de desenrascar um amigo, em qualquer circunstãncia de necessidade, exemplo: problemas com a PM, matar a fome a alguns,e toda a logistica enerente à sua missão. Obrigado um abraço Henrique

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    1. ....Só para dar os parabéns pelo que escreveu...Fernandes,ex C/E 1057/72

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  11. Sempre interessante saber mais pormenores sobre um dos episódios mais curiosos sobre o esforço de guerra em Moçambique, e em como o Malawi se tornou um nosso aliado, sob o governo de Banda, e de como Portugal escondia as suas operações militares, sob a forma de actividades civis, a fim de ter algum controlo no Niassa.
    Um tema a desenvolver.
    Parabens ao autor!

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