15/01/13

“HISTÓRIAS À VISTA” - 26

          26.ª “HISTÓRIA À VISTA”, da autoria do CMG FZ RES Leão Seabra, à época da narração 1.º Tenente, este artigo foi redigido originalmente para a publicação bimensal do Comando do Corpo de Fuzileiros «Revista FUZOS» de Março de 1994, entidade a quem agradeço a cedência da revista, nomeadamente ao Almirante Cortes Picciochi.
 
TI' JÚLIA
 
          "Não é possível escrever sobre a Ti' Júlia sem o fazer com emoção. Talvez, por isso, não seja importante aprofundar, aqui, a história da vida desta mulher, mas tão somente falar dela numa simples homenagem a uma mulher simples".
          Ti' Júlia (carinhosamente assim tratada pelos amigos), é uma mulher simples e de origem simples, apesar do seu passado complicado, pouco bafejado pelos ventos da felicidade.
          Nasceu pobre, casou pobre e muito nova. Muito cedo ficou de "barriga à boca" (grávida) o que constituía um peso suplementar diário, aos muitos quilómetros que percorria a pé, de casa para o trabalho. A juntar a esta vida dura, suportava ainda um marido que tinha o péssimo feitio de lhe "assentar a mão" por tudo e por nada. Mas tudo isso já lá vai e também ele lá foi há muito tempo.
          A Ti' Júlia não gosta de recordar este seu passado... O seu passado começou há 24 anos, altura em que começou a trabalhar na Escola de Fuzileiros, em Vale de Zebro.
          Todos os Oficiais da Marinha de Guerra Portuguesa que passaram por esta Escola tiveram, de uma forma ou de outra, o privilégio de conhecer esta interessante mulher dotada para o asseio, limpeza, para a perfeição, apresentação e aprumo.
          É muito frequente no dia-a-dia, ouvir-se nos corredores da Messe de Oficiais, alguém chamar, em voz alta pelo seu nome:
- “Ti´ Júlia!”.
- “Diz môr”. (resposta carinhosa ao tratamento carinhoso).
- “Não tem por aí umas platinas e um cordão vermelho?”.
- “Sabe, levei a farda para lavar e esqueci-me...”.
          E lá vai a Ti' Júlia ao seu compartimento de trabalho onde, não havendo propriamente o stock da ex. Fábrica Nacional da Cordoaria, sempre se pode encontrar o necessário para safar uma "enrascada": Boinas, bonés, camisas (de todos os padrões), calças, botões de punho, galões, etc... etc... e muitos etc's. A seguir vem a cobrança por este empréstimo:
- “Vocês andam mesmo na lua! São as namoradas...”.
(ou então, referindo-se aos casados)
- “Coitadinhas das vossas mulheres, o que elas passam com estas cabeças de vento... pois é, vão para casa... só querem é borga e depois esquecem-se...”.
          São estes os "mimos" que a Ti' Júlia dá, sem excepções, a quem a ela recorre... porque ela é assim: meiga, querida por todos, bem-disposta.
          Às vezes anda triste e, nos últimos tempos, de forma bem notória. É que se aproxima, a passos largos, o dia em que terá de dizer adeus aos Fuzileiros... definitivamente! É a lei da vida... É a reforma!
          A Ti' Júlia tem medo desse dia: Não sabe como viver sem os seus "filhos adoptivos", sem esta casa, sem os seus únicos amigos. Tem medo... nem quer pensar... Não vai ser fácil para ninguém!
          A Ti' Júlia, tem outra particularidade digna de realce: "Perfilhar" todos os Cadetes incorporados na Escola de Fuzileiros.
          Para estes ela é a "Mãe" que todos gostam de ter nos momentos mais complicados do curso, em que a verdadeira Mãe não pode estar presente.
          Lembro-me, quando há 16 anos, ingressei nesta Escola e iniciei o CFORN. Tudo e todos me pareciam hostis excepto esta mulher que, logo no primeiro dia apareceu no nosso alojamento para nos ajudar, educar..., perfilhar... veio ser Mãe! Não falou muito, mas disse tudo:
- “Olha pr'a eles coitadinhos! Tão branquinhos, tão novinhos... parecem uns copinhos de leite!”.
- “Isto dá muito trabalho, isto aqui é duro e os instrutores são brutos! Agora não se armem em mariquinhas?!”.
          É por esta razão e pelo desempenho ao longo dos cursos, que a Ti' Júlia bem merece esta carinhosa alcunha: «A Mãe dos Cadetes».
          A Ti' Júlia viu passar por ela todos os Oficiais do Corpo de Fuzileiros e, de todos, guarda saudades. Quando regressam a esta casa (mesmo que se tenham passado muitos anos), é vê-la "mirar" o Oficial de alto a baixo e arranjar uma piada engraçada que, normalmente, se refere ao passado:
- “Olha pr'a ele como está crescido... parece um homenzinho!!”.
          Depois, vem o abraço e o beijo familiar que refletem uma amizade profunda e duradoira. Chegou a hora desta homenagem singela mas justa que todos nós, os que conhecem a Ti' Júlia, querem e sentem obrigação de lhe fazer pela distinção, orgulho e honra de terem sido, algumas vezes "enxovalhados" por esta mulher que estimamos e adoramos:
A nossa Ti' Júlia, a Ti' Júlia da Escola de Fuzileiros.

3 comentários:

  1. Não tive a felicidade de conhecer a Ti Júlia mas, "vivendo" o texto apresentado, parece-me estar a vê-la... De destacar o carinho e reconhecimento com que o narrador a trata, gesto que dignifica ambos; gesto que nos mostra que nestes tempos de egoísmo e do EU ABSOLUTO ainda há quem valorize os humildes. Ficará porém incompleta esta homenagem pública se dela não for dado conhecimento à visada, para que ela sinta que a passagem à reforma não a afastou dos "seus meninos queridos" nem estes se afastaram dela.
    Pelos vistos a gratidão e gente que sabe fazer uso dela ainda existem...

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  2. Não sei onde se encontra a tia Júlia mas sei que mereceu e continua a merecer, de todos nós, seus dilectos protegidos, a maior estima e amizade.
    Já lá vão quase 40 anos. Quem diria tia Júlia!!!!!!!!!!!!!!!
    BC

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  3. Já conhecia este texto, que nos relata um sentimento colectivo, sobre uma Ti Júlia, que mesmo num local onde o amor deu o salto logo no inicio, soube merecer todo o carinho que lhe é expresso desta forma tão reconhecedora. O que afinal: bem fazer prova, de que o ser humano, quando não se abstém de o ser, as relações humanas tornam tudo mais facilitado, e no lugar do rancor, se instala o adversário do ódio, e a solidariedade é uma presença constante, na atitude das tias Júlias e dos ti Maneis, de quem se julga valer pouco, ou de quem acha valer dez réis! Este relacionamento, é prova provada de que: comportamento gera comportamento, mas do qual, teimosamente não abdicamos como afrontamento.

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