13/10/21
24/07/21
18/05/21
APRESENTAÇÃO DE LIVRO: FUZILEIROS - 400 ANOS DE MEMÓRIAS
Foto do autor José Cabrita
Para quem é interessado ou simplesmente possuí um vínculo aos Fuzileiros da Marinha Portuguesa, foi certamente com grande agrado que tiveram conhecimento da publicação de mais um livro sobre esta Unidade de Forças Especiais, apresentada formalmente no passado dia 18 de Abril do corrente ano na Escola de Fuzileiros, coincidindo com as comemorações que assinalaram os 400 anos da existência dos Fuzileiros, a mais antiga e mui nobre Unidade Militar de carácter permanente ao serviço de Portugal.
Recebeu o título de: “Fuzileiros - 400 Anos de Memórias” e trata-se de um livro iconográfico muito sui generis, edição de autor e profusamente ilustrado, com particular destaque para os seus desenhos vectoriais de alta qualidade que muito o enriquecem.
Tem o mérito de ser um trabalho de investigação compilado em contra-relógio para ficar pronto para as comemorações dos 400 anos dos Fuzileiros, tendo os seus dois autores se dedicado ao mesmo de forma afincada durante pouco mais 6 meses antes da publicação, após concentração de dados, fotos, documentação e consulta de uma considerável bibliografia, uma verdadeira odisseia, sendo por isso de louvar todo empenho e dedicação com que abraçaram este projecto!
É de realçar a sua apelativa estrutura, muito diferente do que se está habituado a encontrar em livros de temática militar, as suas imagens, planos, fotos e desenhos vectoriais ombreiam entre si durante o desenrolar da narrativa do livro numa agradável sintonia com os textos e legendas. Citando uma frase que muito bem espelha esta sua disposição, verbalizada por um dos autores - José Cabrita: “apresenta uma desorganização organizada”.
Conta com um prefácio redigido pelo actual Almirante CEMA e AMN Mendes Calado e uma introdução lavrada pelo Cte. (CMG FZ) Leão Seabra na qualidade de Presidente da Associação de Fuzileiros que muito dignificam a obra e contou com a colaboração institucional e pessoal de diversas entidades e pessoal civil e militar.
Foto FZE Mário Manso
O livro versa sobre a diferente orgânica e nomenclatura dos Fuzileiros desde 1621 aos dias de hoje, fazendo menção aos respectivos momentos históricos e principais operações de combate que imortalizaram-se na História dos Fuzileiros durante os seus 4 séculos de existência: Terço da Armada da Coroa de Portugal, Regimentos da Armada Real, Brigada Real de Marinha, Campanhas de África do século XIX / XX, Recriação dos Fuzileiros e Guerra do Ultramar, Corpo de Fuzileiros na actualidade.
Paulo Santos, responsável maioritariamente pela parte escrita do livro, colabora com a Marinha Portuguesa há mais de 15 anos, é membro efetivo da Academia de Marinha, redige artigos para a Revista da Armada e Revista de Marinha, já publicou 8 monografias de carácter cultural sobre a Marinha Portuguesa e no passado dia 3 deste mês de Maio foi-lhe concedido a Medalha Naval de Vasco da Gama.
José Cabrita, ficou responsável pela parte de design gráfico e todo o arranjo da disposição do livro, colabora igualmente com a Marinha Portuguesa há mais de 20 anos, nomeadamente como responsável gráfico de várias obras, é ilustrador gráfico no Gabinete de Heráldica Naval, elabora ilustrações e infografias para a Revista da Armada e Revista Militar, para além de apoiar vários autores, editoras, livros e revistas da área náutica e história militar, em 2018 recebeu uma Menção Honrosa da Academia de Marinha.
De mencionar que os autores já trabalharam anteriormente em conjunto, nomeadamente em 2 monografias que versam sobre a Marinha Portuguesa.
Para quem quer conhecer melhor a História mais longínqua dos Fuzileiros, este livro tem a mais-valia de apresentar muitos dados, textos e fotos patentes em arquivos, bibliotecas e museus do período anterior à recriação dos Fuzileiros em 1961, que maioritariamente se desconhece por já não serem de um passado recente vivido.
Do período de 1961 à actualidade apresenta igualmente muitos dados, textos e fotos, algumas já conhecidas, mas que receberam um tratamento gráfico, passando apresentar melhor qualidade.
É notório que o livro dedica um grande número das suas páginas ao período da Recriação dos Fuzileiros e Guerra do Ultramar, constituindo assim uma verdadeira e sentida homenagem às gerações dos nossos Veteranos da mítica Boina azul-ferrete que se bateram por Portugal em África.
Foto do autor José Cabrita
Neste capítulo evidencia detalhadamente a participação dos Fuzileiros nos Teatros de Operações de Angola, Guiné e Moçambique, tendo para tal contando com testemunhos, memórias e fotos particulares de diversos Veteranos.
Não obstante, não ficou obviamente esquecido os actuais Fuzileiros desde o 25 de Abril de 1974, as sucessivas reestruturações por forma adaptarem-se constantemente aos tempos e necessidades da guerra moderna, realçando-se a menção à criação de diversas Unidades, a participação em diversos exercícios nacionais e internacionais, referência desde de 1995 até este ano às missões de apoio às populações civis, missões internacionais de apoio à paz ou de assistência humanitária.
O livro dedica ainda na parte final de modo singelo mas honroso umas páginas ao Museu do Fuzileiro, as comemorações dos 700 anos da Briosa, participação em grandes desfiles militares comemorativos nacionais e internacionais, inauguração de monumentos ao Fuzileiro, a Associação de Fuzileiros, Rádio Filhos da Escola e à prodigiosa Unidade do Corpo de Cadetes do Mar Fuzileiros!
De destacar que o livro possui mais de 600 imagens, planos, fotos e desenhos vectoriais nas suas 272 páginas, traduzindo-se num livro com uma relação de texto vs ilustrações sedutora para quem se interessa por esta Unidade de Forças Especiais, quer num contexto da história militar, quer para servir de apoio ao modelismo ou tão simplesmente por ser um Filho da Escola.
Foi limitado a 600 exemplares, sendo que 400 já se venderam, editado em formato de álbum e em papel couché, os seus desenhos vectoriais são de alta qualidade, criados no programa: Corel Draw, todos da autoria de José Cabrita.
Está prevista futuramente uma nova edição do livro, revista, aumentada e com partes do livro, nomeadamente os textos iniciais de cada capítulo, também em Inglês e Francês.
A título informativo e a quem interessar, o livro em apreço é passível de ser adquirido por 30€ directamente aos autores (jm.cabrita@netcabo.pt) e encontra-se à venda na Associação de Fuzileiros, Academia de Marinha e Museu de Marinha.
Cumpre informar que juntamente com o livro, nestas comemorações dos 400 anos dos Fuzileiros, foi apresentado um relógio comemorativo desta data, da marca SWISS MILITARY (nas versões Quartzo e Automático), tratando-se de uma edição especial e limitada a 400 exemplares que pode ser adquirido unicamente na Associação de Fuzileiros (https://associacaofuzileiros-afz.pt/) por reserva, devido ao facto de que são todos personalizados, cujo custo oscila entre 144€ e os 388€, conforme o modelo e bracelete escolhida.
Por último, é de enaltecer a iniciativa dos sobejamente conhecidos Veteranos FZE Mário Manso e José Parreira para mobilizar uma “Força-tarefa” de 50 elementos composta por diversas gerações de Fuzileiros e civis, que se prontificaram para pintar o extenso muro exterior e porta d’ Armas da Escola de Fuzileiros, por forma a ficar dignamente apresentável nas comemorações dos 400 anos dos Fuzileiros.
Iniciativa esta que recebeu o nome de “Operação: Muro da Consagração” e decorreu nos dias 26, 27 e 28 de Março, com o apoio da própria Escola de Fuzileiros e da Associação de Fuzileiros, sendo de frisar que o autor José Cabrita e o seu filho Ricardo Cabrita também estiveram presentes.
26/11/20
ARTIGO PUBLICADO NA REVISTA DESEMBARQUE
Foi publicado na Revista: "O Desembarque" da Associação Nacional de Fuzileiros um artigo sobre as RAMONAS: "Viaturas celulares da Polícia Naval".
O meu muito obrigado, mais uma vez, a todos que contribuíram para a sua compilação.
- http://www.associacaofuzileiros.pt/pdf/Desembarque_37.pdf
04/11/20
PROMOÇÃO DE LIVRO: "O MISTÉRIO DO ANGOCHE"
Quem se recordará ainda? Perfazem-se 50 anos em 23 de Abril de 2021. Que ”segredo de estado” informal será esse que lançou um véu de ocultação e desinformação sobre os factos ocorridos com o “navio-fantasma” português, toda a tripulação desaparecida até hoje, sem mortos ou despojos registados?
O livro vem levantar essa capa.
“O Mistério do Angoche”
A crónica de uma investigação. Quem em Portugal planeou, executou, e ocultou a autoria do ataque terrorista ao navio Angoche nas costas de Moçambique em 1971?
O presente livro propõe-se desvendar o enigma.
Outros mistérios correm neste Portugal contemporâneo a par do “caso Angoche”:
- AGINTER-PRESS - a “outra PIDE” - agência de espionagem e de mercenários vertente portuguesa da Operação Gládio “filha” da NATO e da CIA.
- O enigmático Mr. HERBERT LESTER - agente secreto e conselheiro de Salazar.
- A rede de JORGE JARDIM - o “Lawrence d’ África”.
- “Conde de Pavullo” - o patriarca ZOIO - e uma teia lusa de “mercadores da morte”.
Moçambique, 23 de Abril de 1971, sexta-feira à noite.
O navio português Angoche é atacado, incendiado. Por quem? Os ocupantes, 23 elementos da tripulação e um passageiro, desapareceram todos.
O Angoche está deserto.
Dois dias depois, ao entardecer de domingo, 25 de Abril de 1971, uma mulher portuguesa de um bar de alterne é “suicidada”, atirada do 5º andar de um prédio da cidade da Beira, o “Miramortos”. Um mistério ligará os dois casos?
Nunca apareceu nenhum dos homens do Angoche, vivos, mortos, ou quaisquer despojos.
Um x-files, autênticos “ficheiros secretos” à portuguesa. Sabemos agora quem são os responsáveis e vamos apontá-los!
Pré-lançamento / venda com envio pelos CTT ou em mão e, em breve, nas livrarias:
Pelos CTT: Transferência de 25,00€ euros para o NIB: 0018 0003 3249 2209 0204 5
e mandar comprovativo para o mail: paulo@pauloliveira.com
Envie nome, endereço e indique o NIF caso pretenda factura.
Nota: apenas enviamos pelos CTT para território nacional.
O Autor:
Nascido em Lisboa em Setembro de 1959, fui com a família para Moçambique em Agosto de 1960, residi em Lourenço Marques (Maputo) até Setembro de 1979.
Praticante e instrutor de paraquedismo com licença de queda-livre no Aeroclube de Moçambique em 1978/1979, cursei Engenharia Electrotécnica na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo. Regressei a Lisboa em Setembro de 1979.
Vivi na África do Sul em 1983 e 1984 sendo ao tempo correspondente de vários jornais portugueses.
Jornalismo e Publicidade foram áreas em que me envolvi também em Lisboa de 1982 a 1987. Realizei diversos trabalhos na área de informática desde 1991 até ao presente.
Desenvolvendo o que começou por ser um hobby, formei a “Portugal Wild Trail” - entidade de animação turística / Turismo de Natureza - com organização de eventos em Sintra, Cascais, Oeiras, Mafra, Lisboa e Alenquer - passeios, caminhadas, foto-safaris e provas de degustação de vinhos e produtos locais.
Colaboração com projectos Google: Guia Local / Google Local Guide - Level 10 (nível de topo), e Google Street View Pro Trusted - Certificado de Fotógrafo Fidedigno.
A Obra
Publicou:
Dossier Makwákwa - Renamo: uma descida ao coração das trevas
Mak - Operação D7 (em preparação / já publicado em formato electrónico)
O Mistério do Angoche
Após o “Coração das Trevas”: 1991 / 1997 Deambulações e apontamentos de viagem (em preparação).
07/06/20
AS BERLIET-TRAMAGAL DOS FUZILEIROS
Este artigo foi inicialmente redigido em 2017, poucos meses depois das Comemorações do "Dia da Marinha", a convite pelo então Director da Direcção de Transportes da Marinha, tendo sido publicado parcialmente (por limite de páginas e ilustrações) na Revista da Armada n.º 544 de Setembro de 2019.
Posteriormente foi publicado na íntegra na Revista Desembarque n.º 35 de Março de 2020 da Associação da Fuzileiros.
Optei por publicar também neste blogue o artigo (com algumas actualizações) por forma a ilustrar todas as fotos reunidas das viaturas em apreço, dado que várias não foram publicadas em ambas as revistas citadas devido ao limite de ilustrações. Outro motivo advém do facto de servir mais uma vez de agradecimento e reconhecimento pelo pronto contributo com fotos, dados e testemunhos de vários civis e militares.
A Berliet-Tramagal foi montada entre 1964 e 1974
em Portugal sob licença pela fábrica MDF (Metalúrgica Duarte Ferreira, SARL)
com instalações situadas no Tramagal.
É uma viatura pesada baseada no modelo comercial francês
de 1956 “Gazelle” da Berliet, tendo sido especificamente modificado e
reforçado, originando os modelos da série “GBC KT” para utilização no conflito
da Argélia pelo Exército francês.
Berliet Gazelle (Foto da Internet)
Na sua linha de montagem a MDF construiu ao todo 3.549 viaturas:
- 1.670 exemplares desde 1964 do modelo “GBC 8 KT 4x4”;
- 972 exemplares desde 1966 do modelo “GBC 8 KT 6x6”;
- 907 exemplares desde 1968 do modelo “GBA MT 6x6”.
Foi adoptada como viatura táctica de transporte
de carga e pessoal na Guerra do Ultramar, atendendo às necessidades das FA’s (Forças
Armadas) Portuguesas, nomeadamente do Exército Português e, por forma a
substituir meios motorizados obsoletos nas Unidades em comissão de serviço,
como por exemplo as viaturas pesadas Norte-americanas “GMC” da General Motor do
período da 2.ª Guerra Mundial e, viaturas pesadas civis de mercadorias
militarizadas com simples tracção traseira (Mercedes, Scania e Volvo).
Tem como principais características: ser uma viatura
simples e desprovida de comodidades; de baixo custo de produção e manutenção
fácil de 1.º escalão; possui capacidade Todo-o-Terreno e tracção integral; dispõe
de ângulos de ataque e saída muito elevados atendendo a sua dimensão.
O modelo
Berliet-Tramagal “GBC 8 KT” com tracção 4x4 pesava 5.980 kg e possuía capacidade
para 4 toneladas de carga ou transportar 20 militares totalmente equipados
(mais 01 condutor), dispõe de um motor Berliet M520 de 5 cilindros e 7.900 cc
com 125 cv a 2.100 rpm, velocidade máxima de 82 km/h e autonomia máxima de 800
km.
Berliet-Tramagal GBC 8 KT 4x4 (Foto da Internet)
Em 1966 a MDF apresentou às FA’s Armadas
Portuguesas o modelo “GBC 8 KT” com tracção 6x6 de rodado simples, que já
incorporava 50% de componentes de fabrico nacional, tendo sido bem aceite pelo
Exército Português observando a mais-valia do desempenho Todo-o-Terreno em
relação ao modelo anterior de tracção 4x4.
Pesava 8.370 kg e possuía capacidade para 5
toneladas de carga ou transportar 20 militares totalmente equipados (mais 01
condutor), disponha de um motor Berliet M520 B de 5 cilindros e 7.900 cc com
125 cv a 2.100 rpm, velocidade máxima de 85 km/h e autonomia máxima de 800 km.
Berliet-Tramagal GBC 8 KT 6x6 (Foto da Internet)
Os modelos da série “GBC KT” tinha a famosa particularidade do motor ser policarburante, isso é, mediante um manípulo selector de combustível, trabalhava com gasóleo, gasolina ou outros carburantes como: petróleo refinado, querosene, óleo de motor, água rás, álcool, óleo de fígado de bacalhau, diluente, brilhantina, parafina e óleos vegetais.
Em 1968, com o
intuito de simplificar, aumentar e baratear o processo de produção, o
fabricante nacional concebeu o modelo “GBA MT” com tracção 6x6, com menos peso
e dimensão e ligeiras diferenças exteriores em relação ao modelo “GBC”, fruto
da experiência do comportamento da viatura nos TO’s (Teatro de Operações)
africano.
Pesava 7.150 kg, tinha capacidade para 4,5
toneladas de carga ou transportar 18 militares totalmente equipados (mais 01
condutor), dispõe de um motor Berliet M420/30XP a diesel de 4 cilindros com 135
cv a 2.600 rpm, velocidade máxima de 85 km/h e autonomia máxima de 800 km.
Berliet-Tramagal GBA MT 6x6 dos Fuzileiros (Foto cedida pelo CCF)
As diferenças mais notórias são: tampa do motor (capó)
mais curta e simplificada com ângulos mais direitos; reposição dos faróis
dianteiros; introdução de pequenas modificações no depósito de combustível e
instalação de aberturas laterais do compartimento do motor por forma a facilitar
a ventilação e evitar o sobreaquecimento, atendendo ao clima dos TO’s
africanos.
Ambos os modelos “GBC” e “GBA” eram muito
apreciados pelas tropas portuguesas nas antigas colónias em África pela sua
robustez, força do motor, capacidade de passagem a vau de cursos de água até 1,2
m (GBC) / 1,5 m (GBA) de profundidade graças à estanquicidade do motor e
depósito de combustível, o guincho mecânico que permitia ter saída para a
frente e traseira da viatura, facilitando a resolução de problemas no terreno.
Berliet-Tramagal GBC em 1.º plano e GBA em 2.º plano (Foto de Pedro Monteiro)
A robustez da carroçaria da viatura em aço oferecia
uma certa resistência à deflagração de engenhos explosivos (minas Anti-Pessoal
/ Anti-Carro / fornilhos), que se reflectia na mais-valia de contribuir para a redução
de baixas e respectiva confiança, força anímica e moral das Forças em campanha.
Fruto de apresentar o eixo dianteiro adiantado em
relação à posição do condutor, muitas Berliet-Tramagal foram empregues na
função de “rebenta-minas”, seguindo à frente das colunas motorizadas, sendo apetrechadas
com diversos sacos de areia de modo aumentar o peso da viatura e absorver o
impacto da explosão, tendo por regra como único ocupante o próprio condutor.
Berliet-Tramagal "Rebenta-minas" (Foto da Internet)
No início de 1974, após uma visita do então
CEMGFA General Costa Gomes aos TO’s de Angola e Moçambique, foi convocada para
22 de Fevereiro de 1974 a Comissão Conjunta dos Chefes de Estados-Maiores para
debater os planos de aquisição e orçamentos para 1974 e uma previsão para 1975.
Dessa Comissão foi elaborado um Apontamento onde
ficou previsto que a renovação das viaturas das Unidades de Fuzileiros deveria
processar-se automaticamente e abranger anualmente ¼ da dotação total.
Ficou ainda acordado nesse Apontamento a
possibilidade de substituir as Mercedes por outra mais adequada para as missões,
podendo a solução recair na Berliet-Tramagal, permitindo obter mais-valias no
tocante a logística e manutenção ao se uniformizar com o Exército Português.
A 16 de Maio de 1973 é efectuada uma proposta de
aquisição da viatura táctica pesada “Berliet-Tramagal GBC 8 KT 6x6” à Marinha
Portuguesa pelo seu fabricante nacional - a MDF.
Este modelo de viaturas tácticas foram adquiridas
a 13 de Julho de 1973 e entraram ao serviço da Marinha Portuguesa em pequeno
número (presume-se terem sido somente 5 exemplares) em 28 de Agosto de 1973,
não obstante é de realçar que do que foi possível aturar por recurso a
testemunho de Fuzileiros Veteranos da Guerra do Ultramar, que foram enviadas para
o Comando Naval de Angola e destacadas para Vila Nova da Armada 02 Berliet-Tramagal
“GBC’s”, que findo o conflito regressaram a Portugal.
Berliet-Tramagal GBC 8 KT 6x6 dos Fuzileiros em Vila Nova da Armada - Angola (Foto cedida por SAJ FZE Valter Raposeiro)
Uma dessas “GBC” manteve a função de transporte
de pessoal e chegou a estar destacada na UAMA / UMD, o outro camião (AP-18-14) foi enviada para a própria fábrica MDF (tal como sucedeu a algumas viaturas do
mesmo modelo do Exército Português) para ser modificada para a função de “Pronto-Socorro”,
sendo dotada de grua mecânica "MDF" com capacidade para rebocar uma
viatura sobre-elevada até o máximo de 3500kg e um pirilampo para sinalizar a
marcha-lenta.
É de referir, igualmente, que existiam alguns destes
camiões no Comando Naval de Moçambique, cedidas a título de empréstimo pelo
Exército Português (dispunha mais de 610 exemplares em África), mas que nunca
receberam matrícula da Armada e eram utilizadas para missões logísticas e
administrativas, por vezes apoiavam a movimentação de Unidades de Fuzileiros,
tal ocorreu por exemplo com o DFE - Destacamento de Fuzileiros Especiais n.º 1
(1967 - 1969) em Cabo Delgado no Norte de Moçambique.
Berliet-Tramagal do Exército Português emprestadas aos Fuzileiros em Moçambique (Foto cedida por FZE António Manuel Carvalho)
No que concerne ao
modelo “GBA”, segundo os registos da DT - Direcção de Transportes, a dotação da
Marinha / Fuzileiros era de 12 exemplares e eram consideradas: «viaturas
especiais» para efeitos de Cadastro de Viaturas e, designadas oficialmente em
termos de tipo de material pelas Instruções Técnicas dos Fuzileiros por:
«Viatura Táctica Pesada 6x6 Berliet GBA», entraram ao serviço da Marinha
Portuguesa entre Novembro de 1974 e Junho de 1975, tendo sido adquiridas com
verbas do OFNEU74 / OFNEU75 e destacadas à carga do Batalhão de Fuzileiros n.º
3 (Unidade de manobra), mais concretamente do «GTTT - Grupo de Transportes
Tácticos Terrestres», configurando uma Unidade de Apoio de Combate.
Viaturas do GTTT do BF n.º 3 (Foto cedida por Cabo FZE Liberto Cartó)
De salientar que em 1975 estas viaturas tácticas
pesadas ofereceram aos Fuzileiros flexibilidade e mobilidade operacional num
momento em que transitavam por um processo de adaptação de guerra de guerrilha
para conflitos de cariz mais convencional e, permitiram aumentar a capacidade
de manobra táctica, permitindo o emprego desta força de elite em situações de
maior exigência operacional num largo espectro de exercícios, operações e
actividades militares.
No passado recente da história portuguesa, no
período político-militar denominado por "Verão Quente" de 1975 e anos
que se seguiram, os Fuzileiros participam activamente com as suas 12
Berliet-Tramagal GBA em várias missões de Manutenção da Ordem Pública e,
esporadicamente em Campanhas de Dinamização Cultural e Acção Cívica do MFA (Movimento
das Forças Armadas) de apoio às populações.
Coluna de Berliet-Tramagal dos Fuzileiros em 1975 (Foto cedida por Cabo-Mor FZ Jorge Almeida)
Como viatura de transporte táctico, transportavam
Unidades de Fuzileiros (uma viatura por Pelotão) que se encontravam em estado
de prontidão imediata e atribuídas ao COPCON (Comando Operacional do Continente),
desempenhando um papel determinante como demonstração de força, por vezes
quando era necessário incrementar o grau de resposta, essas missões eram
reforçadas pelas viaturas blindadas Chaimites dos Fuzileiros.
Tais missões tinham por áreas de responsabilidade
e intervenção o Distrito de Setúbal e Concelho de Almada, manter a Ordem
Pública na zona de Almada (incluindo no Arsenal de Alfeite e na Lisnave) e
Trafaria, assim como os designados "Pontos Sensíveis": instalações da
NATO, abastecimento de água, postos de transformação da EDP, fábrica de
munições, fábrica da pólvora, instalações de entidades públicas, etc.
Berliet-Tramagal dos Fuzileiros em missões e exercícios em 1975 (Foto cedida por Cabo-Mor FZ Jorge Almeida)
Neste período político-militar para além das
próprias Berliet-Tramagal os Fuzileiros utilizaram este modelo de camiões
cedidos pelo Exército Português, tal sucedeu a título de exemplo com a Companhia
de Fuzileiros n.º 7, conhecida pela alcunha de "Ralis das Lezírias"
destacada no G1EA - Grupo n.º 1 das Escolas da Armada em Vila Franca de Xira,
quando prestou serviço sob Comando do COPCON, dispondo de duas Berliet GBC
cedidas pelo Exército, assim como uma Unimog dotado de canhão sem recuo de
106mm entre os dias 24 e 26 de Novembro.
Estas viaturas também eram presença assídua em desfiles
militares, exercícios exclusivos dos Fuzileiros, sectoriais da Marinha (PHIBEX)
e conjuntos ou combinados com os restantes Ramos das FA's Portuguesas ou
estrangeiras (ALBATROZ / MARTE / GALERA).
Berliet-Tramagal e exercícios de desembarque de LDG's
Nos Fuzileiros durante grande parte do ano
operacional as viaturas circulavam desprovidas do toldo de lona da cabine e da
traseira, respectiva armação e laterais do compartimento de carga junto ao
chassis, igualmente os estrados dos bancos eram colocados de forma as tropas
transportadas permanecessem de costas contra costas, por forma a permitir
rapidamente abandonar a viatura em caso de necessidade, configuração que já era
empregue na Guerra do Ultramar para reacção a emboscadas.
Exercício de reacção a emboscada (Foto cedida por FZ José Aleixo)
Em 1977, quando as viaturas ainda se encontravam
sob tutela do BF n.º 3, foram implementados projectos nas oficinas da SAO - Serviço
de Assistência Oficinal da FFC - Força de Fuzileiros do Continente, por iniciativa
do então Comandante do Batalhão - Cte. Alves da Rocha, que visavam utilizar o
seu potencial de “massa”, “velocidade” e de “apoio de combate”, mediante a
instalação de armas de apoio de fogos na sua estrutura, mais concretamente a
montagem de um reparo na cabine para suportar metralhadoras-ligeiras HK MG-42 /
MG-3, assim como um artefacto na traseira para acoplar os pratos-base de
morteiros de 81 mm, transformando a viatura num “vector de multiplicação de
forças”.
Este mesmo Oficial foi encarregado anteriormente pela
construção da pista de treino táctico de Fuzileiros condutores (FZV) de
viaturas de tracção total existentes na FFC, treino que incluía a
responsabilização de cuidar pelo grau operacional da viatura atribuída e
respectiva manutenção de 1.º escalão, gerando o binómio condutor/viatura
táctica.
Esta pista situava-se no interior da FFC, no
perímetro interior da Unidade, com início ao fundo da parada junto da
Enfermaria, sendo constituída por vários obstáculos consecutivamente, colocando
à prova a coragem, determinação e destreza dos FZV e testando os limites
técnicos das viaturas.
O treino táctico dos FZV também era realizado nas
praias do litoral próximo, envolvendo estudos de percursos viável entre marés,
nas praias da Costa da Caparia até ao Cabo Espichel.
Berliet-Tramagal numa BTE em Olhão em 1977 (Foto cedida por SMOR FZE Miguel Aleluia)
Em 1978, a Berliet-Tramagal AP-19-31 sofreu um
aparatoso acidente no Portinho da Arrábida, tendo inclusivo rolado várias
vezes, do qual resultou alguns feridos ligeiros entre Fuzileiros que
transportava na traseira, tendo sido posteriormente recuperada e voltado ao
serviço.
Em Junho de 1979, dada a premência de obter uma
melhor racionalização dos meios de apoio atribuídos às Unidades dos Fuzileiros,
são edificados na dependência do CCF, diversas Unidades, entre elas a UATT -
“Unidade de Apoio de Transportes Tácticos”, para onde, já em Junho de 1978,
transitaram as Berliet-Tramagal e as restantes viaturas tácticas ligeiras e
pesadas de todas as Unidades do Corpo de Fuzileiros, mantendo estas somente as
viaturas ligeiras administrativas da sua dotação.
Uma das Berliet-Tramagal dos Fuzileiros esteve
destacada diversos anos na Escola de FZ’s para efeitos de instrução de condução
(formação operacional), outra desempenhou a mesma função no G1EA - Grupo n.º 1
das Escolas da Armada em Vila Franca de Xira.
Em 1994, a Berliet-Tramagal GBC AP-18-14
Pronto-Socorro com grua mecânica "MDF" procedeu ao reboque de 03
viaturas blindadas anfíbias Chaimite dos Fuzileiros até a Secção de Inúteis da Direcção
de Abastecimento da Marinha.
Berliet-Tramagal dos Fuzileiros em diversos desfiles motorizados
Todas as viaturas em apreço (GBC e GBA) foram abatidas
ao efectivo entre 1996 e 1999, demarcando-se com Honra na História dos
Fuzileiros, durante pouco mais de duas décadas de serviço e, certamente na
memória de várias gerações dos “Filhos da Escola”!
Importa realçar que a MDF também montava a
Berliet-Tramagal para forças militares na versão de camião-oficina e camião
cisterna de 5.000 lt para hidrocarbonetos e, que os 03 ramos das FA’s
Portuguesas as adaptaram para diversas funções, suportar certas cargas,
sistemas de armas ou equipamento específico.
Berliet-Tramagal GBC com sistema de armas anti-aérea quádruplo dotado de canhões Oerlikon de 20mm a desfilar em Luanda - Angola (Foto de Luís Ferreira)
Várias GBC e GBA transitaram posteriormente das
FA’s para diversas corporações de Bombeiros que as adaptaram ao combate a
incêndios e, de empresas e particulares que as modificaram para as mais
variadas utilidades, actualmente algumas encontram-se na posse de associações e
coleccionadores de antigas viaturas militares, sendo que algumas são presença
assídua em encontros e concentrações de viaturas militares clássicas.
Berliet-Tramagal GBA de Bombeiros (Foto de Raul Nunes)
O Exemplar GBA 6MT de matrícula “AP-19-32”, a penúltima
do seu modelo a entrar ao serviço nos Fuzileiros a 18/06/1975 e abatida a 07/07/1999,
começou a ser recuperada pela DT em 2014 da Secção de Inúteis da Direcção de
Abastecimento da Marinha, para integrar o “Núcleo Museológico de Viaturas
Antigas da Marinha”, sendo de louvar esta iniciativa tendo em linha de conta
que se trata de uma viatura emblemática das FA’s Portuguesas. De destacar que o
Regimento de Manutenção (Entroncamento) do Exército Português colaborou cedendo
algumas peças e o toldo de lona traseiro.
Berliet-Tramagal GBA na Secção de Inúteis da Direcção de Abastecimento da Marinha
Foi apresentada publicamente, pela primeira vez,
nas comemorações do “Dia da Marinha de 2017” na Póvoa do Varzim / Vila do Conde,
fazendo por certo recordar tempos passados de diversos cidadãos que cumpriram o
SMO - Serviço Militar Obrigatório, as delícias dos entusiastas de viaturas militares
clássicas e de modelistas.
Berliet-Tramagal GBA em fase de recuperação
Tendo sido convidado para estar presente na
tribuna durante estas comemorações pelo então Almirante CEMA - Almirante
António Silva Ribeiro, foi com grande surpresa que contemplei a presença desta
viatura exposta, sendo que por obra do acaso o meu lugar na tribuna ombreava
com o do então Director da Direcção de Transportes - CMG EMQ Carmo Limpinho que
conheci durante o evento e em tom de conversa foi notório o orgulho pelo
trabalho e façanhas realizado pelo seu pessoal na recuperação desta viatura e
outras do “Núcleo Museológico de Viaturas Antigas da Marinha”.
Tomado pela curiosidade e em consequência da
conversa supramencionada, já quando fui observar com mais detalhe a viatura em
exposição estática, fiquei admirado com o estado geral impecável em que se
encontra, acaso para se dizer “como novo”! fruto da sua recuperação.
No entanto, mais interessante foi verificar a
reacção perante a viatura de alguns cidadãos que pela sua conversa com
familiares ou amigos apercebi-me tratarem-se de antigos combatentes da Guerra
do Ultramar; em tom de confidência, posso afirmar que fiquei particularmente sensibilizado
ao verificar a reacção emotiva de um desses cidadãos que finda a verbalização
de uma história de uma ocorrência em Moçambique a familiares, lavado em
lágrimas literalmente abraçou a frente da viatura por uns momentos, como se
fosse um antigo camarada que não via a décadas e que segundo a história a quem
deve a sua vida!...
A DT futuramente pretende recuperar o
camião-cisterna de Limitações de Avarias da Marinha de matrícula “AP-26-25” Tramagal
TT13/160 6x6 Turbo de 13 toneladas, também fabricado pela MDF e que esteve
destacada na Escola de Fuzileiros (possuía a matrícula DT-20).
Camião-cisterna de Limitações de Avarias da Marinha Tramagal TT13/160 6x6 Turbo
No que concerne ao modelismo, existe um kit de
fabrico nacional e edição particular da autoria do Major Nogueira Pinto,
modelista e Oficial na situação de Reforma do Serviço de Material do Exército
Português, que permite montar na escala 1/35 a Berliet-Tramagal GBC 8 KT 6x6.
Kit de modelismo 1/35 de uma Berliet-Tramagal GBC 8 KT 6x6 “Pronto-Socorro”com grua mecânica "MDF"
Em Abril de 2018 foi lançado em Lisboa e no Porto o livro
"Berliet, Chaimite e UMM: Os Grandes Veículos Militares Nacionais" do meu amigo Pedro Monteiro, que me concedeu a honra de fazer a apresentação do livro e autor na Livraria "Ascari" - Porto.
Capa do livro "Berliet, Chaimite e UMM: Os Grandes Veículos Militares Nacionais" de Pedro Monteiro
Cumpre-me agradecer a pronta ajuda de vários
civis e militares na compilação de dados, documentos, fotos e testemunhos sobre
as Berliet-Tramagal e o seu uso na Briosa pelos seus Fuzileiros. A todos Bem
Hajam!
16/10/19
LANÇAMENTO DE LIVRO: "NRP SÃO MIGUEL - CORAGEM E DETERMINAÇÃO"
Visa-se com este livro prestar homenagem a todos os militares que serviram naquele navio e enriquecer a história da Marinha.
Trata-se de um livro que relata a vida do N.R.P. “São Miguel” ao serviço da Marinha, das Forças Armadas e de Portugal, onde são mencionados os factos mais relevantes das várias missões e viagens realizadas, assim como muitas histórias que deram corpo às memórias escritas dos três Comandantes do navio, além de diversas considerações respeitantes à operação de afundamento do navio em 25 de Outubro de 1994.
Este livro resultou da conjugação de vontades de alguns Oficiais com ligação afectiva ao "São Miguel" e reúne as memórias escritas Cte. Oliveira Costa (primeiro Comandante), do Cte. Brito Subtil e do Cte. Rodrigues da Conceição, assim como as considerações do Cte. Ferreira da Silva, ex-Imediato do navio que coordenou a operação do seu afundamento há 25 anos carregado com 2.200 ton de munições sentenciadas.
São incluídas algumas transcrições do blogue "Barco à Vista", comportando cerca de 50 fotografias, e ainda recortes da imprensa da época.
RECORDANDO O NRP "SÃO MIGUEL":
https://barcoavista.blogspot.com/2018/01/recordando-o-nrp-sao-miguel.html
Trata-se de um livro que relata a vida do N.R.P. “São Miguel” ao serviço da Marinha, das Forças Armadas e de Portugal, onde são mencionados os factos mais relevantes das várias missões e viagens realizadas, assim como muitas histórias que deram corpo às memórias escritas dos três Comandantes do navio, além de diversas considerações respeitantes à operação de afundamento do navio em 25 de Outubro de 1994.
Este livro resultou da conjugação de vontades de alguns Oficiais com ligação afectiva ao "São Miguel" e reúne as memórias escritas Cte. Oliveira Costa (primeiro Comandante), do Cte. Brito Subtil e do Cte. Rodrigues da Conceição, assim como as considerações do Cte. Ferreira da Silva, ex-Imediato do navio que coordenou a operação do seu afundamento há 25 anos carregado com 2.200 ton de munições sentenciadas.
São incluídas algumas transcrições do blogue "Barco à Vista", comportando cerca de 50 fotografias, e ainda recortes da imprensa da época.
RECORDANDO O NRP "SÃO MIGUEL":
https://barcoavista.blogspot.com/2018/01/recordando-o-nrp-sao-miguel.html
09/05/19
"OS SUBMARINOS NA MARINHA PORTUGUESA - 4.ª EDIÇÃO"
As “Edições Revista de Marinha” vão apresentar na próximo dia 17 de maio, às 18h00, no auditório da Douro Azul, na rua de Miragaia, o livro em apreço.
No fim da apresentação será servido um vin d’honneur, cortesia da firma Douro Azul, S.A..
Para controlo, agradece quem estiver interessado, que informe que pretende estar presente: 919 964 738.
Com cordiais cumprimentos,
Alexandre da Fonseca
11/04/19
PROMOÇÃO DE LIVRO: HOMENS DO MAR
Depois da publicação de Grandes Batalhas Navais Portuguesas (2009 e 2013) e Grandes Naufrágios Portugueses ((2013), Homens do Mar, é o novo livro de José António Rodrigues Pereira para a Esfera dos Livros.
Tem 51 biografias de homens ligados ao mar, desde chefes militares, navegadores e descobridores a cartógrafos, estrategistas, oficiais da marinha mercante e salvadores de náufragos.
A obra será lançada no próximo dia 8 de Maio às 18h30, no Clube Militar Naval, em Lisboa. O clube fica situado na Avenida Defensores de Chaves nº 26, 1000-117 Lisboa.
Será apresentada pelo Contra-almirante Palma de Mendonça.
Os acessos podem ser feitos através da Estação de Metro do Saldanha; quem utiliza carro, pode estacionar no parque do Arco do Cego, que fica nas proximidades.
Não estando ainda confirmada, é possível que venha também a ser apresentado no Museu Marítimo de Ílhavo a 2 de Junho pelas 17h00.
02/02/19
REFLEXÕES DE UM VELHO MARINHEIRO
ESCOLA NAVAL
Porque tem de ser uma escola exigente?
Reflexões dum velho marinheiro
(1259/22)
Que diferenças existem entre as exigências de uma
universidade e as de uma escola superior militar, mais exactamente a Escola
Naval?
Enquanto a Universidade prepara
profissionalmente os seus alunos até concluírem os seus cursos, a Armada,
através da Escola Naval, tem de assegurar que os seus cadetes, num limitado
número de anos, sejam, para além dos seus cursos, ao longo das suas vidas,
enquanto militares e marinheiros, líderes profissionalmente competentes em
diversos domínios técnicos, tecnológicos e de gestão da própria Armada,
independentemente dos cursos que venham a frequentar para atingirem,
devidamente avaliados, as responsabilidades inerentes ao topo das suas
carreiras.
De
facto, quando um jovem decide que curso universitário pretende fazer, pondera,
além das suas próprias inclinações, a sua capacidade de almejar a admissão numa
dessas Faculdades, a de concluir o curso com folgado êxito e, lançado num
mercado competitivo, a de vir a alcançar uma posição profissional que sempre se
deseja destacada. Claro que muitos aspectos de ordem prática, terá de enfrentar; em
que universidade, em que cidade e tudo o mais que isso implica; as propinas, o alojamento,
a alimentação, os transportes, os livros, além de outros, e finalmente a
disponibilidade da família para suportar os custos decorrentes de tal
pretensão.
Claro
que um jovem que se decida por uma carreira militar encontrará, quando
admitido, após a prestação de provas literárias, médicas, físicas e
psicotécnicas, muitos desses problemas resolvidos uma vez que, no final dos
anos cinquenta do século passado, o Estado Novo, prevendo o que se poderia vir
a passar no Ultramar, ter atempadamente reconhecido a necessidade de alargar os
quadros de oficiais dos três ramos das Forças Armadas, especialmente do
Exército, e ter abolido todos aqueles custos, passando a fornecer um conjunto
completo de equipamentos (sobretudo os dispendiosos uniformes, etc.) e a
contribuir ainda com uma pequena mesada, investindo assim nos rapazes que tendo
concluído o ensino liceal, o actual 12º ano, mas que não tendo grandes
oportunidades de frequentar qualquer uma das únicas universidades (as de
Coimbra, Lisboa ou do Porto) pudessem sentir-se aliciados por um profissão
militar, então muito prestigiada, mas sabidamente mal paga, a “miséria dourada”
como então se dizia.
Em
1958, a Escola Naval seguiu os passos da Escola do Exército que englobava as
actuais Academias Militar e da Força Aérea, incluindo os Estudos Gerais
Preparatórios, feitos ali ou nas universidades, no primeiro ano da sua Nova
Reforma, com curricula adequados ao
tempo. Desta forma se alargou o recrutamento de alunos, da escassa vintena/ano,
para cerca de sessenta vagas, atingindo, logo naquele ano, o seu Corpo de
Alunos a centena de cadetes.
Este
figurino, reajustado às novas realidades, prevalece.
Esta
aliciante face da moeda tem, no entanto, o seu reverso. Enquanto o jovem
universitário tem, num percurso
isolado, de buscar o maior êxito pessoal face aos seus colegas e alcançar, por
si, resultados que o tornem elegível na vida profissional, os alunos militares,
em regime de internato, estão, ainda que o esqueçam, sujeitos a um escrutínio
diário dos seus camaradas (aqui começam as grandes diferenças) e, mais atentos,
ao exame dos seus superiores militares e ao dos seus professores, em termos da
sua integração, aptidão e desenvoltura intelectual que garantam a sua
capacidade de vencer, ao longo da sua carreira, os vários degraus a transpor.
E
porque o que nos ocupa é a Escola Naval, acentuamos; integração no convívio em
espaços tão confinados quanto humanamente heterogéneos e sujeitos a
adversidades diversas, naturais e outras, como ocorre num navio de guerra no
alto mar, a requerer uma perfeita e universal adaptação, no tempo e no espaço.
Claro
que com a integração numa grande equipa hierarquizada, militar e
funcionalmente, a guarnição de um navio de guerra, importa que a sua aptidão
seja também marinheira, numa resultante específica da secular, mas dinâmica,
cultura militar-naval.
Finalmente, importa que incorporem um
conjunto de diferentes requisitos, de suporte à rápida evolução das
tecnologias, e que, face a uma variedade de inesperadas e simultâneas
ocorrências que a bordo surgem, em tempo de paz e sobretudo em combate,
simulado ou real, lhes assegurem a tomada de decisões rápidas e oportunas,
dir-se-á, simplificando, de “bom senso”.
E,
sempre presente, o Direito Internacional Marítimo e a legislação em vigor no mar,
da nacional à da U.E..
Isto
é assim, porque o será ao longo de uma carreira naval, enfrentando cada vez
mais e mais complexas e exigentes responsabilidades, sempre sob olhares
cruzados.
Neste
quadro, incluem-se os olhares dos seus novos pares, os oficiais, mas também os
dos sargentos e das praças, homens e mulheres, com uma experiência prática em
situações que serão, para si, novas, mas às quais não lhes podendo fugir, serão
chamados a assumir decisões que irão, fatalmente, passar pelo exigente crivo de
quem espera uma orientação acertada.
Note-se
que mesmo que recorram, se puderem fazê-lo em tempo oportuno, à experiência dos
seus chefes directos (o que é estimulado), não deixarão de estar a revelar a
sua insegurança, apesar da sua inexperiência ser de todos, superiores e
inferiores, conhecida e já experimentada.
Muito
mais que mandar, esta arte de Comandar – COmandar - ir-se-á aperfeiçoando neste
contacto diário com os subordinados e os problemas que se apresentarem, na
conquista da sua Lealdade em retorno da Lealdade para com eles e da sua
competência profissional e frontal humildade.
Assim
se irá, pela mútua COnfiança, alicerçando a COesão entre os que COmandam e os
seus COmandados.
Mas
vamos por partes.
A
Armada tem, antes de mais, presente que irá entregar a cada jovem oficial, a
bordo de um navio, a responsabilidade por vidas humanas que além do seu valor
intrínseco requereram ainda um investimento considerável na sua
profissionalização e a que estão agregadas famílias que, confiadamente, esperam
os seus regressos, sãos e salvos.
Se
este aspecto é capital, mais mediático é o facto de um navio de guerra ser uma
arma extremamente cara que, poderemos comparar a um “enlatado”, densamente
habitado, do mais compacto e complexo
concentrado de tecnologias de que o País dispõe, para a ser operado nas mais
adversas circunstâncias, tanto em tempo de paz , como nas missões extremas de guerra, o objectivo central de
toda a formação militar-naval.
Por
isso o treino no mar é uma constante da carreira, pois, em cada patamar, os
exercícios assegurarão a maior probabilidade de êxito nos combates contra o
“inimigo”, bem como na contenção dos “danos” sofridos, de modo a assegurar o
sucesso operacional do navio, sem esquecer que em manobras internacionais as
guarnições dos navios da nossa Marinha de Guerra, serão avaliadas, sobretudo,
pelos nossos parceiros, como uma equipa de equipas que aos oficiais compete
construir.
Isto
no mar.
Mas
atracados, também. Aí, têm de saber participar nas reuniões de trabalho (os
“Briefings”, etc.), bem como estar nos convívios sociais que ocorrerem, a bordo
de outros navios de guerra ou em terra, e, identicamente, receber socialmente,
no seu navio, camaradas estrangeiros ou entidades oficiais.
Note-se
que a imagem de cada elemento da guarnição, em uniforme ou em traje civil (saber apresentar-se…), mulher ou
homem, contribuirá para a apreciação global do Navio, da Força Naval, da
Marinha de Guerra, da Armada e, claro, de Portugal. Uma só imagem negativa
perante militares ou civis, arruinará o esforço de todos e cada um.
Essa,
uma outra responsabilidade.
Muitas
vezes em portos a visitar, em simples trânsito ou por expresso interesse do
Estado em marcar uma presença, dissuasora ou de outra ordem, a missão será
tudo, menos bélica.
Nestes
casos, os oficiais, o alvo predilecto das elites locais, nacionais ou do país a
visitar, têm, tal como toda a guarnição, de saber cativar, cultivando um certo
tacto diplomático de modo a integrarem-se no estilo local, tantas vezes marcado
por costumes diferentes, civilizacionais ou, por vezes, até no âmbito de
culturas próximas da nossa que nos permita conhecer melhor o que ali se pensa
ou faz e que nos possa ser útil
E… perante nacionais?
Há,
normalmente, Portugueses nos portos estrangeiros que visitamos mas onde houver
Comunidades Portuguesas são, as guarnições, habitualmente recebidas de modo
amistoso e festivo e a quem terão, necessariamente, de retribuir.
Cada
oficial, como qualquer elemento da guarnição, tem de
saber receber todos os compatriotas que se apresentarem a bordo, dos mais
humildes aos melhor instalados na vida, quer em termos individuais, quer
representando grupos, e de corresponder às suas expectativas, fazendo-os
sentir-se em sua casa, mais coesos entre si e, assim, promovendo a sua própria imagem
no país de acolhimento.
Essas
missões são sempre, afectivamente, das mais compensadoras.
Mas
sobressaltos podem ocorrer.
Em
portos estrangeiros, com ou sem qualquer afinidade connosco, poderá o navio ter
de efectuar reparações ou aquisições que acentuam a responsabilidade de terem
de participar em negociações e de decidir contratos em que terão de equacionar
vários aspectos, defendendo os interesses nacionais sem descurar o interesse do
seu navio ou da sua guarnição.
Quantas
vezes, felizmente esporádicas, não terão de instalar a bordo equipas nacionais
ou estrangeiras, enviadas pela Armada, e de com elas navegar durante as
eventuais reparações, sempre de modo a garantir a completa operacionalidade
combatente do navio. Tudo isto requer um diálogo in loco e com a retaguarda, os Serviços, em terra, da Armada e,
directa ou indirectamente, com as entidades civis ou militares, nacionais e/ou
locais.
Mas
a carreira dos Oficiais da Armada não decorre só no mar.
Ao
saírem da Escola Naval os futuros oficiais terão de estar preparados para
enfrentar não só as missões para que forem nomeados, mas também os diversos
cursos, sempre de duração prefixada, a que serão submetidos ao longo da
carreira, de especialização técnico-naval ou para atingirem patamares em que
serão chamados a cargos de maior responsabilidade, em áreas muito
diversificadas, umas mais teóricas que outras, mas todas de aplicação prática
de ordem operacional, administrativa ou pedagógica, no mar, em terra e até no
ar:
-
No âmbito operacional, embarcados em navios combatentes ou não, nos
Estados-Maiores, a bordo ou em terra, sem esquecer os Fuzileiros, aonde poderão
ser chamados a desempenhar as inerentes funções, em terra ou embarcados;
-
Em termos administrativos acrescem as funções de apoio ao planeamento e à
corrente logística de toda a máquina que requer infra-estruturas de variada
ordem, impondo uma harmoniosa gestão de recursos, humanos e materiais, da mais
diversa complexidade, a corresponder aos meios, cada vez mais sofisticados, de
que teremos de dispor dado estarmos num mundo em contínua evolução.
-
Para que a Armada funcione serão
às diversas escolas chamados para aí concluírem a formação adequada ao
desempenho de funções especializadas e poderem vir a integrar os seus corpos
docentes, em funções pedagógicas adequadas ao nível dos vários cursos, dos mais
elementares aos mais avançados.
A
par, sempre, os aspectos históricos e do Património material e até imaterial
que importará conservar ou mesmo cultivar e dar a conhecer dentro e fora da
Armada.
Falámos
de desenvoltura intelectual?
Esta
poderá ter de ser posta à prova em escolas a frequentar no estrangeiro ou perante
estrangeiros, convidados no âmbito dum profícuo intercâmbio internacional em
que mandamos e recebemos os melhores.
Mas
não se esgotam aqui os desafios da carreira militar-naval.
Poderão
prestar serviço em Estados-Maiores que antecipam as necessidades, propõem as
medidas e acompanham a execução dos planeamentos.
Importa
saber que as missões, quer no mar quer em terra, a que a seu tempo poderão
aceder os jovens formados na Escola Naval, se não esgotam na área militar-naval
que é o cerne da sua formação.
O
Serviço Público do Estado, no mar, atribui à Armada, desde longa data, missões
de fiscalização de ordem vária que, de entre outras (tráficos de pessoas,
armas, drogas…), a da pesca protagoniza, e que exige, além de uma aturada
presença, um perfeito conhecimento da legislação específica, nacional e
Internacional, bem como o conhecimento dos pesqueiros e das gentes do mar e,
sobretudo, das práticas ilícitas a mitigar.
Concomitantemente,
a par das acções de fiscalização em colaboração com outras autoridades, são lhe
atribuídas missões de busca e salvamento no mar (SAR) que, pelo seu carácter de
socorro, se tornam empolgantes vivências que, infelizmente, nem sempre ocorrem
com o habitual sucesso.
No
mar decorrem ainda, a bordo de navios especializados, as tarefas de Hidrografia
e de Oceanografia que, como a assistência aos Faróis, se desenvolvem em terra,
na aturada preparação ou actualização de cartas, etc. ou na preservação da
farolagem que internacionalmente assumimos ser da nossa responsabilidade.
Ainda
na área da Autoridade Marítima Nacional, no Continente e nas Regiões Autónomas,
está implantada uma organização costeira hierarquizada em que as Capitanias dos
Portos exercem num aturado exercício de prevenção, visando o cumprimento da
legislação bem como de assistência às gentes do mar e aos que o usufruem, a que
está associado o Instituto de Socorros a Náufragos.
A
poluição marítima que assola as costas, é
outra actividade que, como todas as outras, competirá aos jovens oriundos da
Escola Naval, um dia, combater. Estas e muitas outras em domínios mais
especializados que não citámos (v.g. em situações de catástrofe humana ou
natural) permitem aceder aos mais destacados postos ou cargos da carreira
naval.
Claro
que daqueles jovens se irá requerer, ao longo da vida, uma grande
disponibilidade para se acorrer às diferentes necessidades da Armada em todos
aqueles teatros de acção, implicando vastíssimas áreas, que em extremo, não nos
iludamos, poderão ser de guerra.
As
carreiras só terão de comum os postos da hierarquia militar pois o seu
percurso, para além das experiências de mar, pode ser, em terra, muito variado,
mais ou menos padronizado, mas raramente iguais o que, em si, é um aliciante.
No
nosso território, numa sociedade em que mais que o “ser”, prevalece o “ter” e,
mais ainda, o “parecer”, importa sobretudo, diferentemente dos civis que apenas
se representam a si mesmos, que os oficiais dêem de si uma imagem consentânea
com o estatuto a que têm direito, pelo seu comportamento social onde quer que
estejam, ombreando pelo seu estilo pessoal com as classes profissionais que
melhor cuidam da sua imagem e sabendo desembaraçadamente conviver, desde a
Escola Naval, com os seus pares universitários, donde sairão as elites, em
todas as oportunidades em que concorram, marcando, desde cadetes, a sua posição
no contexto do ramo das Forças Armadas que representam.
Ainda
lhe parece que a Escola Naval possa não ser uma escola exigente?
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