22/02/13

“HISTÓRIAS À VISTA” - 27

          27.ª “HISTÓRIA À VISTA”, da autoria do 1.º Comandante do Navio de Apoio “NRP São Miguel” - CMG REF Oliveira e Costa (1985-1988), versando sobre os preparativos e início da viagem do NRP "São Miguel" para Moçambique.
 
MEMÓRIA N.º 9: 11 cms. …?
 
            31AGO87. Com a oferta embarcada em Lisboa, resposta ao apelo internacional do Governo Moçambicano, atestados e lastrados, largámos para uma viagem que seria como que a nossa manifestação musical própria! Já tínhamos navegado, na costa do Continente, no Norte e no Sul. Já tínhamos ido à Madeira. Agora, numa viagem de cerca de 4 meses, íamos a Moçambique onde escalaríamos Maputo, Beira, Nacala e diferentes locais, na costa moçambicana, a designar pelo Governo de Moçambique após a chegada.
          Nesta viagem faríamos escala nos Açores (Horta), América do Norte (New Jersey), Brasil (Fortaleza), África do Sul (Durban e Cape Town), São Tomé e Príncipe (Ana Chaves) e Cabo Verde (S. Vicente) regressando a Lisboa 04 meses depois! Era uma viagem desejada do fundo do coração e também merecida, digo eu… Um ano antes tínhamos feito dois lançamentos ao mar, com sucesso, de cerca de mil e oitocentas toneladas de munições obsoletas e sentenciadas da Marinha, do Exército, e de outras entidades, em condições inimagináveis e de grande risco.
          Pelo menos foi esse o entendimento do Director do Depósito de Munições NATO de Lisboa, bem como de alguém responsável pelo Parque da GALP, Depósitos de Gás, junto do Cais do Portinho da Costa e ainda de um grupo de Rotários, que me convidaram, para fazer uma exposição sobre o tipo do material em carregamento, riscos e medidas de segurança tomadas, por intermédio de um médico veterinário, residente em Santo António da Caparica, a que, obviamente, me escusei o mais delicadamente que me foi possível!
          Terminado o lançamento ao mar não me foi permitido louvar a guarnição pois poderia ser entendida tal manifestação como de um auto-elogio ao comando do navio… finalmente foi autorizado conceder, à guarnição, três dias de licença por favor e sem quaisquer referências ao pessoal do Exército que embarcara, como auxiliar, nessas missões!
          Hoje o destino, que ninguém pode prever ou controlar, “acertava” as nossas contas proporcionando-nos uma viagem de sonho! Uma viagem que desejávamos, levando ajuda a um povo irmão sofrido, muito sofrido, e, individualmente, cada um sentia-se orgulhoso por ter sido um dos eleitos para levar um forte, caloroso, saudoso e apertado abraço ratificando, de forma tão singela, uma amizade e maneira de ser de há já 500 longos anos!
          Aproveitando as escalas programadas levámos além do auxílio de emergência, equipamentos para a Estação Rádio Naval da Horta, material da UCLA e contentores da ADRA para alguns dos PALOPs por onde o NRP “São Miguel” iria passar. O carregamento, na Doca da Marinha, foi iniciado a 14AGO87 e, a 31AGO, uma segunda-feira, largámos pelas 1630. A nossa intensa vida a bordo tinha-nos transformado, ao longo de dois anos, de desajeitados Marinheiros da Marinha Mercante em profissionais especializados!
          Com uma semana de carga, quando tudo parecia correr sobre rodas, caiu um soldado à água que de imediato foi resgatado por um Mar. FZ. O transporte do material até ao cais e o trabalho braçal da sua estiva a bordo, era feito por pessoal do Exército. Nesse mesmo dia, o Ten. Cor. Miquelina Simões, que controlava o transporte e descarga do material, vindo da Manutenção Militar em atrelados de 14 toneladas preenchendo de forma curiosa a Doca da Marinha, sofreu um enfarte.
          Enquanto aguardava a ambulância foi acompanhado, na “Sala de Estar dos Oficiais” da Doca, pelo Serviço de Saúde do navio. Infelizmente viemos a saber que não conseguira recuperar vindo a falecer mais tarde. Foi doloroso pois tínhamos no Ten. Cor. um amigo profundamente empenhado que se impusera pela sua eficiência, dinamismo e boa disposição. Já perto da data da saída do navio tivemos o prazer da companhia ao almoço, na câmara do NRP “São Miguel”, dos ilustres convidados Pedro Solnado, Raul Solnado, Fernando Pessa e Dr. Marcus de Noronha.
          Depois do almoço, que mais não foi do que um quente, encantador e inesquecível convívio, fiz de cicerone na visita à Caravela “Boa Esperança”, que se encontrava atracada do lado interior da Doca da Marinha, tendo-se juntado a nós Maria Barroso. No dia da saída embarcou o Asp. Antas Torre, filho do Adido de Defesa em Maputo. Na Horta, Ilha do Faial, Açores, faríamos frescos e aguada. Seriam descarregados os equipamentos embarcados com destino à Estação Rádio Naval da Horta, seguindo depois para New Jersey onde estava previsto o embarque de 2.500 toneladas, da Ordem Soberana de Malta, sendo 2200 oferta principal da Ordem e 300 toneladas oferta particular de um Cavaleiro da Ordem.
          A execução da Missão era original. Do auxílio, dirigido a Moçambique, parte seria desembarcado nos Portos principais de Maputo, Beira e Nacala e, o restante, ao longo da costa moçambicana utilizando-se quatro viaturas anfíbias, dos FZ’s, os LARC’s. Viaturas de “caixa aberta” com a capacidade de transportar 5 toneladas cada. Seriam arriadas ao mar junto à costa, próximo do local indicado pelo Governo Moçambicano.
          Carregada a viatura seguiria, pelos seus meios, até ao local da entrega do material permitindo a distribuição directamente às populações que, por motivo da guerra, se tinham refugiado junto ao mar, ao longo da costa, em locais que lhe proporcionavam segurança, algum bem-estar e subsistência mas isolados e sem acessos rodoviários. Uma decisão merecedora dos maiores encómios pela justiça e atenção que iria proporcionar àquelas populações desalojadas.
          A Marinha desde o início sempre manifestou o seu empenho no sucesso desta operação. Estudos, contactos e levantamentos foram de facto exaustivos. Um excelente trabalho da 3ª DIV do Estado-Maior através do Cte. Rodrigues Gaspar que me obrigo aqui a indicar o seu nome, pelo merecimento, amizade e dedicação que devotou à missão numa atenção e cuidado a que não estávamos habituados.
          Os LARC’s vieram, navegando, para a Doca, sendo içados para bordo, através dos paus de carga, e colocados no convés onde ficaram “à justa”, por ante a vante de meia-nau, depois de cortados a maçarico, pela “máquina”, alguns olhais na amurada onde amarravam os contentores quando estivados sobre os porões. O dia da partida começou soalheiro e a boa disposição era uma constante em todos.
          O ambiente a bordo era de festa e os elementos da guarnição foram convidados a trazerem as mulheres e os filhos para o almoço desse dia. Era uma comemoração inédita no “São Miguel” onde se juntaram, as duas famílias a naval e a civil. As duas mereciam-no! Tanto trabalho, preocupações, cuidados, arrelias, desgostos, sonhos, ansiedades e alegrias tudo se misturava e todos mostravam o orgulho, respeito e agradecimento!
          O tempo não parou e o nosso lado civil desembarcou para, no cais da Doca, se despedir. O mestre apitou à faina e com os militares formados a bordo e os familiares juntos no cais acenamos um último adeus! Amarração ao singelo, cabos dentro, um último beijo enviado, para quem no cais teimava em nos seguir, máquina a vante. Comovidos e de alma cheia demandámos a barra. A viagem tinha começado e o navio, navegando, com alguma carga, apresentava um comportamento ardente, clamando por uma maior atenção ao leme.
          O balanço era lento, não chegava a adormecer mas era lento de mais para o “meu gosto” e, algumas vezes, tive a percepção de balanços “mal acabados”. O navio não “casava” bem com o tempo que se fazia sentir! Tive a noção de que havia um “desalinhamento” com o mar! Fiz de novo as contas em função das cargas embarcadas e a altura metacêntrica era de 11 (onze) cms! Era pouco mas ficaria melhor quando embarcasse a carga nos Estados Unidos.
          Uma semana depois de ter sido colocado no navio recebemos a visita de um dos últimos Comandantes do N.M. “Cabo Verde”, a convite do Imediato. Foram momentos encantadores onde o amor à vida de Marinha e ao mar estiveram sempre presentes. Notei, e guardei para mim, quanto o “Cabo Verde” representava para aquele Capitão da Marinha Mercante! Ainda não conhecia o “meu” navio mas, hoje… como eu o compreendo!
          Ao longo daquela visita foi-nos transmitindo experiências, cuidados passados e a vida vivida a bordo! O tempo passara sem darmos por isso! Um encontro de profissionais com todo o tempo do mundo como se se tratasse de uma passagem de serviço a quem chega trazendo somente boa vontade e muito empenho… mas irmanados no mesmo amor pelo mar. Despedimo-nos com a certeza do dever cumprido de quem saiu e... da responsabilidade para quem chegara!
          De tudo o que foi dito e referido, nessa visita, guardei dois assuntos que me despertaram a atenção pela ênfase com que nos descreveu. A Altura Metacêntrica (AM) “demasiado” pequena, o que levava a maioria dos capitães a não desejarem embarcar no “Cabo Verde”, e os aparelhos de ar condiccionado que estavam sempre numa lástima provocando muitas vezes o “desespero” no pessoal embarcado dizendo, à laia de justificação, que o navio fora construído para navegar sempre carregado e em climas mais frescos!
          Agora navegando para os Açores recordei o tema da AM! Em reunião com o Imediato e com o Engenheiro foi decidido que na Horta mudariamos os LARC’s para o porão, verificaríamos o lastro e meteríamos o gasóleo possível. Aproveitei para reler alguns capítulos do livro sobre estabilidade, argentino, que me fora oferecido pelos Peritos Arqueadores Moura e Torcato, da Inspecção Geral de Navios, cuja profunda amizade vinha do meu tempo de Capitão de Porto da Horta. Chegámos à Horta perto das 2100. Noite de luar e, dentro do Porto, a água estava espelhada. Não vou contar o que senti ao entrar e manobrar o NRP “São Miguel” naquele porto onde vivi durante 5 anos… Um dia, se for capaz, ainda vou contar sobre essa comissão de encanto!
          A faina de rearrumação da carga e dos LARC’s teria de ficar para o dia seguinte pelo que foi feita uma msg para Lisboa informando da demora na saída que estava prevista para a manhã seguinte. Na resposta era informado que a alteração proposta não era aceite e reconfirmava a hora de saída como previsto! Problemas… Levávamos dois anos de vida do navio e as beneficiações das condições de habitabilidade, por nós solicitadas, desde finais de 85 nunca foram efectuadas.
          Assim o Comando tentava cumprir escrupulosamente as datas de saída mas, nas chegadas, entrava logo que possível, não sacrificando mais o pessoal, o que nunca foi bem entendido superiormente! Agora tudo parecia indicar que a alteração proposta se encaixava perfeitamente nesse comportamento “intolerável” do navio. Respondi ser aconselhável diferir a saída pois necessitava de movimentar carga para melhorar a estabilidade do navio.
          Na volta estava a ser chamado à Cabine pois tinha o Estado-Maior em linha! Do outro lado da linha um Oficial General no seu estilo habitual de diálogo bem-humorado e chistoso queria saber das razões da minha “preocupação”! Respondi que era um problema com a AM e que contava poder sair pelas 1600, resposta que não foi bem acolhida! Sem mais diálogo disse para voltar a contactar, pela fonia, às 1400. Voltei a repetir das razões que me levaram a fazer o arranjo da carga reforçando que estava com 11 cms de AM.
          Conforme eu ia falando, embora as comunicações estivessem boas, o Alm., ia repetindo com aquele seu ar de mofa, o que eu lhe ia dizendo! Pareceu-me perceber, no ruído de fundo, alguém dizer:
- “deixe-o… deixe-o!”.
          Fui então autorizado a sair logo tivesse terminado a faina. Com a mudança das viaturas anfibias para o porão, Paus arriados, lastrado o tanque 3C com água salgada e metido 70 Toneladas de gasóleo conseguimos passar de 11 cms de AM para 13! Mais tarde vim a saber que, o “sussurro” ouvido, pertencia ao Alm. Martins Guerreiro chamado para dar a sua opinião, perante a minha “intransigência”, e que ficara admirado com a informação sobre a situação do navio, tendo sugerido ser prudente autorizar o proposto pelo Comando do NRP “São Miguel”. E assim foi! Composta a carga e melhorada a AM largámos para W continuando a nossa viagem!

19/02/13

O STEYR PUCH AP 700 HAFLINGER NA ESCOLA DE FUZILEIROS

          Na sequência da redacção de artigos sobre meios militares (aéreos e anfíbios) que entre 1961 e 1964, por sugestão da Direcção Técnica ou proposto por empresas de material militar, demonstraram as suas capacidades em testes realizados na Escola de Fuzileiros, sob orientação técnica do então 1.º Tenente Maxfredo da Costa Campos (Oficial de Marinha com o curso FZE), darei início à apresentação de:
 
MEIOS TERRESTRES
 
          Após a 2.ª Guerra Mundial, no que concerne a viaturas tácticas ligeiras o Exército austríaco encontrava-se apetrechado com jeeps Willy’s MB e Ford GPW facultados pelo Exército norte-americano, pretendendo substituí-los a curto prazo por viaturas pequenas, de baixo peso, concepção e fabrico nacional.
            Contactada a indústria automóvel nacional surge, em Setembro de 1959, o STEYR PUCH AP 700 Haflinger, desenhado por Erich Ledwinka e fabricado até 1975 num total de 16.647 viaturas, tendo sido exportado para 35 países, ficando conhecido popularmente por "Jeep austríaco".
          É de realçar que cerca de 7.000 foram utilizados para serviço militar nos Exércitos alemão, australiano, austríaco, holandês, indonésio, italiano, jugoslavo, nigeriano, sueco e suíço, assim como pela Marinha Real britânica a bordo de Porta-aviões.
 

Versão de transporte de tropas do Exército austríaco

          Trata-se de uma viatura ligeira Todo-o-Terreno (4x4) multiuso de pequenas dimensões (2,85 x 1,35 x 1,30 metros [comprimento x largura x altura]), passível de ser aerotransportável por avião, helicóptero (internamente ou por recurso a gancho para carga externa suspensa) ou lançado por pára-quedas, de fácil manutenção e especificamente projectada para uso em terreno montanhoso e todas as condições meteorológicas, utilizando rodas com pneus 145 x 12 que absorvem o choque do terreno.
          O motor 700 AP BOXER de 643 cm³ a 4 tempos de 2 cilindros e 24cv (gasolina), refrigerado a ar e com uma caixa manual (com 04 mudanças para a frente e 01 marcha-atrás), é montado debaixo da parte traseira do chassis permitindo que a área traseira sirva para transporte de carga até 500 kg (incluindo + 2 militares).
 

Detalhe da motorização do STEYR PUCH AP 700 HAFLINGER

          Com um peso vazio de 635 kg e carregado de 1150 kg, velocidade máxima em estrada de 65 km/h, autonomia de 400 km, capacidade de subir e descer encostas rochosas até gradiente de 65% ou inclinação lateral de 45% e depósito de combustível de 31 litros, apresentava uma relação favorável entre as suas pequenas dimensões e capacidade de transporte de carga com segurança e rapidez através de terreno difícil, em virtude do baixo centro de gravidade, inexistência de uma carroçaria superior e distância ao solo de 30 cm.
          Tem capacidade de rebocar um semi-reboque (até 300 kg de capacidade), a prestação de ambos os bloqueios do diferencial dianteiro e traseiro permite o veículo progredir no terreno, atendendo à tracção às 04 rodas, mesmo que apenas uma roda esteja em contacto firme com o solo, cada roda tem suspensão independente, tem capacidade de passagem a vau na situação de carregado (água, areia, lama e neve) de 50 cm e em caso de necessidade pode ser levantado por 04 pessoas.
 
          Foi testada em Portugal, por volta de 1962 pelo 1.º Tenente Maxfredo Costa Campos na Escola de Fuzileiros, visando a sua utilização futura nos TO’s da Guerra Colonial, na sua versão básica (Serie 1 model B) sem capota de lona ou bancos traseiros rebatíveis (equivalente a uma mula mecânica) como alternativa a jipes.
          Não foi todavia adquirido por dispor de uma área de transporte de carga relativamente pequena (2 m2) quando comparada com viaturas semelhantes já ao serviço das FA’s (Mercedes UNIMOG 401) e no tocante à capacidade de transporte de pessoal adicional (+ 2 militares), apresentar condições deficientes no que toca a padrões ergonómicos, face a inexistência de bancos traseiros.
 

Versão básica (mula mecânica) do STEYR PUCH AP 700 HAFLINGER

          Como viatura militar foi utilizado como plataforma para vários sistemas de armas:
- Metralhadora-pesada M2 HB 12,7mm M2 HB (Exército austríaco);
- Canhão sem recuo 57 mm M18A1 (Exército austríaco);


Viaturas do Exército austríaco equipadas com metralhadora-pesada M2 HB 12,7mm M2 HB e canhão sem recuo 57 mm M18A1

- Canhão sem recuo M40 10,6 mm (Exército austríaco);
- Porta-morteiro 82 mm;
- Canhão sem recuo Bofors 90 mm PV-1110 (Exército sueco);


Viatura do Exército sueco apetrechada com canhão sem recuo Bofors de 90 mm PV-1110

- Lançamento de 14 mísseis anti-carro filo-guiados Bofors RB-53 BANTAM
    • 06 mísseis à frente e 08 mísseis atrás (Exército sueco e suíço);


Viatura do Exército suíço dotada de mísseis anti-carro filo-guiados Bofors RB-53 BANTAM

- Lançamento de mísseis anti-carro filo-guiados MOSQUITO [Serie 2 model MML]
    • 02 lançadores, cada um com 02 mísseis na versão do Exército austríaco (+ 4 mísseis de reserva);


Viatura do Exército austríaco equipada de mísseis anti-carro filo-guiados MOSQUITO

    • 04 mísseis na versão do Exército italiano;
    • 01 lançador e 04 mísseis transportados na versão do Exército indonésio e suíço.
E para diversas funções utilitárias:
- Transporte de tropas / carga (Exército austríaco);
- Viatura porta-macas (Exército austríaco);
- Viaturas de comando e comunicações [viatura designada model CC]
    • Exército austríaco


Viaturas de comunicações do Exército austríaco

    • Exército australiano
          A título de curiosidade algumas viaturas do Exército australiano participaram no conflito do Vietname.


Viaturas do Exército australiano no TO do Vietname

Artigos relacionados:
- MEIOS AÉREOS: http://barcoavista.blogspot.pt/2012/08/girocoptero-na-escola-de-fuzileiros.html
- MEIOS ANFÍBIOS: http://barcoavista.blogspot.pt/2012/09/o-bote-aero-deslizante-da-escola-de.html

10/02/13

LEITURAS À VISTA - 03

          Para a 3.ª “LEITURA À VISTA”, recomendo o livro: "Bissau em chamas", da Editora Casa das letras, redigido pelos Almirantes Alexandre Reis Rodrigues e Américo Silva Santos.
 


































 
 
 
          «Em Junho de 1998 aconteceu na República da Guiné-Bissau um golpe de estado militar seguido, sem solução de continuidade, por uma guerra civil sem quartel.
          Não se tratava, obviamente, do primeiro golpe militar africano. Mas, para Portugal, era uma ocasião especial por razões de natureza política e estratégica e por motivações afectivas muito próprias.
          Duas vias se apresentaram que pareciam fornecer a Portugal a oportunidade e os instrumentos necessários para recolher os cidadãos nacionais em situação precária e ajudar o povo e o Estado da Guiné-Bissau a retomar o caminho da sua normal evolução democrática: em primeiro lugar, a catalisação de uma aliança com nações amigas para uma intervenção humanitária militar preparada para impor e manter a paz entre as partes em conflito; e em segundo lugar, a acção nacional isolada, com o acordo das autoridades guineenses, correndo o risco de enfrentar hostilidades de potências já envolvidas no conflito.
          Os esforços desenvolvidos para a primeira solução lamentavelmente falharam. E Portugal ousou! Rápida e decididamente, de forma que se revelou oportuna, competente e eficaz, assumiu a segunda via. Vencendo cepticismos internos e externos, a diplomacia e as Forças Armadas Portuguesas, sob uma direcção política com vontade de fazer, viram recompensada a sua ousadia...».

04/02/13

BLAUS VII - UM VELEIRO DE APOIO AO TREINO DOS CADETES DA ESCOLA NAVAL


O "Blaus VII" a navegar como veleiro de instrução de Cadetes da Escola Naval

TIPO DE NAVIO:
Ketch de dois mastros
 
DESLOCAMENTO:
Normal: 50 toneladas
Máximo: 54 toneladas
Lastro: 15 toneladas
 
DIMENSÕES:
22,5 x 5,3 x 2,7 metros

ALTURA DO MASTRO:
Cerca de 22 metros (Mastro Grande)

PROPULSÃO:
01 Motor MERCEDES-BENZ OM227 a diesel de 08 cilindros, com 241cv (177kw);
Eólica;
01 hélice

COMBUSTÍVEL:
2.900 litros

VELOCIDADE MÁXIMA:
- Diesel 09 nós (14,8 km/h);
- Eólica 11 nós (20,4 km/h)

VELOCIDADE DE CRUZEIRO:
6,5 nós (12 km/h)

AUTONOMIA:
1,200 milhas a 6,5 nós (diesel)

GUARNIÇÃO:
- Oficiais: 02 (Sob o comando de um Oficial superior);
- Sargentos: 01 (MQ);
- Praças: 01;
- Cadetes: 6/8
- Total: 10/12

RADAR:
Navegação - FURUNO FR 1510 D com plotter, banda I (cerca de 30 Km de alcance);

COMUNICAÇÕES:
- GPS/DGPS Plotter PHILIPSMK 9;
- Rádio VHF (fixo + 03 VHF portáteis);
- Rádio MF/HF;
- 02 Telefones por satélite SATCOM

EQUIPAMENTO:
- Plotter Diferencial (cartas electrónicas);
- Receptor meteorológico Facsimile/NAVTEX;
- Anemómetro;
- Girobússola (de momento INOP) B & G Fluxgate, Sestrel Moore;
- Odómetro (de momento INOP);
- Sonda ultrassónica;
- Piloto automático SEGATRON;
- Sistema de alarme na sala de máquinas BILGE;
- 02 Botes pneumáticos;
- 02 Balsas salva-vidas;
- Gerador de osmose inversa;
- Sistema de aquecimento WEBASTO;
- Sistema de ar condicionado FRIGOBOAT (nas cabines frontais)

NOME:
Blaus VII

ANO DE CONSTRUÇÃO:
1983


A mastreação do "Blaus VII", o Mastro Grande e o Mastro de Mezena

NOTAS:
          O “Blaus VII” foi desenhado pelo designer holandês “Peter Sijm” e construído em 1983 nos estaleiros Jachtwerf Jongert B.V. (Medemblik - Holanda), tendo sido a construção n.º 312 de uma série do modelo «Type JONGERT 20 DS», pautados por excelente qualidade no tocante à construção, acabamentos e equipamentos automáticos.
          Foi entregue em 26 de Maio de 1983 recebendo o nome de "Pajaro", a 17 de Março de 1992 foi vendido e recebendo o nome de "Meresea III", posteriormente em 05 de Abril de 2001 foi adquirido pela Yacht Marine S.L. e registado em 2002 em Espanha com o nome "Blaus VII".
          É qualificado como uma embarcação de recreio do tipo Ketch devido à sua armação, constituída por um convés corrido em madeira de Teca, casco (8mm de espessura) e superestruturas fabricados em aço. No que concerne à mastreação possui 02 mastros (um principal - o Mastro Grande e um mais pequeno - o Mastro de Mezena).
          Historicamente, os Ketch’s tratavam-se de navios de pesca, mas também foram utilizados no comércio marítimo costeiro, sendo de realçar que durante os séculos XVII e XVIII, ainda foram utilizados como pequenos navios de guerra, até serem substituídos nessa função por brigues no final do século XVIII.
          A sua versatilidade e facilidade de navegação tornou-os muito populares, nomeadamente nas águas do Norte da Europa, onde o seu plano de velas permite reagirem rapidamente às condições variáveis de vento.
          Quanto ao velame, traja 04 velas latinas (área vélica total de 134.396 m²) fabricadas em dracon, material sintético, leve e resistente. As velas são enroladas e desenroladas hidraulicamente, podendo no entanto ser caçadas manualmente, sendo as seguintes (de vante para ré):
- A Genoa (GE);
- O Estai (E);
- A Vela Grande (GR);
- A Mezena (MZ).
          De salientar que o Mastro Grande está equipado com duas velas (Genoa e Estai) e, o objectivo principal da vela Mezena é ajudar a impulsionar o navio e facultar um controlo extra sobre o equilíbrio. O “Blaus VII” está ainda preparado para a possibilidade de lhe ser içado um balão a vante, que se encontra guardado num paiol no interior do navio.
          Não obstante, é um veleiro também dotado de 01 motor (diesel de 241cv), com capacidade de efectuar navegações corridas a uma velocidade máxima de cerca de 08 nós (14,8 km).
          Para manobra e governo da embarcação (quilha corrida), possui uma única linha de veio, onde está associado um hélice de passo esquerdo. Possui de igual forma um único leme, que pode ser manobrado a partir da cabine de navegação (roda de leme) ou no seu modo de emergência (Camarinha do Comandante).
          Para produção e distribuição de energia no veleiro, existem a bordo 02 geradores, um mais pequeno (11KVA) e um com a capacidade um pouco maior (16 KVA), que alimentam o navio quando este está a navegar e/ou fundeado, ou quando o cais não tem capacidade para fornecer energia, não podendo funcionar ambos em simultâneo.
          O seu interior é em madeira de Teca e as suas acomodações são constituídas por 04 cabines e 02 WC, num total de 08 camas, sendo de salientar que a Camarinha do Comandante e do Imediato tem WC e duche próprio.
          No tocante a aguada, possui 02 tanques para água doce, 01 com capacidade de 2.000 litros e outro com capacidade de 600 litros, este último situado mais a vante (montado inicialmente de fábrica para águas residuais), podendo estar em comunicação ou serem isolados. É ainda equipado 01 tanque com capacidade para 1.200 litros para águas residuais e com um módulo osmótico, com capacidade para produzir água doce, pelo método de osmose inversa, mas neste momento encontra-se inoperacional.

          A 14 Fevereiro de 2007, o “Blaus VII” foi abordado a 100 milhas do Arquipélago da Madeira por uma equipa do DAE do Corpo de Fuzileiros da Marinha de Guerra Portuguesa, lançada a partir da Corveta NRP "António Enes" no âmbito da «Operação AGRAFO» de combate ao narcotráfico, em cooperação com a Polícia Judiciária, detectando-se 1.500 kg de cocaína a bordo.
          Até à data em que foi abordado e, à excepção da sua utilização para o narcotráfico, consultando o documento: «Diário de bordo», como veleiro de cruzeiro com capacidade oceânica, foi empregue pelos anteriores proprietários para viagens de lazer.


O "Blaus VII" sob custodia da Polícia Marítima no Porto do Funchal

          Em Julho de 2007, observando um Protocolo estabelecido coma a Polícia Judiciária, a Marinha Portuguesa ficou com a responsabilidade de assegurar a guarda e manutenção da embarcação, bem como a sua regular utilização, tendo sido transferido para a Escola Naval para utilização provisória e manutenção como veleiro de Instrução de Cadetes da Escola Naval.
          Deste modo, a partir de 21 de Julho de 2008, após o abate ao efectivo do Navio-Escola NRP “Vega" e, depois de lhe ser inscrito na retranca da vela grande de enrolar do mastro grande as palavras: “Escola Naval”, tem efectuado (conjuntamente com o Navio-Escola NRP “Polar”) vários embarques de Instrução a Cadetes da Escola Naval (formação marinheira e prática de navegação), durante o fim-de-semana ou durante períodos mais alargados, a título de exemplo: Cruzeiros de Páscoa, Cruzeiros de Verão e as Viagens de Instrução.


O "Blaus VII" com as palavras «Escola Naval» inscritas na retranca da vela grande

          Desde que foi transferido para a Escola Naval, já participou em diversos eventos, destacando-se a título de exemplo:
Apoio a várias regatas:
- “Regata Triângulo Atlântico 2011”;
- “Regata do Dia da Marinha 2012”, organizado pelo Clube Náutico da Figueira da Foz, como embarcação de Comissão de Regatas.
Acções de representação da Marinha Portuguesa:
- Em Maio de 2009, a par das Lanchas de Fiscalização Rápida NRP "Dragão" e NRP "Cassiopeia" e do Navio-Escola NRP "Sagres", participou na Cerimónia do Cinquentenário do Cristo Rei;
- Em Dezembro de 2011, a delegação da Academia Naval Angolana de visita à Escola Naval, embarcou no veleiro;
- Em Maio de 2012, representou a Marinha Portuguesa durante as comemorações do “Dia da Marinha” na Figueira da Foz;
- Durante o ano lectivo 2011/2012, embarcaram vários alunos dos Estabelecimentos Militar de Ensino: Colégio Militar, Instituto de Odivelas e Instituto dos Pupilos do Exército, onde tiveram a oportunidade de navegar e conviver juntamente com alguns Cadetes da Escola Naval.
Apoio a vários projectos:
 - CINAV (Centro de Investigação Naval) da Marinha Portuguesa, com universidades nacionais.


O "Blaus VII" a navegar com Cadetes da Escola Naval a par da "Sagres" no dia da Cerimónia do Cinquentenário do Cristo Rei

          A 13 de Abril de 2009, o "Blaus VII" foi declarado «perdido a favor do Estado» por decisão transitada em julgado do Tribunal de Vara Mista do Funchal, passando o veleiro a constituir parte do património da Região Autónoma da Madeira.
          Posteriormente é celebrado um Protocolo de Cooperação entre a Marinha Portuguesa e o Governo Regional da Madeira, tendo por desiderato manter o uso do veleiro pela Escola Naval, Protocolo  que se materializa com a transferência da embarcação a 11 de Julho de 2014, tendo ficado acordado entre as partes que seria designado de NRP "Zarco", nome do navegador e povoador da Madeira - João Gonçalo Zarco.

15/01/13

“HISTÓRIAS À VISTA” - 26

          26.ª “HISTÓRIA À VISTA”, da autoria do CMG FZ RES Leão Seabra, à época da narração 1.º Tenente, este artigo foi redigido originalmente para a publicação bimensal do Comando do Corpo de Fuzileiros «Revista FUZOS» de Março de 1994, entidade a quem agradeço a cedência da revista, nomeadamente ao Almirante Cortes Picciochi.
 
TI' JÚLIA
 
          "Não é possível escrever sobre a Ti' Júlia sem o fazer com emoção. Talvez, por isso, não seja importante aprofundar, aqui, a história da vida desta mulher, mas tão somente falar dela numa simples homenagem a uma mulher simples".
          Ti' Júlia (carinhosamente assim tratada pelos amigos), é uma mulher simples e de origem simples, apesar do seu passado complicado, pouco bafejado pelos ventos da felicidade.
          Nasceu pobre, casou pobre e muito nova. Muito cedo ficou de "barriga à boca" (grávida) o que constituía um peso suplementar diário, aos muitos quilómetros que percorria a pé, de casa para o trabalho. A juntar a esta vida dura, suportava ainda um marido que tinha o péssimo feitio de lhe "assentar a mão" por tudo e por nada. Mas tudo isso já lá vai e também ele lá foi há muito tempo.
          A Ti' Júlia não gosta de recordar este seu passado... O seu passado começou há 24 anos, altura em que começou a trabalhar na Escola de Fuzileiros, em Vale de Zebro.
          Todos os Oficiais da Marinha de Guerra Portuguesa que passaram por esta Escola tiveram, de uma forma ou de outra, o privilégio de conhecer esta interessante mulher dotada para o asseio, limpeza, para a perfeição, apresentação e aprumo.
          É muito frequente no dia-a-dia, ouvir-se nos corredores da Messe de Oficiais, alguém chamar, em voz alta pelo seu nome:
- “Ti´ Júlia!”.
- “Diz môr”. (resposta carinhosa ao tratamento carinhoso).
- “Não tem por aí umas platinas e um cordão vermelho?”.
- “Sabe, levei a farda para lavar e esqueci-me...”.
          E lá vai a Ti' Júlia ao seu compartimento de trabalho onde, não havendo propriamente o stock da ex. Fábrica Nacional da Cordoaria, sempre se pode encontrar o necessário para safar uma "enrascada": Boinas, bonés, camisas (de todos os padrões), calças, botões de punho, galões, etc... etc... e muitos etc's. A seguir vem a cobrança por este empréstimo:
- “Vocês andam mesmo na lua! São as namoradas...”.
(ou então, referindo-se aos casados)
- “Coitadinhas das vossas mulheres, o que elas passam com estas cabeças de vento... pois é, vão para casa... só querem é borga e depois esquecem-se...”.
          São estes os "mimos" que a Ti' Júlia dá, sem excepções, a quem a ela recorre... porque ela é assim: meiga, querida por todos, bem-disposta.
          Às vezes anda triste e, nos últimos tempos, de forma bem notória. É que se aproxima, a passos largos, o dia em que terá de dizer adeus aos Fuzileiros... definitivamente! É a lei da vida... É a reforma!
          A Ti' Júlia tem medo desse dia: Não sabe como viver sem os seus "filhos adoptivos", sem esta casa, sem os seus únicos amigos. Tem medo... nem quer pensar... Não vai ser fácil para ninguém!
          A Ti' Júlia, tem outra particularidade digna de realce: "Perfilhar" todos os Cadetes incorporados na Escola de Fuzileiros.
          Para estes ela é a "Mãe" que todos gostam de ter nos momentos mais complicados do curso, em que a verdadeira Mãe não pode estar presente.
          Lembro-me, quando há 16 anos, ingressei nesta Escola e iniciei o CFORN. Tudo e todos me pareciam hostis excepto esta mulher que, logo no primeiro dia apareceu no nosso alojamento para nos ajudar, educar..., perfilhar... veio ser Mãe! Não falou muito, mas disse tudo:
- “Olha pr'a eles coitadinhos! Tão branquinhos, tão novinhos... parecem uns copinhos de leite!”.
- “Isto dá muito trabalho, isto aqui é duro e os instrutores são brutos! Agora não se armem em mariquinhas?!”.
          É por esta razão e pelo desempenho ao longo dos cursos, que a Ti' Júlia bem merece esta carinhosa alcunha: «A Mãe dos Cadetes».
          A Ti' Júlia viu passar por ela todos os Oficiais do Corpo de Fuzileiros e, de todos, guarda saudades. Quando regressam a esta casa (mesmo que se tenham passado muitos anos), é vê-la "mirar" o Oficial de alto a baixo e arranjar uma piada engraçada que, normalmente, se refere ao passado:
- “Olha pr'a ele como está crescido... parece um homenzinho!!”.
          Depois, vem o abraço e o beijo familiar que refletem uma amizade profunda e duradoira. Chegou a hora desta homenagem singela mas justa que todos nós, os que conhecem a Ti' Júlia, querem e sentem obrigação de lhe fazer pela distinção, orgulho e honra de terem sido, algumas vezes "enxovalhados" por esta mulher que estimamos e adoramos:
A nossa Ti' Júlia, a Ti' Júlia da Escola de Fuzileiros.

09/01/13

LEITURAS À VISTA - 02

          Nesta 2.ª “LEITURA À VISTA”, recomendo o livro: "Os Submarinos na Marinha Portuguesa", 3.ª edição da Editora Oasis e Editora Náutica Nacional, Ldª, redigido por Maurício de Oliveira.






































          «Promovido pela ENN - Editora Náutica Nacional, Lda. e a Editora Oásis, Ldª, esta 2.ª reedição da obra de Maurício de Oliveira, “Os Submarinos na Marinha Portuguesa”, por ocasião da recepção dos novos submarinos que vão constituir a V Esquadrilha.
          Este livro foi apresentado em sessão pública no Clube Militar Naval, ao Saldanha, em Lisboa, pelo V/Alm Conde Baguinho, submarinista e ex-Vice-CEMA, no dia 07 de Abril de 2011.
          Trata-se de um clássico, de um livro publicado em 1972, onde é relatada a história da nossa arma submarina a par de episódios da navegação e da guerra submarina em geral e onde nos é dado o seu enquadramento histórico na vida nacional. É um texto muito interessante, que se lê com rapidez e agrado, ilustrado com numerosas fotografias, algumas muito curiosas, e onde estão repositadas tantas vivências, que já são História e que em nossa opinião merecem ser de novo publicadas e publicitadas, sobretudo num tempo em que tanto se fala sobre a oportunidade da aquisição destas unidades.
          Em 1988 esta obra foi objecto de uma 2.ª edição, revista e aumentada com um capítulo relativo às décadas de setenta e oitenta do século passado, redigido pelos então Cten. Conde Baguinho e 1.º Ten. Borges Gonçalves, e com um prefácio pelo então Editor, Cte. Lobo Fialho.
          Nesta obra agora publicada, o C/Alm Álvaro Rodrigues Gaspar, prestigiado submarinista, completou o texto da 2.ª edição com um capítulo adicional, abordando o período do fim dos anos oitenta do século XX até ao presente, quando tem início a actividade das novas unidades, os NRP’s TRIDENTE e ARPÃO já ambas ostentando a bandeira Portuguesa. Apresentam-se assim, neste livro, cem anos de história ininterrupta dos nossos submarinos, apresentados no âmbito da Marinha de que fazem parte integrante. Recordemos que o ESPADARTE foi encomendado pelo Ministro João de Azevedo Coutinho, em Junho de 1910, ainda na vigência da Monarquia.
          A maioria dos nossos leitores são cidadãos comuns, que se interessam pelo Mar e pelas tradições marítimas dos Portugueses, mas que, naturalmente, não têm um conhecimento técnico destas matérias; daí a forma ligeira e aberta, não iniciada, que a redacção desta obra tem.
          A ENN e a Oásis gostariam que este livro fosse considerado também uma homenagem a todos os Submarinistas Portugueses, cujo profissionalismo, competência e espírito de sacrificio são bem conhecidos, e estamos certos que nisto seríamos acompanhados, quer pelo Cte. Lobo Fialho, o editor da 2.ª edição, quer pelo próprio autor do texto inicial, o Jornalista Maurício de Oliveira. Aos actuais submarinistas, da nova geração que guarnece as unidades da V Esquadrilha, votos sinceros de que sempre encontrem mares calmos, ventos bonançosos e águas safas!
          Esta obra, de 326 páginas, com muitas fotografias, muitas delas já a cores, de que foram impressos 600 exemplares, estará à venda no circuito das livrarias por 24€. Poderá também ser adquirido na firma J. Garraio, ao Cais do Sodré, em Lisboa, solicitada directamente à Editora Oásis (213522083 / http://www.diel.pt/) ou à ENN (214001292 / revistamarinha@netcabo.pt) , com o preço de 20€, para os assinantes da Revista de Marinha 18€, a que acrescem 2,10€, por unidade, de portes de correio. Existe ainda uma pequena edição de luxo, de apenas algumas dezenas de exemplares, com capa cartonada, com um custo unitário de 28€».

03/01/13

25.º HISTÓRIAS À VISTA PUBLICADAS!


          Foi publicada a 25.ª "HISTÓRIA À VISTA" no BLOGUE BARCO À VISTA, cumpre-me agradecer a todos que contribuíram com as suas memórias, para atingir este número nesta rubrica.

02/01/13

“HISTÓRIAS À VISTA” - 25

          25.ª “HISTÓRIA À VISTA”, da autoria do 1.º Comandante do Navio de Apoio “NRP São Miguel” - CMG REF Oliveira e Costa (1985-1988), versando sobre o seu «Bem-amado» NRP "São Miguel".

MEMÓRIA N.º 8: Se dúvidas houvesse…

          A 14JUL86 pelas 2130 atracávamos na Doca da Marinha terminando assim a nossa 13.ª saída. Cumpríramos o nosso primeiro lançamento ao mar de munições sentenciadas, pertencentes à Marinha e ao Exército. Missão temerária, única e irrepetível, face às condições em que se realizou, digna dos nossos maiores e merecedora de estudo, apreciação e registo. 
          Foi uma missão que assentou no espírito determinado e aventureiro, bem português, desenrascado e de pronto improviso onde sobressaiu a tenacidade e o entusiasmo de um reduzido número de homens que mostraram, a muitos outros, que eram merecedores do respeito e de muita consideração. Não é falsa modéstia! Não, não havia quaisquer dúvidas. Foi feito e bem feito! 
          Era esse o sentimento de todos quando regressamos, naquele fim de dia, à Doca da Marinha. Não convinha publicidade sobre o tema nem sobre a missão. Logo disso fomos informados quando da primeira reunião no Comando Naval do Continente (CNC) e, depois da chegada, de que deveríamos ser cuidadosos nas referências à missão executada. Ainda estávamos em preparativos para a nossa primeira “Viagem Logística à Madeira”, em finais de MAI86, quando nos foi dado conhecimento de que o NRP “São Miguel” fora designado para efectuar o lançamento ao mar de material explosivo obsoleto num total de 700 toneladas sendo 100 da Marinha e 600 do Exército. 
          Na missão embarcariam, para auxiliar na faina do lançamento ao mar, 12 soldados. Embarcaria igualmente, um Aspirante, como Oficial de ligação. Os problemas de habitabilidade existentes ficaram acrescidos! Nessa altura recebemos uma relação descritiva do material obsoleto a embarcar e pertencente à Marinha. Nessa Lista constava a informação de que 12 toneladas eram de material diverso e guardadas em 13 Paletes, informação que, de imediato, foi contestada pelo Comando. Mais tarde as Armas Navais corrigiram-na entregando uma Relação Completa e pormenorizada de todo o material a embarcar. 
          O Oficial Imediato, especializado em Artilharia, preocupava-se com os diferentes tipos de munições, previstas embarcar, não só pela futura localização das mesmas a bordo como da perigosidade que podiam representar a fim de minimizar riscos durante a estiva e transporte. O embarque, desse material sentenciado, seria no Cais do Portinho da Costa (CPC). A especificidade dessa tarefa fez-nos reforçar, junto do CNC, a premente necessidade das reparações, anteriormente solicitadas, e consideradas inadiáveis para o cumprimento da missão. 
          Encontrando-se o navio no Funchal, na primeira “Missão Logística à Madeira”, fizeram-se reuniões, no CNC, onde se tomaram diversas decisões algumas delas, na opinião do Comando do navio, não consentâneas com o tipo de operação da estiva e transporte de munições com posterior lançamento ao mar, navegando, num navio mercante, com a agravante de serem munições obsoletas e sentenciadas, onde se esperava que a maioria delas estivesse fora das embalagens de origem e já manuseadas de forma desconhecida. 
          Com a experiência por nós já adquirida lamento ter de reconhecer que era inata a dificuldade, por parte dos Oficiais da Marinha de Guerra, para não falar dos representantes do Exército, da realidade da condução de um navio mercante. Eram lotes inteiros sentenciados porque pelo menos 10% dos tiros efectuados tinham falhado, o que de imediato condenava todo o lote, podendo as restantes estar boas! E as obsoletas talvez grupadas de forma avulsa e encaixotadas por “tamanhos”! 
          Toda a presunção, cuidado e atenção eram absolutamente necessários. A bordo todos tínhamos a mesma responsabilidade e o Imediato por diversas vezes, em reuniões, explicou a todo o pessoal interessado na missão da perigosidade envolvida. Os contactos com o CNC e com o Quartel de Beirolas desde o regresso da Madeira, a 28JUN, eram diários. A 04JUL86, sexta-feira, atracávamos no CPC e desembarcámos a carga, trazida do Funchal, começando logo a preparar o navio para efectuar o carregamento do material militar que, sabíamos, ser da Marinha e do Exército. 
          Só a 7 se iniciaria o embarque. Dias antes em reunião no CNC foi apresentada um “draft” de Directiva da RML tendo sido na altura, ouvido o Comando do “São Miguel”, sugerido o seu reajustamento. Pormenores por nós considerados mandatórios, na condução desta missão, foram invocados de forma exaustiva bem como do material de que o navio não dispunha e se considerava necessário. 
          A solicitação do CNC a segurança das instalações do CPC passou a ser efectuada pelo Departamento Marítimo do Centro, Força de Fuzileiros do Continente e Polícia do Exército. A Directiva 10/86 da RML, reformulada, relativa ao “Lançamento ao mar de munições sentenciadas” é recebida a bordo a 05JUL. A chegada do material do Exército, para o embarque, foi atrasado devido a problemas com a elaboração da imprescindível Lista quantitativa e qualitativa das Munições. O Oficial Imediato esclareceu não só o Comando como todos os elementos da guarnição, sobre o que poderíamos encontrar e esperar numa missão deste tipo. 
          Assim o Comando não abriu mão e o material só embarcaria após apresentação da Lista Descritiva seguindo-se, de acordo com ela, o embarque, arrumação e fixação do mesmo. As paletes da Marinha teriam de ficar para o fim por serem mais baixas, com menos de um metro de altura, contra as do Exército que apresentavam várias formas e tamanhos … uma “salsada”! O navio continuava com problemas na válvula de “By pass” tendo-se conseguido a sua substituição antes da saída para esta missão. 
          Foram igualmente parcialmente beneficiados os guinchos. Era mais uma irresponsabilidade sair para o mar sem o “By pass” em condições. O navio podia navegar com Marine Diesel ou com Nafta. A Nafta o “São Miguel” fazia 14,5 nós de velocidade máxima e 12 de cruzeiro, em navegação corrida e sem alterações sensíveis de velocidade. Com Marine Diesel podíamos alterar a velocidade, e fazer manobras diversas atingindo uma velocidade máxima de 12 nós e de cruzeiro 11. Quando de regresso a Lisboa normalmente dava 12,5 nós. Uma deferência da “máquina” para toda a guarnição! 
          Durante a madrugada do dia 7JUL chegaram os primeiros contentores, com material do Exército, em viaturas Unimog que estacionaram na berma da estrada de acesso ao CPC, junto à barreira da entrada. Enquanto aguardavam a sua vez para descarregarem, Auto-tanques do Exército regavam-nos regularmente, do nascer ao pôr-do-sol, com a finalidade de evitar qualquer castigo térmico! Só visto! Contado só com muito respeito e consideração se aceita como verdadeiro este relato! 
          Mais tarde, nos porões, essa água escorria dos contentores não se sabendo se era só água ou já ácido proveniente da exsudação das munições, tal o péssimo estado que a maioria do material aparentava! Nos pavimentos dos porões ia surgindo uma camada fina de lama com um cheiro característico! Uma vergonha e um perigo! Nos dias de embarque as munições chegavam em comboio rodo, que atravessava a Ponte sobre o Tejo entre as duas e as 4 da manhã, com escolta e trânsito condicionado quando da sua passagem! 
          Durante o carregamento só estavam duas viaturas junto ao navio, cada uma defronte do porão de embarque respectivo. Os paus manuseados por pessoal do navio, sob o olhar atento do Mestre e dos Oficiais neles destacados, içavam a carga das viaturas e depositavam-na na coberta ou no porão conforme o planeamento elaborado pelo navio (um importante trabalho do Oficial Imediato) em função do tipo e constituição da munição a embarcar. 
          As lingadas que suportavam os contentores eram depois suspensas através de um Gato de Escape e levados para o lugar que lhes fora destinado. Esta manobra, no interior do navio, era feita por aproximações já que não dispúnhamos de monta-cargas! O pessoal em serviço no porão tinha de ter “olho vivo e pé ligeiro” para não correr o risco de ser entalado ou pisado! Em cima o pessoal que operava os paus de carga não podia ter qualquer distracção executando, sem hesitações, as manobras ordenadas. 
          A perigosidade da carga manuseada não permitia erros! Num porão trabalhava um Gato de Escape. No outro os paus trabalhavam com um Porta Paletes. Durante todo o carregamento o trabalho no cais e no interior dos porões era efectuado por pessoal da guarnição. O material conforme era colocado nos locais definitivos era logo peado. Com apreensão verificámos que a lista entregue, pelo Exército, ao CNC não correspondia integralmente ao material enviado para embarque. 
          Já com dois dias de carga recebemos, depois de grande insistência, uma nova Lista Descritiva do material substituindo a inicialmente entregue que, por lapso, como justificaram, fora trocada por uma do ano anterior! Já levávamos dois dias de embarque e cerca de 700 toneladas estavam carregadas, arrumadas e peadas… Mais tarde ficámos a saber, pelo Oficial de ligação, que a primeira lista fora simplesmente entregue para desenrascar a situação criada pela pressão do navio que exigia uma relação exaustiva do material para, só depois, iniciar o carregamento! Inépcia, comodismo e ignorância… 
          Entretanto a rega dos contentores, a aguardar embarque, manteve-se ao longo de toda a operação de carregamento e os derrames iam surgindo um pouco por todos os contentores. E o navio sem esgoto de porões! A bomba avariada não chegou a ser reparada, apesar das diligências feitas pelo navio, e assim se manteve ao longo de toda a Missão! Segurança, cuidado e atenção era a exaustiva lengalenga do Oficial Imediato, em constante movimento pelo navio e pelo cais, observando e verificando os trabalhos e a correcção de procedimentos. 
          Quando vislumbrava qualquer falta de atenção ou de cuidado o “prevaricador” era logo ali avisado bem como quem estava junto dele. Foi assim ao longo de todo a estiva. O movimento do pessoal a entrar e sair dos porões, o movimento dos paus de carga, a pancada das paletes ou o disparo do gato de escape soltando as lingadas permitiam apreciar um bailado esquisito com figurantes ora estáticos ora rápidos e exuberantes, vestidos de marinheiros, num conjunto harmonioso! Todos tínhamos interiorizado a responsabilidade das nossas funções. Todos dependíamos uns dos outros. 
          Nesse dia 9JUL a meio da manhã, uma palete escorregou pelas alças e caiu no cais ficando meia desmanchada… Presenciei a ocorrência e lembrei-me do que se passou com o cavalo que levámos, na viagem anterior, para o Funchal. O equídeo ia num contentor de madeira feito especialmente para ele. A tampa posterior vertical, fazendo de porta, armava sobre forte gonzo e era trancada com fortes cadeados. Na parte anterior dispunha de uma janela, defronte da cabeça do animal, que durante o dia ia sempre aberta. Um soldado embarcara para tratar do animal e… foi nomeado um marinheiro para tomar conta “dos dois”! 
          Quando do desembarque a grua de terra pegou no contentor e quando ia já à vertical da borda do navio a estrutura deu de si e ficou de tal forma desconchavada que se via perfeitamente o animal lá dentro. Momentos difíceis para o animal, para o seu tratador, para o Capitão cavaleiro, que de braço engessado, aguardava no cais com ansiedade a sua montada, e do pessoal do navio que, impotentes, assistiam à manobra. 
          O experiente operador da grua reiniciou a descarga, lentamente, conseguindo pôr o conjunto, no cais, ainda “inteiro”. A estrutura aparentemente muito resistente fora construída para estar no chão e não para andar no mar ou em fainas de içar e arriar! De forma semelhante a maioria dos contentores foi construída sobre uma palete de madeira, onde colocavam diversas caixas de munições. Algumas vezes foram ajuntadas caixas vazias para compor o “caixote” (!). Uma vez tapados eram então “fechados” com tábuas pregadas singelamente nos quatro lados e no topo, tentando “imitar” um cubo, construído para ficar no chão e não para serem suspensos por gruas ou paus de carga, onde movimentos bruscos estão sempre presentes por maior cuidado e atenção que os operadores tenham, nem tão pouco ficarem estivados num navio a navegar com balanços e pancadas desencontradas. 
          Eram aligeirados e alguns vinham cintados singelamente. Algumas das munições neles contidas estavam ainda nas suas embalagens originais mas a maioria tinha sido manuseada e apresentavam-se agora envolvidas em cartão, lona, papel de alcatrão e outros resguardos inimagináveis! A quem ia vivendo estes momentos um sentimento de impotência ia-se sedimentando… Foi no meio deste frenesim que o Mestre do navio surgiu para dizer que um caixote se “desenfiara” da lingada e caíra no cais tendo uma munição saído para fora do contentor destruído. Pela indicação inscrita, no contentor, tratava-se de munições inertes mas verificou-se ser uma munição de 7,5 cm escorvada e espoletada! 
          Mandei interromper a estiva, para “acalmar”, e solicitei a presença, do Oficial técnico de explosivos, do Quartel de Beirolas, com a maior brevidade. O mesmo, aliás, deveria estar presente durante toda a faina do embarque mas … O almoço foi coelho mas eu comi um bife… Depois do almoço e de vários telefonemas “superiores” apareceu o responsável pelo lote embarcado um Oficial da GNR! Viemos então a saber que havia material da GNR incluído no Lote do Exército e, por intermédio do Aspirante embarcado, soubemos também que havia munições da PSP, GF, INDEP, e sei lá de quem mais! 
          Tudo “fora” enfiado no mesmo saco! Afinal eram todos nossos amigos! Levado junto da munição caída e do contentor, já sem jeito com a sua carga desordenada e desalinhada num desleixo grotesco, e de onde tinham “saído” mais de 15 kg de areia. Limitou-se a dizer não existir qualquer perigo, sendo somente necessário refazer a caixa, pois eram granadas inertes de 75, há muito sentenciadas, dos Carros de Combate. A areia caída era de facto areia das obras que estavam em curso no local onde o contentor estava arrumado! 
          O Oficial Imediato talvez cansado de tanto falar sobre segurança, e cuidados a ter no manuseamento da carga, perante tanta falta de ponderação limitou-se a dizer que achava curioso estar a munição escorvada e espoletada! Não havia diálogo possível… A DIVLOG, do CNC, estava permanentemente informada, via telefone, sobre o desenvolvimento da actividade no “São Miguel”. Pouco depois chegava o Director do Depósito de Munições NATO de Lisboa, talvez alertado por algum telefonema. Incrédulo perante o inesperado quadro contactou com o Estado-Maior da Armada (EMA) e o CNC para abortarem a missão. 
          Fruto dessa intervenção foi requisitado um rebocador que ficou com cabos passados ao “São Miguel” e máquinas prontas para rebocar o navio para o mar em caso de necessidade! De nada serviria mas que foi bonito foi… Também por várias vezes recebemos a visita amiga do Director do Laboratório de Explosivos. No final das operações de carga, a 10JUL, sobravam 25 paletes de espoletas e de outro material que, na altura, o responsável do Exército já não sabia de que se tratava! Qual era o problema? 
          Tínhamos lutado para que as munições contendo fósforo fossem colocadas no convés mas afinal estavam peadas no fundo dos porões pois foram das primeiras a embarcar sob informação viciada na primeira Lista entregue ao navio! Na realidade não sabíamos, de forma correcta, o que ia nos porões salvo o material da Marinha identificado desde a primeira reunião. Só então, terminada a estiva, metemos água doce e lastrámos o navio. 
          Levávamos só um Gato de Escape em condições! Os outros, também enviados pelo CNC, apresentavam dimensões reduzidas para o serviço pretendido. O navio continuava sem capacidade de esgoto dos porões. Continuávamos sem lanternas de mão e, as existentes, eram particulares! Embarcaram do Exército, de 600 toneladas previstas, 866 toneladas. Da Marinha, como inicialmente indicado, embarcaram 100 toneladas. Demos volta à estiva antes do jantar. Jantámos e largámos com vento fresco de NE. O vento mantinha o navio teimosamente atracado e apesar de a maré estar de enchente não conseguia abrir a proa. 
          Tínhamos de sair. Chamei à Ponte o Oficial da faina da tolda e falei sobre a manobra que iria executar. Não havia segunda oportunidade. Chamei o Engenheiro e disse-lhe que a máquina não podia “ajoelhar” durante a faina da largada! Falei com o Imediato para se desdobrar pelas fainas! Não era preciso mas assim eu ficava melhor… Depois. Depois amarração ao singelo, 10 graus de leme a EB, reforço de balões à Popa, passar um través pelo seio, aguentar a regeira de ré. À proa mete tudo dentro. O Oficial Imediato desdobrava-se pelas fainas. O navio tinha passados o través e a regeira de ré. Na proa cabos prontos para passar a terra. 
          Na largada não havia pessoal no cais. Como de costume! Somente a minha mulher e o meu sogro. Máquina a ré devagar para esticar a regeira, folgar a pedido o través e máquina a ré meia. 15.º leme a EB. Atenção aos balões, o navio começou a fazer cabeça na quina do cais com a regeira, de grande bitola, bem tesada dava volta no guincho de ré bem socada na mão e pronto para arriar a pedido à medida que ela for tesando, não fosse a mesma partir. Era uma operação delicada. Os esticões da regeira eram sentidos e ouvidos na Ponte! 
          Preocupado corria à asa da Ponte para tentar perceber o estado da regeira. Fiquei “descansado” quando vi o mestre controlando o cabo que rangia sob a pressão a que estava a ser sujeito! e o navio abriu um mínimo mas que entendi ser a oportunidade para tentar sair. Máquina AV toda, mantém o leme, atenção aos balões, preparar para largar o través, aguenta a regeira, a popa estava em cima das pedras, e o navio começou a avançar. Ronda a regeira. A popa começou a querer “raspar” o cais. 
          O vento mantinha-se. 10.º de leme a BB. A descarga fez afastar a popa, e a água de enchente ajudou a aumentar a “almofada de água ao cais”. Leme a meio. Mete dentro a regeira. Atenção aos balões. Logo que a popa “despegou” do cais meti 5.º de Leme a EB, mais 5.º. O navio estava a navegar e manobrei-o até ter uma proa franca à Barra. Tudo dentro! Vi o Imediato a percorrer as fainas. Sr. Mestre Volta à Faina. 
          Primeiro o Imediato que “simplesmente” me cumprimentou, depois agradeci ao Engenheiro a forma como a “máquina“ se comportou e ao Oficial da Faina da Tolda pelo cuidado na condução da manobra. Como previsto saíramos ao fim do dia 10JUL. Já sozinho na Ponte e a sair pela Barra Sul o Mestre, nado e criado em Caminha no seio de pescadores e de embarcações de pesca, veio até mim para me dizer quanto orgulho tinha em servir no navio e comigo. Fazendo a continência saiu da asa da Ponte onde me encontrava. 
          Depois da pressão que passara ao longo de todo o carregamento e da Faina de largada tão exigente foi um momento de solidão de comovida serenidade. Sentia uma paz sem fim! Foi uma das melhores sensações da minha vida de Marinha… O meu lado Marinheiro estava de alma cheia. Estávamos como de costume sozinhos e por nossa conta! Em reunião no CNC foi dito ao Comando de uma Corveta para, durante o período do lançamento das munições ao mar, permanecer ao alcance visual do NAMIGUEL para apoio moral da guarnição e eventual apoio físico. 
          Nesse primeiro dia de navegação, às 2000, pela fonia, o Comandante da Corveta inquiria se tudo estava a correr bem e dava a conhecer que, na altura, se encontrava atracado em Leixões. “No comments!”. Estávamos sozinhos mais uma vez naquele mar imenso. Éramos só nós e o Manto de Nossa Senhora de Fátima que nos cobria e protegia pois, dos homens, ninguém queria saber de nós. No dia 11JUL alcançávamos a área escolhida para efectuar o lançamento e começamos a descarrega. 
          O primeiro caixote, com espoletas e que seguia no convés, foi arriado pelo Ten. Pico até ao lume de água, às 0645, largando-o de seguida no mar. Era moroso demais… Abriu-se o segundo caixote e passaram a atirar para longe uma a uma. Era perigoso e continuava a ser muito moroso. Passaram então a deitar simplesmente os caixotes, um a um, ao mar. A velocidade foi reduzida pois havia o perigo de serem puxadas ao hélice. O primeiro caixote não se afundou logo pelo que o seguinte foi verificado e dele retirado o que poderia entravar o seu normal afundamento. Papel, cartão, papel alcatroado, desperdício e papel em tiras… uma confusão! 
          Constatado a existência de caixas vazias para “compor” as paletes! Foi notória a falta de escolta quer por razões de segurança quer de apoio à missão. Verificada a presença, na área de lançamento, de arrastões japoneses no dia 12 e de um Navio-fábrica, russo, no dia 13 não identificados. O Comando do Quartel de Beirolas oferece neste dia ao navio, através do Aspirante, dois morteiros de 81mm, para a Câmara de Oficiais. A navegar as operações da estiva e a ventilação, os geradores vão ao máximo da carga o que nos aumentou as preocupações. Sem energia seriamos uma bomba flutuante… 
          No dia 12JUL continuamos a descarregar e a 1.ª palete “saiu” às 0700. Foram sentidos dois rebentamentos submarinos. Uma sensação nova vinda de baixo para cima, do pavimento, reflectindo-se nos joelhos! Ficámos convencidos que tinham sido os chamados “torpedos bengalórios” usados para destruir colunas das pontes e muito sensíveis que, com a pressão, deflagraram. No dia 13JUL a primeira palete ao mar foi às 0900. O tempo estava péssimo e só o mar de popa nos deixava trabalhar. Também neste dia foi sentido um forte rebentamento submarino. Às 2015 descarregou-se a última palete para o mar. Tínhamos conseguido cumprir a missão mantendo-se a bordo um óptimo ambiente de trabalho. Foi obra descarregar tanta carga sem treino específico. 
          No regresso, vazios e com tempo do Norte, a viagem foi muito cansativa. Durante a noite o tempo melhorou permitindo aumentar as rotações e deixando prever chegarmos ao fim do dia, 14JUL. Na aproximação à Doca da Marinha nova avaria “no ar” da máquina o que nos obrigou a fundear e pedir rebocadores atracando depois. Após a Volta à Faina o pessoal do Exército, embarcado em 9JUL, desembarcou. 
          Tínhamos conseguido lançar ao mar uma média de 38 paletes por hora. Faina às 0800 e Volta às 1800 com o almoço das 1200 às 1400. O lançamento ao mar foi feito, navegando para Sul, muito devagar a vante (80 RPM) a 8’ e com o mau tempo. No 3.º dia conseguimos fazer 9.5’. O lançamento fora sempre feito com mar na alheta para diminuir os balanços que tornavam “impossível” a vida a quem trabalhava nos porões. Durante a noite navegávamos para Norte. Perdemos muito tempo a “desarranjar” as paletes de forma a retirar o mais possível das protecções das munições que não as deixavam afundar deixando-as a flutuar durante algum tempo. 
          Foi reconhecida a falta de uma máquina de cintar para reforçar os contentores, cintando-os dobrados ao alto e de lado evitando-se assim que as caixas abrissem quando lançadas. As tábuas deviam estar mais afastadas para permitirem uma entrada franca de água para o seu interior. Notada a falta de luvas de cabedal pois as de amianto que nos foram fornecidas não davam para tudo. Não podíamos furar os caixotes pois desconhecíamos o seu conteúdo tornando o seu manuseamento mais demorado. As caixas de granadas de mão eram estanques em folha-de-flandres e as granadas ainda vinham envoltas em papel alcatroado. 
          Tivemos de abrir caixa por caixa e desembrulhar granada por granada. É verdade não é ficção! Tínhamos terminado a nossa 13.ª saída. Na despedida o Oficial do Exército ao cumprimentar o Oficial Imediato dizia:
- “… correu bem e tivemos muita sorte!”.
          Muito da sorte desta missão se ficou a dever ao intenso trabalho do Imediato, do Engenheiro bem como do Mestre, Oficiais e todos os que ali trabalharam de alma e coração. Com o seu sorriso de circunstância o Imediato respondeu-lhe:
- “ É verdade camarada, esta sorte, deu-nos um trabalhão do caraças!”.
          Toda a Missão estava ali sintetizada - um trabalhão do caraças. Todos tinham cumprido zelosamente com as tarefas que lhes estavam cometidas e de tal forma que o Cartão do Detalhe foi, nesta Missão, um mero pró-forma… Havíamos de fazer um segundo lançamento ao mar e, igualmente, com sucesso! Estou convencido que crescemos todos, mais um pouco, nesta tão trabalhosa, perigosa, sofrida e heroica viagem. 
          Talvez em OUT94, quando da explosão do “São Miguel” carregado com munições obsoletas e sentenciadas, antecedendo o seu triste afundamento propositado, alguém se tenha lembrado de nós, dos trabalhos por que passámos e do merecido reconhecimento que nunca foi feito…

A toda a guarnição desta viagem, bem como ao pessoal do Exército que nos acompanhou, um saudoso e carinhoso abraço.

12/12/12

LEITURAS À VISTA - 01

      Iniciando uma nova rubrica, passo a apresentar-vos as “LEITURAS À VISTA”, consistindo na recomendação da leitura de livros sobre temas relacionados com a Marinha Portuguesa e as suas unidades.
 
          Nesta 1.ª “LEITURA À VISTA”, recomendo o livro: "Fuzileiros - Força de Elite", da Clássica Editora, redigido por Ilídio Neves Luís, José Manuel Parreira e Mário Henriques Manso.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
          «A presente obra representa um contributo sério e profundamente sentido para trazer à luz do dia a notável acção dos Fuzileiros durante a Guerra Colonial em que Portugal esteve envolvido.
          São relatos de quem viveu intensamente a guerra integrando uma força especial de elite, trilhando os caminhos mais inóspitos em circunstâncias tão penosas quanto adversas.
          Os autores vivenciaram episódios fantásticos nas antecâmaras da morte, sentindo as indescritíveis sensações da dor física e psicológica, cheiraram o bafiento odor da mata e da bolanha, viram camaradas seus despedaçados e o sangue fumegante a jorrar do seu próprio corpo.
          Jovens oriundos de aldeias de um país obscuro e subdesenvolvido são atirados para a frente de combate numa guerra cruel e fratricida cujas razões e motivos muitos ignoravam.
          Neste livro encontramos bem patentes o heroísmo e a enorme capacidade de dádiva da juventude, imbuída num espírito de corpo, de que os Fuzileiros são um dos máximos expoentes, referencial por excelência de todos os jovens que um dia sonharam servir a Pátria neste corpo de elite da Marinha e das Forças Armadas Portuguesas».

08/12/12

“HISTÓRIAS À VISTA” - 24

          24.ª “HISTÓRIA À VISTA”, da autoria do 2.º Comandante do Navio de Apoio “NRP São Miguel” - CMG REF Brito Subtil (1988-1990), recordando a mascote do navio.
 
O NRP ”SÃO MIGUEL” E O TRIDENTE
 
          O TRIDENTE era o nosso cão - a Mascote do navio. Foi por mim levado para bordo com menos de 4 meses, logo no início do meu Comando, mas muito rapidamente se adaptou ao navio e foi adoptado por toda a guarnição.
            Embora sem raça definida assemelhava-se bastante aos “Setter”, com pêlo castanho avermelhado.
          Tendo crescido a bordo, e conhecendo as suas patas apenas o piso metálico do navio e o chão empedrado do cais, foi extremamente curioso apreciar a sua primeira experiência no areal da praia de Porto Santo – louco de alegria, fazendo covas, saltando, ladrando e correndo desenfreadamente naquela sua nova experiência.
          Funcionava como elo de ligação entre os elementos da guarnição, pois todos eram seus donos, embora manifestasse preferência por um ou outro Marinheiro, dormindo à porta do seu camarote. A todos fazia companhia e de todos era objecto de brincadeira.
          Circulava por todo o navio, especialmente a Ponte onde fazia companhia ao pessoal de quarto ou o Refeitório das Praças, mais condicente com o seu posto de “Grumete honorário”. Quanto à Câmara de Oficiais era tabu – nunca passava da porta.
          Com o navio atracado, saía a prancha e ia ao cais aliviar as suas necessidades, regressando logo de seguida.
          Quando a navegar ficava impaciente, e só fazia as necessidades num determinado local do convés superior menos frequentado, sob os turcos da embarcação do navio.
          A navegar com algum balanço ele sofria com o enjôo, mantendo-se deitado com as patas para o ar de encontro à antepara para se manter estável. Situação bem caricata e curiosa.
            Ao aproximar-nos de terra, que ele detectava certamente pelo cheiro, ficava de novo cheio de vida e já ladrava.
          Nadando no mar também se sentia muito à vontade, e era com alegria e sem hesitações que se atirava da escada de portaló para a água ao encontro dos seus Marinheiros amigos.
          A todos se afeiçoou e a todos cumprimentava, sabendo distinguir bem quem pertencia ou não ao seu navio. Fazendo companhia ao Cabo de quarto junto à prancha dava imediato alerta quando alguém se aproximava do navio, constituindo assim um bom auxiliar da guarda.
          Mal atracávamos, e passada a prancha, o Tridente era sempre o primeiro a pôr o pé em terra e logo de seguida tratava de se aliviar fazendo as suas necessidades no cais.
          O pior aconteceu quando um dia, no Funchal, em vez de atracarmos ao cais atracámos por fora ao Petroleiro “S.GABRIEL”.
            Passada que foi a prancha, como de costume o Tridente de imediato a passou e com enorme à vontade apressou-se a fazer as suas necessidades no convés do “S. GABRIEL” perante a guarnição formada e ainda em faina. E dessa vez lá tivemos que ouvir resignadamente os protestos do Imediato desse navio (Comte. Eloi Lopes Pereira, dilecto amigo, infelizmente já falecido), invectivando o nosso cão pelo seu incorrecto comportamento. O Tridente é que teve dificuldade em compreender a sua falta.
          Quando nos portos estrangeiros é que a situação se complicava, pois havia necessidade de o esconder no porão, para que a sua presença não fosse detectada e se corresse o risco de ter que o deixar em terra de quarentena, o que seria inaceitável pelo pessoal da guarnição. E por isso se verificaram várias situações dignas de aqui ser contadas.
          De manhã, quando eu chegava a bordo com o navio atracado na Doca da Marinha, nosso cais habitual, recebia à prancha os devidos cumprimentos do Imediato, Oficial de dia e restante pessoal de serviço com apito “a sentido”. Depois era a vez do Tridente que respeitosamente subia as escadas comigo acompanhando-me até à porta da Camarinha, ao mesmo tempo que me ia lambendo as mãos.
          Apesar de ter tantos donos a bordo o Tridente nunca se esqueceu do seu primeiro dono - o Comandante - que o levou para bordo e o deixou dormir as duas primeiras noites na casa de banho do seu camarote.
          Muito mais tarde, talvez um ano depois de eu ter saído do navio, quando o “SÃO MIGUEL”, atracado na Doca da Marinha, estava entre duas missões ao Médio Oriente, envolvido na Guerra do Golfo como única participação militar portuguesa, sob o comando do Comte. Rodrigues da Conceição, aproximei-me da prancha do navio para perguntar ao pessoal de serviço se estava algum Oficial a bordo. A guarnição tinha entretanto mudado. Ninguém me conhecia. Eu era apenas um vulgar cidadão à paisana.
          Mas inesperadamente, e com grande surpresa minha, o Tridente desceu em correria a longa escada de portaló e aos saltos e uivos veio cumprimentar-me ao cais.
            Não pude deixar de me sentir emocionado com aquela manifestação de amizade e saudade. Ninguém me reconheceu… mas o Tridente não me esqueceu!
          Vim a saber mais tarde que, quando o navio foi abatido ao efectivo, havia vários pretendentes para levar o TRIDENTE consigo.