23/09/14
ENTREVISTA AO ALMIRANTE CEMA MACIEIRA FRAGOSO
Entrevista ao Almirante CEMA Macieira Fragoso, no programa da RTP "Protagonistas":
http://www.rtp.pt/play/p1613/e166410/protagonistas
04/09/14
HISTÓRIA À VISTA - 35
HISTÓRIA À VISTA N.º 35, da autoria do 1.º Comandante do Navio de Apoio “NRP São Miguel” - CMG REF Oliveira e Costa (1985-1988), versando sobre a estadia no Brasil.
MEMÓRIA n.º 14: "Meu Anjo…"
Atracámos ao cais em Fortaleza, no Nordeste Brasileiro! A Banda do NE “Custódio de Melo” retirou depois de o Mestre ter apitado “Volta à Faina”. Colocada a prancha entraram o Adido de Defesa junto da Embaixada de Portugal em Brasília, Coronel do Exército, e o Oficial de Ligação, Tenente de Administração.
Acertaram-se os pormenores do cerimonial dos cumprimentos, retribuições e tomámos conhecimento das actividades previstas durante a permanência do N.R.P. “S. Miguel” naquela Cidade. À noite saímos e jantámos na avenida marginal seguindo depois, para um Hotel próximo, a convite do Adido de Defesa que, juntamente com a mulher, ali nos esperava juntamente com outros casais seus conhecidos e amigos.
O navio ficava relativamente longe do centro da cidade mas a distância percorria-se muito bem a pé. Ao longo do dia havia sempre vento proporcionando uma temperatura muito agradável. Chegados tirámos logo uma fotografia ao Imediato junto duma placa, com o nome da rua, de um tal Meyrelles, um recente e ilustre seu antepassado! Quando já perto do restaurante passaram vários “Buggies” conduzidos e ocupados por jovens graciosas e “modestamente” vestidas com reduzidos “Tops & Shorts” que, abrandando, nos chamavam num alto e claro “Psst! Psst!” inquirindo se queríamos boleia! Passada a surpresa decidimos que íamos jantar!
Depois seguimos para o Hotel onde éramos aguardados pelo Adido que se fazia acompanhar da mulher jovem, simples, extrovertida e extremamente simpática. Na sala grande, tomou-se café e ficámos até tarde a conversar. Curiosamente a mulher do Adido deambulava entre nós e com graça dizia que preferia estar junto de nós mais jovens e bem-dispostos. Foi um convívio muito agradável. Quando a bordo me deitei na minha cama, onde não ia desde a saída de MOTBAY, recordei aquele primeiro dia.
Desde pequeno que acalentava a ideia de ir ao Brasil e a Macau. Ao Brasil já tinha chegado a Fortaleza, a Macau talvez na “próxima vinda”, digo eu hoje! No segundo dia no almoço, a bordo, tínhamos como convidados o Adido de Defesa Português e o Cte. do NE “Custódio de Melo”, um Capitão de Mar e Guerra da Classe de Máquinas. Dei-lhe a presidência da mesa e… fiz mal! Homem grande gostava de exibir-se e fazendo alarde das amizades, que mantinha com oficiais da Marinha de Guerra Portuguesa, levou a maior parte do almoço pretendendo chamar a atenção sobre a sua pessoa e eu sem jeito de o contrariar.
Entretanto, ao longo da sua prosa, deixara entender que em breve seria promovido a Almirante deixando o comando do navio. Perto do fim da refeição quis “discutir” o termo “controlo” que os portugueses incorrectamente diziam “controle”. Queria saber a minha opinião. Estava farto! Na véspera soubera do prazer da maioria dos brasileiros em contar anedotas, com muita graça diga-se, onde a figura do “tanso” era quase sempre desempenhada pelo “português”. Anedotas que cultivavam e estavam sempre disponíveis para contar! Curiosamente no dia anterior ofereceram-me um livro, com mais de cem páginas, só de anedotas do “português”.
Encurralado olhei-o bem na cara e perguntei-lhe com um sorriso “Ó senhor “almirante” por acaso não é nenhuma anedota de portugueses? O almoço continuou de forma mais comedida terminando pouco depois. De tarde fomos recebidos na Capitania dos Portos do Ceará onde nos serviram entre outras bebidas “Água de Coco” muito fresca, com aguardente de cana e sumo de pêra de caju, mistura explosiva naquele tempo morno que nos envolvia completamente. Outra muito apreciada foi a “batidinha de coco”.
Terminado aquele convívio seguimos para uma visita rápida à “Escola de Aprendizes-Marinheiros do Ceará”, uma “Fragata D. Fernando II e Glória” em ponto muito, muito grande, que me seduziu pelo serviço prestado à comunidade e à formação que ali era conseguida. Regressámos a bordo em cima da hora para ir jantar ao NE Custódio de Melo a convite do Comandante. Ainda não “recuperara” do almoço e pedi ao Imediato para me representar. Várias vezes tentou dissuadir-me da decisão mas perante a minha renitência lá foi com a incumbência de apresentar as minhas desculpas justificando, se possível, de que durante a tarde ficara indisposto e recolhera a bordo.
Que eu saiba a minha “não comparência” mereceu uma “elogiosa” carta para os amigos de Lisboa! Nessa tarde soubemos que o pessoal do navio tinha feito uma “conta” no telefone civil, instalado pouco depois de atracarmos, no valor de 80 contos (PTE)! Foi o preço, das saudades de casa, de trinta dias…
Não havendo registos das chamadas efectuadas fez-se a necessária reunião com o pessoal conseguindo-se identificar a quase totalidade das chamadas ultrapassando assim uma situação que poderia ser desagradável. Os dias foram passando sempre com bom tempo e um clima ameno. Na cidade muita gente nas ruas, comércio muito animado e por todo o lado música brasileira. Qualquer loja por mais pequena que fosse tinha música.
Era um granel radiofónico aceite e participado por todos. Já com grande à-vontade e conhecedores das ruas principais da baixa fixávamo-nos, de dia, no Mercado Artesanal, um centro turístico de visita obrigatória, instalado numa antiga Cadeia Pública onde as celas foram aproveitadas dando lugar a pequenas lojas de artesanato e no pátio central uma esplanada onde serviam café, cerveja e gelados. Ali passou a ser o nosso “Meeting Point”! Nas lojas do Mercado, onde julgo todos compraram as tradicionais “Redes”, certamente fruto da canção na altura muito em voga “Bota a rede na varanda…”, e também na esplanada as empregadas jovens, alegres e exuberantes, como a maioria da juventude brasileira, já conheciam os elementos da guarnição do “S. Miguel”!
Para o fim do dia o “programa” era diferente. Ao fim da tarde bebiam-se caipirinhas acompanhadas de patinhas de siri como entrada para o sóbrio jantar seguido de um aprazível passeio na marginal para “desmoer” a picanha e a caipirinha. Recuperados, animados e bem-dispostos seguia-se para o Forró! O Forró é uma festa tipicamente nordestina, onde são incluídos diversos ritmos musicais daquela região, danças praticadas ao jeito europeu mas acrescidas do balançar dos quadris, como o fazem os africanos.
Conhecido e praticado em todo o Brasil, o Forró é especialmente popular no Nordeste brasileiro e em especial na cidade de Fortaleza onde são promovidas grandes festas. Os empreendimentos mais importantes eram “O Pirata”, considerado a Catedral do Forró, curiosamente propriedade de um português, e o “Clube do Vaqueiro”. Foi naquele ano que apareceu a “lambada”, dançada e cantada naqueles dois grandes espaços, mas só dois anos depois surgiu como um sucesso. Estes grandes empreendimentos, democráticos, onde a animação era um “must” numa festa por todos vivida.
Além da música e da dança estes locais boémios da cidade, ofereciam além de outros divertimentos um alargado serviço de restauração, onde imperava o tradicional churrasco. Encerravam para descanso ao domingo mas outro havia, “A Cervejaria”, tão grande quanto os outros, que nesse dia dava Forró! A vida, em Fortaleza, sem Forró não era vida. Nesta “casa” havia uma particularidade, inédita, enquanto o cliente não deitava o copo as empregadas em constante movimento, enchiam-no sempre!
Eram lugares de homenagem à vida. Havia alegria e irreverência, numa explosão de cores e ritmos. Ali, não importava a idade, classe social, etnia, nacionalidade ou religião. Havia espaço e respeito para todos. Apesar de tudo, da excitação, do barulho e da juventude devo realçar que as mulheres, enriqueciam a festa, sempre atarefadas em conseguir par, para a dança, já que o “bicho homem” era escasso.
O Engenheiro cansado do dia-a-dia, a bordo, de volta das avarias, dos fabricos e do calor, esforçava-se por acompanhar os camaradas, quando de licença. Depois do jantar ligeiro, normalmente precedido de umas caipirinhas, rumava-se ao clube. Ali num ambiente barulhento, é certo, mas agradável e acolhedor sentava-se confortavelmente e, com insuspeitada facilidade, fechava os olhos em comatoso descanso!
Sozinho e abandonado à mesa logo surgiam benfazejas criaturas que sacudindo o pobre mortal despertavam-no chamando-o à dança… Pobre Engenheiro! Nesta estadia fomos muito bem recebidos sempre acompanhados, além do Adido e mulher, por dois portugueses ali residentes dos quais um deles, que desempenhava funções na Administração Local do Município, era de Arganil, terra do meu Pai, e talvez por isso surgiu forte empatia acompanhando-me durante toda a nossa permanência, de 29SET a 06OUT, naquela encantadora cidade.
O nosso dia-a-dia era preenchido pelos serviços de bordo e acompanhamento dos fabricos seguido da obrigatória ida ao Mercado de Artesanato e só depois passar ao “Programa” da noite que terminava no Forró ou, “quiçá”, ainda prolongado por eventual acompanhamento psicológico… a alguma alma perdida ou carente! Durante a semana a guarnição visitou, acompanhados do Adido, mulher e do nosso anfitrião de Arganil, um empreendimento nas Praias do Futuro, a convite do gerente, português também de Arganil. Com restaurante, piscina e quartos. Um empreendimento do tipo vertical. Era só chegar e arrumar as bagagens ali tinha tudo!
O pessoal foi todo tomar banho bem como o Adido e mulher, esta era o único elemento feminino presente no evento. De biquíni, cuja parte superior era bem menor que a inferior, despertava olhares cobiçosos, embora respeitadores, de todos os elementos ali presentes, situação, julgo eu, que não desagradava de todo à senhora.
O marido, uma simpatia e amigo sempre presente ao longo da nossa estadia em Fortaleza, ria-se dizendo-lhe carinhosamente: “sua carioca malandra!”. Por sugestão do despenseiro tínhamos levado de Lisboa um carregamento de sardinhas, muito apreciadas no Brasil, para se comerem com a Comunidade Portuguesa residente naquela Cidade do Nordeste. No sábado dia 3OUT, depois de tudo bem combinado, nas instalações da “Sociedade Beneficiente Portuguesa Dois de Fevereiro”, localizada nas Praias do Futuro, iniciou-se um convívio que marcou pela alegria e prazer, a todos sem excepção, onde antes de terminar já deixava saudades!
Estiveram presentes mais de 200 pessoas onde cada família levou a sua contribuição. Nós levámos as sardinhas, grandes e luzidias, dignas de representar Portugal e o “S. Miguel”! Começou-se com Água de Coco, bebida directamente dos cocos, já preparados e guardados em arca frigorífica. Houve quem preferisse cerveja e de prato na mão servíamo-nos duma mesa central onde se colocaram os alimentos que levaram para o convívio.
A parte do “S. Miguel”, exposta junto do grelhador, foi uma das mais aplaudidas. Aquelas sardinhas, para onde convergiam olhares gulosos, eram gordas, grandes, brilhando intensamente sob a forte luz do sol, também faziam parte daquele imaginário que a saudade não deixava apagar e que se encaixavam tão bem naquele encontro! Até eu assei sardinhas! O Eng.º, de forma inesperada, também ajudou no assador, ele que a bordo continuava a não prestar o seu contributo na feitura do jantar das quintas-feiras, quando a navegar, participando somente no repasto, apreciando e criticando, sempre de forma construtiva, na avaliação dos pratos apresentados!
Não há espaço que contenha as descrições que tal encontro proporcionou. O Doutor, outro dos “rendidos” perante tanta beleza e juventude, ficou eterno enamorado daquela terra e das suas gentes filmando metodicamente e com rigor aquele encontro! Curiosamente naquele dia faziam anos dois elementos do “S. Miguel” e dois dos presentes cearenses o que deu azo a que o convívio fosse mais demorado! Talvez por isso, um dos elementos do navio deixou aquele encontro de forma sub-reptícia acompanhado por carinhosa jovem preocupada pelos sinais de impaciência, ansiedade, denunciadora de grave carência afectiva ou por algum incómodo momentâneo, quem sabe provocado por alguma espinha teimosamente atravessada na garganta, ditando o seu preocupado e incondicional apoio a quem viera de tão longe e, também por isso, merecedor de seu afecto, cuidado e doação!
Mais tarde, aparentando total recuperação, voltou para bordo. Outro não menos sacrificado, perante o pessoal feminino, foi os Dr. pois ao saberem do seu ofício, passaram a solicitar, com repetida frequência apoio sanitário, proporcionando-lhe a alegria de se sentir realizado mesmo tão longe da sua terra! Para conhecer Fortaleza não chega fazer prolongadas leituras ou escutar elaboradas descrições, é preciso ir lá, pisar no terreno, pôr o dedo! No dia seguinte, domingo, juntamente com o Imediato e mais dois Oficiais, e pela mão do nosso companheiro de Arganil, participámos na missa de sétimo dia de um português onde apresentámos sentidos pêsames à viúva que agradeceu comovida.
De tarde o navio ficou aberto a visitas. Já se sentia a partida, prevista para terça de manhã, 6OUT, e todos queriam aproveitar o melhor possível o tempo de que ainda dispunham junto dos amigos. O “S. Miguel” estava em “ebulição”. Havia movimento de pessoas por todo o navio. Eram risos, conversas ruidosas, gente percorrendo todo o navio, grupos encostados à borda conversavam ou permaneciam nas câmaras que tinham eleito como um espaço seu!
A meio da tarde estava sozinho na camarinha a escrever quando percebi que alguém parara junto à porta. Olhei e vejo uma rapariga de cabelos soltos, uma cara linda onde sobressaiam, num meigo sorriso, dois grandes olhos, um casaco de peles e dois sapatos de salto alto. Esperou que eu a fixasse bem e então, segura de que tinha toda a minha atenção, mantendo o doce sorriso, segura nas lapelas do casaco que abre lentamente apoiando os braços no quadro da porta mostrando-se toda nua, em pelo, perdão sem pelo, dizendo num tom musical e numa pose estudada:
- “Meu anjo… chêguei…!”, enquanto rolava os olhos pestanudos, sorrindo sempre. Olhei-a de alto a baixo ou de baixo ao alto, para o caso não interessa, e deu para ver que ainda tinha umbigo! Que corpo e em 3D! Parecia que tudo girava à volta dela! Impaciente perante a minha mudez meneou o corpo parecendo irradiar um calor que ocupava por igual toda a camarinha.
Então “corajosamente” disse:
- “Não é aqui, é lá em baixo…”, enquanto apontava com a caneta para o “andar” de baixo.
Reconhecida fez novo sorriso, bamboleou-se “suspensa” nos braços que se mantinham encostados à ombreira da porta, mostrando generosamente tudo o que tinha, respondendo então, na tal voz maviosa:
- “Nos vemos… Tá…”,
enquanto vagarosamente tirava os braços da porta e à vez foi fechando o casaco, talvez de marta, sempre sorrindo e mantendo aquele olhar hipnótico. Limitei-me a dizer um sumido:
- “…Tá”.
Deu a volta e sumiu! Nunca falei a bordo do sucedido e nunca entendi qualquer referencia que me permitisse ligar alguém ao ocorrido, até hoje, não identificando os possíveis “construtores” de tal aparição que, tenho a certeza, fora encomendada! De qualquer modo obrigado pela intenção! Eram tempos conturbados, não haja dúvidas! Em todas as viagens costumava trazer para a minha mulher e para os meus filhos algumas lembranças.
Os miúdos normalmente agradeciam entusiasmados e gratos mas a minha mulher raramente ficava satisfeita não pela qualidade ou quantidade mas pela escolha e tipo de lembrança. Era desencorajador. Apesar das explicações… Com esta ideia a martirizar-me fui ao Mercado do Artesanato mas nunca decidi o que trazer apesar da diversidade de produtos disponíveis.
Em cima da hora só tinha comprado a tradicional “Rede”, hoje ainda guardada na gaveta (!), e não vislumbrava solução. Foi então que me lembrei de pedir aos Oficiais o favor de me comprarem uma lembrança para oferecer à minha mulher dando-lhes a conhecer a razão de tal pedido. Aceite a minha solicitação entreguei dinheiro a cada um deles, alertando-os para a necessária contenção nos gastos e incentivando-os a capricharem na escolha pois desejava “brilhar” quando chegasse a casa.
À noite recebi as encomendas e o troco! Nem as vi. Limitei-me a guardá-las e a ouvir as justificações dos meus “colaboradores”. Chegado a Lisboa fiz a entrega da forma mais informal que consegui. Surpresa total! A minha mulher nem queria acreditar que eu tivera o cuidado de fazer aquelas compras para ela! Lembro-me que havia uma camisa de linho, uma colcha, uma toalha de linho toda trabalhada e mais alguns “artesanatos” que acertaram no “20”!
Ainda hoje quando se fala dessa viagem a minha mulher refere do inesperado das lembranças que lhe trouxe e da alegria que lhe proporcionara. Conta também da insegurança sentida pois interiorizara que afinal não me conhecia tão bem como julgava o que se fora traduzindo, por algum tempo numa situação angustiante. Quando mais tarde e por acaso referi a forma como as “escolhi” respirou de alívio e… “Huf!” com um beijo voltou a agradecer-me as ofertas e agora sim, com o sentimento antigo, de que o “seu” poder, pelo que de mim conhecia, nada fora beliscado ou diminuído…
A todos, que continuam bem presentes no meu coração, e em especial aos meus “colaboradores” um permanente e saudoso abraço.
19/08/14
O ADEUS À CORVETA JOÃO COUTINHO
UM BRAVO ZULU A TODOS QUE FIZERAM PARTE DAS SUAS GUARNIÇÕES!
Artigo sobre as Corvetas da classe João Coutinho:
24/06/14
PROJECTO OCEAN REVIVAL
Recebi o seguinte pedido:
“Caros colegas/amigos/camaradas,
Está a ser produzido um documentário sobre o Projeto Ocean Revival, o afundamento propositado de 4 antigos navios da Marinha Portuguesa, para a criação de um parque subaquático de mergulho e recife artificial.
Na introdução do documentário é contada uma breve história dos navios – Corveta Oliveira e Carmo; Patrulha Zambeze; Fragata Hermenegildo Capelo; Hidrográfico Almeida Carvalho.
São precisas fotos antigas dos navios em actividade. Quem tenha pertencido à guarnição de algum destes navios ou possa ter fotos dos mesmos e esteja disponível para as ceder, por favor entrem em contacto com a produção do mesmo, Dinis Costa ou Miguel Figueiredo (dinis@b-lizzard.pt ou mfigueiredo@b-lizzard.pt). Obrigado”.
Agradecendo desde já,
Um abraço
--
Miguel Cilindro Figueiredo
Rua Joaquim Rocha Cabral, 14 – A 1600-086 Lisboa
Tel. +351 21 727 96 27 geral@b-lizzard.ptwww.vimeo.com/bliz www.b-lizzard.pt
27/05/14
24/05/14
05/05/14
HISTÓRIA À VISTA - 34
HISTÓRIA À VISTA N.º 34, da autoria do VALM REF Adriano de Carvalho, no formato de Resenha Histórica do seu percurso profissional, publicada no dia em que com os seus restantes camaradas do Curso da Escola Naval "D. João de Castro", comemoram 71 anos de ingresso na Armada!
CAPÍTULO N.º I: "Início"
Folheando há dias a minha Nota de Assentamentos, deu-me vontade de registar factos passados na minha vida de Marinha que ainda me restam na memória. Talvez porque os últimos tempos em que servi no activo, fosse em secretárias e não me despertem grande saudade, resolvi (certamente com algumas falhas), restringir-me especialmente aos navios onde embarquei.
A pergunta que inicialmente faço a mim mesmo é: ”porque vim eu parar à Marinha”? A resposta mais fácil seria por razões de destino. Mas se quiser adiantar alguns motivos teria os seguintes: Porque sou natural de Aveiro e passava as férias na praia da Costa Nova onde aprendi a nadar e a velejar. Porque o meu pai (Of. do Exército com magro vencimento) e tinhas mais 2 filhos para educar e seria egoísmo da minha parte concluir um curso na Universidade do Porto onde fiz os preparatórios.
De forma que vim para Lisboa concorrer simultaneamente à Academia Militar e à Escola Naval. A favor da primeira estava o facto de ter aprendido a montar, ainda miúdo, no Regimento de Cavalaria n.º 8 de Aveiro, onde o meu Pai prestava serviço. Cheguei mesmo a entrar em concursos hípicos pelo que escolheria a Arma de Cavalaria. O último “empurrão” no entanto foi da minha mãe, ”para a Escola Naval”, talvez por ela ser filha de gente do mar, avô que já tinha morrido quando eu nasci.
Também pesou a vontade de conhecer o mundo. Por razões que me são alheias, nunca fiz nenhuma comissão no Oriente. O local mais a Leste onde estive foi no Mar Vermelho quando embarquei no “Sam Brás”. Fui sempre para os Açores ou para os EUA.
Em situações em terra, estive também na Guiné e Angola. Foram ao todo cerca de 9 anos fora de Lisboa, excluindo o tempo de pequenas comissões. Mas deixemos estes pormenores e comecemos.
Terminada que foi a Escola Naval e a viagem de Guarda-Marinha a Angola, no aviso de 2.ª classe “Pedro Nunes”, tivemos mais um ano de estágio em que a rapaziada do meu curso foi distribuída por várias missões. A mim coube-me começar por ser Imediato da lancha de fiscalização “Dourada” que juntamente com a congénere “Corvina” operavam na zona Norte (e que se rendiam quinzenalmente).
Esta era comandada pelo então 1º Ten. Soares Branco (mais tarde V. Almirante) e o meu Comandante era um 2.º Ten. de nome Gormicho Boavida, (pessoa de poucas simpatias) que depois de me examinar, achou que podia tomar conta dos quartos à ponte em que me cabia o da meia noite até quase a alvorada.
Desta comissão que durou três meses no Outono de 1946, ocorre-me o seguinte: A determinada altura, tive a triste ideia de sugerir que durante a noite fechássemos as vigias de combate, de forma a não sermos facilmente detectados pelas traineiras espanholas que pescavam nas nossas águas, protegidas pela escuridão. A sugestão foi aceite e resultou em cheio, mas quem se “lixou” fui eu que tive que escrever os autos de transgressão, depois de chegarmos a Leixões com uma dúzia de traineiras espanholas, apresadas perto de Aveiro.
Tudo isto depois de uma noite de faina sem dormir. Numa outra noite mais calma, e já de madrugada, saboreei a sanduiche mais gostosa da minha vida que me foi oferecida pelo padeiro, com pão acabado de sair do forno e uma sardinha fresquinha assada de conteúdo. Finalmente recordo que noutra noitada de nevoeiro, resolvi ir devagarinho com o navio até às proximidades de Leixões, navegando com o auxílio da sonda e marcações radiogoniométricas da nossa (então) estação de Leça.
Quando de manhã cedo tive já o porto à vista, chamei o Comandante, muito orgulhoso do que tinha feito. Levei uma grande descompostura, mandou-me regressar ao mar alto e voltou ao camarote para continuar o sono interrompido.
Calhou-me a seguir mais uma estadia de 3 meses no CT “LIMA” que se encontrava em fabricos no Arsenal do Alfeite e onde a minha vida se resumia a estar de adjunto de Oficial de serviço de 3 em 3 dias. Esta “santa vida” foi bruscamente interrompida para embarcar em diligência no CT “Tejo” que juntamente com o CT ”Vouga” e o “Bartolomeu Dias” (navio-chefe) constituíram uma força-naval para impor a ordem em Tanger (anunciavam-se manifestações), cidade na altura sob a égide da Sociedade das Nações e governada pelo nosso Almirante Magalhães Correia.
A diligência dos G. Marinhas era destinada a comandar pelotões de desembarque para imporem a ordem caso fosse necessário (não havia Fuzileiros nessa altura) e ainda bem que não se registaram desacatos, pois o nosso treino de Infantaria deixava muito a desejar e, nem sequer houve tempo para treinos.
Permanecemos em Tanger um fim-de-semana onde nos foi dado passear pela cidade e não gostei dos albornozes. O regresso no entanto, ficou marcado pelo desencadear de uma tempestade de “levante” no estreito de Gibraltar. Assim o Comandante do “Vouga“ pediu avisadamente para largar com antecedência, de manhã cedo de 2.ª Feira e safou-se.
O “B. Dias” e o “Tejo“ largaram só depois de almoço e apanharam com a violência do mar e vento que felizmente era de popa, mas as vagas não permitiram ao “Tejo” aguentar o rumo. Várias vezes se atravessou e adornou perigosamente pelo que o Comandante pediu ao Chefe para arribar a Gibraltar. Apenas obteve autorização para aumentar a velocidade, mas foi aconselhado pelo Imediato (S. Branco) para não ir nisso e arribar com ou sem autorização.
Foi o que se fez e foi posteriormente destituído à chegada a Lisboa. (Já não me recordo do nome do Comandante destituído que aliás me pareceu boa pessoa). De qualquer forma foi a primeira vez que fui a Gibraltar, tendo aproveitado para comprar várias quinquilharias, incluído um relógio de Cuco que ainda hoje existe em minha casa. Na terceira parte do estágio, coube-me em Maio ir para Imediato da LF “Bicuda” que felizmente actuava no Algarve, livre das desagradáveis nortadas do Norte.
O navio estava a acabar reparações no Arsenal do Alfeite o que me permitiu, (com as respectivas autorizações) levar a bordo um snipe do CNOCA, que mais tarde me tornou possível velejar na Ria de Faro durante os tempos de folga. O meu Comandante era na altura o 1.º Ten. Fonseca, bom profissional, exigente mas correcto no trato. Como era algarvio, olhava frequentemente para as nuvens com receio de estar para vir algum levante.
De resto estávamos já no tempo das praias serem frequentadas, fundeava-mos normalmente para almoço nas proximidades, o que proporcionava algumas visitas a bordo de banhistas femininas. A fiscalização da pesca decorria com normalidade e havia a “tradição” de desculpar, com reprimenda, a entrada ligeira das nossas traineiras nas 6 milhas, o que nos proporcionava agradecimento e a oferta de marisco que se guardava nas frigoríficas, para alturas mais propícias.
Certa vez quando estávamos de folga, andava eu a velejar no snipe, surgiu à entrada da barra de Faro o iate “N. Sª da Piedade” da família “Sotto Maior” que vinha comandado pelo Com. Matoso, e guarnecido por vários Oficiais, (1.º Ten. Fonseca, o Vitorino do meu curso, o antigo Cabo de manobra do “Patrão Lopes” (guardador do iate), etc.
Ficaram muito satisfeitos ao avistarem um snipe do CNOCA. Matoso e esposa seguiram para o Hotel e os restantes pediram-me para vir tomar duche na “Bicuda”. Ofereci-lhes então uma mariscada regada por cervejas. À noite fomos até um café de Faro, beber em galhofa mais umas cervejas e como o Café não tinha casa de banho, resolveu-se, por sugestão do Ten. Fonseca, chamar um táxi para nos levar a uma esquina fazer a necessária “mijada”.
O iate ia posteriormente tomar parte numa regata internacional até Marrocos. Ainda me pediram para reforçar a guarnição, mas o meu Comandante não me autorizou. Voltámos a encontrar-nos mais tarde no cabo de S. Vicente e pediram então reboque até ao Cabo Sardão, mas o Comandante não estava para aí virado, acabando por conceder, caso eu tratasse de tudo.
Assim se fez. O Comandante foi entretanto substituído pelo 2.º Ten. Nascimento que aceitava de bom grado as indicações que lhe dava, provenientes da experiência que tinha adquirido. Demo-nos sempre muito bem e mais tarde quando me encontrava saudava-me sempre com a frase:
- “Olha o meu 1.º Imediato”.
A esposa era uma Sra. algarvia, muito simpática e que saboreava com prazer os mariscos que lhe oferecia, quando aparecia a bordo no regresso a Faro para a folga. Já me esquecia de dizer que fui encontrar no Algarve uma classe de Marinha que desconhecia e que era constituída por 3 “práticos”. A sua missão era manter actualizada a melhor entrada nas barras arenosas e movediças do Algarve, para servirem de pilotos aos Comandantes.
Lembro-me que um deles se chamava Cabrita. Terminada que foi a estadia no Algarve, acabou-se o nosso ano de estágio, seguiu-se o habitual exame prático, a bordo do “Bartolomeu Dias” e a nossa seguinte promoção a 2.º Tenentes.
Coube-me depois o embarque no “S. Brás”, fase de que já tratei em artigo anteriormente publicado. Seguiu-se o curso de especialização em Rádio-Comunicações na antiga Escola de Mecânicos em Vila Franca. Tive como mestres o 1.º Ten. Toscano e o 2.º Ten. Monteiro. O curso era constituído apenas por três 2.º Tenentes (Gil Conde “Av. Naval”, Louçã e eu era o mais “marreta”).
Terminando este capítulo com humor, lembro-me que o Toscano passava quase metade das aulas a dizer que não tinha tempo para terminar o programa e de facto assim foi… Por outro lado, contava histórias engraçadas das quais me recordo da discrição duma visita dele com um amigo a uma exposição de arte moderna. À saída o amigo exclamou:
- “mas que grande mer….
O expositor ouviu e perguntou-lhe se ele percebia alguma coisa de arte moderna. Resposta:
- ”de arte moderna não percebo nada, mas de mer… percebo".
A pergunta que inicialmente faço a mim mesmo é: ”porque vim eu parar à Marinha”? A resposta mais fácil seria por razões de destino. Mas se quiser adiantar alguns motivos teria os seguintes: Porque sou natural de Aveiro e passava as férias na praia da Costa Nova onde aprendi a nadar e a velejar. Porque o meu pai (Of. do Exército com magro vencimento) e tinhas mais 2 filhos para educar e seria egoísmo da minha parte concluir um curso na Universidade do Porto onde fiz os preparatórios.
De forma que vim para Lisboa concorrer simultaneamente à Academia Militar e à Escola Naval. A favor da primeira estava o facto de ter aprendido a montar, ainda miúdo, no Regimento de Cavalaria n.º 8 de Aveiro, onde o meu Pai prestava serviço. Cheguei mesmo a entrar em concursos hípicos pelo que escolheria a Arma de Cavalaria. O último “empurrão” no entanto foi da minha mãe, ”para a Escola Naval”, talvez por ela ser filha de gente do mar, avô que já tinha morrido quando eu nasci.
Também pesou a vontade de conhecer o mundo. Por razões que me são alheias, nunca fiz nenhuma comissão no Oriente. O local mais a Leste onde estive foi no Mar Vermelho quando embarquei no “Sam Brás”. Fui sempre para os Açores ou para os EUA.
Em situações em terra, estive também na Guiné e Angola. Foram ao todo cerca de 9 anos fora de Lisboa, excluindo o tempo de pequenas comissões. Mas deixemos estes pormenores e comecemos.
Terminada que foi a Escola Naval e a viagem de Guarda-Marinha a Angola, no aviso de 2.ª classe “Pedro Nunes”, tivemos mais um ano de estágio em que a rapaziada do meu curso foi distribuída por várias missões. A mim coube-me começar por ser Imediato da lancha de fiscalização “Dourada” que juntamente com a congénere “Corvina” operavam na zona Norte (e que se rendiam quinzenalmente).
Esta era comandada pelo então 1º Ten. Soares Branco (mais tarde V. Almirante) e o meu Comandante era um 2.º Ten. de nome Gormicho Boavida, (pessoa de poucas simpatias) que depois de me examinar, achou que podia tomar conta dos quartos à ponte em que me cabia o da meia noite até quase a alvorada.
Desta comissão que durou três meses no Outono de 1946, ocorre-me o seguinte: A determinada altura, tive a triste ideia de sugerir que durante a noite fechássemos as vigias de combate, de forma a não sermos facilmente detectados pelas traineiras espanholas que pescavam nas nossas águas, protegidas pela escuridão. A sugestão foi aceite e resultou em cheio, mas quem se “lixou” fui eu que tive que escrever os autos de transgressão, depois de chegarmos a Leixões com uma dúzia de traineiras espanholas, apresadas perto de Aveiro.
Tudo isto depois de uma noite de faina sem dormir. Numa outra noite mais calma, e já de madrugada, saboreei a sanduiche mais gostosa da minha vida que me foi oferecida pelo padeiro, com pão acabado de sair do forno e uma sardinha fresquinha assada de conteúdo. Finalmente recordo que noutra noitada de nevoeiro, resolvi ir devagarinho com o navio até às proximidades de Leixões, navegando com o auxílio da sonda e marcações radiogoniométricas da nossa (então) estação de Leça.
Quando de manhã cedo tive já o porto à vista, chamei o Comandante, muito orgulhoso do que tinha feito. Levei uma grande descompostura, mandou-me regressar ao mar alto e voltou ao camarote para continuar o sono interrompido.
Calhou-me a seguir mais uma estadia de 3 meses no CT “LIMA” que se encontrava em fabricos no Arsenal do Alfeite e onde a minha vida se resumia a estar de adjunto de Oficial de serviço de 3 em 3 dias. Esta “santa vida” foi bruscamente interrompida para embarcar em diligência no CT “Tejo” que juntamente com o CT ”Vouga” e o “Bartolomeu Dias” (navio-chefe) constituíram uma força-naval para impor a ordem em Tanger (anunciavam-se manifestações), cidade na altura sob a égide da Sociedade das Nações e governada pelo nosso Almirante Magalhães Correia.
A diligência dos G. Marinhas era destinada a comandar pelotões de desembarque para imporem a ordem caso fosse necessário (não havia Fuzileiros nessa altura) e ainda bem que não se registaram desacatos, pois o nosso treino de Infantaria deixava muito a desejar e, nem sequer houve tempo para treinos.
Permanecemos em Tanger um fim-de-semana onde nos foi dado passear pela cidade e não gostei dos albornozes. O regresso no entanto, ficou marcado pelo desencadear de uma tempestade de “levante” no estreito de Gibraltar. Assim o Comandante do “Vouga“ pediu avisadamente para largar com antecedência, de manhã cedo de 2.ª Feira e safou-se.
O “B. Dias” e o “Tejo“ largaram só depois de almoço e apanharam com a violência do mar e vento que felizmente era de popa, mas as vagas não permitiram ao “Tejo” aguentar o rumo. Várias vezes se atravessou e adornou perigosamente pelo que o Comandante pediu ao Chefe para arribar a Gibraltar. Apenas obteve autorização para aumentar a velocidade, mas foi aconselhado pelo Imediato (S. Branco) para não ir nisso e arribar com ou sem autorização.
Foi o que se fez e foi posteriormente destituído à chegada a Lisboa. (Já não me recordo do nome do Comandante destituído que aliás me pareceu boa pessoa). De qualquer forma foi a primeira vez que fui a Gibraltar, tendo aproveitado para comprar várias quinquilharias, incluído um relógio de Cuco que ainda hoje existe em minha casa. Na terceira parte do estágio, coube-me em Maio ir para Imediato da LF “Bicuda” que felizmente actuava no Algarve, livre das desagradáveis nortadas do Norte.
O navio estava a acabar reparações no Arsenal do Alfeite o que me permitiu, (com as respectivas autorizações) levar a bordo um snipe do CNOCA, que mais tarde me tornou possível velejar na Ria de Faro durante os tempos de folga. O meu Comandante era na altura o 1.º Ten. Fonseca, bom profissional, exigente mas correcto no trato. Como era algarvio, olhava frequentemente para as nuvens com receio de estar para vir algum levante.
De resto estávamos já no tempo das praias serem frequentadas, fundeava-mos normalmente para almoço nas proximidades, o que proporcionava algumas visitas a bordo de banhistas femininas. A fiscalização da pesca decorria com normalidade e havia a “tradição” de desculpar, com reprimenda, a entrada ligeira das nossas traineiras nas 6 milhas, o que nos proporcionava agradecimento e a oferta de marisco que se guardava nas frigoríficas, para alturas mais propícias.
Certa vez quando estávamos de folga, andava eu a velejar no snipe, surgiu à entrada da barra de Faro o iate “N. Sª da Piedade” da família “Sotto Maior” que vinha comandado pelo Com. Matoso, e guarnecido por vários Oficiais, (1.º Ten. Fonseca, o Vitorino do meu curso, o antigo Cabo de manobra do “Patrão Lopes” (guardador do iate), etc.
Ficaram muito satisfeitos ao avistarem um snipe do CNOCA. Matoso e esposa seguiram para o Hotel e os restantes pediram-me para vir tomar duche na “Bicuda”. Ofereci-lhes então uma mariscada regada por cervejas. À noite fomos até um café de Faro, beber em galhofa mais umas cervejas e como o Café não tinha casa de banho, resolveu-se, por sugestão do Ten. Fonseca, chamar um táxi para nos levar a uma esquina fazer a necessária “mijada”.
O iate ia posteriormente tomar parte numa regata internacional até Marrocos. Ainda me pediram para reforçar a guarnição, mas o meu Comandante não me autorizou. Voltámos a encontrar-nos mais tarde no cabo de S. Vicente e pediram então reboque até ao Cabo Sardão, mas o Comandante não estava para aí virado, acabando por conceder, caso eu tratasse de tudo.
Assim se fez. O Comandante foi entretanto substituído pelo 2.º Ten. Nascimento que aceitava de bom grado as indicações que lhe dava, provenientes da experiência que tinha adquirido. Demo-nos sempre muito bem e mais tarde quando me encontrava saudava-me sempre com a frase:
- “Olha o meu 1.º Imediato”.
A esposa era uma Sra. algarvia, muito simpática e que saboreava com prazer os mariscos que lhe oferecia, quando aparecia a bordo no regresso a Faro para a folga. Já me esquecia de dizer que fui encontrar no Algarve uma classe de Marinha que desconhecia e que era constituída por 3 “práticos”. A sua missão era manter actualizada a melhor entrada nas barras arenosas e movediças do Algarve, para servirem de pilotos aos Comandantes.
Lembro-me que um deles se chamava Cabrita. Terminada que foi a estadia no Algarve, acabou-se o nosso ano de estágio, seguiu-se o habitual exame prático, a bordo do “Bartolomeu Dias” e a nossa seguinte promoção a 2.º Tenentes.
Coube-me depois o embarque no “S. Brás”, fase de que já tratei em artigo anteriormente publicado. Seguiu-se o curso de especialização em Rádio-Comunicações na antiga Escola de Mecânicos em Vila Franca. Tive como mestres o 1.º Ten. Toscano e o 2.º Ten. Monteiro. O curso era constituído apenas por três 2.º Tenentes (Gil Conde “Av. Naval”, Louçã e eu era o mais “marreta”).
Terminando este capítulo com humor, lembro-me que o Toscano passava quase metade das aulas a dizer que não tinha tempo para terminar o programa e de facto assim foi… Por outro lado, contava histórias engraçadas das quais me recordo da discrição duma visita dele com um amigo a uma exposição de arte moderna. À saída o amigo exclamou:
- “mas que grande mer….
O expositor ouviu e perguntou-lhe se ele percebia alguma coisa de arte moderna. Resposta:
- ”de arte moderna não percebo nada, mas de mer… percebo".
28/03/14
ARTE MILITAR NAVAL - 06
Para este artigo escolhi os desenhos manuscritos de Luís Filipe Silva das Fragatas da classe "João Belo", tendo um navio da classe sido igualmente afundada para a criação do Parque Subaquático para Mergulho «Ocean Revival» ao largo de Portimão - Algarve, a antiga Fragata NRP "Hermenegildo Capelo" (F 481).
Artigo sobre FRAGATAS DA CLASSE "JOÃO BELO":
http://barcoavista.blogspot.pt/2009/06/fragatas-classe-joao-belo-tipo-de-navio.html
http://barcoavista.blogspot.pt/2009/06/fragatas-classe-joao-belo-tipo-de-navio.html
23/02/14
SECÇÃO DE VIGILÂNCIA DO CAMPO DE BATALHA
Fuzileiro com câmera térmica THALES SOPHIE
A Secção de Vigilância do Campo de Batalha (SECVCB) é uma secção adstrita à estrutura operacional da Companhia de Apoio de Fogos (CAF), que configura uma unidade de apoio de combate do Batalhão Ligeiro de Desembarque (BLD) do Corpo de Fuzileiros da Marinha de Guerra Portuguesa.
A SECVCB subdivide-se em 03 equipas de Vigilância de Campo de Batalha: 01 aérea e 02 terrestres, competindo-lhe detectar, localizar e informar de forma sistemática a presença de forças inimigas (pessoal, viaturas e suas actividades) na área de operações do BLD, isto é, na sua zona de intervenção.
Fuzileiro com telémetro laser N/CROS MkIII
Como Unidade de Vigilância de Campo de Batalha (recolha de informações e vigilância), é parte integrante do sistema de recolha de informação do BLD e depende operacionalmente de um Oficial de Informações.
O seu conceito de emprego advoga que a vigilância da área de operações do BLD deve ser realizada por recurso ao emprego de meios visuais, áudio, electrónicos ou fotográficos, nomeadamente passivos (equipamentos de infravermelhos e intensificadores de imagem), com o desiderato de evitar denunciar a sua presença às forças opositoras.
Imagem obtida por sistema de visão nocturna
Fuzileiro com monóculo de visualização nocturna AN/PVS-14
Efectua a vigilância da área de operações do BLD, mesmo em condições de visibilidade e meteorológicas adversas, através da infiltração de modo dissimulado, para obter informações pormenorizadas de natureza operacional e táctico sobre o dispositivo das potenciais forças hostis.
Dados que são transmitidos no mais curto espaço de tempo ao Elemento de Manobra (BF n.º 2), tentando tirar partido do factor surpresa, ou para executar patrulhas ou montagem de postos de observação.
Fuzileiro com binóculos de visualização nocturna AN/PVS-23
ONDA DA NAZARÉ, COMO SE FORMA?
O Instituto Hidrográfico lança filme que explica o fenómeno da onda da Nazaré numa perspetiva científica, mas com o objectivo de elucidar o público em geral numa linguagem acessível.
http://www.marinha.pt/pt-pt/media-center/noticias-destaques/Paginas/Onda-da-Nazare-como-se-forma.aspx
http://www.youtube.com/watch?v=Yufb2MgcebM&feature=youtu.be
19/01/14
HISTÓRIA À VISTA - 33
HISTÓRIA À VISTA N.º 33, da autoria do 1.º Comandante do Navio de Apoio “NRP São Miguel” - CMG REF Oliveira e Costa (1985-1988), versando sobre o fim da estadia nos EUA e, regresso ao mar.
MEMÓRIA n.º 13: "Chá!"
Depois de uma estadia de cinco dias, de 12 a 17SET87, deixámos MOTBAY
ao fim do dia. O tempo baixara muito. Ainda antes da meia-noite já chovia
copiosamente e estrondosos trovões eram precedidos de tremendos e
brilhantíssimos relâmpagos que nos acompanharam por mais de quatro horas. A
nossa estadia em N. Jersey fora comovente junto da nossa gente!
A comunidade portuguesa ali residente não sabia o que havia
de nos fazer, em retribuição, pelo prazer que lhes tínhamos levado com a nossa
presença. Largámos do cais dizendo adeus aos que ali quiseram estar a
despedir-se apesar de, na madrugada seguinte, terem de sair para o trabalho,
sempre exigente ao longo da semana. Só nas sextas-feiras à noite e nos sábados
gozavam a família.
Nos outros dias era trabalhar e amealhar para, nas férias,
virem à Terra ou juntando-se aos outros familiares, ali residentes, suportarem
as despesas dos que por cá ficaram. Assim viam-se todos, festejavam a Família,
e saía mais barato “o reencontro”, nos EUA. Para esses, que estavam do outro
lado do “lago”, não era o mesmo que ir à Terra, em Portugal, mas… Aquela noite
foi uma noite trabalhosa pelo cuidado exigido com a navegação.
No dia seguinte durante toda a manhã choveu, e bem! Depois
levantou. Um sol radioso e, o tempo, foi ficando quente e opressivo. O pessoal
continuava interessado no navio e cuidadoso no serviço. A partir da Horta
instituímos a bordo, e para valer durante a viagem, quando a navegar, um novo
costume onde o jantar dos Oficiais, às quintas-feiras, passou a ser orientado,
na cozinha, pelos mesmos manifestando cada um e “democraticamente” os seus
dotes culinários! Logo no início foram aprovados com discursos de circunstância
e aplausos, os “Quiches” do Imediato, Cte. Meyrelles, a “Torta de Cenoura” do
AN, Chefe do Serviço de Abastecimento, Ten. Soares Lopes e o “Irish
coffee” do Dr. Silva Pires.
Também para os almoços de quarta-feira passaram a ser
convidados dois sargentos e duas praças. A vida a bordo ia-se cumprindo. A
próxima passagem por Fortaleza, com ETA para 29SET, era aguardada por todos com
expectativa! Em qualquer conversa vinha sempre à baila a próxima chegada ao
Brasil! Era uma tirada longa de 12 dias. O tempo mantinha-se quente. O pessoal
começava a mostrar “cansaço” devido aos aparelhos de ar condicionado sempre com
limitações no seu funcionamento.
No dia 19SET, já ao fim do dia, passámos ao norte das
Bermudas. Não acreditava em bruxas… mas resolvera passar por fora do “Triangulo
das Bermudas”! No dia seguinte, uma calmaria opressiva sem uma aragem sequer,
mar chão por vezes estanhado, onde se iam descobrindo pequenos redemoinhos
indiferentes à passagem do navio. Fazia impressão – uma assustadora impressão!
Recordei como eram semelhantes aos que vira no rio Tejo quando, bem pequeno, o
meu pai me levava a passear ao domingo, nos cacilheiros, para ver os golfinhos!
O medo que então sentira ressurgira agora! Ver a água a
rodopiar e a entrar no “buraco”, que não tinha mais de um metro de diâmetro,
trazia uma sensação de insegurança muito real. Havia silêncio, só mar e céu,
sem nuvens, e de uma cor azul difusa e pardacenta, sem navegação à vista. Era
só o S. Miguel “marchando”, num meio que parecia hostil, envolto numa muito
ténue e transparente neblina, morna e opressiva! Recordei contos antigos e
textos lidos relativos à vida a bordo no tempo dos descobrimentos.
O que seria pairar, numa zona como aquela, nos navios de
vela daquele tempo? Os aparelhos de ar condicionado iam “dando o tiro” de forma
sequencial! Recordo quando das minhas “andanças” pelo navio de encontrar o 1º
Ten. Eng.º Castro Figueiredo na sombra da baleeira, por debaixo da asa da
Ponte, de cócoras, todo encharcado em suor e “às voltas” com um equipamento
“esventrado” tentando perceber a razão da “sua” teimosia em não funcionar
correctamente.
A maioria das avarias era provocada pelo incorrecto
manuseamento dos “beneficiários” provocando desnecessárias avarias ou erráticos
funcionamentos! Comportamento difícil de contrariar face aos 42 graus
centígrados que se faziam sentir no interior dos alojamentos! Dos equipamentos
existentes somente cerca de metade ainda trabalhavam e, mesmo assim, de forma
deficiente! Embora requisitada a reparação, ou eventual substituição, dos equipamentos
avariados, nunca tal foi superiormente considerado!
O aparelho instalado na camarinha tinha avariado ainda
antes da chegada ao Faial mas, como tinha o privilégio de ter “janelas” para o
exterior, passara bem sem ele até ali. Agora sentia-se bem a sua falta! Um dos
alojamentos mais frescos era a câmara dos Oficiais e por lá nos recolhíamos e
convivíamos sempre que possível. Os dias iam passando mornos, cansativos e
desgastantes. Já a meio da viagem o Imediato contou-me uma “peripécia” vivida
pelo impedido dos Oficiais, o Marinheiro Mira.
Quando trazia chá frio para a Câmara, a pedido dos Oficiais
que ali se encontravam, foi parado pelo Sargento Enfermeiro que exigiu saber o
que levava no bule. Quando o Mira respondeu que era chá cresceu para ele
enquanto incrédulo e em voz alta repetia:
- “Chá?”.
De seguida levantou a tampa para cheirar o conteúdo!
Terminada a observação deixou-o seguir. Ouvido o relato inquiri preocupado se
havia alguma razão especial para o sucedido. A explicação foi simples. Do
aprovisionamento autorizado a embarcar para a cantina, nesta viagem,
contavam-se algumas caixas de Whisky quantidade que, desde logo, foi
considerada reduzida - raiando o ridículo - face às actividades de
representação que se esperavam vir a concretizar.
Não tendo merecido acolhimento favorável, o nosso pedido de
reforço, propôs o Oficial Imediato, pelo conhecimento de situações semelhantes
que estiveram na origem de alguns problemas, que fosse estipulada, logo no
inicio da viagem, a distribuição do material para representação, pelas câmaras
dos Oficiais, Sargentos e refeitório sendo o remanescente equitativamente
distribuído pelo pessoal evitando-se, logo à partida, o eventual surgimento de
murmúrios ou de situações desnecessárias.
Aceitei naturalmente. Aquele tempo quente e enfadonho, desde
a saída dos “States”, tinha acelerado o consumo das bebidas e o Sargento Enfermeiro
pressupôs que a câmara de Oficiais estava a usufruir de tratamento
diferenciado… - o que não era verdade. O Chefe do Serviço de Abastecimento e o
Imediato foram cuidadosos e a distribuição fora feita dando conhecimento à
guarnição do que fora decidido pelo comando e, agora, aquela “ocorrência” não
se encaixava, nos meus padrões de disciplina, podendo dar origem a
desagradáveis situações futuras.
A minha preocupação, na apreciação do comportamento do
pessoal, infelizmente, tornara-se real. Estava na altura de falar com Lisboa!
Não podia deixar que esta “ocorrência” contaminasse uma guarnição até ali
esforçada, cuidadosa e impecável. Dos EUA enviara, para o Cte. Abrantes Lopes,
no GABCEMA, uma extensa carta dando conta da viagem, das minhas alegrias, dos
sucessos, pelo menos como eu os considerava, do estado do pessoal e do seu
comportamento, das minhas ansiedades e preocupações onde incluíra algumas
considerações sobre o Sargento Enfermeiro que, no relacionamento social mostrava
um comportamento muito confiado, deixando-me intuir uma apreciação negativa.
Na Cabine em comunicação com Lisboa, na presença do Imediato
e do Sargento de comunicações, fui adiantando que a viagem continuava calma,
embora trabalhosa pelas avarias que iam surgindo, nos diferentes serviços o
que, a par com a condução do navio, ia mantendo toda a guarnição ocupada. O
tempo morno, opressivo e maçador que se fazia sentir ia provocando um natural
“cansaço” no pessoal, agravado pelas continuadas avarias nos aparelhos de ar
condicionado.
Apesar do saber e dedicação do pessoal havia limitações que
só a indústria particular podia efectuar. A resolução da maioria das avarias a
bordo de um navio mercante tem especificidades e filosofias bem diferentes das
de um navio de guerra. Apesar de tudo íamos conseguindo manter o “S. Miguel” operacional.
Continuava confiante no pessoal, no seu bom comportamento e esperava não ter
problemas disciplinares… O Cte. Abrantes Lopes que continuava a acompanhar, a
“vida” do navio, com a maior atenção parecendo ler-me o pensamento respondeu
dizendo:
- “…o Almirante continua empenhadíssimo no
sucesso da Missão do “S. Miguel”, pediu-me para me manter a par do evoluir da
viagem e que qualquer problema disciplinar deveria ser tratado com a brevidade
possível podendo, em caso de reconhecida gravidade, desembarcar e “recambiar”,
para Lisboa, o pessoal em falta!”
Na despedida disse ainda:
- “O navio não deve ser distraído da Missão que
lhe foi atribuída”.
Agradeci sensibilizado o cuidado e atenção reafirmando a
nossa intenção de assim continuar a proceder. Certamente que, logo a seguir, o
“recado” de Lisboa deve ter sido entregue ao destinatário… Naquele dia à noite
o ambiente a bordo estava mais “leve” e nunca mais senti qualquer atitude de
desconfiança ou menos respeitosa entre elementos da guarnição. O sigilo e
confidencialidade do que se passara na Cabine “foram preservados” tal e qual
como eu desejava! Considerei essa atitude como uma “quebra de segurança
piedosa”!
Dois dias antes da prevista aterragem a Fortaleza, domingo
dia 27SET celebrámos a “Passagem da Linha” com a tradicional Festa do Rei dos
Mares, precedida de um almoço de churrasco, na Popa, a que não faltou o bolo.
Sobre a tampa do Porão n.º 2 foram colocados artefactos de fortuna mobilando,
de forma digna embora modesta, um improvisado tribunal onde iriam ser, ali
mesmo e no acto, julgados, sentenciados e punidos de forma exemplar, todos
aqueles que ousaram enfrentar e afrontar o “Neptuno,
Rei dos Mares”!
A mim, apesar das prerrogativas de comandante do NRP “S.
Miguel” que julgava intercederem a meu favor, de nada me valeram, antes pelo
contrário. Em manifesto excesso de zelo fui sentenciado, ao que disseram, de
forma exemplar e com sentença agravada, com pagamento em vitualhas, excesso
justificado por imoderação de linguagem na apreciação do trabalho de terceiros
ao elogiar de forma excessiva e desnecessária o desempenho do Mestre, Sarg.
Vasconcelos, do Despenseiro, cabo TFD João Carrapeto e do Sargento Máq. Canseiro.
A todos os julgados foi entregue Certidão do Acto que de futuro
serviria de livre-trânsito. Documento feito, em cartão timbrado, e selado, do
NRP “S. Miguel” no computador do Ten. Pico, que o adquirira quando da passagem
pelos States. Rezava como segue.
Por
Graça de Sua Majestade “Neptuno Rei dos Mares”, certifico que nos idos de 27 de
Setembro, navegou pelas águas de latitude zero a bordo do “ SÃO MIGUEL ”, Navio
da Republica de Portugal d’aquem e d’alem mar Açores, Madeira e Macau, o Senhor:
29959. Cap. Frag. JOSE MANUEL RODRIGUES DE
OLIVEIRA COSTA
Conforme
usos e costumes, pela incautelencia foi justamente julgado e severamente punido
pelo Tribunal de Sua Majestade, ficando assim autorizado a passar eternamente,
Assinado
no MAR ATLANTICO, 27 de Setembro de 1987 pelos Presidente, Juiz e Escrivão.
No dia da chegada a Fortaleza ainda a 50 milhas de terra,
aos primeiros alvores, passámos por uma frágil Jangada do Ceará pairando e à
pesca com um só pescador. Embarcação utilizada na pesca artesanal, no alto mar,
feita com seis toros de madeira leve! Habituados a um S. Miguel espaçoso foi de
todos grande admiração a fragilidade e pequenez daquela embarcação à vela que
mais parecia uma rude jangada - que o era de facto - a tão grande distância de
terra.
O dia crescia rapidamente ventoso e um sol brilhante
produzindo, naquele mar picado de vento, fortes e resplandecentes reflexos
esverdeados ao longo de toda aquela vasta planura aquática. Até entrarmos no
porto fomos sempre avistando jangadas algumas delas com dois pescadores. O
vento fresco fazia levantar uma “poeira” do mar deixando entender num horizonte
difuso e baixo, cor de areia, onde se ia descortinando conforme o navio
avançava, dum aglomerado de torres num extenso areal, uma enorme cidade junto ao
mar.
No cais atracámos logo a seguir ao Navio Escola “Custódio
de Melo” que ali se encontrava em Viagem de Instrução de Cadetes. A Banda,
embarcada no Navio Escola, estava formada no local onde atracámos e tocou
durante a nossa faina. Foi o primeiro momento alto da nossa chegada a
Fortaleza, Brasil, depois de oito dias de uma cansativa e trabalhosa viagem.
Por determinação de Lisboa foi requerido, à indústria
particular, efectuar as reparações consideradas inadiáveis, face ao próximo movimento,
até Maputo, que demoraria cerca de 18 dias sendo a autonomia do navio de 21.
Estes pequenos fabricos prolongaram a nossa estadia, em Fortaleza, por mais
cinco dias, num total de oito enternecedores e intensos dias! O Destino ia-nos
“compensando” das nossas dores, suportadas nos dois últimos e longos anos
vividos no NRP “S. Miguel”!
O desejo acalentado por muitos de pisarem terras do Brasil
estava quase a cumprir-se. As espias já estavam passadas a terra e o navio
amarrado!
20/12/13
15/12/13
SECÇÃO DE SAPADORES DA CAF
A Secção de Sapadores (SECSAP) é uma secção adstrita à estrutura operacional da Companhia de Apoio de Fogos (CAF), que configura uma unidade de apoio de combate do Batalhão Ligeiro de Desembarque (BLD) do Corpo de Fuzileiros da Marinha de Guerra Portuguesa.
A SECSAP subdivide-se em 03 equipas de Sapadores, competindo-lhe primariamente a neutralização de obstáculos edificados por forças opositoras, nomeadamente minas AP / AC e fortificações do seu sistema defensivo que dificultem operações de desembarque, progressão no terreno ou a mobilidade táctica do BLD.
Sapador em treino de desminagem
Secundariamente tem por missão estabelecer obstáculos (como por exemplo instalar campos de minas anti-carro), à mobilidade das forças opositoras, por forma a negar-lhes a utilização de terreno ou infra-estruturas e, apoiar a preparação de posições defensivas do BLD.
A execução de demolições ou neutralização de obstáculos (como por exemplo abrir passagens em campos de minas), visa a abertura de brechas no sistema defensivo de forças hostis, podendo a SECSAP ser empregue em apoio directo do BLD ou em reforço de uma unidade de FZ's.
Sapador com fato de protecção EOD 8 e detector de metais Schiebel AN-19/2
Sapador com fato de protecção EOD 8 e detector de metais Schiebel AN-19/2
As equipas de Sapadores são responsáveis por fornecer o serviço de Sapadores (manuseamento de cargas explosivas, identificação, levantamento e destruição de engenhos explosivos convencionais, improvisados e NBQ).
10/12/13
EXERCÍCIO TRÓIA DA CAF 2013
http://www.youtube.com/watch?feature=player_detailpage&v=ybHj8YWn3ec&list=PLCAC61A2D65FEEFCE
Artigo sobre o PELREC: http://barcoavista.blogspot.pt/2012/01/pelotao-de-reconhecimento-da-caf.html
Artigo sobre o PELMORT: http://barcoavista.blogspot.pt/2011/11/pelotao-de-morteiros-da-caf.html
Artigo sobre o PELCAR: http://barcoavista.blogspot.pt/2011/12/pelotao-anti-carro-da-caf.html
Artigo sobre o PELREC: http://barcoavista.blogspot.pt/2012/01/pelotao-de-reconhecimento-da-caf.html
Artigo sobre o PELMORT: http://barcoavista.blogspot.pt/2011/11/pelotao-de-morteiros-da-caf.html
Artigo sobre o PELCAR: http://barcoavista.blogspot.pt/2011/12/pelotao-anti-carro-da-caf.html
18/11/13
ARTE MILITAR NAVAL - 05
ACTUALIZADO
Neste artigo da resenha "Arte Militar Naval" apresento o desenho manuscrito de Luís Filipe Silva correspondente às Lanchas de Fiscalização de Pesca da classe "Azevia". Não o faço por acaso, mas por ter tido recentemente conhecimento que tive um antepassado que fez parte da guarnição de 02 lanchas desta classe.
Neste artigo da resenha "Arte Militar Naval" apresento o desenho manuscrito de Luís Filipe Silva correspondente às Lanchas de Fiscalização de Pesca da classe "Azevia". Não o faço por acaso, mas por ter tido recentemente conhecimento que tive um antepassado que fez parte da guarnição de 02 lanchas desta classe.
Infelizmente não o conheci, pois faleceu vários anos antes de eu nascer, não teve descendentes e, também não consegui até à data apurar muitos dados junto dos meus familiares, não deixando de ser no entanto interessante para mim.
Era meu Tio-avô materno de nome completo António Rodrigues, nasceu por volta de 1910, natural da Freguesia de Tadim ou Vilaça, ambas do Concelho de Braga.
Observando a única foto que reuni que data de 11/05/1962, atingiu pelo menos a patente de 1.º Sargento da classe de Fogueiro (Condutor de Máquinas só surgiu na década de 70).
Ainda segundo familiares mais velhos era do Quadro Permanente da Armada e, prestou serviço em diversos navios, sendo que somente se recordam de estar destacado nas conhecidas Lanchas de Fiscalização de Pesca: P 597 "NRP Corvina" e P 598 "NRP Dourada", ambas da classe "Azevia".
Os 02 navios da Briosa, na década de 60 e 70 do século passado, atracavam com bastante regularidade no Porto de Leixões e, no cais fluvial do Bicalho em Massarelos - Rio Douro, situado muito perto do local onde hoje se situa o Museu do Carro Eléctrico e a Ponte da Arrábida.
Tal sucedia porque estavam atribuídas em permanência ao Comando da Zona Marítima do Norte, sendo que grande parte das suas guarnições era constituída por naturais da região Norte. Ainda segundo me contaram, chegavam mesmo a fundear por vezes no meio do próprio rio, amarrados a umas grandes bóias, sendo conhecidas popularmente na Marinha Portuguesa por "Pescadinhas do Douro".
Tratou-se de uma classe de 06 Lanchas de Fiscalização construídas no Arsenal do Alfeite que serviram a Marinha de Guerra Portuguesa entre 1941 e 1976, cujo emprego operacional visava nomeadamente missões de SAR e fiscalização das pescas ao largo da costa de Portugal Continental.
Toda a classe tinha a particularidade de ter nomes de peixes e, inicialmente tinham pintado nas amuras a letra inicial do nome do navio, mais tarde substituído pelo número de amura.
Principais características:
DESLOCAMENTO: 275 toneladas
DIMENSÕES: 42, 5 x 6,5 x 2,1 metros
PROPULSÃO: 02 motores diesel de 2.400 bhp - 2 veios
VELOCIDADE MÁXIMA: 17 nós
AUTONOMIA: 2.470 milhas a 11 nós ou 850 milhas a 17 nós
COMBUSTÍVEL: 25 toneladas de gasóleo
GUARNIÇÃO: 30 militares
ARMAMENTO: 2 Peças Oerlikon de 20mm
1.º Sargento Condutor de Máquinas António RodriguesOs 02 navios da Briosa, na década de 60 e 70 do século passado, atracavam com bastante regularidade no Porto de Leixões e, no cais fluvial do Bicalho em Massarelos - Rio Douro, situado muito perto do local onde hoje se situa o Museu do Carro Eléctrico e a Ponte da Arrábida.
Tal sucedia porque estavam atribuídas em permanência ao Comando da Zona Marítima do Norte, sendo que grande parte das suas guarnições era constituída por naturais da região Norte. Ainda segundo me contaram, chegavam mesmo a fundear por vezes no meio do próprio rio, amarrados a umas grandes bóias, sendo conhecidas popularmente na Marinha Portuguesa por "Pescadinhas do Douro".
Tratou-se de uma classe de 06 Lanchas de Fiscalização construídas no Arsenal do Alfeite que serviram a Marinha de Guerra Portuguesa entre 1941 e 1976, cujo emprego operacional visava nomeadamente missões de SAR e fiscalização das pescas ao largo da costa de Portugal Continental.
Toda a classe tinha a particularidade de ter nomes de peixes e, inicialmente tinham pintado nas amuras a letra inicial do nome do navio, mais tarde substituído pelo número de amura.
Principais características:
DESLOCAMENTO: 275 toneladas
DIMENSÕES: 42, 5 x 6,5 x 2,1 metros
PROPULSÃO: 02 motores diesel de 2.400 bhp - 2 veios
VELOCIDADE MÁXIMA: 17 nós
AUTONOMIA: 2.470 milhas a 11 nós ou 850 milhas a 17 nós
COMBUSTÍVEL: 25 toneladas de gasóleo
GUARNIÇÃO: 30 militares
ARMAMENTO: 2 Peças Oerlikon de 20mm
Modelo de madeira da Lancha P 598 "NRP Dourada" oferecida ao Alm. Magalhães Queiroz que, foi seu Comandante, por um Vianense.
15/11/13
04/10/13
28/09/13
ARTE MILITAR NAVAL - 04
Concluída a criação do Parque Subaquático para Mergulho «Ocean Revival» ao largo de Portimão - Algarve, com o afundamento do antigo Navio-Hidrográfico NRP "Almeida Carvalho" (A 527) da Marinha de Guerra Portuguesa, nada melhor que apresentar o respectivo desenho manuscrito de Luís Filipe Silva do navio em apreço.

Configuração do Navio-Hidrográfico NRP "Almeida Carvalho".
08/09/13
HISTÓRIA À VISTA - 32
HISTÓRIA À VISTA N.º 32, da autoria do 1.º Comandante do Navio de Apoio “NRP São Miguel” - CMG REF Oliveira e Costa (1985-1988), versando sobre a estadia nos EUA.
MEMÓRIA n.º 12: “ …e onde levam o dinheiro?”
Deu para entender que a nossa curta estadia no MOTBAY iria ser muito movimentada. Parecia que havia electricidade no ar. Tudo se fazia depressa como se tivessem medo de que o dia ia acabar antes das tradicionais 24 horas! Só destoava deste granel organizado o pessoal de serviço que ia cumprindo as tarefas cometidas. Desde que atracámos muitas pessoas passavam junto do navio e, se houvesse alguém a bordo à vista e capaz de os ouvir, era certo e sabido que metiam conversa em português, claro!
O NRP “São Miguel” parecia que tinha mel… Julgo que ao longo daqueles quatro dias houve sempre gente à amurada respondendo a terra, antes de entrarem a bordo, pois quando possível, eram convidados a subir. Uma constante, em todos os Portos onde passámos, durante a viagem. Era indescritível o bem-estar e a alegria manifestada por aqueles que nos visitavam…
A “Navy” pôs ao nosso dispor um carro descaracterizado, com condutor militar, que aproveitámos para as nossas deslocações a Newark e a Nova York. Na “Big Apple” fomos ao Banco Totta na “downtown”, fomos ver as últimas novidades em novas tecnologias na loja da Berta, uma brasileira grande, simpática, faladora e de muito bom humor que afirmava ter nas tripulações da TAP os seus maiores amigos e clientes, ficando para depois, quando possível, os passeios a pé pela “Broadway” e pela baixa da cidade não esquecendo de visitar algumas lojas da Rua 42!
Os compromissos oficiais não nos deixavam muito tempo livre. O tempo tinha de ser bem gerido. Passeei por diversas ruas de Newark, já ao fim do dia, onde a maioria dos residentes são portugueses oriundos de Ílhavo. Nas ruas, àquela hora, poucos eram os carros que passavam já que a maioria dos residentes se tinha recolhido às suas casas.
No dia seguinte às seis da manhã já muitos estavam na rua, a caminho do emprego! Em Manhattan, numa das idas, fiquei sozinho e “a pé” por duas horas. Comi um “hot dog” comprado numa carrinha de venda ambulante e passeando pela estação dos ferries, com inusitado movimento de pessoas, reparei que o preço da passagem e visita à Estátua da Liberdade era de 25 dólares enquanto o ferry para Brooklyn, que me deu ideia de passar também pela Estátua, era somente de 2,5. “Feito chico esperto” nem pensei duas vezes.
Comprei o bilhete de $2,5 e embarquei! O “ferry” largou e passou ao largo da Estátua mas… nela não parou! Ri-me da minha esperteza saloia! E ainda hoje me rio sempre que algo me faz recordar este episódio. Chegado ao fim da viagem não desembarquei e continuei sentado, gozando o sol, para dez minutos depois reiniciar a viagem de regresso ao terminal na “downtown” e passando novamente ao largo da Estátua! Claro está que, a bordo, não contei a ninguém!
Durante a viagem de retorno pensei se não seria o meu “Karma dos cacilheiros”… e recordei com um saudoso sorriso uma outra cena passada nos meus tempos de Guarda-Marinha. Em Cacilhas, juntamente com o Padre Melo, “apanhámos” o cacilheiro para Lisboa, subimos a escada e sentámo-nos logo na bancada circular à popa. Logo depois embarcava um grupo de Oficiais que saudaram o Padre Melo tendo um deles vindo cumprimentar, com um aperto de mão, o Capelão. De seguida pôs a mão em cima da minha cabeça e esfregou-me os cabelos, numa atitude paternal, dizendo:
- “Olá estás bom?”.
Sem me dirigir o olhar nem aguardando qualquer resposta regressou de seguida ao grupo que deixara. Nada disse ao Padre Melo mas soube tratar-se do Comandante Fausto Melo Águia. Mais tarde andámos embarcados, os três, na Sagres. Estes dois episódios recordo-os, com saudade, sempre que vejo cacilheiros e dos dois me rio igualmente com vontade interiorizando o que, na altura, qualquer um deles representou para mim!
Na tarde do segundo dia, em MOTBAY, oferecemos a bordo uma Recepção tendo sido convidadas autoridades portuárias, navais e da Guarda Costeira, presidentes das Associações Portuguesas, sediadas em Newark, bem como muitos portugueses e luso-americanos ali residentes.
Tivemos igualmente a companhia do Comandante Carlos Souto, Adido de Defesa, e da mulher Brenda Souto, do Comandante Carneiro Vieira, do Comandante Aires Moura Domingues, Chefe da Delegação em Washington da Missão para a Construção das FF CL. Vasco da Gama, e da mulher Lurdes Domingues, do Comandante Bossa Dionísio, Adjunto do Cte. Moura Domingues, na Delegação das FF CL. Vasco da Gama, e da mulher Francisca Dionísio, que muito contribuíram para o êxito daquele evento social.
Da Ponte, onde iam sendo “acolhidos” os convidados, via-se perfeitamente o elevado número de pessoas que iam entrando no NRP “São Miguel”. Os portugueses faziam-se acompanhar dos familiares mais próximos proporcionando-nos a grata possibilidade de partilhar a alegria, que exuberantemente mostravam, de pisarem solo nacional, falando português, e comunicando, para o convívio, muito do que de mais sagrado traziam no peito, “mantendo-os vivos”, fora do seu torrão natal.
A bordo, dos privilegiados ouvintes, ninguém ficou insensível aos sentimentos expressos. Os convidados com “carga oficial” mantinham-se na Ponte. Os restantes estendiam-se pelo navio percorrendo-o, da proa à popa, num feliz corrupio, tagarelando continuamente! As raparigas luso-americanas iam interpelando, em português, todos os que se cruzavam no seu caminho. Garridamente vestidas, alegravam a recepção com ruidosas gargalhadas, e, tirando fotografias, não davam tréguas ao pessoal mais jovem da guarnição que, uma vez “capturado”, tinha de posar para “o retrato” por vezes em diferentes locais do navio! Estes, sorridentes, estiveram sempre disponíveis!
Na Ponte iam sendo servidas bebidas e distribuído o “nosso” tradicional, e mandatório, Bacalhau à Brás a que não faltava as tradicionais azeitonas pretas e salsa picada. O Despenseiro, cabo TFD João Carrapeto, e o Oficial Chefe do Serviço de Abastecimento, 1º Ten. AN Júlio Soares Lopes quais duas bênçãos caídas do céu, cuidavam do êxito da Recepção. O primeiro, zelosamente, desdobrava-se entre a cozinha e a Ponte ora servindo ora coordenando o pessoal da taifa e o segundo supervisionando, orientando e recuperando de situações menos conseguidas naquela cerimónia.
A eficiência sentia-se e os convivas disso davam conta desdobrando-se em elogios e agradecimentos. A Recepção foi um verdadeiro sucesso! Da cozinha iam saindo travessas atrás de travessas! No início o caminho para a Ponte fazia-se com facilidade mas, pouco tempo passado, começou a ser um percurso de ”difícil escoamento” reduzindo de forma drástica o “abastecimento das vitualhas” à Ponte!
Foi então que o despenseiro veio ter comigo com uma cara denotando preocupação. Nem o deixei falar dizendo-lhe que não havia problema pois os convidados não tinham vindo para comer! Mentira piedosa pois se mais bacalhau houvesse mais comeriam! Com um desmaiado sorriso regressou! Na asa da Ponte a BB, e a ré, foi colocada um barril de vinho tinto, assente no seu descanso, havendo sempre alguém por perto, e disponível, para “ensinar” como se recolhia o precioso néctar.
Muitos foram os que pela primeira vez manusearam uma delicada torneira de madeira, tornando-se exímios na sua operação! A postura respeitosa, reverente e cerimoniosa praticada no início da Recepção perdeu a rigidez dando lugar, facilmente, a um encontro de amigos onde todos se respeitavam. As diferenças culturais, tão especificamente visíveis, nivelaram-se natural e espontaneamente, por todos, militares e civis.
O “Encantamento da Saudade” era a essência que a todos envolvia intensa e amorosamente. Da saída dos convidados guardo dois momentos. O primeiro quando um dos Oficiais da Guarda Costeira depois de cumprimentar militarmente voltou atrás e deu-me um caloroso aperto de mão dizendo:
- “Keep it running. Good luck…”, olhando apreciativamente para o navio enquanto me dizia estas palavras.
Considerei um elogio e tive a percepção de que ele deveria estar “a viver”, profissionalmente, uma situação paralela ou saíra recentemente de uma idêntica, ou então uma que vivera e nele ficara impressa para o resto da sua vida.
Enquanto descia a prancha, deixando o NRP “São Miguel”, desejei-lhe sorte e força para desfrutar da vida de marinha que ainda tinha pela frente. O segundo foi quando a Lurdes, mulher do Cte. Moura Domingues, nossos afilhados de casamento, sempre presentes, ao despedir-se, já na prancha, disse-me em voz baixa de forma a só eu o entender:
- “corta isso que não te fica bem”.
Desde que saíra de Lisboa que não fizera a barba e tencionava deixá-la crescer ao longo da viagem. Um marinheirão à antiga! Com duas semanas estava pequena e embora me incomodasse bastante, principalmente no pescoço, aguentava com estoicismo! Claro que, ainda nesse mesmo dia, na primeira oportunidade, fui cortá-la. A minha vaidade sofrera mais um rude golpe…
Outro ponto alto da nossa passagem pelos EUA foi a inclusão das fotos, nos ficheiros do FBI, de alguns Oficiais da guarnição do NRP “São Miguel”! Julgo que serão poucos os Oficiais que se podem gabar ou exibir tal afirmação!
Na manhã do 3.º dia, bem cedo, fomos ao Banco (Totta) em Manhattan. Informou-se o condutor e “metidos” no trânsito fomos de N. Jersey para a “downtown” de Manhattan. Estacionado o carro, dirigimo-nos ao Banco e entrámos ainda antes das oito horas. Enquanto me dirigia ao guichet o Ten. Soares Lopes e o Dr. João Pires ficaram à-vontade no sóbrio, espaçoso e sumptuoso átrio.
No guichet entreguei os documentos à sorridente empregada. Começou a lê-los com um largo sorriso para depois, de reler o documento, me olhar de forma estranha, pondo a mão sobre a boca, e falando para o balcão, quase de forma imperceptível não me deixando entender o que dizia. A funcionária aparentava algum nervosismo e os seus olhos varriam todo o átrio de forma inquisidora.
Não conseguindo entendê-la nem tão pouco o Dr., que se juntara a mim entretanto, chamei o Soares Lopes e pedi-lhe para ver se a entendia. Como por magia a comunicação entre os dois parecia fluir normalmente. Após um pequeno compasso de espera voltou com um sorriso, para junto de nós, dizendo que teríamos de esperar pois o Banco tinha necessidade de efectuar certos procedimentos. Notámos movimento de homens que se colocaram na porta principal e junto das altas e elegantes janelas ogivais, de vitral, que iluminavam o sumptuoso átrio.
A funcionária elegeu, o “nosso” Chefe do Serviço de Abastecimento, como seu interlocutor privilegiado e com ele ia dialogando e mantendo-o ao corrente da situação! Primeiro queria saber para quê tanto dinheiro vivo? Depois de esclarecida perguntou onde o levava tendo de imediato o Soares Lopes respondido:
- “in this small bag” levantando no momento, e à altura do guichet, um pequeno saco de viagem de cor azul!
A funcionária ia mantendo contacto telefónico com alguém que deveria estar a controlar a nossa presença… Para o Soares Lopes perante a tardia satisfação do nosso pedido dirigiu-se à “sua conexão bancária” inquirindo se havia mais algum problema com a requisição de fundos. “Que não. Estava tudo em ordem”, só que tão “large amount” (perto de trinta e um mil contos em dólares americanos) fora inicialmente relacionado com negócios de tráfico de armas, droga ou de pessoas originando, automaticamente, a informação ao FBI.
Acalmados os ânimos, confirmada a veracidade da documentação e transmitida uma esfarrapada desculpa o saco passou pelo guichet vazio e… regressou cheio pela mesma via! Aliás o Banco já tinha implementado a sua segurança, através de pessoal distribuído pelo Hall, e o FBI já estava no Banco. Informaram o Soares Lopes de que só teriam segurança no interior do Banco e que cessaria logo dele saíssem! Chamaram o condutor e informaram-no igualmente da situação.
Lembro-me, nesta altura, de ver o Dr. em contra luz fora da porta principal, a filmar descontraidamente, como se nada estivesse a acontecer! Com o dinheiro no saco saímos, a pé, para o carro, já passava das 1300. Quando o condutor ficou ao volante informou que iria seguir por um trajecto mais longo utilizando outra ponte para “fugir” ao trânsito. Conduziu numa velocidade acima do andamento que levara de manhã. Chegados ao navio, saiu do carro e abrindo as portas ia-nos cumprimentando, um a um, como se tivesse saído de um grande percalço!
Julgo ser de juntar aqui, não vá esquecer-me, de mais uma cena jocosa e ridícula relacionada com o dinheiro levantado nos EUA, conforme orientação da SSF. Não houve uma ordem nem instrução formal para levar os U$D, “poupados” na viagem, para Lisboa. Contudo estava subentendido o acolhimento favorável do saldo nessa divisa no final da missão. Quando o dólar entrou num terrível plano inclinado sucederam-se as comunicações no sentido de “pagar o máximo”, se não a totalidade das despesas, incluindo "a de compelir" a guarnição a receber o subsídio de embarque.
Este último desiderato foi “desagradável” até na forma como foi requerido pela SSF. O drama era que a guarnição não tinha onde gastar o dinheiro, porque ou ficava a bordo ou, indo para terra, só se fosse gastá-lo em artesanato. Por outro lado, em relação ao navio não se conseguia que os encargos portuários fossem facturados antes da saída.
Esta situação foi ainda “agravada” pelo encurtamento, em cerca de três semanas, da estadia em Moçambique, reduzindo o tempo da missão naquele país. A 17SET, depois do jantar, o NRP “São Miguel” largou do MOTBAY. Deixámos saudades e muitos amigos na sua maioria “Filhos da Escola”, agora residentes em Newark.
Levávamos a mágoa de não termos carregado as previstas duas mil toneladas de oferta da Ordem Soberana de Malta ao povo moçambicano mas esse assunto transcendia-nos. O tempo estava a piorar francamente e a previsão era de chuva forte e trovoadas, quanto baste… como se verificou logo durante essa noite.
O navio e a sua guarnição continuavam de boa saúde e sem sobressaltos. Íamos para o Brasil, Fortaleza, e o pessoal começou a estudar o itinerário…a música brasileira já se ouvia com alguma frequência no interior do navio. Simone era uma das mais ouvidas!
Para todos os que privaram connosco e em particular ao Comandante Soares Lopes um saudoso e apertado abraço.
MEMÓRIA n.º 12: “ …e onde levam o dinheiro?”
Deu para entender que a nossa curta estadia no MOTBAY iria ser muito movimentada. Parecia que havia electricidade no ar. Tudo se fazia depressa como se tivessem medo de que o dia ia acabar antes das tradicionais 24 horas! Só destoava deste granel organizado o pessoal de serviço que ia cumprindo as tarefas cometidas. Desde que atracámos muitas pessoas passavam junto do navio e, se houvesse alguém a bordo à vista e capaz de os ouvir, era certo e sabido que metiam conversa em português, claro!
O NRP “São Miguel” parecia que tinha mel… Julgo que ao longo daqueles quatro dias houve sempre gente à amurada respondendo a terra, antes de entrarem a bordo, pois quando possível, eram convidados a subir. Uma constante, em todos os Portos onde passámos, durante a viagem. Era indescritível o bem-estar e a alegria manifestada por aqueles que nos visitavam…
A “Navy” pôs ao nosso dispor um carro descaracterizado, com condutor militar, que aproveitámos para as nossas deslocações a Newark e a Nova York. Na “Big Apple” fomos ao Banco Totta na “downtown”, fomos ver as últimas novidades em novas tecnologias na loja da Berta, uma brasileira grande, simpática, faladora e de muito bom humor que afirmava ter nas tripulações da TAP os seus maiores amigos e clientes, ficando para depois, quando possível, os passeios a pé pela “Broadway” e pela baixa da cidade não esquecendo de visitar algumas lojas da Rua 42!
Os compromissos oficiais não nos deixavam muito tempo livre. O tempo tinha de ser bem gerido. Passeei por diversas ruas de Newark, já ao fim do dia, onde a maioria dos residentes são portugueses oriundos de Ílhavo. Nas ruas, àquela hora, poucos eram os carros que passavam já que a maioria dos residentes se tinha recolhido às suas casas.
No dia seguinte às seis da manhã já muitos estavam na rua, a caminho do emprego! Em Manhattan, numa das idas, fiquei sozinho e “a pé” por duas horas. Comi um “hot dog” comprado numa carrinha de venda ambulante e passeando pela estação dos ferries, com inusitado movimento de pessoas, reparei que o preço da passagem e visita à Estátua da Liberdade era de 25 dólares enquanto o ferry para Brooklyn, que me deu ideia de passar também pela Estátua, era somente de 2,5. “Feito chico esperto” nem pensei duas vezes.
Comprei o bilhete de $2,5 e embarquei! O “ferry” largou e passou ao largo da Estátua mas… nela não parou! Ri-me da minha esperteza saloia! E ainda hoje me rio sempre que algo me faz recordar este episódio. Chegado ao fim da viagem não desembarquei e continuei sentado, gozando o sol, para dez minutos depois reiniciar a viagem de regresso ao terminal na “downtown” e passando novamente ao largo da Estátua! Claro está que, a bordo, não contei a ninguém!
Durante a viagem de retorno pensei se não seria o meu “Karma dos cacilheiros”… e recordei com um saudoso sorriso uma outra cena passada nos meus tempos de Guarda-Marinha. Em Cacilhas, juntamente com o Padre Melo, “apanhámos” o cacilheiro para Lisboa, subimos a escada e sentámo-nos logo na bancada circular à popa. Logo depois embarcava um grupo de Oficiais que saudaram o Padre Melo tendo um deles vindo cumprimentar, com um aperto de mão, o Capelão. De seguida pôs a mão em cima da minha cabeça e esfregou-me os cabelos, numa atitude paternal, dizendo:
- “Olá estás bom?”.
Sem me dirigir o olhar nem aguardando qualquer resposta regressou de seguida ao grupo que deixara. Nada disse ao Padre Melo mas soube tratar-se do Comandante Fausto Melo Águia. Mais tarde andámos embarcados, os três, na Sagres. Estes dois episódios recordo-os, com saudade, sempre que vejo cacilheiros e dos dois me rio igualmente com vontade interiorizando o que, na altura, qualquer um deles representou para mim!
Na tarde do segundo dia, em MOTBAY, oferecemos a bordo uma Recepção tendo sido convidadas autoridades portuárias, navais e da Guarda Costeira, presidentes das Associações Portuguesas, sediadas em Newark, bem como muitos portugueses e luso-americanos ali residentes.
Tivemos igualmente a companhia do Comandante Carlos Souto, Adido de Defesa, e da mulher Brenda Souto, do Comandante Carneiro Vieira, do Comandante Aires Moura Domingues, Chefe da Delegação em Washington da Missão para a Construção das FF CL. Vasco da Gama, e da mulher Lurdes Domingues, do Comandante Bossa Dionísio, Adjunto do Cte. Moura Domingues, na Delegação das FF CL. Vasco da Gama, e da mulher Francisca Dionísio, que muito contribuíram para o êxito daquele evento social.
Da Ponte, onde iam sendo “acolhidos” os convidados, via-se perfeitamente o elevado número de pessoas que iam entrando no NRP “São Miguel”. Os portugueses faziam-se acompanhar dos familiares mais próximos proporcionando-nos a grata possibilidade de partilhar a alegria, que exuberantemente mostravam, de pisarem solo nacional, falando português, e comunicando, para o convívio, muito do que de mais sagrado traziam no peito, “mantendo-os vivos”, fora do seu torrão natal.
A bordo, dos privilegiados ouvintes, ninguém ficou insensível aos sentimentos expressos. Os convidados com “carga oficial” mantinham-se na Ponte. Os restantes estendiam-se pelo navio percorrendo-o, da proa à popa, num feliz corrupio, tagarelando continuamente! As raparigas luso-americanas iam interpelando, em português, todos os que se cruzavam no seu caminho. Garridamente vestidas, alegravam a recepção com ruidosas gargalhadas, e, tirando fotografias, não davam tréguas ao pessoal mais jovem da guarnição que, uma vez “capturado”, tinha de posar para “o retrato” por vezes em diferentes locais do navio! Estes, sorridentes, estiveram sempre disponíveis!
Na Ponte iam sendo servidas bebidas e distribuído o “nosso” tradicional, e mandatório, Bacalhau à Brás a que não faltava as tradicionais azeitonas pretas e salsa picada. O Despenseiro, cabo TFD João Carrapeto, e o Oficial Chefe do Serviço de Abastecimento, 1º Ten. AN Júlio Soares Lopes quais duas bênçãos caídas do céu, cuidavam do êxito da Recepção. O primeiro, zelosamente, desdobrava-se entre a cozinha e a Ponte ora servindo ora coordenando o pessoal da taifa e o segundo supervisionando, orientando e recuperando de situações menos conseguidas naquela cerimónia.
A eficiência sentia-se e os convivas disso davam conta desdobrando-se em elogios e agradecimentos. A Recepção foi um verdadeiro sucesso! Da cozinha iam saindo travessas atrás de travessas! No início o caminho para a Ponte fazia-se com facilidade mas, pouco tempo passado, começou a ser um percurso de ”difícil escoamento” reduzindo de forma drástica o “abastecimento das vitualhas” à Ponte!
Foi então que o despenseiro veio ter comigo com uma cara denotando preocupação. Nem o deixei falar dizendo-lhe que não havia problema pois os convidados não tinham vindo para comer! Mentira piedosa pois se mais bacalhau houvesse mais comeriam! Com um desmaiado sorriso regressou! Na asa da Ponte a BB, e a ré, foi colocada um barril de vinho tinto, assente no seu descanso, havendo sempre alguém por perto, e disponível, para “ensinar” como se recolhia o precioso néctar.
Muitos foram os que pela primeira vez manusearam uma delicada torneira de madeira, tornando-se exímios na sua operação! A postura respeitosa, reverente e cerimoniosa praticada no início da Recepção perdeu a rigidez dando lugar, facilmente, a um encontro de amigos onde todos se respeitavam. As diferenças culturais, tão especificamente visíveis, nivelaram-se natural e espontaneamente, por todos, militares e civis.
O “Encantamento da Saudade” era a essência que a todos envolvia intensa e amorosamente. Da saída dos convidados guardo dois momentos. O primeiro quando um dos Oficiais da Guarda Costeira depois de cumprimentar militarmente voltou atrás e deu-me um caloroso aperto de mão dizendo:
- “Keep it running. Good luck…”, olhando apreciativamente para o navio enquanto me dizia estas palavras.
Considerei um elogio e tive a percepção de que ele deveria estar “a viver”, profissionalmente, uma situação paralela ou saíra recentemente de uma idêntica, ou então uma que vivera e nele ficara impressa para o resto da sua vida.
Enquanto descia a prancha, deixando o NRP “São Miguel”, desejei-lhe sorte e força para desfrutar da vida de marinha que ainda tinha pela frente. O segundo foi quando a Lurdes, mulher do Cte. Moura Domingues, nossos afilhados de casamento, sempre presentes, ao despedir-se, já na prancha, disse-me em voz baixa de forma a só eu o entender:
- “corta isso que não te fica bem”.
Desde que saíra de Lisboa que não fizera a barba e tencionava deixá-la crescer ao longo da viagem. Um marinheirão à antiga! Com duas semanas estava pequena e embora me incomodasse bastante, principalmente no pescoço, aguentava com estoicismo! Claro que, ainda nesse mesmo dia, na primeira oportunidade, fui cortá-la. A minha vaidade sofrera mais um rude golpe…
Outro ponto alto da nossa passagem pelos EUA foi a inclusão das fotos, nos ficheiros do FBI, de alguns Oficiais da guarnição do NRP “São Miguel”! Julgo que serão poucos os Oficiais que se podem gabar ou exibir tal afirmação!
Na manhã do 3.º dia, bem cedo, fomos ao Banco (Totta) em Manhattan. Informou-se o condutor e “metidos” no trânsito fomos de N. Jersey para a “downtown” de Manhattan. Estacionado o carro, dirigimo-nos ao Banco e entrámos ainda antes das oito horas. Enquanto me dirigia ao guichet o Ten. Soares Lopes e o Dr. João Pires ficaram à-vontade no sóbrio, espaçoso e sumptuoso átrio.
No guichet entreguei os documentos à sorridente empregada. Começou a lê-los com um largo sorriso para depois, de reler o documento, me olhar de forma estranha, pondo a mão sobre a boca, e falando para o balcão, quase de forma imperceptível não me deixando entender o que dizia. A funcionária aparentava algum nervosismo e os seus olhos varriam todo o átrio de forma inquisidora.
Não conseguindo entendê-la nem tão pouco o Dr., que se juntara a mim entretanto, chamei o Soares Lopes e pedi-lhe para ver se a entendia. Como por magia a comunicação entre os dois parecia fluir normalmente. Após um pequeno compasso de espera voltou com um sorriso, para junto de nós, dizendo que teríamos de esperar pois o Banco tinha necessidade de efectuar certos procedimentos. Notámos movimento de homens que se colocaram na porta principal e junto das altas e elegantes janelas ogivais, de vitral, que iluminavam o sumptuoso átrio.
A funcionária elegeu, o “nosso” Chefe do Serviço de Abastecimento, como seu interlocutor privilegiado e com ele ia dialogando e mantendo-o ao corrente da situação! Primeiro queria saber para quê tanto dinheiro vivo? Depois de esclarecida perguntou onde o levava tendo de imediato o Soares Lopes respondido:
- “in this small bag” levantando no momento, e à altura do guichet, um pequeno saco de viagem de cor azul!
A funcionária ia mantendo contacto telefónico com alguém que deveria estar a controlar a nossa presença… Para o Soares Lopes perante a tardia satisfação do nosso pedido dirigiu-se à “sua conexão bancária” inquirindo se havia mais algum problema com a requisição de fundos. “Que não. Estava tudo em ordem”, só que tão “large amount” (perto de trinta e um mil contos em dólares americanos) fora inicialmente relacionado com negócios de tráfico de armas, droga ou de pessoas originando, automaticamente, a informação ao FBI.
Acalmados os ânimos, confirmada a veracidade da documentação e transmitida uma esfarrapada desculpa o saco passou pelo guichet vazio e… regressou cheio pela mesma via! Aliás o Banco já tinha implementado a sua segurança, através de pessoal distribuído pelo Hall, e o FBI já estava no Banco. Informaram o Soares Lopes de que só teriam segurança no interior do Banco e que cessaria logo dele saíssem! Chamaram o condutor e informaram-no igualmente da situação.
Lembro-me, nesta altura, de ver o Dr. em contra luz fora da porta principal, a filmar descontraidamente, como se nada estivesse a acontecer! Com o dinheiro no saco saímos, a pé, para o carro, já passava das 1300. Quando o condutor ficou ao volante informou que iria seguir por um trajecto mais longo utilizando outra ponte para “fugir” ao trânsito. Conduziu numa velocidade acima do andamento que levara de manhã. Chegados ao navio, saiu do carro e abrindo as portas ia-nos cumprimentando, um a um, como se tivesse saído de um grande percalço!
Julgo ser de juntar aqui, não vá esquecer-me, de mais uma cena jocosa e ridícula relacionada com o dinheiro levantado nos EUA, conforme orientação da SSF. Não houve uma ordem nem instrução formal para levar os U$D, “poupados” na viagem, para Lisboa. Contudo estava subentendido o acolhimento favorável do saldo nessa divisa no final da missão. Quando o dólar entrou num terrível plano inclinado sucederam-se as comunicações no sentido de “pagar o máximo”, se não a totalidade das despesas, incluindo "a de compelir" a guarnição a receber o subsídio de embarque.
Este último desiderato foi “desagradável” até na forma como foi requerido pela SSF. O drama era que a guarnição não tinha onde gastar o dinheiro, porque ou ficava a bordo ou, indo para terra, só se fosse gastá-lo em artesanato. Por outro lado, em relação ao navio não se conseguia que os encargos portuários fossem facturados antes da saída.
Esta situação foi ainda “agravada” pelo encurtamento, em cerca de três semanas, da estadia em Moçambique, reduzindo o tempo da missão naquele país. A 17SET, depois do jantar, o NRP “São Miguel” largou do MOTBAY. Deixámos saudades e muitos amigos na sua maioria “Filhos da Escola”, agora residentes em Newark.
Levávamos a mágoa de não termos carregado as previstas duas mil toneladas de oferta da Ordem Soberana de Malta ao povo moçambicano mas esse assunto transcendia-nos. O tempo estava a piorar francamente e a previsão era de chuva forte e trovoadas, quanto baste… como se verificou logo durante essa noite.
O navio e a sua guarnição continuavam de boa saúde e sem sobressaltos. Íamos para o Brasil, Fortaleza, e o pessoal começou a estudar o itinerário…a música brasileira já se ouvia com alguma frequência no interior do navio. Simone era uma das mais ouvidas!
Para todos os que privaram connosco e em particular ao Comandante Soares Lopes um saudoso e apertado abraço.
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